Gio Giovani Cidreira

Discos: Giovani Cidreira apresenta seu afrofuturismo ancestral em ‘Nebulosa Baby’

Nebulosa baby - Giovani Cidreira
Nossa avaliação
5

Quem vê Giovani Cidreira no palco tem uma boa noção do espírito inquieto e imprevisível do artista. O modo como se comporta nos shows é uma faceta de sua verve artística, que, evidentemente, aparece também em seus álbuns. Sua carreira solo começou com um EP de transição e o elogiado Japanese Food, que davam seguimento ao cancioneiro de mão cheia que já aparecia na ótima banda Velotroz, promovendo um daqueles felizes encontros de música brasileira e rock . Daí em diante, a inquietude e a busca por novos rumos o levaram de Salvador para São Paulo e por novas estéticas. Em 2019, com Mix$take ele mostrava um flerte mais sólido com experimentações, R&B e um pop eletrônico e atmosférico. Era também o começo de uma relação com o produtor Benke Ferraz (Boogarins). No trabalho seguinte MANO*MAGO, ao lado de Mahal Pita, aprofundou a ebulição artística e abriu novas frentes, inserindo batuques pagodão e trap no caldo. Todas essas mudanças de direção sem deixar a canção como molécula essencial na química de sonoridades. Em seu novo trabalho, Nebulosa Baby, Giovani reúne um pouco de tudo isso. Um trabalho contundente, que chega acompanhado de um álbum visual e de uma websérie (veja no canal do artista). Convidamos Julli Rodrigues para dissecar esse novo álbum do baiano.

Por Julli Rodrigues*

Ao final de uma audição de Nebulosa Baby, segundo álbum do cantor e compositor baiano Giovani Cidreira – e primeiro assinado como GIO, sua nova alcunha -, a frase que me veio à mente foi: a música dele é um coração que pulsa. É a melhor definição para um trabalho tão cheio de texturas e significados, com produção caprichadíssima, que transita entre a melancolia introspectiva, o trap e o indie rock psicodélico, com pitadas de uma sensualidade envolvente aqui e acolá. Apresentado como “um retorno à ancestralidade por vias afrofuturistas” e acompanhado de um álbum visual, o disco traz 13 faixas que tratam de sentimentos, revisitam o passado e apontam para o futuro, com o frescor de novos “feats” e o calor das antigas parcerias.

Lançado em 22 de julho, Nebulosa Baby é produzido por GIO em parceria com Benke Ferraz (Boogarins), dando continuidade à colaboração iniciada no EP Mix$take (2019). Desse trabalho, por sinal, dois diamantes foram garimpados e lapidados para reaparecerem mais brilhantes: “Oceano Franco” (Giovani Cidreira/Caio Araújo) e “Pode Me Odiar” (Cidreira). Despidas do excesso de experimentação eletrônica, elas têm suas características ressaltadas na nova abordagem. A primeira, uma canção sobre incerteza – tanto a romântica quanto a de futuro, afinal, quando se é um jovem negro e periférico, “nunca se sabe” o que será do amanhã – soa ainda mais visceral e intensa. A gravação de 2021 repete a parceria (de longa data) com a cantora e compositora Jadsa e abandona o sample de Frank Ocean – embora mantenha evidente a inspiração – para introduzir a voz do rapper Vandal. Já a segunda é iluminada pelas vozes de Alice Caymmi e do Obinrin Trio.

As novas abordagens para canções já conhecidas não param por aí. “Anos Incríveis” (Cidreira), faixa presente no adorável álbum “Estreite”, gravado por GIO em parceria com Josyara, reaparece vestida de lo-fi, em voz e violão. Vale dizer que antes dela, somos brindados com “Saudade de Josy” (Cidreira), uma simpática gravação da artista juazeirense para outra canção do álbum, “Saudade de Casa” (Cidreira). Esta, por sinal, é uma das melhores, mas eu volto a ela mais tarde. Outra composição revisitada é “Joias” (Cidreira), que ganhou outro nome e novíssima roupagem para se tornar o segundo single do álbum. Antes, ela era “Flashback Déjà Vu”, faixa que encerra o EP MANO*MAGO (2020), parceria com o produtor Mahal Pita. A letra, que exalta a ancestralidade do povo negro e o desejo de prosperidade para os seus, ganha o acompanhamento de uma cremosíssima batida funk melody e de um envolvente baixo de minimoog. O hit já vem pronto, e não é à toa que “Joias” está tocando no rádio, inclusive em emissoras que não são lá muito dadas a difundir a produção independente baiana.

Assista o álbum visual Nebulosa Baby:

Já que tratamos dos singles, é preciso falar também de “Nebulosa” (Cidreira/Jadsa Castro), primeiro anúncio da chegada do álbum. Introspectiva, melancólica e confessional, mescla trap e R&B para refletir sobre amor e dor, com a participação de Jadsa e do Obinrin Trio. É uma amostra dos mares sombrios nos quais Nebulosa Baby navega. Outro exemplo está na caótica “Luzes da Cidade” (Cidreira/Clarisse Lyra), com a presença da cantora e compositora Ava Rocha.

O álbum ainda tem como trunfo a construção criativa de alguns arranjos, que expõem uma infinita capacidade de surpreender. A segunda faixa, “Sangue Negro” (Cidreira/Filipe Castro), soa quase como uma ópera-trap-rock, indie e progressivo, com direito ao sax jazzístico de Cuca Ferreira na segunda metade. Igualmente surpreendente é “Entrelaçados “(Cidreira/Zé Nigro), com a participação de Dinho, do Boogarins, e da cantora Luiza Lian. Além de “aditivar” outra canção do EP Mix$take, “Ngm + Vai Tevertrist”, com novos versos, a gravação nos presenteia com uma sonoridade única, quase como se Benke e GIO tivessem decidido bater no liquidificador Tame Impala, Pink Floyd e Beatles pós-Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – e digo isso assumindo o risco de ser tachada de doida.

Agora, falemos da faixa mais “solar” de Nebulosa Baby: “Saudade de Casa”, um verdadeiro hino sob vários aspectos. O arranjo funk-soul temperado com timbres setentistas de órgão, a melodia que nos convida a cantar junto, a letra que provoca identificação em qualquer um que tenha deixado sua terra para buscar novos caminhos – ou até mesmo em quem tenha ficado longe por alguns dias. A construção melódica dessa canção, por sinal, me faz pensar que ela também funcionaria bem em forma de pagode paulista cadenciado. Já consigo imaginar, em um futuro pós-pandemia, um show de GIO no qual todo o público vai se abraçar e cantar “Saudade de Casa” a plenos pulmões. Em um disco repleto de “feats”, por sinal, essa é uma das poucas faixas solo do artista.

Saudade e esperança, passado e futuro, pessoal e coletivo se unem de diversas maneiras em Nebulosa Baby. Por um lado, GIO revisita antigas canções e fortalece parcerias de longa data, tanto com o produtor Benke Ferraz quanto com o percussionista Filipe Castro e as cantoras Josyara, Jadsa e Luê. Ao mesmo tempo, porém, as composições de trabalhos anteriores surgem profundamente renovadas, e novas vozes cintilam ao redor dessa nebulosa. Uma delas é a da cantora e compositora Jup do Bairro, que resume a proposta do álbum em trecho de entrevista sampleado na faixa de abertura, “Intro (Daqui pra Frente)”: “Não sei o que vai ser daqui pra frente, mas eu tô escrevendo essa história”. Nota-se que GIO, em sua novíssima identidade, tem tudo para escrever uma história tão viva e pulsante quanto sua música.


*Julli Rodrigues é jornalista e pesquisadora musical. Atua como repórter no Grupo Metropole, além de produzir e apresentar a série mensal “A Música no Tempo” no Especial das Seis da Educadora FM, sobre o contexto da MPB entre os anos 60 e 80, e escreve análises sobre música e áudio no blog Ouvindo Coisas.

Giovani Cidreira - Nebulosa Baby
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