Por Julli Rodrigues*
Passa das 19h de uma quinta-feira de março e a movimentação ainda é tímida em um dos botecos mais famosos de Salvador. Mas não por muito tempo. Conhecido como um dos cenários do filme “Ó Paí, Ó”, de 2007, o Bar do Neuzão, no Pelourinho, é certeiro naquilo que se propõe a ser: um espaço “raiz” para tomar uma cerveja, uma dose de whisky ou uma água, sem qualquer gourmetização. O cardápio musical do estabelecimento, por outro lado, é diverso. Além dos shows de grupos de reggae e samba ao longo da semana, o bar passou a abrigar, desde novembro de 2024, um projeto de discotecagem 100% vinil que sonoriza a véspera do “sextou” com música de todos os cantos e épocas.
Idealizado pelo músico, DJ e programador de rádio André Oliveira, o Barulhinho Bom já virou tradição nas noites do Pelourinho, consolidando-se como o “after” oficial de quem frequenta os shows das quintas-feiras, seja na alta ou na baixa estação. Das 19h à 01h, o paulistano radicado em Salvador há 16 anos comanda a discotecagem com o próprio equipamento, sempre recebendo convidados da capital baiana e de outras partes do Brasil (e do mundo). O objetivo, segundo ele, é abrir espaço para que DJs e pesquisadores musicais dividam sua curadoria com o público que frequenta o local, formado por moradores e turistas.

“A ideia é o compartilhamento mesmo, cada um traz seus discos, um pouco do que ouve, entende um pouco da dinâmica do Pelourinho, que é muito única, uma mistura de povos. Desde moradores a turistas. Então você vê cenas de um turista, sabe-se lá de onde, dançando com uma moradora… Tem as pessoas em situação de rua, que são acolhidas aqui também… A música tem esse poder de, independente da língua, juntar os corpos e as vontades. Não é fácil fazer, porque eu trago todo o equipamento, monto o som, o bar dá uma ajuda de custo, mas nem sempre é o suficiente. Mas vamos fazendo”, pontua.
Hoje é praticamente impossível pensar no Bar do Neuzão sem o Barulhinho Bom às quintas-feiras, mas segundo André, o planejamento inicial passava longe dessa “residência” no estabelecimento. Primeiro, o DJ pensou em abrir um bar ou espaço cultural para abrigar o projeto, mas dificuldades logísticas acabaram fazendo com que ele “recalculasse a rota”. A saída, então, foi tornar o projeto itinerante. Após uma primeira edição no bar Velho Espanha, em novembro de 2024, André foi convidado pelos proprietários do Bar do Neuzão para uma temporada que, a princípio, duraria um mês.
“Eu ia fazer só um teste, mas entendi que fui bem recebido aqui pelos donos e pela comunidade do Pelourinho, principalmente. Consegui uma formação de público, a gente tem um lugar bem estratégico do Pelourinho aqui. O projeto acabou entendendo o espaço, o espaço entendendo também o projeto, então vamos dizer que as vontades se encontraram. Hoje o Neuzão é a casa do Barulhinho Bom”, diz.
Mesmo tendo o bar como ponto principal, o Barulhinho Bom não deixou de lado sua vocação para a itinerância, com edições realizadas na Só Shape e na Discodelia Pub, em Salvador, além de passagens por Feira de Santana, Alagoinhas e Recife (PE).
A noite se vai enquanto eles dançam
Uma noite no Barulhinho Bom é uma experiência peculiar que se constrói em fases. Enquanto André monta o som, por volta das 19h, o salão do Bar do Neuzão ainda está vazio, com a TV ligada no jornal local. Cinco ou seis pessoas tomam aquela cervejinha para celebrar o fim do expediente e aliviar o estresse. Um senhor cansado cochila em um canto.
Assim que o primeiro disco começa a tocar, a vibe vai se transformando aos poucos. O público entra na onda, bate o pé ou balança a cabeça no ritmo da música. Quem já estava no bar há um certo tempo pede a conta e vai embora (ou não). Outras pessoas chegam, o fluxo aumenta do lado de fora. Lá pelas 21h, os mais animados começam a dançar, embalados pela terceira ou quarta cerveja. Por vezes, forma-se uma verdadeira pista no salão. Lá fora, um catador de recicláveis deixa o saco de latinhas em um canto e se balança ao ritmo da música. Daí por diante, o clima esquenta e segue intenso até 01h – sob protestos do público, que costuma querer mais. E a TV continua ligada, mas quem se importa?
O repertório varia de acordo com a noite e com o feeling da curadoria de André e dos DJs convidados. Pode acontecer de jovens animados dançarem ao som de “A Noite Se Vai“, versão de “Night Fever” cantada pela obscura dupla Ana & Angela, garimpada diretamente dos anos 70. Ou um turista estrangeiro de meia-idade curtir a vibe de “Faltando Um Pedaço“, de Djavan, na voz de Zeca Baleiro e em ritmo de reggae, como parte do projeto Jah-Van. Cumbias, salsas, lambadas, axé das antigas, disco music, samba… tudo cabe no caldeirão.
No último dia 12 de março, quando o el Cabong esteve no Barulhinho Bom, a multiartista e DJ Gabriela Piñeiro, conhecida como Gabão, contribuiu com essa mistura levando pérolas como “The Ska EP”, bootleg (lançamento não-oficial) de 2008 que traz interpretações de Amy Winehouse para clássicos do ska. “Monkey Man“, originalmente gravada pelo grupo The Specials, é uma das quatro faixas presentes no compacto.
Gabão, que também é sonoplasta, produtora musical, artista plástica e cantora, começou na discotecagem em 2018, estimulada pelo produtor cultural Rogério Bigbross. Até então, a relação dela com o vinil limitava-se à venda de discos. “Eu comecei a gostar muito do que eu estava fazendo e não parei mais”, resume a DJ, que construiu uma identidade baseada no soul, samba, reggae, afrolatina e downtempo, com ênfase nas vozes das mulheres.
Tendo o vinil como ponto de partida, Gabão também passou a discotecar com arquivos digitais, mas ela garante que as “bolachas” têm seu coração por uma série de fatores: “A sonoridade do vinil nunca vai ser igual à do digital, por mais que a gente toque o mesmo repertório. Eu não digo qualidade. É diferente, não é que seja melhor. É principalmente a sonoridade e a questão de repertório, de bagagem cultural histórica”.
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Além de Gabão, o Barulhinho Bom já recebeu DJs como o alemão Midan, os baianos Osvaldo Bola e Ulysses Costa, do Coletivo Vinil&Lona, de Alagoinhas, e a pernambucana Cigana Cósmica. O músico e DJ seletor Jorge Dubman, integrante da banda IFÁ Afrobeat, também costuma dar o ar da graça no Bar do Neuzão, levando raridades do afrofunk, dub e reggae. Para ele, o balanço das participações no projeto é positivo. “A minha preocupação com a seleção é mostrar a minha pesquisa para o público, as coisas meio fora da curva que eu sinto que as pessoas não têm muito acesso. São coisas também meio underground. O que eu vejo é que a galera curte muito, sempre tem um bom feedback”, pontua.
Liga o som, desliga o mundo
No último mês de março, Jorge Dubman foi um dos DJs presentes no line-up da Feira de Vinil e Afins Além do Caos, no Santo Antônio Além do Carmo, ao lado de Rylle e Anderson Santos, o Uruba. Eles garantiram uma trilha sonora diversificada, que passeou por gêneros como latin freestyle, pop e nu metal.
Confira trechos das apresentações deles:
“Tem a coisa tátil, de você pegar na mídia, é como se você estivesse realmente pegando na música. Você tem que ter todo um cuidado, para escolher a música não tem como ‘zapear’, como no digital. Você tem que escutar analogicamente, levantar a agulha, colocar na próxima faixa. Tudo isso tem um gostinho que só quem sabe, sabe. Eu tento ser muito diversificado no meu repertório, procurando ser relevante no que eu apresento: música brasileira, latinidades e música eletrônica, especialmente o drum and bass”
– Anderson Santos, o DJ Uruba
“No digital é fácil você apertar o sync, soltar no lugar certo e já foi. O vinil representa um desafio, você tem que ter o cuidado de colar o pitch, contar a música, estudá-la antes de tocar. Minha base de tudo é o hip hop, porque ele é a porta de entrada para o house, o charme, o freestyle”
– DJ Rylle
Os organizadores de feiras de discos fazem questão de ressaltar a importância dos DJs para os eventos. “Sem o DJ o vinil não estaria tão à frente de outras mídias, porque os DJs, além de serem colecionadores, também tocam. Tem a questão da curadoria”, diz o músico e empresário Ronaldo Lopes, conhecido como Gnomo, que organiza a Feira de Vinil e Afins Além do Caos. Eldo Boss, sócio da Discodelia e organizador da Feira de Discos do Shopping Center Lapa, tem opinião semelhante: “O DJ de vinil muitas vezes traz uma seleção que não está no streaming. Então acaba sendo uma curadoria muito fina, diferentemente do que acontece com DJs no formato digital”.
Lugares e culturas se criando
Muito antes de as feiras e lojas de discos abrirem novos espaços para os DJs soteropolitanos, a discotecagem em vinil tinha como um de seus lares a cena da música eletrônica, representada no Norte-Nordeste por coletivos como oPragatecno, fundado em 1998. A iniciativa pioneira reuniu DJs de Salvador e de outras cidades, com o objetivo de formar uma rede colaborativa em torno da cultura do DJ e da cibercultura. Entre os projetos realizados pelo Pragatecno, estão oficinas de discotecagem, uma apostila para novos DJs, um livro e um longa-metragem documental.
Um dos DJs que passaram pelo Pragatecno é Mauro Telefunksoul, referência na fusão de sonoridades afro-baianas com a música eletrônica – o chamado Bahia Bass, criado por ele. Telefunksoul começou a tocar ainda na década de 90, influenciado por rádios como as extintas Manchete e Transamérica, que tinham programas de música eletrônica focados em gêneros como miami bass e latin freestyle. Anos depois, entrou em contato com outras vertentes, como drum and bass e breakbeat.
“Me identifiquei com o Pragatecno por ser focado em festas de clube, onde se reverenciava mais o grave, então tinha o house, o techno, o drum and bass. A partir daí eu passei a dar aula a outros DJs, e foi uma coisa muito legal para a minha vida”, relembra. Mesmo tendo a música eletrônica como raiz, Telefunksoul conta que hoje suas pesquisas e discotecagens vão muito além do som feito para as pistas, abarcando também o jazz e as “obscuridades” da música baiana: “Hoje eu sou DJ de música. Eu gosto de música, gosto de criar, de misturar”.
“Me identifiquei com o Pragatecno por ser focado em festas de clube, onde se reverenciava mais o grave, então tinha o house, o techno, o drum and bass. A partir daí eu virei um DJ profissional mesmo, ensinei a outros DJs, e foi uma coisa muito legal para a minha vida”, relembra. Mesmo tendo a música eletrônica como raiz, Telefunksoul conta que hoje suas pesquisas e discotecagens vão muito além do som feito para as pistas, abarcando também o jazz e as “obscuridades” da música baiana: “Hoje eu sou DJ de música. Eu gosto de música, gosto de criar, de misturar”.
Quem também teve o Pragatecno como parte da trajetória foi o DJ Marcos Sandes, ouMôpa. Ele observa que hoje, em sua maioria, os DJs de música eletrônica abandonaram o vinil como formato, migrando para a discotecagem digital. “Desconheço quem esteja tocando música eletrônica exclusivamente no vinil. Eu ainda continuo de teimoso, porque é um formato que me agrada mais, faz a gente pesquisar mais”, conta Môpa, que também faz sets focados em samba-rock e jazz.
A cultura do sound system, vinda diretamente da Jamaica, também contribuiu para manter o vinil vivo em Salvador ao longo dos últimos anos. Iniciativa pioneira na capital baiana, o MiniStereo Público Sound System foi fundado em 2005 pelo DJ Pureza, ao lado de amigos interessados em dividir com o público suas pesquisas de gêneros como reggae e dub. Segundo Pureza, o vinil é a “alma do Sound System”.
“Na cultura Sound System temos o dubplate [disco de acetato prensado por unidade e tocado por tempo limitado, devido ao desgaste que sofre com o tempo], que surgiu nos anos 50, 60, e vem até hoje se reproduzindo. Era nele que os Sound Systems gravavam suas músicas inéditas e exclusivas, então isso mostra a identidade de cada Sound System e uma resistência ao mercado, já que a Jamaica nunca deixou de produzir vinil, mesmo com a era digital”, explica.
Ele ressalta que o Ministereo Público fez questão de manter o vinil em destaque ao longo dos anos, mesmo tocando também com timecode, sistema que permite uso de toca-discos tradicionais para controlar músicas digitais em um software de DJ. Pureza vê com bons olhos o crescimento da cena do vinil em Salvador.
“Isso é muito importante para a cultura do vinil, para esse mercado do DJ que se preocupa, que investe, que pesquisa. Estou vendo uma cena forte, bonita, com pessoas jovens consumindo música em vinil. Que cada vez possa vir mais gente e que se possa baratear, também, os valores, porque apesar de tudo os discos estão caros. E mesmo assim não se deixou de consumir”, pontua.
Na próxima reportagem: o “lado B” da cultura do vinil em Salvador. Integrantes da cena apontam entraves como altos preços dos discos, machismo, elitismo e a dificuldade de estabelecer iniciativas duradouras.
* Julli Rodrigues é jornalista, produtora musical da Educadora FM e DJ seletora. Mais detalhes sobre a autora aqui.






