Apadrinhados por Dinho, do Boogarins, com feat com Fernanda Takai, a banda mineira Varanda está em turnê pelo Brasil e faz três apresentações na Bahia. Leia entrevista exclusiva dos integrantes com o el Cabong.
por Ciro Garcez
A banda juiz-forana, Varanda, vive o que os quatro integrantes pensam como sonhos virando realidade, com realizações que nem eles cogitaram ainda em sonhar. Formada em 2019 e lançando trabalhos sem parar desde 2021, já subiram ao palco do Lollapalooza Brasil em 2026; tem sido destaque da crítica como um das promessas da cenaindie nacional; e lançaram este ano, 2026, o segundo disco, após terem sido selecionados pela primeira edição do selo SESC Minas Musical, como um dos únicos dois álbuns nessa primeira leva. Os quatro integrantes, Amélia do Carmo (voz), Augusto Vargas (baixo e voz), Leonardo Bara (bateria) e Mario Ricardo (guitarra), colocam que essas são realizações de uma banda independente, pequena, mas que tem visto as coisas acontecerem. EmÀs vezes um sonho… (2026), lançado em 28 de agosto, o sonho retorna como a matéria que tem lidado. A suas reticências no título não são coincidência, elas revelam que em matéria de sonho, tudo pode acontecer, tudo pode ser. Sonhos tem o tamanho que quiserem ter, não tem nenhuma regra sobre o tamanho deles.
O título, com esses três pontinhos, é poético, mas também é a forma de lidar com um título enorme. O seu nome é Às vezes um sonho pode ser um planeta inteiro ou uma canção ou uma cama com travesseiro de pluma de ganso ou um apagão ou a grande luz no meio desse grande túnel no qual estamos inegável infalível incansavelmente passageiros, algo que é muito similar nas suas reticências para resumir nomes como oThe Idler Wheel… (2012), de Fiona Apple, clássico da cantora e referência para a vocalista e compositora, Amélia do Carmo. O nome também encara algo muito forte da banda, que está na sua identidade autoral, com um repertório que conseguem abordar inúmeros temas, como se vissem o desenrolar de uma situação ou de um sentimento, com um ar contemplativo, por vezes com um tom de mistério que o conjunto usa. Neste segundo álbum eles aprofundam isso, agora com melodias mais inspiradas em bandas como Stereolab e um rock 60 e 90, com ossynthse teclados sendo protagonistas, com o reverb dando mais ainda esse tom onírico e misterioso. Junte isso à participação especial de um dos maiores nomes do rock e da MPB mineira e nacional, Fernanda Takai.
A fase atual da Varanda tende a ser mais misteriosa e sóbria, como destacam. Os sonhos e um pensamento mais sério quanto a postura na carreira dão o tom das escolhas do álbum, que mesmo que aborde o onírico, lida com o momento de crescimento da banda e as dores que gera. É um bom indício de uma banda, que consegue unir burburinho sobre grandes apresentações, músicas marcantes, um número cada vez maior de fãs e muitas músicas. A criação e a vontade de fazer, apontam que a Varanda já tem mais músicas a serem lançadas no mundo, com mais possibilidades e realidades a se realizarem.
Tema de duas músicas, “Gostei” e “Bahia e Aviões”, a Bahia receberá a banda mineira pela primeira vez, carimbando presença em Vitória da Conquista (Festival Suíça Baiana), Salvador (Casa 141) e Feira de Santana (Casa Noize). Aproveitando o momento, El Cabong bateu um papo com a Varanda, onde falam do novo disco, carreira, perrengues, incertezas, Bahia e aviões:
el Cabong: Para começar simples: O que tem de realidade e o que tem de invenção no sonho?
Bernardo: Primeiro a gente tem que definir o que é realidade e o que é invenção, né? Porque eu acho que toda a realidade em algum momento foi uma invenção. Aí a gente vai ficar pirando aqui muito tempo. A gente tem que levantar agora só umas três semanas pra ele ter pensado na resposta.
Amélia: Eu acho que todo sonho é uma invenção que se alimenta de alguma realidade. Tem aquela coisa que dizem que toda pessoa que você vê no sonho, na verdade você já viu na vida real, só não lembra da feição dela, né? Um hardware guardando essas narrativas dessas pessoas, então eu acho que é meio que isso, uma colagem de realidades, talvez paralelas.
Augusto: É, eu acho que é um bom caminho pensar nessa ideia de que o sonho se alimenta de realidade. E aí seja o sonho que a gente sonha acordado, seja o sonho que vem lá do subconsciente, quando estamos dormindo. Outro dia eu tava lendo uma parada sobre sonho lúcido, e aí a galera tava falando sobre caminhos pra você sonhar, ter um sonho lúcido. E aí falam justamente de fazer teste de realidade, de se perguntar durante o dia se você tá sonhando ou não, para na hora que você estiver sonhando de verdade, você conseguir fazer essa mesma pergunta e falar “caraca, eu tô sonhando, eu tô dentro de um sonho”, e aí você meio que alimenta o seu sonho.
el Cabong: E como vocês chegaram nisso de fazer um álbum sobre o sonho? É curioso que a última música do Beirada (2024), “Volta em Hora”, parece dar pistas para o às vezes um sonho…, já que fala sobre sonho logo no início.
Bernardo: Até pra gente, eu acho que a gente também tinha isso.
Mario: É, mas eu acho que parando pra pensar, por isso que a gente gosta tanto da “Volta em Hora”, mesmo sendo uma boa música e a galera não ouve tanto assim. Mas ela já tem essavibe desse disco novo, tanto de referência quanto do que tá falando ali.
Bernardo: Acho que a gente tem vivido muitas coisas também nos últimos tempos que se enquadram um pouco no que é viver um sonho. Tipo, tocar num grande festival, rodar por várias cidades fazendo música e tal. Então acho que é uma coisa que tá bem viva pra gente também nesse momento. Essa ligação de sonho com realidade.
el Cabong: Interessante falar sobre essas coisas que estão acontecendo, porque olhando, vocês não param desde 2021. Vocês lançam coisa todo ano, juntando com single e EP, com o Beirada e o as vezes um sonho… sendo as grandes coisas, por serem os álbuns. Como é que vocês estão encarando essas coisas e disso tudo estar acontecendo, que às vezes parece muito tempo, mas às vezes também pode pensar que é pouquíssimo tempo, se a gente pensar 2021 pra 2026.
Bernardo: Acho que a noção de tempo ficou muito distorcida depois da pandemia, essas coisas. Então, pô, ao mesmo tempo que 2021 parece logo aqui, são cinco anos, e são cinco anos que a gente quase não parou, então, aprender a trocar o pneu com o carro andando. Estar ensaiando pra show e gravar disco, fazer um show do disco antigo, mas eu acho que é parte do movimento também, isso acaba compondo o que é o som da banda hoje também, e acho que é bom que a gente consiga ter essa produtividade, não por uma demanda de mercado, de ter que estar lançando coisa sempre, mas até por uma vontade nossa, nós estamos sempre propondo coisa nova, tocando coisa nova também. É uma coisa que curtimos muito.
Mario: Tô pensando que parece que 2021 foi há 20 anos atrás, nessa coisa de estar sempre fazendo coisas novas e rodando por aí, tocando, acaba que o tempo passa de uma jeito diferente, parece que é tudo mais rápido.
Amélia: Até oBeirada, já tá velho.
Mario: Até oBeirada a gente sente que já deu o que tinha que dar, tem dois anos. Fez dois anos, um dia antes da gente lançar o último álbum.
Amélia: Foi. Não deu nem parabéns.
Mario: Passou batido. E aí parece, não sei, como é que vão ser as próximas coisas também, porque a gente tá ensaiando aqui agora as músicas novas para fazer os shows e tal, mas… não sei. Já dá para fazer outra? Tem que ficar tocando esse disco por muito tempo? É assim também, qual que é o clima da coisa?
Amélia: Ano que vem lançamos um EP chamadoMais Dez Minutinhos.
el Cabong: Pensando sobre o tempo, o sonho é esse lugar do tempo também meio estranho. Eu vi algumas entrevistas da banda, e vocês falam, por exemplo, que tocar no Lollapalooza era um negócio que vocês nem imaginavam, então é praticamente um sonho que vocês nem imaginavam que ia acontecer. Aí queria saber: como vocês encaram, por exemplo, o início de vocês se juntarem para agora, vocês veem as mesmas motivações dali, ou isso já passou e são outras coisas que movem vocês?
Amélia: Eu acho que esse tempo todo fazendo a coisa, botando a mão na massa mesmo e trabalhando, de fato, acho que deu uma outra perspectiva da coisa, das coisas práticas de se ter uma banda, do trabalho por trás. Antes eu acho que era só “vamos ali tocar”, “legal, maneiro”, “vamos gravar um álbum, qualquer coisa”. A coisa mudou, porque a gente tem que administrar um caixa, a gente tem que se mexer.
Augusto: Eu sigo sonhando alto com a banda. Tocar fora do país, tocar em outros festivais, dominar cada vez mais a parada. O que muda de lá para cá é que agora eu gostaria muito de pagar meu aluguel com a banda, gostaria muito de fazer um dinheiro legal.
Amélia: É, eu acho que as pessoas ficam mais aterradas, talvez um tempo que dá para, também, sonhar mais.
Mario: É que a coisa vai virando realidade. Tem a possibilidade da gente fazer isso. É mais palpável agora. O sonho fica mais palpável.
Bernardo: Acho que tem coisas que no começo elas são muito intensas, que agora já não dão mesmo frio na barriga, mas elas são meio que “substituídas” por outras coisas que trazem esse arrepio. Então é sempre uma emoção meio nova também.
el Cabong: E como vocês se dividem para fazer a banda fora do palco?
Amélia: Ah, cada um pega a demanda que surgir, de acordo com a disponibilidade, porque também a gente se divide em vários trabalhos. Então ninguém tá só com a banda, né? Acaba que fica complicado fazer esse malabarismo todo, mas enquanto isso, a gente meio que vai fazendo o possível e o impossível.
Bernardo: Eu acho que acaba que cada um também tem uma certa predisposição para algumas tarefas. A Amélia é artista visual, então muitas vezes ela fica por conta da parte visual. O Augusto é um especialista em se inscrever em editais, ele tá sempre de olho no que tá rolando. Inclusive, oSuíça Baiana veio assim, ele encontrou e inscreveu a gente. O Mario é o cara da logística, então normalmente omerch e o caixa fica por conta dele; e eu, como tenho mais essa coisa de estúdio e gravação, sou normalmente quem tem que exportar arquivo e subir coisa em plataforma. Agora a gente tá com o selo, mas antes era muito eu. Então, acaba que é meio quem tá mais livre, mas já tem algumas coisas que cada um tem uma certa predisposição.
Eu sigo sonhando alto com a banda. Tocar fora do país, tocar em outros festivais, dominar cada vez mais a parada. O que muda de lá para cá é que agora eu gostaria muito de pagar meu aluguel com a banda, gostaria muito de fazer um dinheiro legal.
el Cabong: O disco é lançado pela primeira edição do selo SESC Minas Musical. Como é que surgiu entrar no selo? E qual foi a importância dele pro álbum?
Amélia: Esses trabalhos nasceram por curadoria, por processo curatorial. Então… A gente vê que foram várias coisas que fomos fazendo no desenvolvimento da banda que meio que trouxeram isso. Nós tocamos lá noHackTown, ano passado, em Santa Rita do Sapucaí. E a gente conheceu o Barral (Barral Lima, Un Music, Mercado Futuro da Música), que era um dos curadores. Nós fizemos um showcase lá e ele curtiu pra caramba o som. Então criamos esse contato metendo as caras. Porque a gente foi parar lá no fim de Minas pra tocar, que é uma cidade foda, a gente gostou muito, tanto que ficamos querendo voltar pro próximoHacktown, e voltamos no palco maior. Foi muito foda ter esse ciclo se fechando, e se abrindo também de novo, porque eu acho que a gente entrou pra esse rolê meio que fazendo acontecer os outros rolês. Sem muito… “Ah, esse cara aqui a gente tem que conhecer, encontrar.” A gente foi lá e fez o nosso, e tentou fazer o máximo, como sempre tenta fazer em todo show: Entregar uma coisa massa pra a gente também ficar feliz com o que a gente tá fazendo.
Mario: E também a gente falou que tinha um álbum sem ter um. Tínhamos alguma coisa, mas não estava semi-estruturada.
Augusto: Tinha música pra mais de um álbum. Tinha música pra três álbuns.
Mario: Se alguém chegar e perguntar, “vamos fazer um álbum?” Nós vamos, claro.
Amélia: Eu acho que a gente sempre foi muito de pegar as oportunidades e agarrar e fazer o máximo possível, porque nós somos isso. Viemos também de outro fim de Minas, nós temos que ir fazendo, trilhando a cada trabalho; é importante ter isso em mente. Foi uma trajetória até chegar aqui, não surgimos do nada e foi convidada pra isso também. Mas foi uma grande surpresa. Fizeram só dois álbuns, e um deles é o nosso. Nós, como artista jovem, uma banda de Juiz de Fora, a maioria das pessoas ali sendo dos arredores de BH. Então pra gente, também foi uma grande surpresa.
Mario: E pro próprio disco foi super importante. A gente ter essa possibilidade de gravar em outro lugar, de trazer outras pessoas pra trabalhar com a gente, e ter como pagar por isso, principalmente. Não ficar tendo que se desdobrar pra vender camisa em show, o que aconteceu noBeirada, que foi feito juntando dinheiro de cachê emerch. Teve até avental demerch.
el Cabong: Enquanto eu estava ouvindo o às vezes um sonho…, eu vejo que não tem tanta diferença quando a gente fala de letra, se for comparar com as letras e temas do Beirada. Só que musicalmente, as harmonias e instrumentos, vocês mudaram muito em algumas músicas. As camadas, teclados, guitarra, reverb. Como foi montar esse novo arcabouço melódico, gravar, pensar que isso vai dar um álbum, não vai ser um EP, não vai ser um single. Pensar que vocês vão trabalhar um álbum todo nessa linguagem.
Mario: Acho que a gente não pensou muito nisso. De tipo, de ser… De um álbum mudar tanto essa linguagem musical da coisa.
Mario: Essa coisa de harmonia e tudo mais, realmente a gente tava nessa pira de simplificar um pouco. Fazer uma coisa mais Mi maior, Lá maior e camadas de som. Essa coisa do teclado também, que tem uma música que não tem guitarra e baixo, o caminho é só sintetizador e violão. Meio que a gente entrou nessa também, tipo “vamos fazer assim, meio que sem pensar nas consequências”, sabe? As coisas foram surgindo em muitas das referências que estávamos ouvindo também. Acho que isso influenciou bastante no que a gente ia fazer.
Bernardo: Acho que a gente não tem muito esse hábito de sentar e falar assim, “ah, como vai ser esse trabalho? Como vai ser esse disco?”. Nós vamos deixando aquilo vazar, cada um trazendo as suas coisas, e depois a gente olha e fala, “ok, é isso aqui que a gente tem, vamos entender pra onde isso tá caminhando.” E acho que nesse caso também, das texturas, vem muito da produção, né? O Nando (Fernando Rischbieter, produtor do álbum) foi o cara que propôs muita coisa dessas camadas de guitarra, de teclado principalmente, então isso também influenciou um pouco nesse sentido, e acho que deu uma outra cara. Assim, já era um pouco do que a gente vinha fazendo nas nossas demos e tal, mas deu uma amarrada melhor nisso também.
Mario: É o que quiser. Essa coisa de não conversar muito, até que esse disco a gente conversou bem. E tava essa parada meio rock’n’roll 60, de poucos acordes, e essa coisa dos anos 90 também, do rock dos anos 90, meio que ouvindo muito, né? A gente foi no show do Stereolab, lá noBalaclava Fest e meio que falou, “velho, tá aí, você não precisa ficar invertendo todos os acordes”. Você pode tocar o Mi maior ou Lá maior e fazer o foco da melodia também. Essa parte meio rock’n’roll, assim, de guitarra, bateria e baixo, com essa coisa dosynth, ficou meio que bem misturado no disco, assim, eu acho. Acho que essa coisa do reverb até deu uma encolhida em tudo, mas você para pra pensar, as linhas de guitarra e baixo, assim, são bem rock’n’roll, até. Bem parecido com oBeirada.
el Cabong: Como foi esse Emerson (Emerson é como o Varanda chama sua imersão no processo criativo)?
Bernardo: Bom, não teve, né? Foi meio diferente. A logística comprometeu um pouco a tradição do Emerson, tanto por uma questão estrutural que impediu um pouco do jeito que a gente fazia, e a agenda. Acho que ao contrário dos últimos anos, principalmente antes doBeirada, que a gente tinha mais tempo livre, acho que agora tá todo mundo meio consumido por um monte de coisa. A pré do disco bateu um pouco também com a Amélia noMasterchef*, então a gente teve que ir se dividindo entre as coisas e… não tivemos uma Emerson por inteiro, tivemos pedaços de Emerson.
(Nota: Amélia, vocalista, também foi participante doMasterChef Amadores 2026 e é conhecida pelo seu perfil no instagram, @ameliajanta, que cozinha e faz drinks, e tem o famoso quadro Janteta Russa)
Augusto: Levantar as demos foi meio diferente. A gente ficava aqui no estúdio, nós três, e mandava pra Amélia ouvir pra ver se tava legal. Teve demo que eu cantei tudo, o Bernardo cantou, e aí depois a gente viu que o tom tava todo zoado.
Bernardo: Teve música com o Mario. E acho que… Teve uma coisa… Normalmente quando a gente faz essa demo, as músicas acabam ficando muito próximas uma da outra no primeiro momento, porque nós estamos todos no processo só, né? Essa aqui, como tem um distanciamento, a primeira e a última demo que fizemos, elas estão em lugares muito diferentes, o que é legal, porque trouxe uma certa pluralidade. Porque pensando além das músicas que entraram no disco, pra fazer as 11 do disco, a gente levantou entre 18 e 20 músicas. Então conseguimos ter também uma coisa mais ampla de opções na hora de fechar esse repertório.
el Cabong: Pensando na carreira da banda, vocês tem participações bem pontuais. Como elas surgem para vocês? Como vocês olham que elas vão dar liga no som da banda?
Amélia: Sobre esse disco, especificamente, a Fernanda Takai, eu conheci ela num júri de marchinha, lá em BH, em fevereiro. Eu estava de jurada, e aí ela caiu de paraquedas de jurada surpresa. E aí ela foi falar comigo e falou, “pô, sua banda é super legal, eu escutei. Continuem.” e eu fiquei “Obrigada! Consegui!”. Fiquei super feliz. Aí meio que essa interação ficou na nossa cabeça, no plano de fundo. E aí, fazendo lá em São Paulo o disco, a gente pensou, “poxa, será que ela não aceita, já que ela gostou, né? Será que ela vai gostar dos próximos? Será que aceita fazer algumfeat?”, porque ela é uma grande voz de uma geração, e do estado também. O Pato Fu é uma grande banda, eles tocaram aqui em Juiz de Fora outro dia desses e foi uma alegria geral. É foda ver o reconhecimento que eles ainda têm e tal, e aí foi uma grande honra, mas foi um grande “e se…” Um sonho ali, meio que surgiu fazendo as músicas mesmo, e ter essa interação no início do ano.
Mario: se parar pra pensar, nenhum feat foi muito calculado, né?
Augusto: É, todofeat nasce do “e se?”. Se tal pessoa participasse da música tal, era legal.
Bernardo: Mas tem um lance de também escolher pensando no que que tem pra agregar, não é umfeat pelofeat, porque eu acho que hoje tem sido muito uma ferramenta de marketing, e é tudo bem ser, acho que pra gente é também, de alguma forma, mas não pode ser só isso. Então tem que ser alguém que agrega alguma coisa, artisticamente, acho que nesse caso, por exemplo, não é só porque era a Fernanda Takai. Ela casou muito com a música, trouxe uma camada extra pro disco. Ao mesmo tempo, também não gostamos de ficar fazendo isso muito, porque como uma banda autoral, independente, nós queremos validar a nossa identidade. Então é importante que a gente bote o pé, e acho que acontece também na questão da necessidade, porque esse feat com o Lauiz (banda Pelados) veio muito da gente tentar fazer umbeat por conta própria, perceber que nenhum de nós quatro sabia fazer isso e pensar, “pô, quem seria a pessoa para fazer isso?” E, aí, vem lá Lauiz e arrebenta. Então, às vezes, vem também dessa ideia de “quem salva esse rolê?”
Mario: O Benke (Ferraz, Boogarins) também. Ele pegou pra mixar com o nosso EP, e aí ele propôs “pô, tinha que ter um solo de guitarra nessa música.” Aí nós respondemos “faz aí, então”. Aí ele fez e entrou. Todos os nossosfeats foram meio que, das pessoas que a gente estava ali junto, na época. O Baapz produziu a música, também, conosco, Benke também nesse esquema. A Manu (Julian, banda Pelados) e o Dinho (Almeida, Boogarins), também, foi num momento que tava todo mundo muito próximo, e o Dinho era uma pessoa que meio que apadrinhou, pegou pra criar, né? Um pai. E, aí, ele topou participar. Depois, o Lauiz, também, que fez a master do EP. A Manu e o Lauiz, do Pelados, tava todo mundo ali junto, o tempo todo. E a Fernanda é isso, de pessoas que queremos nos aproximar.
Bernardo: Também não é bater na porta de alguém que a gente nunca falou, né? Sempre tem um contexto.
Amélia: Entender também. Nós podemos admirar muito uma pessoa, mas se também não for meio recíproco, fica meio “Ai, tô fazendo um favor pra essa pessoa, pra essa bandinha, aí de bosta.” Então, acho que tem que ter também esses dois lados acontecendo.
el Cabong: Pensando em Fernanda Takai, como é a relação de vocês com esse rock mineiro dos anos 90? Sempre quando falam de música mineira, falam (com razão), de Milton Nascimento e Clube da Esquina, e esse movimento da época. Mas o rock mineiro dos anos 90 também foi super famoso no Brasil, mas não é tão citado.
Augusto: Nós gostamos muito de Skank, Pato Fu é foda pra caramba. Lembro de ver uma propaganda da TV Integração, antes de ser TV Integração, que era uma música do Pato Fu tocando. E eu ficava “Pô, essa música é muito boa”.
Amélia: Acho que tem que virar canônico igual. É algo que faz parte também do crescimento, da infância e da adolescência de todo mundo. Minha mãe super ouvia os discos.
Mario: Nossos pais ouviam. Clube da Esquina o pessoal lá em casa ouvia, mas não ouvia tanto. Eles eram jovens no anos 90, eles ouviam Skank, Titãs.
Augusto: Minha mãe é bem fã do Beto Guedes.
Bernardo: Minha mãe é bem dessa época. Mas, pô, eu lembro que eu era criança na casa dos meus pais, e tinhaO Samba Poconé(1996). E eu lembro que eu ficava pedindo, “bota Beliral, bota Beliral”, que era “Garota Nacional”. Então, eu ouvi muito isso quando era criança.
el Cabong: Tem uma coisa que vocês falam muito em entrevistas, que é sobre vocês serem uma banda autoral. Tem até a história de que vocês juntaram e não viam sentido em tocar música dos outros e tudo começa a fazer sentido quando Augusto traz músicas autorais. E aí vocês nascem sendo uma banda autoral, pelo que eu vejo. Então, queria que vocês falassem como é isso, que só fez sentido tocando as suas próprias músicas.
Mario: A minha primeira banda, que tocava coverzinho, eu montei quando eu tinha 13 anos. Nós montamos a banda com 20, 21 anos, 19. Então, eu já tinha tido várias bandas que fizeramcover, e eu não queria mais uma banda pra tocar as músicas dos outros. Eu tava na pilha de ouvir muito som da galera mesmo, sabe? Na época era Deus no céu, Boogarins na terra. E aí eu tava com vontade de fazer um som mesmo, todos nós. E aí, a gente viu muito sentido naquilo, muito por essa vontade de fazer um som mesmo. Quando eu falo de meu sonho dessa época e hoje é a mesma coisa, é porque é isso, sempre quis ter banda e fazer som, não só tocar uns coverzinho.
Bernardo: Eu tinha mais de 10 anos de banda tocando coisa dos outros e eu já tava de saco cheio. Mas eu nunca fui de escrever, então eu tinha uma frustração que era eu não aguentar mais tocar música dos outros, mas eu também não sei fazer as minhas. Então quando veio esse movimento de fazer música autoral, pra mim foi uma alívio. Eu acho que se a gente tivesse começado fazendo o movimento mais normal, tocar umas musiquinhas aqui e vamos fazendo uma música ou outra, eu acho que talvez eu não teria tido paciência, porque eu já tava meio saturado de ficar tirando música e acho que até isso também foi uma coisa que mesmo no primeiro momento, quando nós tinhamos pouca música autoral, tínhamos que tocar algum tipo de cover, sempre teve uma coisa de trazer uma identidade, de fazer uma coisa mais nossa.
Augusto: Ah, eu acho que é, foi se encontrar muito nesse lugar mesmo, de fazer nossa música, assim, e todo mundo querer isso, todo mundo querer criar, e é isso, vamos seguindo assim. Aí Amélia entra, aí criando mais ainda, com mais uma mentezinha pensante e tal.
Amélia: Tem muita música.
Augusto: É, muitas músicas, mais de mil músicas. Talvez algum dia façamos um Varanda toca alguma coisa. Nada específico, bom não se comprometer.
el Cabong: A música de vocês muitas vezes transmite uma seriedade, mas quando vemos os clipes, abre outra face de vocês. Lá é onde vocês colocam as piadas, o humor, e é bem engraçado. Como é fazer eles e mostrar essa outra face?
Bernardo: Nós somos malucos assim. Acho que tem uma coisa muito legal, que muitas das nossas ideias começam com uma zoeira mesmo. Tipo, “nossa, mas se a gente fizesse um programa de culinária? Se o programa de culinária fosse um clipe?” Aí, do nada, ele é um clipe. Muitas vezes, começam com a piada. E é um contraponto, também, com essa coisa das músicas às vezes mais densas, do emocional ali. Eu acho que é um jogo interessante que cria camada também. Porque a gente não é só o rock triste, não é só ironia. Isso dá uma profundidade legal pro trabalho.
Amélia: Eu acho que é todo mundo bem-humorado em suas maneiras. Então, acho que… Era inevitável trazer algum tipo de humor no trabalho. Mas acho que gostamos também da seriedade das letras, das músicas e tal. Tem uma ou outra aí, mas nós também não queremos cair nesse buraco da ironia. Pelo menos pra mim, é importante fazer uma outra desenvoltura da linguagem, que às vezes, não temos muito como explorar em outros aspectos e ambientes. Então, é legal também ser uma banda com romance. A gente também não quer zoar nosso próprio trabalho, né? Então, por exemplo, nesse disco, não sei se tem muito espaço para vídeos engraçados.
Mario: É uma coisa mais da contemplação mesmo.
Bernardo: Mas tomando cuidado para também não começar a se levar a sério demais e virar um cabeçudão, sabe? Porque a gente não é assim. É escolher qual lado nosso queremos mostrar em cada momento.
Era inevitável trazer algum tipo de humor no trabalho. Mas acho que gostamos também da seriedade das letras, das músicas e tal. Tem uma ou outra aí, mas nós também não queremos cair nesse buraco da ironia.“
el Cabong: Juiz de Fora não é uma cidade pequena, longe disso. Mas não é o centro econômico de Minas. Como é fazer música a partir daí e rodar o Brasil?
Bernardo: Acho que apesar de não ser o centro de Minas, está muito bem localizado. A gente está perto do Rio; perto de BH; São Paulo não está perto, mas também não está tão longe. Então acho que estamos num ponto interessante. É uma cidade ainda um pouco provinciana, às vezes é difícil você sair dos velhos costumes, quebrar certos padrões. Mas acho que essa proximidade com os centros é muito interessante pra gente. BH foi um lugar que abriu porta pra gente muito cedo; São Paulo também nos abraçou; Rio ainda é um lugar mais difícil, mas também conseguimos ter um espaço lá. Geograficamente, acho que “a gente deu sorte”, de estar aqui. E culturalmente, também, é uma cidade muito rica, que junta gente de vários lugares diferentes das redondezas. A própria banda já é um pouco isso, metade da banda nasceu em Juiz de Fora, a outra metade não. Então já é um reflexo do que essa cidade tem nesse sentido de pluralidade.
Mario: Eu acho que tem muita gente fazendo um trabalho musical que também é autoral, só que em outros gêneros e estilo. É uma galera muito boa da MPB, rap, funk.
Augusto: Aqui tem uma faculdade de música muito boa. Nenhum de nós frequentou a faculdade de música, mas… tem uma galera mais cabeça, mais cabeçudinha. Enfim, sabe ler uma partitura legal.
Mario: E tem a faculdade de cinema, a faculdade de arte. Todas essas paradas também fomentam muito esse movimento, né? Da galera que faz clipe, da galera que faz filme.
Augusto: É isso, Juiz de Fora movimenta bastante a arte de modo geral e está muito ligada com essa questão aí de ser uma cidade meio universitária.
Mario: Eu sinto que a galera está se comunicando bem nas áreas. Eu acho que quando a começamos, em 2019, não sei se era por não conhecer tanto as pessoas, mas eram muitos grupinhos afastados. Hoje em dia eu acho que a galera tem uns grupinhos, mas eles se comunicam bem.
el Cabong: E como é tocar aí?
Augusto: Aqui em Juiz de Fora, eu acho que carece um pouco de espaço para tocar. Apesar de existirem muitos espaços, principalmente públicos, eu sinto que não rola um movimento de acolher mesmo os artistas. Espero que isso mude. O Bernardo correu atrás pra caramba pra fazer acontecer o show que a gente fez aqui, que foi o show de lançamento doas vezes um sonho… Normalmente, costumamos noMaquinaria e oCultural, que são duas casas de show. Normalmente os artistas da cena que vêm tocar aqui, tocam em um desses dois lugares, e aí fica nessa. Não tem muitos lugares que a galera circule.
Bernardo: Eu sinto que não tem tanto um movimento de cena, no momento, de levantar festivais por conta própria, ocupar esses espaços que existem na cidade e tal. Então fica ainda muito refém de produtores de eventos e casas que procuram. Então, pra bandas menores, ainda não tem esse espaço tão forte. É difícil fazer tudo independente.
Então, fizemos esse show de lançamento e foi uma correria danada, porque era espaço público, com toda uma burocracia, mas conseguimos reunir um público que a gente, por vezes, não consegue por conta de grana, né? Tipo, vai tocar em um lugar que uma vez ou outra o ingresso é meio caro, ou algum lugar não é tão acessível. Então falta ainda uma ocupação maior da cidade de forma democrática, para que as pessoas consigam ter mais contato com os artistas sem depender de pagar o ingresso e ficar no show, coisas assim.
el Cabong: Tem uma coisa que eventualmente tá em entrevistas de vocês, uma questão no ar, que parece que em algum momento vocês vão sair de Juiz de Fora. Vocês pensam mesmo? Parece que é o passo que tem que dar?
Bernardo: Eu não diria que é o passo que tem que dar, mas eu acho que cada um dialoga com essa ideia de alguma forma. Tipo, a Amélia já tem passado um tempo lá, fazendo as paradas dela. Eu tenho uma curiosidade de passar um tempo numa cidade maior, então, tipo, das cidades do país, São Paulo é uma que me atrai. Mas falando por mim, não é uma coisa que eu faria, é ir morar pra sempre. Talvez seria mais uma passagem que conectaria a minha vontade de ir e talvez um momento da banda que demanda uma presença física maior no grande centro. Porque aí tem essa coisa de não precisa estar lá, mas estando lá, você vai esbarrar com mais gente, você vai estar presente em mais situações. Então, naturalmente, você talvez corte algum caminho, ou apresse algum movimento. Talvez seja uma coisa que a gente pensa em fazer, né? Cada um tem a sua perspectiva disso.
el Cabong: Para além da música, o que é que vocês gostam de fazer? Lugares que vocês gostam de ir, o que é que vocês gostam de assistir, o que são essas coisas favoritas suas para além do universo da banda?
Mario: Eu gosto de sair pra assistir show, é o lance. Toda banda que toca aqui eu provavelmente vou estar lá. Gosto muito dePokémon, jogar bola, gosto de uns AMV, assistir um anime, jogar umMinecraft.
Augusto: Eu acho que a gente, pelo menos eu e Mario, a gente flutua aí nesse universogamer. Tem uma galera que consome a banda Varanda, que gosta também de uns joguinhos e tal. Nós criamos, há um tempo atrás, um servidor deMinecraft da varanda. Vimos depois que umas bandinhas fizeram o mesmo. Já fizemos aí, já fomos referência. Eu acabei a segunda temporada deTwin Peaks (1990 – 1991), finalmente.
Amélia: Assistir coisa de maluco. Audiovisual.
Bernardo: Eu gosto de novela. AssistoMalhação dos Anos 2000 com muita frequência. E eu gosto de simuladores esquisitos, comoSupermarket Simulator. Tá simulando eu tô fazendo.
Amélia: Eu gosto de cozinhar e fazer vídeo.
Mario: Eu gosto de cozinhar também, fazer coisinhas de casa
Amélia: É verdade, o Mario é dona de casa. Eu também sou, também gosto. Todos gostamos de palavras-cruzadas e viajar também. Ninguém gosta mais de viajar do que eu, mas todo mundo gosta.
el Cabong: E, assim, e pra vocês quatro, quais são os seus clássicos na música?
Augusto: Boogarins,As Plantas que Curam (2013),Manual(2015). Milton Nascimento pra mim é tipo Deus.
Amélia: Fiona Apple,The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do (2012); Kate Bush,Hounds of the Love (1985) eThe Kick Inside (1978); Talking Heads.
Mario: Tudo que eu faço é Black Sabbath. Mas não sei, pensando aí no que a gente sempre volta, acho que é isso mesmo. Não sei você, mas eu sempre fico com a sensação de que tem tantos clássicos. É tanta fonte de onde pegamos as coisas que fica meio confuso na hora de sintetizar numa coisa só.
Amélia: Por isso que a gente está ficando cada dia mais insano mentalmente. É muita coisa. Acho que tem que ir tirando.
el Cabong: Para a finalíssima aqui. Vocês falam da Bahia em algumas músicas, como “Bahia e Aviões” e “Gostei”. Qual a relação de vocês com a Bahia? E qual a expectativa pra fazer pela primeira vez shows aqui?
Augusto: Pois é, né? Eu já fui de carro pra Bahia. É meio… é meio maluquice. Fui pra Vitória da Conquista de carro, e você tá por mais tempo em Minas Gerais que na Bahia, é muito chão mineiro. Eu sempre achei bonito Salvador, bonito a Bahia. Em “Gostei”, eu nunca tinha ido à Bahia, “Bahia e Aviões” foi o momento que eu fui à Bahia. Eu voltei de lá de avião. A primeira vez que eu andei de avião foi voltando da Bahia.
Amélia: Caraca, olha a Bahia aí. O Mario vai passar mal no avião. Vai ser a primeira vez dele viajando de avião, indo pra Bahia. Vamos pedir pra tripulação aplaudir. Mas tem uma coisa do mineiro mesmo, né? De ser fissurado com praia e mar. Então tem muito mar também, né?
Augusto: É isso. Mas a Bahia tem nuances. Eu acho maneiro a Bahia de modo geral.
Amélia: Eu nunca conheci Salvador. Estou muito animada.
Augusto: É bom, galera. Vocês vão gostar.
* Ciro Garcez é formado em Jornalismo e BI em Humanidades pela UFBA. Curioso por cultura e indústria cultural.







