Kiko Dinucci por Aline Belfort

Discos: Kiko Dinucci – Se o amor, o rei Roberto e as guitarras derretessem

Kiko Dinucci - Medusa
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4

O músico, compositor e produtor Kiko Dinucci lança seu novo álbum Medusa, com um diálogo entre o samba, o shoegaze e o romantismo de Roberto Carlos

Por Pedro Antunes de Paula

O shoegaze é um gênero direto. Densas camadas sobrepostas de guitarras distorcidas, harmonias doces, melancólicas, vocais submersos em canções nem tão velozes assim de dinâmica em platô. São inúmeras as bandas que tentam reproduzir os feitos estéticos de my bloody valentine. “Loveless” (1991) se tornou um buraco negro estético inescapável. Dali, tudo gravita. São poucos os projetos que, com êxito, conseguem contornar sua imediata referencialidade para construir algo refrescante.

Kiko Dinucci em “Medusa” (2026), seis anos depois de seu último lançamento, escapa dos clichês do gênero porque compreende sua potência: a de fazer tudo derreter. O amor, o samba e o tempo. Ainda que sua expressão nesse trabalho dialogue diretamente com a linguagem do rock alternativo, Kiko escapa de forma muito natural porque sua música é brasileira e escorre.

O samba surge como guião melódico principal, com a temática do amor permeando as canções, por vezes fazendo-as tender ao romantismo tenro, ora à angústia melancólica da ausência. Kiko diz que seu disco é sobre fantasmas também. Por isso, o trabalho também é deteriorar, processar o som até, de alguma forma descaracterizá-lo. Imprimir-lhe tempo e poeira. Fazer das cordas, sintetizadores e vozes, algo de além-ambiência.

Distanciando-se dos violões protagonistas do último disco – e de quase sua carreira inteira -, Kiko escolhe a guitarra para destrinchar. Usa acordes abertos, rítmicas com mais espaço e harmonias mais doces, com boas e fundamentais exceções.

O lo-fi e a degradação aparece como o mote timbrístico de seus arranjos, deixando as camadas de guitarras e vozes processadas com aparência espectral, densas em conjunto arquitetural, mas airadas, vazias. São “brumas”, define. Vale comentar a anterior exploração de Kiko com o lo-fi em “VHS” (2021), trabalho curto em que registrou sua performance no violão no suporte analógico.

Escolha muito intrigante também são os vislumbres de elementos rítmicos em bateria eletrônica. São pequenos trechos de viradas que aparecem em faixas como “Cão Perdido” e na rockeira “Claudia Frota e Eu”, homenagem deturpada de Sonic Youth. É uma escolha curiosa porque sugere um pulso que nunca vai ser efetivado, ainda que sustentado pela rítmica de suas guitarras firmes. Essa sugestão só realça ainda mais um vazio, uma ausência. A suspensão e espectralidade parecem permear tematicamente a maioria das escolhas estéticas do trabalho.

O ápice assombrológico do trabalho é, sem dúvidas, “Como Foi”, canção em parceria com Rómulo Froes que traz o romantismo sessentista de Roberto Carlos e da Velha Guarda. A grande força da faixa está, justamente, em sua degradação. A faixa soa como assombração, fantasma de um tempo que passou, mas que vagueia por entre os novos tempos.

Ao misturar a nostalgia romântica e profundamente brasileira às técnicas de saturação e degradação eletroacústicas do shoegaze, Kiko demonstra como aprontar uma referência sem necessariamente respeitá-la. Toma para si as investigações do gênero, propõe seus próprios diálogos e acaba por construir um universo estético único. A melancolia doce das guitarras que desenham Kevin Shields se afirma nas melodias dos sambas tristes, no amor-fantasia do rei, aquele que todo brasileiro vai se lembrar e que nos faz sentir ausência: “Não adianta nem tentar me esquecer”, cantava Roberto.

Finaliza o trabalho cantando “Eu preciso destruir pra nascer”. Faz do ato de destruir o nascimento de uma criança. Como o sexo em “Água-Viva”. A vontade também é flagelo – “Vem me asfixiar / / Me inflama / Me adoece / Me maltrata”.

Me pergunto se medusa, esse bicho, como ele diz no release, “sem cérebro e coração que queima com seus tentáculos tudo que se aproxima, por puro gesto nervoso, impulso” é o amor. Me pergunto se medusa é Kiko, destruindo o som de sua cabeça. Me pergunto se medusa é o tempo.

Deve ser os três.

Kiko Dinucci - Medusa
Kiko Dinucci - Medusa
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