Um ensaio sobre a música pop e os gêneros musicais que a ocupam.
Por Pedro Leonelli*
Quantas vezes você já se viu diante da pergunta ‘’o que é o pop?’’? É uma pergunta que não morre. Duas afirmações razoáveis sobre o tema interessam e beiram o consenso. Uma: o pop tem muito a ver com algum sucesso comercial. A segunda: o pop não tem cara. Não tem uma cara musical estática, o pop é dinâmico. Nisso reside algo muito interessante: a fluidez de diferentes gêneros musicais nesse ‘’lugar’’ um pouco confuso e muito capitalizado da música.
Diversos estilos musicais tiveram seu momento de protagonismo na sonoridade pop. Como primeiro exemplo o rei Michael Jackson. Michael é, antes de tudo, o rei do pop, mas depois disso, um cantor (produtor, dançarino, etc.) de disco music, soul music, funk e RnB, no mínimo. Enquanto ele esteve no lugar de artista pop, estiveram com ele esses gêneros musicais e suas características. Definitivamente não por acaso, afinal música é cultura e cultura é gente no seu tempo e lugar.
Os gêneros musicais mais ouvidos em cada período têm muito a ver com os costumes e subjetividades das sociedades dos quais fazem parte. Fazia todo sentido estético para época que esses gêneros musicais cantados pelo rei do pop fossem facilmente absorvidos pelo público. Especialmente pelo público local (EUA) mas além mar também, afinal nas décadas de 70 e 80 os EUA estavam com seu imperialismo cultural a todo vapor.
Mudando do rei para a rainha, também não foi por acaso que Madonna baseou sua ascensão majoritariamente na Eletronic Dance Music. Parte do universo e cultura da EDM ocuparam, junto com a clássica diva pop, o centro desse lugar do qual falamos aqui, a pop music.
A estética da música pop em cada momento da história, os gêneros que nela ocupam maior espaço, tem mais a ver com o que querem os artistas? Com o que quer a indústria? Com o que quer o público? Eu diria que um tanto de cada coisa e em medidas difíceis de compreender, mas que certamente não fogem às regras do capitalismo.
Nesse assunto o rock possui uma presença notável. O gênero cresceu quase que em paralelo ao pop e desde o seu estopim até hoje intercala momentos de maior e menor aproximação com ele. Bem como outros poucos estilos de consumo massivo, o rock tem uma base de sustentação muito sólida por ter construído uma cultura própria. Isso se deve também à exportação cultural norte-americana e inglesa, que catalisaram o crescimento desse gênero que influencia gerações.
Em alguns momentos a estética rockeira foi (e às vezes ainda é) vista como cafona. Em outros há um resgate sedento pelo espírito transgressor da coisa. É um vai e vem interessante de ser percebido. Destaque para o uso da guitarra distorcida, artifício absolvido e quase nunca abandonado pelo pop como ferramenta de intensidade e força sonora.
São incontáveis os exemplos que ilustram a história do rock no pop: o solo de Eddie Van Halen em “Beat it”’, a influência de bandas como os Beatles e The Rolling Stones na própria construção da cultura pop mundial, a estética de contracultura trazida por movimentos como o punk e o grunge, a inesquecível “Sk8er Boy” de Avril Lavigne e até a mais recente faixa “Anjo” de Marina Senna, que resgata a sonoridade do rock setentista brasileiro.
É impossível falar de pop e gêneros musicais sem dar devida atenção ao gênero que conquistou de forma mais avassaladora a indústria musical nas últimas décadas: o rap. São diversas as explicações sociais, políticas, econômicas e raciais para esse acontecimento. Pilar do movimento Hip-Hop, o fato é que o rap assumiu o lugar do rock como força transgressora, contra-hegemônica, com o importantíssimo adendo de ter sustentado um protagonismo negro.
Há um fator seguinte ao processo de cristalização do rap na música pop – talvez até consequência dele – que é uma espécie de democratização do meio de produção. Pela primeira vez, para se fazer música que poderia ser ouvida por muitas pessoas, precisava-se de não mais que duas ou três máquinas e algum conhecimento já disponível na internet. Isso deu voz a muita coisa. Trata-se, talvez, do maior processo de descentralização musical de todos.
Pela primeira vez, para se fazer música que poderia ser ouvida por muitas pessoas, precisava-se de não mais que duas ou três máquinas e algum conhecimento já disponível na internet.
As formas de fazer e soar do rap e suas vertentes foram fortemente absorvidas pela música pop principalmente a partir dos anos 2000. O uso de samples, o entendimento de instrumentais como “beats”, o som das peças de bateria, a forte presença de frequências graves e entonação vocal ‘’falada’’ são parte da normalidade pop até hoje.
Nomes que dispensam explicação para exemplificar esse processo são: Beyoncé, Rihanna, Black Eyed Peas e, pra não deixar de fora as contradições: Justin Bieber.
Mais três gêneros que tiveram momentos interessantes de intercessão com o pop nos últimos anos foram: afrobeats, country e reggaeton.
O “afrobeats”, também chamado de afropop, tem como principal polo de produção a Nigéria. Os nomes que furaram a bolha do nicho e primeiramente chamaram atenção internacional foram Burna Boy e Wizkid, entre 2017 e 2020. Embora faça parte do mundo pop com uma certa”distancia controlada” e sabemos bem o porquê disso, vários elementos do gênero, principalmente características rítmicas dos beats, têm sido usados por nomes como Shakira, Beyoncé e Doja Cat e, no Brasil, Iza, Anitta e Marina Senna.
Já o country foi novamente resgatado pelos norte-americanos para a centralidade do pop. Assim como o rock, passou por esse processo aparentemente normal de oscilar, na visão de parte da juventude, entre o brega e o descolado. Esse último retorno é marcado pelo álbum Cowboy Carter (2024), de Beyoncé. Podemos mencionar também a faixa “Old Town Road” (2019) de Lil Nas X. Essas duas obras fazem parte do que parece ser uma apropriação (ou citação) do Country pelos artistas e pelo público do pop pós hip-hop, uma juventude com maior engajamento em questões sociais e raciais. Existe também um outro elo, esse mais firme, entre o country e o pop que certamente atravessa mais tempo e hoje em dia é representado por artistas como Taylor Swift, Olivia Rodrigo e Lady Gaga.
O reggaeton é um gênero musical nascido no caribe e que vem encabeçando um notável reconhecimento de um senso latino dentro da cultura pop. O nome que mais se destaca é o do porto-riquenho Bad Bunny. O artista galgou sua trajetória no crescente interesse do mercado internacional pelo reggaeton e mais recentemente lançou um disco que vai muito além do gênero eletrônico. Além de ser cantado quase todo em espanhol, Debí Tirar Más Fotos’ tem clara influência de salsa, bolero, bachata e outros gêneros musicais afro-caribenhos.
Outras obras que ilustram o crescimento da influência latina na sonoridade pop global sãoMotomami, álbum da espanhola Rosalía lançado em 2022 (convem ressaltar a participação de The Weeknd na bachata ‘’LA FAMA’’) e o impactante ‘GÉNESIS’, do mexicano Peso Pluma, que conquistou o publico internacional com o corrido tumbado, gênero tradicional mexicano. No caso de Rosalía, é interessante reparar na apropriação conveniente que a artista hispânica faz do lugar “latino” na música pop.
Há uma característica mais técnica comum entre as inserções do afrobeats e do reggaeton no pop digna de nota: ambos possuem sua estrutura baseada em ciclos onde a caixa, que é o elemento mais presente da bateria, não toca no tempo 2 ou 4 da divisão rítmica, diferindo de quase todos os gêneros oriundos dos EUA e da Europa e apontando para um desenvolvimento rítmico mais “livre”. Isso pode ser associado à influência de religiões de matriz africana e/ou outras práticas culturais muito antigas que fazem uso intenso de tambores. É interessante lembrar, nesse ponto, que nos EUA houve repressão muito maior à remanescência do candomblé do que em outros países das América.
Outro conceito tão nebuloso quanto o de “latino” ou de “música pop” é o de “mpb”, nossa música popular brasileira, e é com ele que traremos nosso assunto para o contexto nacional. Assim como “pop”, “mpb” também não é um gênero musical e também dialoga com vários deles. Não seria tão estranho, contudo, posicionar a “mpb” junto ao escopo de gêneros musicais que têm composto o nosso pop nacional nos últimos anos.
O pop enquanto fenômeno do capitalismo tem nos gêneros musicais matéria prima para gerar seu produto. Enquanto movimento mercadológico, acaba por não valorizar dignamente a profundidade de cada gênero musical e suas respectivas culturas. Apagamento e esquecimento cultural são lamentáveis consequências disso.
Elementos do samba, principalmente a dupla violão e percussão, são frequentemente encontrados nos diferentes momentos tanto da mpb quanto do pop. O rock e a balada também cruzam frequentemente os dois universos.
No pop, é incontestável a forte presença do funk carioca. O gênero talvez seja o mais difundido no mundo enquanto música urbana brasileira. Artistas como Anitta e Ludmilla se ergueram no pop através do funk, ambas também se utilizam muito de elementos do hip-hop e Ludmilla também exemplifica muito bem a forte presença do samba e do pagode carioca no pop brasileiro.
Nos últimos anos, a perspectiva do pop brasileiro parece dividida em dois cenários: o de um pop mais massivo, industrial, com mais números e um outro pop mais “indie”, o pop dos festivais, também apelidado de “midstream” (em comparação ao termo “mainstream”). Os dois se diferenciam também em relação aos gêneros musicais predominantes. Diferentemente do pop “mainstream”, o “midstram” tem um pouco mais de influência do rock, não raramente remete ao reggae e parece se orientar por uma pesquisa estética mais voltada ao “vintage” ou “indie”. Um nome que representa muito bem o estopim desse pop indie é o da cantora pernambucana Duda Beat, podemos também citar a dupla AnaVitória (que tem forte influência folk), a paulista Liniker e a baiana Luedji Luna.
Embora essa perspectiva de divisão do pop nacional seja algo relativamente recente, uma ainda mais recente aproximação dos dois pode ser notada de poucos anos pra cá. A artista que talvez melhor exemplifica isso em seu posicionamento comercial seja Marina Sena (embora Duda Beat, Luedji e Linker – que recentemente teve público de 48 mil pessoas num show de estádio – também estejam adentrando esse limbo) mas, como o assunto aqui é gênero musical, o melhor exemplo a ser usado é o mais recente álbum de Anitta, EQUILIBRIVM’ (2026).
Neste trabalho, a artista mais emblemática do pop nacional abraçou quase todas as nuances que, no momento, o caracterizam. É notável a aproximação do “pop indie” pelas acertadas escolhas dos feats. A presença da sonoridade do “macumbeat” também é muito marcante. O “macumbeat” é um termo recém saído do forno que se refere ao uso de elementos da música tradicional brasileira – normalmente a percussão oriunda de candomblé e umbanda e o violão de nylon – misturados a elementos da música urbana global, como peças de bateria eletrônicas, samples e subgraves.
Mais uma chama que está acesa na música pop mundial é o da nova geração de estrelas que despontou na internet. Nomes como Charlie xcx e Slayyyter apontam para uma sonoridade mais escancaradamente eletrônica, timbragens mais “chocantes” em diálogo com o electropop e hyperpop. Billie Eilish também é um nome de muito destaque no momento, embora com uma sonoridade menos eletrizante, faz parte desse grupo que aparenta já ter nascido buscando o pop e teve a internet como base para alcança-lo.
O pop enquanto fenômeno do capitalismo tem nos gêneros musicais matéria prima para gerar seu produto. Enquanto movimento mercadológico, acaba por não valorizar dignamente a profundidade de cada gênero musical e suas respectivas culturas. Apagamento e esquecimento cultural são lamentáveis consequências disso. Uma pequena exceção a isso foi a relação entre Bad Bunny e Willie Colón. O lendário músico que foi um dos pilares da salsa é citado na faixa “NUEVAYoL” e participou do clipe da mesma.
Apesar do aspecto industrial e predatório, há um certo aspecto de liberdade criativa muito interessante nessa relação do pop com diversos gêneros musicais. O mundo contemporâneo interligado pela web permite conexões antes inconcebíveis. Nesse contexto, o pop se torna uma plataforma de infinitas possibilidades sonoras nutridas pelos gêneros musicais e direcionada por artistas, público e mercado.
* Pedro Leonelli é músico, produtor musical e guitarrista da banda Bagum







