Por Sophia de Holanda
Uma câmera de mão permite acompanhar o mundo sem a estabilidade de um enquadramento fixo. Há muito dessa espontaneidade em Handycam, álbum de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro interessado em captar a vida em suas diferentes nuances, dos gestos cotidianos de afeto aos sentimentos mais difíceis de elaborar. Suas canções encontram espaço tanto na necessidade de acolhimento quanto na raiva e na tristeza.
Pouco mais de um ano depois de seu lançamento, em outubro de 2025, Handycam finalmente estreou em Salvador (leia resenha do disco). Na noite de 23 de outubro, o palco do Teatro Sesc Pelourinho foi tomado pela sensibilidade da dupla, que apresentou o álbum na íntegra em um show com ingressos esgotados. Sophia e Felipe dividiram o palco com Eduardo Lengui, baixista do Nigéria Futebol Clube, e João Antônio Dourado, baterista da Tangolo Mangos, banda soteropolitana da qual Felipe também faz parte.
Diante da plateia acalorada, os músicos constroem uma ambientação sonora que acompanha as variações emocionais das canções, alternando entre momentos de delicadeza e passagens de maior intensidade. Essa dinâmica coletiva amplia a potência das composições e conduz o público à experiência imersiva que marca a apresentação.
O resultado é um show que envolve o público do começo ao fim. A imersão se constrói na combinação entre os instrumentos, nas mudanças de intensidade e na maneira como cada música cria uma atmosfera que prende a atenção e convida à entrega. Mesmo no ambiente de teatro, com a limitação das cadeiras, a apresentação encontra espaço para o movimento, especialmente na sequência de “Viciado em Carinho” e “Quantos Serão no Final”. Uma seguida da outra, as canções elevam a energia e convidam o público a abandonar as cadeiras.
Em “Cinema Total” e “Canção de Retorno”, o afeto aparece na busca por acolhimento, ou no simples sentimento de finalmente voltar para casa. Já “Campo Minado” e “Tempestade de Verão” exploram emoções mais ásperas, como a revolta e a melancolia. Esta última, especialmente, carrega uma tristeza que encontra na música uma forma comovente de expressão. Essa variedade de sentimentos se reflete nas sonoridades do álbum, que transita entre diferentes atmosferas sem perder a coerência.
O repertório ainda abriu espaço para outras facetas dos artistas, com uma versão de “Ohayo Saravá”, música da Tangolo Mangos também gravada por Sophia e Felipe, “Segredo”, do repertório de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, e uma canção inédita. Essas escolhas ampliam o universo da dupla para além do disco, reunindo diferentes trajetórias musicais sem comprometer a unidade da noite.
O encerramento, porém, retomou de maneira especialmente delicada o espírito de Handycam. Com “Já Não Me Sinto Tão Só (para Júlia Zen)”, canção sobre amizade, encontro e coletividade, Sophia e Felipe se despediram do público com uma mensagem que parece sintetizar a sensibilidade do álbum. Há algo de reconfortante em sua celebração da presença dos outros, na ideia de reunir o “time” e encontrar conforto na experiência compartilhada. Depois de uma apresentação que convidou a plateia a cantar e dançar, terminar com uma música sobre não se sentir tão só pareceu uma escolha particularmente acertada.
Como uma câmera de mão que captura a espontaneidade de cada momento, o álbum encontra sua força na disposição de observar o que acontece ao redor. Às vezes, isso significa reconhecer a tristeza; em outras, perceber o carinho, dançar com desconhecidos ou simplesmente estar todo mundo junto. Naquela noite, o público soteropolitano se permitiu viver tudo isso, encontrando na música e na presença do outro uma espécie de abrigo. Talvez, por algumas horas, tenha sido possível experimentar aquilo que o próprio Handycam sugere: ficar em paz mesmo na ausência de paz.







