por Ciro Garcez*
Handycam é o primeiro álbum da parceria entre Felipe Vaqueiro, vocalista e guitarrista da banda soteropolitana Tangolo Mangos, e de Sophia Chablau, vocalista e guitarrista das bandas paulistanas Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo e Besouro Mulher. Lançado em primeiro de outubro de 2025, ele vem após o encontro do EPNOVA ERA/ OHAYO SARAVÁ,e conta com composições inéditas de ambos, que junto com o baixista Marcelo Cabral (Metá Metá, Elza Soares, Criolo) e o baterista Biel Basile (O Terno), dão a forma para as canções do disco.
O álbum é um trabalho de fôlego dos dois, que o definem como conceitual e de estudo. Adotando o nome de uma das linhas de câmeras portáteis mais famosas do mundo,Handycam aposta em grandes binômios, como o pessoal e o público, o tradicional e o experimental, a verborragia e o lacônico. Esses binômios tem tudo haver com a própria história das câmeras portáteis com nomes famosos comocameflex,super 8,bolex,arriflexe etc. Elas, que vieram através da inovação tecnológica e barateamento da produção, trouxeram acesso e possibilidades nunca vistas com novos cineastas, movimentos artísticos, linguagens e toda sorte de imagens, do almoço em família até a guerra. A frase do cineasta baiano de Vitória da Conquista, Glauber Rocha, “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” levada de cabo a rabo, esse também beneficiado com a revolução tecnológica de câmeras mais leves. Não por acaso é um disco que as imagens surgem enquanto se escuta e o cinema é um dos temas mais recorrentes.
As imagens e as letras são até diferentes do que se vê na cena independente atual. Adotando a ideia do pessoal-político, eles passam por uma linha que poucos artistas da mesma cena e idade cruzam, que é falar de política e guerra, algo que é mais comum em cenas como o rap e o metal. Com tudo isso em mente e querendo saber mais, entrevisto para o el Cabong o soteropolitano Felipe Vaqueiro e a paulistana Sophia Chablau, que conversam sobre oHandycam, música, questões existenciais e o que mais der.
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el Cabong: Como vocês se conheceram e qual foi o percurso para decidirem fazer um disco juntos?
Felipe Vaqueiro: A nível de cronologia, nós nos conhecemos em 2023, no final do ano, porque nossas bandas, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo e Tangolo Mangos, acabaram fazendo umas datas juntas, quando fazíamos uma série de shows no interior de São Paulo, e aí meio que nos tornamos amigos. Logo depois Sophia ia lançar um disco no Cine Jóia, em São Paulo, nos chamou, e saímos pra dar um rolê. A partir dessa ocasião nos tornamos amigos. E aí coisa vai, coisa vem, Sophia mandou uma mensagem pela internet, já era verão, ela estava em São Paulo e eu já estava em Salvador, ela me mandou uma ideia de música e acabamos terminando essa música juntos.
Sophia Chablau: Primeiro fizemos um poema, depois essa música. Quando fizemos essa turnê com o Tangolo Mangos, eu já tinha uma visão do Vaqueiro com um grande compositor, então eu já tinha uma expectativa de conhecer uma pessoa que eu já reconhecia composicionalmente, que já tinha uma admiração. Então é muito louco, quando conhecemos alguém que temos uma admiração a nível composicional, conhecer e ver que a pessoa tem alguma forma de lidar muito diferente da sua e tal, mas a gente se conheceu e se conectou muito em como as ideias saíam. Eu percebi que ele era muito criativo, antenado no dia-a-dia dele, sabe? Então acho que isso possibilitou da gente se encontrar, e depois disso nós fomos vendo que tinha uma sintonia profunda que também daria pra fazer um disco. Nós também temos nas nossas próprias bandas um papel mais central, composicionalmente falando, óbvio que não é Felipe Vaqueiro e Tangolo Mangos, mas tem uma semelhança. E aí nós ficamos “caraca, a gente ocupa um lugar parecido nas nossas bandas também e que a gente pode tornar isso uma grande troca”.
Felipe Vaqueiro: Foi também a primeira vez que Sophia e eu lançamos um disco sob o próprio nome. Nesse meio tempo, Sophia teve uma questão com o ombro também, aí me pediu para substituir na guitarra. Tiveram uns rolês que fizeram nós criarmos mais intimidade e ia surgindo muita coisa. Acho que nós nos encontramos também em um momento que estávamos em algum grau, por motivos diferentes, empacados com questões composicionais e, por mais que não tenhamos feito tantas parcerias a nível de composição juntos, nós meio que nos destravamos a partir desses encontros. Várias coisas vieram.
el Cabong: Sobre o nome do álbum, Handycam, ele evoca bastante o pessoal, o caseiro, às vezes a única possibilidade de registro. Esse nome me influencia em como eu olho para as músicas, como por exemplo “Eu já não me sinto tão só (para Júlia Zen)”, que já penso filmado como filmes caseiros com recortes de Super 8 e película, ou algo meio Jonas Mekas das ideias. Como vocês se relacionam com essa imagem de handycam para ser o nome do disco?
Felipe Vaqueiro: Engraçado, porque a decisão das músicas em si foi anterior ao álbum. Eu acho que foi uma soma de questões. As próprias músicas que abordam o cinema de uma maneira mais direta e o fato também da gente enxergar essas músicas no enquadro de registro e memória, alguns vindo de um lugar mais bélico, outros de um lugar quase mais inocente. Eu sinto que isso foi uma coisa muito do processo. Sabe, quando surge uma ideia e ela vai ganhando novas significações à medida que você vai pensando nelas. Mas acho que tem muito disso que você falou, o único registro possível, além da câmera ter sido feita para registrar coisas, diferente do celular.
Sophia Chablau: Acho que também tem um lance que os nomes, diferente das palavras, quanto mais você repete, mais você adquire significado. Se você repetir a palavra feijão mil vezes, ela perde o significado. E eu acho que quando você dá nome a alguma coisa que não tem um nome, que não é nada… O que é um disco? Podemos entrar nesse debate. No fundo é um compilado de canções que você vai entendendo esse nome. Poderia ter outro nome o disco, poderia serCaseiro, por exemplo, ia conseguir captar isso. Mas uma coisa que pra mim era muito importante e eu senti com o Vaqueiro, é que nós temos uma dimensão muito do íntimo-político muito mais forte que outros artistas tem.
Eu acho também que oHandycamtem uma natureza de estudo mesmo. Para mim foi muito importante fazer esse disco para eu acessar outros lados da poesia mesmo, sabe? Tudo é um estudo, ninguém tem a forma final da coisa, tudo tem que estudar. Acho que o brasileiro tem uma coisa de achar que composição é uma dádiva, que a coisa aparece na mente, não precisa desse estudo. Nós fomos colocando essas canções juntas, essas composições, esse disco e elas foram abrindo caminho para outras composições individuais ou parceria nossa. Eu acho queHandycam é um nome que resolve isso, porque dá essa sensação de não finalização, é um processo acontecendo. E tem isso que falamos em todas as entrevistas e acho legal frisar, umahandycam pode filmar tanto você com seus amigos quanto uma guerra, é a câmera portátil. O celular também pode, mas o que é bom no celular não é o celular, é a câmera na mão que está nele. É o devir, né (risos).
Felipe Vaqueiro: É, e ainda que o termohandycam tenha vindo nos anos 90, 2000, ele está envolvido nisso, um objeto que historicamente foi feito para isso, se parar para pensar. Refugiados, Chernobyl, episódios da guerra fria, todos tiverem um registro de câmeras portáteis tipohandycam. Além de tudo tem essa ideia Glauber Rocha de “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.
Sophia Chablau: E eu acho um puta nome. O CD físico também tem toda uma brincadeira que o CD é umahandycam, quando você abre parece uma câmera.
el Cabong: Então, só pra entender, em que parte da feitura do álbum vocês pensaram no nome?
Felipe Vaqueiro: Foi durante. Já tinha passado da metade da parte da gravação, mas ainda falta muita coisa. Toda essa parte gráfica, por exemplo, não existia. Acho que o nome acabou, inclusive, nos levando para ideias disso. É doido o processo, às vezes você chega com uma ideia muito fixa que ela orienta tudo, e eu acho que no nosso caso, as canções inspiraram esse nome em algum lugar também.
Sophia Chablau: Tinha uma coisa, o conceito do disco veio antes. Não é que nós percebemos depois, a escolha das composições foi muito dura. Nós queríamos fazer isso do íntimo-político de uma forma transversal. Eu tinha uma puta nóia, eu particularmente trouxe essa nóia para dentro do processo. É um disco conceitual, ele tem essa ideia, por mais que não seja um conceitual chato.
Felipe Vaqueiro: O nome não geriu o conceito, diferente de outros discos conceituais. O nome é mais aberto que o conceito pode sugerir.
Sophia Chablau: Por isso que se fossemos dar um nome exatamente igual ao conceito, não seria esse nome. Nem sei que nome seria, mas teria que explicar muito.Handycam não explica, mas tangencia.
el Cabong: E para vocês, Handycam é um disco de que? Qual estilo?
Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro: Música Brasileira.
Felipe Vaqueiro: Baguncinha. Tipo assim, baguncinha dá pra evocar várias coisas sobre linguagem, mas é meio difícil de apontar. É o tipo de coisa que gringo adora, que chama deNew Brazilian Wave.
Sophia Chablau: Mas eu acho que é música brasileira que não é de exportação também, sabe? Isso também tem muito a ver com os esforços do Vaqueiro. Nós fizemos umas bases muito experimentais, do tipo da gente não pensar em tocar um estilo musical. Estávamos experimentando com os músicos em um processo bem bandístico, mas eu acho que uma coisa importante do disco, que era a vontade de também tocar em lugares um pouco mais brasileiros no sentido de: eu sou um pessoa do sudeste. Eu tenho totalmente essa noção, mas eu acho que o Vaqueiro é uma pessoa que traz, pelos modos que usa, pelos instrumentos que toca, pelo jeito que ele toca, os vícios da linguagem da música. Era realmente trazer um pouco do Vaqueiro e de mim e tentar juntar isso de uma forma que não ficasse extremamente roqueira, e nosso disco não é roqueiro.
Felipe Vaqueiro: Ele é muito mais um disco de ruído e de textura, que acho que você traz muito isso, do que uma coisa agradável e pop, que tem tanto a ver com a sua linguagem. E acho que eu acabei trazendo muito isso, a partir dosoverdubs, eu laboratorialmente desenvolvendo coisas que já tinham haver com minha linguagem.
Sophia Chablau: Parece um Velvet Underground com Quarteto Novo, entende o que quero dizer? Eu não fiquei chapando nas bases, deixando bem simples, e Vaqueiro ficou chapando muito e ficou daora. Foi a primeira vez na minha vida que eu fiquei pensando em Chico Buarque nas canções. Eu sempre pensava em Beatles, mas dessa vez eu pensava que essa canção tem que soar como “Construção” do Chico Buarque. Não soa, mas era isso que tinha na cabeça. No som você não pega, são referências muito mais de processo. Mas era isso, nós não queríamos colar em nada, nós queríamos colocar a nossa autenticidade, as nossas potências.
el Cabong: Sophia é geógrafa e Vaqueiro é formado em comunicação com ênfase em produção cultural. Analisando o que vocês compõem, independente do Handycam,tem algo que me vem de ser um meio para jogar e expressar as questões desses campos, da comunicação e da geografia. Ao meu ver há uma divagação desses campos na música que vocês fazem. Vocês acham que suas formações acadêmicas implicam nesse fazer artístico e é um complemento na forma que vocês fazem arte?
Sophia Chablau: Cara, você falou para mim duas coisas que para mim no disco são meio inversas. Porque o Vaqueiro gosta muito de geografia, e eu sou uma pessoa que gosta muito de comunicação. E nós dois conversamos muito sobre geografia e comunicação. Por exemplo, era uma conversa constante sobre o disco de como fazer as letras se comunicarem, de ser uma onda comunicativa diferente dos nossos outros projetos. Sobre discurso e postura também. Isso tem tudo haver e oHandycam é um disco geográfico e de comunicação, com certeza, só que estranhamente é uma leiga em comunicação e um leigo em geografia (tá, Vaqueiro é um gênio em geografia e eu, em modéstia parte, sei um pouquinho de comunicação). E eu acho que no fim é onde a gente se conecta, porque no fim temos outro mundo, que é para além da música, apesar de ser muito musical.
É engraçado, porque o Vaqueiro é filho de geólogo e eu sou filha de músico. E é interessante que são paralelos malucos da vida, porque pô, meu pai é músico e tem outra visão de música que eu tenho, a dele é mais compatível com a de Vaqueiro do que eu, ao mesmo tempo que eu tenho essa conexão com o pai dele. Mas no fundo, a pergunta central é quem nós queremos ser no mundo. Não na onda de que você é o que você come, mas uma pergunta de amadurecimento, o que você é no mundo, quem você quer ser. Nós escolhemos ser músicos, geógrafa e produtor cultural, certo? Mas que tipo desses profissionais nós escolhemos ser é o que mais interessa. Eu acho que oHandycam, para mim (não tô falando do Vaqueiro), ele responde angústias muito profundas. Eu quero ser uma musicista que consegue se comunicar, colocar palavras na canção, então para mim, por enquanto, ele é uma boa resposta para as minhas próprias crises.
Quando falamos de música e disco parece que falamos de outra realidade, mas, no fundo, canções são palavras sobre música, é uma criação humana. O Handycam é duramente humano, e por isso é sensível também, não é uma tese de doutorado.”
Sophia Chablau
Felipe Vaqueiro: Eu sinto que no final das contas nós conseguimos falar sobre muitas coisas que nos inquietam há tempos. Não que seja suficiente, claro, mas acho que ele tem essa potência de responder. Para mim talvez ele responda questões que eu tinha mais novo, como é possível falar de tal coisa na canção, e no final das contas acho que tem haver com o que você perguntou. Eu vou brisar um pouco aqui, porque eu lembro muito do conceito deintelectual orgânico de Gramsci nesse sentido. Teve uma vez, na aula, que levantaram essa correlação do conceito com músicos, cancioneiro popular e o lugar do cancioneiro como tradutor de signos. Eu acho que em algum lugar, não de forma consciente, eu me identifico com essa ideia e me mobilizo que a arte de maneira geral, uma área que produz múltiplos significados, te leva um pouco para essa potência, seja porque você estudou este assunto ou porque um amigo te contou, aí você traduz aquilo.
el Cabong: O Handycam é um disco político, mas também é um disco muito pessoal. Ele mostra muitas faces de vocês, como músicos, compositores e pessoas mesmo. Isso é uma escolha também, abordar tanta coisa e misturar, sejam temas, sentimentos e até melodia e ritmos. Queria saber como foi para vocês borrar essas fronteiras.
Sophia Chablau: Essa questão me faz pensar em duas músicas, “You never know” e “Lungs full of air”. Puxando sardinha pro meu lado, quando fiz “Lungs”, foi uma vontade que eu tive de construir isso. No fundo é isso, se a humanidade acabar, o que que vai restar dela é um monte de livros que ninguém vai entender. No fundo existem livros porque existem corpos para lerem os livros. Existem políticas porque existe corpo para fazê-las. A política não é uma coisa que aconteceu antes da humanidade e não é uma coisa que vai sobreviver depois da humanidade, é algo puramente humano, e a canção também. O que são essas I.A.’s, logaritmos e algoritmos? São construções humanas, há uma humanidade ali. Nós sistematizamos tanto a vida que ela perde a humanidade e ela perde a noção corpórea. O amor é um sentimento e uma invenção humana, tal qual a guerra. Essas são coisas que nos atravessam, por isso que digo que esse disco é tão transversal. O ser humano conseguiu construir coisas tão para fora dele, criar sistemas tão rígidos e tão complexos na nossa elaboração, que não vemos que tudo ao nosso redor existe porque corpos criaram. Eu acho que quando falamos de música e disco parece que falamos de outra realidade, mas, no fundo, canções são palavras sobre música, é uma criação humana. OHandycam é duramente humano, e por isso é sensível também, não é uma tese de doutorado.
Nós somos a geração que tem mais acesso relativo a informação de outras épocas, e nós somos a geração com mais potência de ouvir música de mais lugares do mundo. E é muito doido falar de referência, porque nós no estúdio tentávamos dar referências mais genéricas e como artifício, como algo mais Caetano Veloso, uma guitarra mais Sly & the Family Stone.”
Felipe Vaqueiro
Felipe Vaqueiro: Logo quando Sophia começou a falar, eu lembrei de um verso de Yves Deluc, doCidade Dormitório, só que a resposta de Sophia expandiu a tese dele. Ele fala “Antes do Autor, a Palavra”, só que antes da palavra houveram autores. Existe toda uma continuidade de criação para que as coisas existam.
Sophia Chablau: É, é como se só existisse música porque alguém criou a linguagem, e nós todos criamos linguagem. Essa coisa da referência é algo que eu sempre fico me perguntando. É difícil falar de referência em um mundo que nós falamos latim, ou esse latim que não é mais latim. Nós temos tantas referências de tanto lugares, um bando de imigrantes esquisitos em um território esquisito, colonizado. Eu sinto que a referência, num ambiente como a música erudita, que tem Bach, Beethoven, Mozart, você consegue pensar em referências claras, porque você vai vendo a ruptura. Mas na música popular nós somos uma grande linguagem, estamos criando linguagem.
Felipe Vaqueiro: Principalmente agora, eu acho. Nós somos a geração que tem mais acesso relativo a informação de outras épocas, e nós somos a geração com mais potência de ouvir música de mais lugares do mundo. E é muito doido falar de referência, porque nós no estúdio tentávamos dar referências mais genéricas e como artifício, como algo mais Caetano Veloso, uma guitarra mais Sly & the Family Stone. E também não dá para não citar Marcelo Cabral (baixo) e Biel Basile (bateria e percussão), que trouxeram outros elementos de linguagem e a colcha de retalhos deles, além deles terem uma experiência muito maior. Cabral, por exemplo, trouxe um conhecimento desampler e desynth que levou a paleta sonora do disco para outro lugar. Houve uma fluidez e liberdade ao fazer o disco que permitu que cada um trouxesse sua bagagem e somasse.
el Cabong: Eu acho meio chocante como a cena indie tem sido silenciosa sobre as guerras midiáticas que vem acontecendo. São muitos álbuns sobre autodescoberta e sobre sentimentos internos, mas é raro ver uma música sobre o que está acontecendo no mundo. Parece que se unirmos a produção atual do indie brasileiro, para entendermos o que se passou no mundo da nossa época, pouco vão ver que estavam acontecendo várias guerras e que a extrema-direita tem disputado o poder e levado suas pautas adiante. Handycam, nesse sentido, é fora da curva. Um raro trabalho que aborda explicitamente esses temas. Como foi essa vivência de vocês que faz se distanciarem tanto tematicamente da cena? E para vocês, é estranho jovens não abordarem assuntos espinhosos?
Felipe Vaqueiro: Quando eu era criança eu me relacionava muito com a ideia de músicas que transformavam. Por mais que fossem realidades e línguas que não tinham nada haver comigo, isso sempre me pegou. Eu acho que conhecer Sophia, além de poder e querer colocar algumas cartas na mesa, deu pernas para essas vontades que eu tinha, para algo que eu pudesse fazer. Não sei se as outras pessoas se relacionam com isso, mas tem meio que uma mistura de covardia com comodismo, acho que tem um recorte geracional nisso. Eu cito de alguma maneira nos meus trabalhos, mas sinto que no final das contas, para mim, eram inquietações que nunca trabalhei dessa forma. Para mim não parou por esse disco, não parou esse discurso. Desde que terminamos o disco, Sophia tem ficado mais inflamada com isso, e a própria inflamação de Sophia me inspira a nível de música. Já escrevi mais de uma música depois de conversas com Sophia sobre isso. Não que ela tenha me inspirado em um ponto específico, mas me fez passar por travas, e beleza que sou só esse boy aqui, mas eu vou entrar nesse campo de disputa, porque no final é disputa.
Sophia Chablau: Todas as áreas estão sendo disputadas totalmente pela direita, e eu acho uma ilusão não olhar isso profundamente. Primeiro que o mais bizarro, no nível mais básico, tudo virou uma empresa. Eu li uma entrevista com a Marilena Chauí que ela fala como isso é totalitarista, como que o totalitarismo é quando tudo vira o mesmo sistema e o mesmo jeito de se pensar. E tudo virou uma empresa, com as pessoas e as relações, tudo passa e é administrado por empresas, e a música não é exceção. Eu acho que a música virou espaço de empresa,como se fazer um disco fosse abrir umastartup. As pessoas não pensam mais em design porque elas estão pensando em arte, elas pensam em design porque elas pensam no que vai dar certo na plataforma. Tem uma visão muito cruel, econômica e principalmente neoliberal sobre todas as coisas. Eu acho que quem não fala nada sobre política está sendo escapista, e eu entendo quem não consegue escrever, eu por muito tempo não consegui colocar isso nas músicas, essa que é uma indignação minha cotidiana com o mundo que está para além da música. Mas parece que esse é um lance de um escapismo reflexivo no conjunto das pessoas, e isso é o que mais me amedronta. É que o caso não é que as pessoas não estão escrevendo músicas como “Caminhando e Cantando” do Geraldo Vandré, as pessoas não estão pensando que estão fazendo arte, ou que elas estão fazendo arte não estão fazendo cultura, ou que a cultura morreu. É isso que o neoliberalismo quer que aconteça no mundo todo, que a globalização quer: quer que a cultura morra.
Eu acho que a música virou espaço de empresa, como se fazer um disco fosse abrir uma startup. As pessoas não pensam mais em design porque elas estão pensando em arte, elas pensam em design porque elas pensam no que vai dar certo na plataforma. Tem uma visão muito cruel, econômica e principalmente neoliberal sobre todas as coisas. Eu acho que quem não fala nada sobre política está sendo escapista.”
Sophia Chablau
A cultura, quando vira essa cultura mundializada, imposta pelos EUA, pelo padrão de consumo dos EUA, ela morreu. E não é por acaso que nós ficamos sem Ministério da Cultura no governo Bolsonaro, e não à toa nós temos um ministério que patina muito com o governo Lula. Falando tudo isso pra dizer que a cenaindie, por estar muito conectada com valores estrangeiros e o que é a cultura estrangeira e trazendo muitos desses valores para o tal mercado, que é um mercado brasileiro que não existia há 20 anos. Esse debate do mercado, da lógica dele, é um debate novo. Existia e se falava de indústria, agora é o mercado, mercadinho, agora todo mundo tem sua banqueta? Tudo virou feira de negócios, com espaços gigantes terríveis, com identidades visuais horríveis. Nós criamos oindie, que vem da palavra independente, para subvertermos isso, aí oindie começa a emplacar isso como uma lógica cultural. Falando tudo isso porque são questões que demandam muito tempo e energia minhas, e também uma reflexão que eu e Vaqueiro conversamos muito, que é o seguinte: entender que esse é o nosso trabalho, nós precisamos viver disso, mas um dia eu e o Vaqueiro não vamos existir mais, só vão existir nossas músicas e o que nossas músicas vão dizer depois que nós morrermos. O que a nossa geração vai falar para a próxima? E o que a geração dos nossos pais e nossos avós nos disseram nas músicas que nos dá a base cultural para amar o nosso país, para sermos pessoas decentes, para lutarmos pelo que acreditamos. Isso tudo aconteceu porque várias pessoas sentaram a bunda na cadeira e fizeram essas músicas, essas poesias, esses livros ou fizeram esse mundo, essa linguagem, essa sociedade. Nós temos uma responsabilidade, nós escolhemos isso por algum motivo. Fazer música não é só fazer “blim blom”. E assim, você vai escolher o caminho difícil para falar as coisas fáceis? Não dá, né? Tem que escolher o caminho difícil para falar as coisas difíceis.
Felipe Vaqueiro: Eu fico me perguntando se esse campo de disputa não é perpetuado por pessoas. Fico me perguntado o que causa esse escapismo, às vezes tenho certeza que é questão de classe e desinteresse, que aceitam as coisas do jeito que estão por vários motivos. Também tem uma galera que questiona, e que coloca que pode falar sobre tudo o que quiser, e realmente pode, mas fico me perguntando se é isso o que você tem a dizer. Fico me perguntando se tem quem quer falar, mas tem medo de falar ou se realmente não querem.
el Cabong: E o jovem devia ter menos medo de falar coisas, né?
Sophia Chablau: Exatamente! Porque uma juventude anestesiada é o fim do mundo. Às vezes eu penso quando era criança e olhava para os jovens de 25, 30, 40 anos; e eu pensava que o mundo era deles. Porque quando somos crianças parece que o mundo é dos adultos, e você tá lá, vai crescer e o mundo vai ser seu também. Eu penso agora que o mundo é meu, e que merda. O que a minha geração tá fazendo? O mundo é nosso, nós finalmente somos adultos, nós podemos falar, não temos escola mandando. Agora nós alcançamos, em partes, a nossa profunda liberdade poética existencial de criação de mundos, e é isso que nós estamos compactuando? E isso não é pensando que eu sou uma pessoa diferente porque estou fazendo tudo, porque não é isso, eu tenho mais nóia comigo do que resposta. E tem que dar resposta,Handycamé uma tentativa. Mas por que não tem uma “feira da música” que debata questões reflexivas? É só questão de como você vai chegar em dez mil plays? E depois que oSpotify acabar? E esse negócio de tema? Parece que as pessoas estão fazendo música como se fosse palavra-cruzada e não é.
Felipe Vaqueiro: Eu fico pensando também na potência das coisas também. Tem um exemplo da nossa geração, Clóvis Cosmo comVastopasto, que é uma coisa que não tem nada haver com a nossa linguagem, mas ele tem uma coisa muito interessante. Ele é de Uberlândia e o campo de disputa lá é com o sertanejo agro pesado. Aí nesse disco, ele teve uma pira de fazer um livro e um sistema de RPG integrado as músicas, em um cenário de uma Uberlândia distópica. Isso me faz pensar que você não precisa necessariamente fazer um disco que fale sobre bombas, ou a periferia da sua cidade. Você pode entrar em outra pira que comunique tanto quanto. E seja como for, eu acho que essa ousadia é importante.
Sophia Chablau: É, no mínimo. Nós tocamos para uma galera de 15 anos. Ver uma juventude de 15 anos deprimida é uma coisa que me deprime profundamente. Com 15 anos eu queria dominar o mundo, entendeu? Com 15 anos eu achava que o mundo estava assim, mas é porque eu nasci agora. Agora que eu nasci, o mundo vai virar outra coisa, eu e meus amigos vamos fazer esse mundo ser muito melhor. Era o mínimo que nós pensávamos enquanto sociedade, era pensar que esse mundo é um lixo, mas eu e meus amigos vamos viver a nossa vida inteira para fazer essa parada mudar. Aí a galera cresce e quer abrirstartup? Aí não, cara.
Nós tocamos para uma galera de 15 anos. Ver uma juventude de 15 anos deprimida é uma coisa que me deprime profundamente. Com 15 anos eu queria dominar o mundo.”
Sophia Chablau
el Cabong: O disco mudou para vocês desde que ele foi feito até agora?
Sophia Chablau: : Sim, porque eu percebi que nós fizemos uma parada que fez pouca massagem nas pessoas. Eu acho que a galera tomou um sustinho. E por exemplo, nós não estamos rodando tanto, acho que podíamos estar rodando mais. E acho que isso se deve muito pelo o que o disco fala e a nossa postura mais crítica. Tudo bem, tem gente que não gosta do disco, mas eu acho que é um grande disco.
Felipe Vaqueiro: E ficou um sentimento no ar. Tem algo sobre o discurso, que nem é sobre nós, eu lembro da galera do rap falando sobre isso, que tem alguns assuntos que se você é pessoa X falando de Y você não é chamado para grandesline up’s. Mas mesmo assim, muita gente acredita nesse disco.
Sophia Chablau: Muita gente mesmo, muitos curadores também vieram dizer que gostaram do disco. Nosso compromisso com o disco nunca foi bombar ele loucamente, ter milhões deplays e coisas assim. Ele tem uma importância, é importante pra gente e para as coisas que queríamos fazer. É um disco longo, e é bem interessante o que tá acontecendo com ele e como ele muda para mim. Nós estávamos compondo músicas, fazendo ensaio e tocando aqui, nós dois, e sinceramente, eu olho e falo que é o melhor trabalho que já fiz. Eu fico muito feliz, fiz junto desse compositor gigante e fizemos música. Eu só me reconecto cada vez mais com o disco, gosto cada vez mais dele. As vezes tem música que a gente grava e gosta cada vez menos, e esse eu gosto cada vez mais. Se só eu gosto, tanto faz, eu adoro.
Felipe Vaqueiro: Nós também não ouvimos tanto depois que saiu, então sempre que tocamos novamente as músicas, nos reconectamos com ele, tem pessoas se relacionando também. Eu tô em um momento que acho que esse é um disco longevo. Todo disco é potencialmente longevo, mas eu acho que oHandycam vai fazer mais sentido no futuro. Ele tem haver com a época em que foi lançado, e não querendo tirar onda nem nada, seria ótimo se ele fosse bem agora, que não olhassem para ele do futuro como se ele fosse incrível, mas enxergassem agora. Mas é algo que vejoque tem esse teor meio cápsula do tempo.
Ouça Handycam:
* Ciro Garcez é formado em Jornalismo e BI em Humanidades pela UFBA. Curioso por cultura e indústria cultural.






