Entrevista Tangolo Mangos: Pedágios y Caronas: Os amigos, os sons e as dores que fazemos no caminho da profissionalização

Tangolo Mangos

Uma dos principais nomes da cena contemporânea baiana, a banda Tangolo Mangos partiu para São Paulo e tenta se estabelecer na cena nacional enquanto lança seu mais novo álbum. Nesta estrevista, parte dos integrantes fala um pouco de tudo isso e muito mais.

por Ciro Garcez*

O Tangolo Mangos já é de casa. Sim, é de Salvador e já tem algum tempo que o el Cabong acompanha a carreira da banda e dos seus integrantes, é só dar uma pesquisada (ou clicar aqui) que dá para ter um pouco o retrato da estrada da banda, fundada em 2017, que agora lança o seu segundo disco. Uma banda que dá seu primeiro passo no rock, mas como eles próprios dizem sobre a própria identidade musical, são camaleônicos. Seu primeiro álbum,Garatujas (2023), tem esse nome evocando os primeiros rabiscos da infância, que veja bem, não são rascunhos ou erros, é a liberdade de reconhecer o papel, o lápis, a tinta, e poder criar. Felizmente as mentes de Bruno “Neca” Fechine (vocal e percussão), Felipe Vaqueiro (vocal e guitarra), João Antônio Dourado (bateria), João Denovaro (vocal e baixo) e Théo Kiono (guitarra) tem se proposto a não errar, mas à criação e experimentação. Tem disco de uma hora? Tem. Tem disco de 30 minutos? Tem. Tem experimentação? Tem. Tem música intimista? Tem. Tem música para fazer rodinha? Tem! (posso dizer isso como testemunha). Uma banda que ainda por cima consegue enfiar todo tipo de assunto: política, dominó, trilha, insônia, amor, dados, Isaac Newton, curtição… Uma antena que sofre interferência de múltiplos lugares, um canivete soteropolitano, eu diria. Agora eles jogam no mundoPedágios y Caronas, lançado em maio de 2026. (Veja mais informações do show de lançamento em Salvador)

Segundo disco que a banda faz, tem alguns elementos inéditos: tem um co-produtor, Apu Tude (Estúdio Ori, ex-Úteros em Fúria); gravado em um estúdio profissional; sai por um selo. Dá pra fazer várias metáforas para entender porque esse é um disco “pra frente”, como se já não bastasse a alusão à estrada no título, a banda cria um álbum que faz jus a energia encontrada nos shows da banda. É mais uma pincelada, uma paleta de cores, no quadro que a banda tem de como encara a gravação e a música, o que dá sempre uma expectativa sobre como vai ser encarada a música na próxima produção.

A banda passa por um momento de transição, com a maioria dos seus membros morando em São Paulo, ou seja, o título dessa entrevista poderia ser estiloVelozes e Furiosos, algo comoTangolo Mangos: Desafio na Marginal Tietê. Combina com o momento da banda, em pisar fundo atrás dos sonhos e da sustentabilidade financeira como músicos (que é bom salientar, é uma profissão), depois de um disco que se refere a infância. Não sei se ainda é a maioridade da banda, mas claramente enfrentam as dores do crescimento enquanto se divertem. Vão na “ida messiânica para São Paulo”, como diz Felipe Vaqueiro, ou como apelida uma amiga deles, Olga, eles são a figura do “ retirante moderno cibernético”. Então trago essa entrevista para o el Cabong, como os três retirantes da banda, Bruno “Neca” Fechine, João Antônio e Felipe Vaqueiro, uma conversa longa pique a BR 101, que passamos pelo álbum, humor, openings de animê, insalubridade em Salvador, o poder da amizade, umas dicas culturais aí, ou seja, é resenha. E ATENÇÃO: junto com a entrevista tem uma playlist do que eles estão escutando na turnê doPedágios y Caronas.

el Cabong: Pedágios y Caronas é o segundo disco de vocês. Quem olha só pra ele pensa que vocês são super recentes, mas vocês tem quase dez anos de banda. O que é o Pedágios y Caronas para vocês? Como foi concebê-lo?

Felipe Vaqueiro: Ele é um marcador e encapsula o tempo, como uma síntese, no que vem acontecendo. Eu sinto que oGaratujas (2023) tem muito disso também, de ponto da carreira. É o nosso segundo disco, mas é nossa primeira vez gravando ao vivo, a primeira gravandohigh fi, primeira vez gravando em estúdio com estrutura mais padrão de mercado… Como você falou, a gente é uma banda com quase dez anos. É uma mistura da gente já ter passado por todos esses anos de experiências mais voltadas ao contexto de produção caseira, mais independente, guerrilha, etc. A gente se viu pela primeira vez num contexto estrutural um pouquinho mais padrão de mercado. Então esse disco, em algum sentido, representa para mim esse lugar da carreira de começar a galgar coisas que a gente não galgava. Eu digo a nível técnico, não falo nem a nível de onde o disco vai chegar, o fato dele ser mais radiofônico, talvez mais pessoas potencialmente possam ouvir ele, pensando mais na feitura do disco, sabe? Porque assim, a nível estético, etc, eu acho que é só a nossa pesquisa se aprofundando e seguindo, mas acho que tem esse marcador diferencial. Essa é a primeira vez que algumas coisas aconteceram. Primeira vez soltando com um selo maior; primeira vez tendo um coprodutor, Apu (Tude).

João Antônio: Primeira vez que a gente não lida com mixagem, masterização… esse tipo de coisa que, querendo ou não, atrapalha um pouco o processo criativo, deixando tudo mais estressante assim.

Felipe Vaqueiro: E também mais profissionalizado a partir do momento que tem pessoas colaborando. E isso vale para outras coisas, como João falou, não só pra mixagem e master, mas também Tota (Tota Fernandes), nossa produtora, que acho que também representa muito esse momento de profissionalização. Tota é uma pessoa que, ao longo desses dez anos, já tá também na caminhada em vários projetos. Esse disco, essa turnê, esse momento representa isso, sabe? Todos nós, enquanto coletivo, nessa jornada da profissionalização.

el Cabong: Muitas resenhas sobre Pedágios y Caronas  abordam que você viajaram muitos quilômetros. É um fato que vocês fizeram megas turnês, no sentido que viajaram muito, que tocaram em todas as capitais do Nordeste, por exemplo, que é uma coisa que normalmente bandas indies não fazem. Lógico que tem o fato de vocês serem de Salvador, mas vocês bancaram irem em todos os estados do nordeste, foram para a Europa, foram em todos os estados do sul e sudeste. Muitas pessoas pensam que o álbum é sobre isso também, mas assim, pelo menos eu, quando escutei e escuto o álbum, não sinto isso. Eu senti outras coisas, como vocês colocarem mais a energia dos shows que vocês fazem, mais repertório musical também. Vocês tocam vários estilos, e é isso, não que o Garatujas não tenha isso, ele tem, e o Pedágios y Caronas abre um leque maior de ritmos e estilos. Aí eu queria entender, sobre o que é Pedágios y Caronas?

João Antônio:Pedágios y Caronas é sobre os amigos que fazemos pelo caminho.

Felipe Vaqueiro: Pô, essa pergunta é muito curiosa, porque realmente as músicas precedem o título. E as composições em si precedem até as viagens, por mais que os arranjos, a energia e muita coisa tenha sido concebida paralelo/ao longo da feitura dos shows. Pra mim isso apresenta uma coisa curiosa também, que eu acho que é essa coisa de batizar. Você batiza o projeto com um certo nome. Às vezes você batiza uma pessoa de João, mas ela tem cara de Antônio, e é por isso que tem João Antônio, mantém os dois juntos, sabe? Aonde eu quero chegar com isso é que tipo assim (risos de João Antônio)… mas é sério, tipo assim, realmente ele é muito além dessa parada. Acho que o nomePedágios y Caronas vira uma representação mais ligada a nossa temática existencial e uma brincadeira com a carreira do que com as músicas em si. Eu sinto isso.

João Antônio: É isso, não que as músicas tenham a ver especificamente com essa coisa da turnê, dessa temática dos pedágios, das caronas e viagens. Só que ao mesmo tempo eu sinto que é uma coisa que se retroalimenta, nesse momento que a gente tava viajando pra caralho, indo para turnês na Europa, viajando para todos os estados do nordeste, sul e sudeste; eram músicas que a gente tava botando pra fora, arranjando, tocando nos shows, víamos que o público gostava. Então apesar do nomePedágios y Caronas não tem a ver com as músicas, simbolicamente (na nossa cabeça), faz muito sentido toda essa amálgama neste título. Não sei se eu me fiz entender, mas é isso mais ou menos.

Felipe Vaqueiro: Eu acho que bateu o que você falou. Porque no final tem essa coisa que você falou do nome enquanto uma coisa que as pessoas passam a dar um aspecto de importância que querendo ou não o nome acaba tendo uma transferência de poder, de imagem poética pro resto, a ponto de as pessoas, por causa de duas falas de Neca em “Dominó” falarem “uau, essa música é sobre migração”.

João Antônio: “Essa música é sobre morar em São Paulo”.

Felipe Vaqueiro: Então eu acho que algumas falas e o título tem esse poder de indução. Eu sinto que no final é um pouco isso que João falou.

Bruno “Neca” Fechine: É isso, eu acho que a parada não tem nada a ver com as músicas, mas é só umavibe, tá ligado? Que é avibe da estrada pra gente. Eu acho que também tem a parada que eu sinto que é meio que a narrativa, da parada que você falou da carreira. Tipo assim, é o nosso momento e estamos desse jeito. Não que isso tenha sido consciente, mas eu acho que acaba indo para esse lugar de “Pô, esses caras estão viajando pra caralho, tocando em vários lugares” e o disco tem essavibe. Tipo assim, acho que é contar um pouco essa historinha também, querendo ou não.

João Antônio: Uma carga muito simbólica muito grande pra gente, eu acho.

Felipe Vaqueiro: É, tem um lance, porque de certa forma o nosso próximo disco também tem uma temática com isso, indireta, que a gente não vai falar ainda, porque ainda não tem um nome. Mas é isso, é o que nos permeia: o giro, a circulação, o movimento.

Acho que é como se fosse um resultado laboratorial mesmo de tempo, de ouvir muita música junto, coletivizar referências, de querer testar essas coisas e de ter músicas que permitam isso.

el Cabong: Então vocês já tem outro disco gravado?

Felipe Vaqueiro: Sim, a gente gravou ano passado, inclusive. No ano passado nós gravamos dois discos.

João Antônio: Nós gravamos um no início do ano e o outro no final do ano, foi gravado lá em Natal.

Felipe Vaqueiro:Pedágios y Caronas foi em março lá com Apu, em Salvador, e em Natal, na residência DoSol, gravamos esse segundo.

el Cabong: Como surgiram as músicas do Pedágios y Caronas? Pensando em uma linha temporal em que elas ficaram sendo gestadas até dar a luz. Elas vieram antes do Garatujas?

João Antonio: A maioria veio antes doGaratujas.

Felipe Vaqueiro: Na prática ohigh spamdas músicas vai de 2017 a 2024. Tem músicas que eram bem mais novas e músicas mais velhas assim, e nessa meiuca aí, onde eu acho que tem a maior parte, foi feita antes doGaratujas sair. Ali, entre produzir o álbum e antes de sair, sabe?  Algumas foram logo depois de sair o álbum, mas a maioria foi na meiuca. E assim, nós levamos muito tempo produzindo oGaratujas, na pandemia nós já estávamos produzindo ele, só que interrompemos. Então tipo assim, de “Açafrão”, que é da pandemia, a “Dominó”, que vem logo depois de Neca se mudar pós-pandemia, 2023 se eu não me engano, quase todas as músicas estão nesse bolo. As que não estão são as ‘Gerais”, que são mais velhas.

João Antônio: “Lua de Fogo” também é velha, não?

Felipe Vaqueiro: Em “Lua de Fogo”, o assobio é velho, mas a composição em si é pós-Garatujas. Acho que as mais novas seriam “Ideia na Cabeça”, “Sofá” e “Dominó”, nessa ordem inclusive. Então sim, na prática, é como uma coisa que Vicente, da Enorme Perda de Tempo (Vicente Tassara), falou uma vez, que a temporalidade dos lançamentos de carreira musical é sempre assim, acaba que o público tem meio que essa percepção que a obra chega em um certo tempo e que para o artista ela parte de uma premissa temporal mais antiga. E aí, como você falou, em um ano lançou muita coisa, pela primeira vez a gente conseguiu dar vazão a muita coisa em um ano, por mais que não tenhamos lançado tudo. Tem músicas minhas muito antigas que finalmente vão estar sendo gravadas. Então eu sinto a pergunta também em como juntar essas escolhas, fazer essas músicas novas funcionarem com essas músicas velhas e a razão de escolher elas.

As escolhas iniciais mudaram muito. Músicas que começamos a fazer nos shows, por um experimento, até quase de brincadeira, nós chamávamos de “Canção de Verão”. Nós tínhamos acabado de lançar oGaratujas, João (bateria) e Deno (baixo), enquanto cozinha, estavam muito empolgados com algumas bases. Começamos a fazer algumas músicas talvez um pouco SKA assim, e aí eu acho que foi nessa que veio “Skarência” e “Ohayo/Saravá”. Aí logo depois “Armadura Armadilha”, depois “Dominó”, então tipo assim, eu sinto que essas músicas acabaram dando uma certa orientação,vibede show. Não que o show seja só essas músicas, mas é o que Deno acaba chamando de “disco pra frente”. Só que ao mesmo tempo que era um disco pra frente, nós queríamos dar vazão a outras coisas, então por exemplo eu e João fizemos um arranjo que há muito tempo brincávamos, o de “Gerais do Rio Preto”, que é uma música velhaça nossa em parceria. “Gerais do Rio Preto” tinha uma irmã mais nova que era “Gerais do Vieira”, simbolicamente pra gente não tinha como botar “Gerais do Rio Preto” sem colocar “Gerais do Vieira”. Assim como desde a época doGaratujas, nós queríamos colocar uma música de Deno, colocamos “Animais Noturnos”, só que já tinha “Açafrão”, que sobrou, mas independente do que, no próximo teria essa música. Então foi encaixando assim, sabe. E aí no final, sei lá, “Uma Ideia na Cabeça” é uma música muito aleatória que no final eu cheguei e mostrei, e os caras “bora embora, bora gastar onda”, um pouco não sem querer, mas foi fluindo, sabe? Mas, de maneira geral, acho que ela exigiu testes ao vivo, brincadeira em show e ensaio. Nós fizemos em Salvador um show, “Canções Prematuras”, no qual trouxemos um monte de música que não estão gravadas, que não gravamos nem na residência DoSol e nem nesse disco, muito nessa intenção de qual músicas e arranjo entre nós faz sentido, que música flui sem muito esforço, não que tenha sido algum critério, mas paro para pensar na história do processo e é um pouco disso: Teste de gravação ao vivo com a mesa de som todo mundo tocando junto e vendo as guias, ensaios, show… o fato de Necão também estar longe, então ele participava de algumas coisas mandando as guias dele, tanto com músicas que vão sair depois, mas também no caso de “Dominó”, ou interpretando coisas em cima das que nós mandávamos. A escolha foi um pouco orientada pelo que foi vindo. Em outros momentos, por exemplo, Pedrinho (Pedro Viana, ex-guitarrista e ex-vocalista), quando tava na banda, ele parava e ficava questionando sobre quais temas nós estávamos contemplando liricamente, e acho que nós nem fizemos isso nesse disco, foi tão fluido, nós fomos encaixando as músicas que acabou ele tendo uma miscelânea de temas, mas não teve esse pensamento de “estamos precisando de uma música com um tema mais político, amoroso, etc”, não teve isso não.

João Antônio: O álbum não tem uma temática específica, ele foi só no sonho mesmo.

el Cabong: Quando pegamos o Mangas a Caminho da Feira nº1e chegamos em Pedágio y Caronas, se vê que vocês brincam muito com novas melodias, ritmos, estilos musicais (pessoalmente eu acho que é um grande disco de música de animê). Tem isso que é diferente do Garatujas por exemplo, e aí eu queria saber como foi colocar essas referências, esse laboratório, para incorporar esses estilos no som de vocês.

Felipe Vaqueiro: Pô, sabe o que acho interessante nessa pergunta?  É que na prática nós já ouvíamos muito dessas coisas há muito tempo e que eu acho que esse disco acaba sintetizando isso. Eu não lembro da razão que nós ficamos ouvindo muito essas músicas juntos e acabarmos querendo testar essas coisas. É doido você falar isso, porque nós já temos alguma relação por ser música de animê, até por ter sampleado animê notngl_mngs.rar (2020) e em outro contextos assim, mas acho que tem vários fatores. Por exemplo, eu vou dar um fator que acho que indiretamente a ver, desde antes de entrar na banda, Théo (Kiono, guitarra) já era uma influência musical muito grande, meio que eu comecei a ouvirfunkamericano, tipo Funkadelic por causa dele assim.City Pop, por exemplo, eu acho que foi o primeiro contexto que tivemos a oportunidade de aplicar. Eu e Théo tocamos coisa deJ-rock há muito tempo, todos nós temos um pouco dessa linguagem, desse lugar especificamente do animê. Levando para outros gêneros eu acho que vai também, essas escolhas que nós sempre conversamos, ouvindo deThe Beatles aDaft Punk, coisas sobrepop, ou sei lá, brincar de Charlie Brown Jr.,ska,  não são referências que não existiam no nosso bolo, mas eu sinto que é a primeira vez que conseguimos colocar elas na roda de uma maneira que faz com que, por exemplo, você castelar nisso. Acho que é como se fosse um resultado laboratorial mesmo de tempo, de ouvir muita música junto, coletivizar referências, de querer testar essas coisas e de ter músicas que permitam isso. Queira ou não queira, o fato da sucessão de acontecimentos de: Théozão ter em algum momento da vida ter ouvidofunk; depois nós termos brincado de tirar músicas de Marcos Valle, Funkadelic e etc; me fizeram compor “Ohayo/Saravá” numa pegada defunk como ela nasceu, inclusive), que muito naturalmente foi a maneira como os meninos tocaram, e nós ouvíamos muito “I Believe in Miracles” daThe Jackson Sisters.Eu tô dando esse exemplo só porque pra mim ele exemplifica isso, sabe? É o tempo também de toda uma linguagem que compartilhamos, não só deglutida por nós, mas compartilhada e testada, e ver isso foi um terreno fértil, que é a canção.

João Antônio: Além dela ser tecnicamente orgânica também, eu acho.

Felipe Vaqueiro: Não era tipo um “vamos fazer um ska”. Não, a música já nasceu enquanto umska, quando eu toquei no violão já era umska ou um frevo. O nome da música é “Skarência” antes da gente pensar na música ser umska. Neca também fez ‘Dominó”, e pra mim sempre caía numa coisa meioroadzinha, pra mim e pro pessoal foi um prato cheio pra isso. Deno propor as coisas de “Açafrão” e ao mesmo tempo em paralelo ele e João treinando clave de vassi (um ritmo de candomblé) há muito tempo, há muitas jams, e naturalmente inseriram em “Açafrão” e em “Dominó”. Eu acho que essas coisas da linguagem vão realmente se inserindo. Esse caso de abertura de animê, em particular, eu acho que é um mérito da canção em particular, obviamente tem o fato da gente ter essa conexão, mas acho que tem uma coisa que nos une que é o…

João Antônio: ONE PIECE

Felipe Vaqueiro: One…Não, eu ia falar o apreço ao bom gosto japonês em diferentes eras da produção musical. Tô mentindo galera? *risos não acusatórios de alguém*. Não, tipo assim, é porque a gente tem essa coisa docity pop, música tradicional, a gente também tem do j-rock animê, só que contemporaneamente também tem essa galera, esses caras tipo The Knockers, que nós ouvimos enquanto coletivo há muito tempo. É uma banda japonesa que Théo colocou pra gente ouvir, Neca ficou viciado uma época e Pedrinho (ex-guitarrista) também. Tudo isso não é de hoje, isso precede bastante a gravação do disco em si, mas acho que tudo isso evoca esse lugar um pouco do que você tá falando, sabe?

João Antônio: Teve também uma playlist específica doyoutube, que é a do passarinho. Ela é umaplaylist aleatória assim , tipo “As Melhores do J-Rock de 2024”, nós ficamos viciados nessaplaylist. A gente colocou ela em turnê um milhão de vezes, ia pra casa de Théo e botava essa parada e ficava ouvindo pra caralho. Querendo ou não, foi uma época que ficamos muito… maravilhados pelos arranjos da música japonesa.

Felipe Vaqueiro: Asendingsde animê nos influenciam muito (nota de Vaqueiro sobre endings: músicas emocionantes, melódicas e lentas), mas eu acho que esse bagulho das aberturas/openingsde animê (nota de Ciro, o entrevistador, sobreopenings: músicas emocionantes, enérgicas, grudentas e rápidas. Para mais, pesquise “We Are Thriller Bark”), esse andamento alto e por outros motivos da vida, nós também queríamos fazer, como disse Deno, “músicas pra frente”, talvez muito por essa coisa do show. Acho que uma coisa retroalimenta a outra, sabe? As músicas de animê foram um prato cheio para o show, mas não é como se tudo fossem músicas de animê. Para mim é música de animê mesmo, enquanto referências claras, “Armadura Armadilha” e alguns momentos de “Ohayo/Saravá”.

João Antônio: Imagine umAMV de ‘Armadura Armadilha” só com o Alphonse do Fullmetal Alchemist (risadas sinceras de todos).

(nota do entrevistador sobreAMV:Anime Music Video, normalmente uma cena ou recortes do animê com uma música que não estava no animê, mas faz todo o sentido na edição, para mais, pesquise “Jojo Bizarre Adventure Part 4 OP AMV Tim Maia” ou “Rock Lee vs Gaara – Linkin Park”)

Felipe Vaqueiro: Tem que correr véi. Fizeram o nossoAMV, colocaram Cavaleiros do Zodíaco com “Armadura Armadilha”. Mas é isso, eu acho que acaba nos contagiando, eu acho que ela abrir o disco acaba contagiando nisso de uma certa forma.

João Antônio: Velho, “Armadura Armadilha” é a históra do Shun (cavaleiro de bronze de andrômeda em Cavaleiros do Zodíaco) *risos contidos*. O Shun é o único cavaleiro que tem poder sem armadura, tá ligado?

Felipe Vaqueiro: É verdade, é o cara das correntes, né?

(correção do entrevistador: na verdade todo cavaleiro tem poder sem armadura, o poder vem do cosmo, a armadura só amplifica isso e algumas tem poderes ou armas especiais, o caso de da armadura de Perseu)

O álbum é o cartão de visitas, mas eu acho que o show é a experiência completa, a razão pela qual nos mobilizamos

el Cabong: Pensando o clima do álbum, que tem essa energia de show, o que é o show para vocês, Tangolo Mangos? O que é esse lugar?

Bruno ‘Neca” Fechine: Rapaz… difícil isso aí, véi. Eu acho *risadas do nada, respira fundo* que o show… o álbum é o cartão de visitas, mas eu acho que o show é a experiência completa, a razão pela qual nos mobilizamos, da forma como nós vendemos as músicas também, é muito atrelada ao show. Pô, e eu acho quePedágios y Caronas é muito bom porque tem muito a ver com o show, e nós fizemos isso, o que ficou muito bom e é realmente o show ali.

João Antônio: É uma coisa que nós ouvimos muito também, sobre como já gostavam do nosso álbum, mas o show é muito melhor.

Felipe Vaqueiro: Ou até o contrário, curtiam o nosso álbum, mas amou o show. Tinham pessoas que tinham uma relação de boa com o disco, mas que com o show a parada se transformava.

Bruno ‘Neca” Fechine: Eu acho que nós ganhamos muitos seguidores e fãs nessa parada de colar mesmo no show ou nos lugares e fazer um show massa e com muita energia, e as pessoas ficarem meio surpresas, estavam esperando outro bagulho assim. É o carro chefe do rolê.

Felipe Vaqueiro: É isso, ele acaba sendo um ponto de todo esse ciclo de música. Não que ele seja o único e nem necessariamente o principal (até porque tem pessoas que tem uma relação muito maior com o disco ou com artistas), mas eu sinto que, pelo menos pra gente, ele se tornou um lugar muito de… “conexões reais e verdadeiras, sabe? Com o público, meu” (leia com sotaque paulistano da Vila Madalena), e pior que é verdade.

João Antônio: Eu ia falar isso, acho que é o único jeito realmente que o público se conecta de fato com o artista, estando presencialmente na frente dele, ele tocando o instrumento.

Nós termos vindo de um lugar marcado pela precariedade, não é do dia pra noite que estamos superando isso. Na verdade eu acho que esse disco também é uma esperança da gente começar a galgar novos lugares.

Felipe Vaqueiro: Ainda mais o nosso contexto, de banda de pequeno/médio porte, não só a gente, mas todo o nosso nicho, que realmente, pelo bem e pelo mal, conhece e interage com muitos fãs, troca ideia com muitas pessoas, começa a integrar certas redes. Eu acho que isso é que nem quando estávamos lá em Salvador, lá pra 2019, tinha um irmão de uma amiga que virou pra gente e falou “Pô, é muito legal o show de vocês, porque eu sinto que a gente nem é muito amigo, mas eu sinto que todo mundo que tá no show vira amigo de vocês”. É isso, nós estamos em uma mesma galera, confraternizando com a mesma coisa. Eu sinto que o nosso show tem muito essa potência, sabe? Não só no nosso, shows como um todo e o nosso também, por vários motivos. No show da Gastação (Gastação Infinita) eu sinto muito isso também, em um mesmo lugar, na mesma onda, e uma espécie de laboratório que o público também está aberto a isso. Nós também fomos nos entendendo nesse lugar como um local de expressão. Eu acho que tocar muitas vezes, em muitos lugares, vai criando uma relação com o palco que ela vai sendo estimulada por novas coisas. Nunca que ela vai ser sempre perfeita, mas ela vai te permitir errar, testar e fazer coisas que você não faria, seja do ponto de vista da performance enquanto músico, também quanto um corpo, algo vivo que está acontecendo ali. A ideia que os shows não precisam ser perfeitos, como Necão sempre fala, ele precisa da nossa energia, que haja uma troca de artista e público e público e artista. É melhor o show quando as pessoas se movem e nós somos mobilizados por isso do que um show que o som tá top e a galera tá olhando sem vontade. Lógico que depende, tem muito show que a galera tá sem vontade, com cara de bunda, mas o show é top. Eu sinto uma coisa sobre esses shows com o público brasileiro, que vivemos a estrada, que o show é esse lugar de realização mesmo, você tá no perrengue, várias dívidas, vários B.O., aí você tá numa casa meio muquifo, pensa que você tá ali porque é isso mesmo, é o bagulho, você quer fazer virar, e aí você conhece uma pessoa que viajou muitos km com os amigos dela pra ver o show, é realmente meio incrível. Como é a palavra mesmo…?

Bruno ‘Neca” Fechine: Engrandecedor?

João Antônio: Legal?

Felipe Vaqueiro: Não. É dar um motivo pra você continuar fazendo as coisas (nota tardia: propósito). Porque é isso, esse disco, pra quem vê de fora acha que tá virando, porque nós tocamos de madrugada, tocamos em tantas capitais, fomos pra Europa, tá indo pra messiânica ida pra São Paulo, etc. Mas na prática, todos nós, ainda que tenha essa lugar de privilégio da classe média de Salvador, nós estamos em vários ângulos para fazer a parada virar. Inclusive não só como indivíduos, mas também no próprio projeto, Tangolo Mangos, apesar de ser um nome que começa a ser expressivo no cenário nacional independente, a nossa penetração em cachês e condições de trabalho e salubridade… enfim, qualquer pessoa de Salvador no contexto vai entender o que eu tô falando. Nós termos vindo de um lugar marcado pela precariedade, não é do dia pra noite que estamos superando isso. Na verdade eu acho que esse disco também é uma esperança da gente começar a galgar novos lugares. Claro, sem abandonar a nossa autonomia e fazer o show que queremos fazer, politicamente chegar no lugar que queremos tocar, mas também de conseguir virar algumas coisas, como conseguir trabalhar com algumas pessoas, como Tota, nós mesmos termos mais dignidade de trabalho. Queira ou não queira, também é um trabalho meio punk, ainda mais no nosso contexto de shows, nós nos colocamos em muitas situações de insalubridade normalmente, nossa classe em si faz isso. E eu acho também que esse disco, querendo ou não, isso é muito um pedágio da carreira, é zero carona, pegando uma dicotomia. Os discos também vem com uma espécie de esperança nossa também. Eu lembro de uma entrevista que Neca falou sobre isso: até que ponto nós vamos estar com energia para continuar tocando tantas vezes, se mexendo tanto no palco, fazendo tudo que estamos fazendo, nessa quantidade? Não sei, realmente eu não sei, mas acho que não é um tempo tão longo. E aí pra mim é isso, sinto que é o momento de fazer virar.

Bruno ‘Neca” Fechine:Uma luz no fim do túnel.

Felipe Vaqueiro: Mas como diria Deno, às vezes a luz no túnel é o trem, então eu espero não ser atropelado.

el Cabong: Isso que vocês falaram tem muito a ver com a próxima pergunta, e que coincidentemente os três que estão nessa entrevista foram os três que foram para São Paulo. Queria entender essa mudança de vocês para São Paulo e essa saída de Salvador, além de falar das condições que a cidade dá. Diferente de São Paulo, Salvador não tem uma farta infraestrutura para públicos médios, assim como vocês tem mais público ouvinte em São Paulo no streaming do que em Salvador.

Felipe Vaqueiro: Isso que você tá falando me faz pensar muito sobre esse substrato que São Paulo tem mais que outras cidades do Brasil, mas em particular a própria Salvador. Mais abundância em equipamentos culturais de pequeno/médio porte, também uma demografia e uma sensibilidade de logística de transporte público que faz com que o público consiga acessar mais, por mais que seja uma cidade também marcada pela desigualdade, ela consegue ter seus acessos mais democrático, isso enquanto público. Enquanto artista, ainda que tenha “n” questões de trabalho também, é um lugar com mais pessoas trabalhando, mais locais e com um serviço um pouquinho menos precarizado e mais profissionalizado. Onde você consegue mais trabalhos voltados à área, tem mais oportunidades também.

João Antônio: Aqui as condições de insalubridade são bem menores também.

Felipe Vaqueiro: Não que aqui não tenha, mas aqui é mais difícil você ver alguém reclamando porque você pediu água mineral, não lembro de ter visto isso aqui em São Paulo. Em Salvador eu vi isso acontecer mais de uma vez.

João Antônio: Já negaram água pra gente mais de uma vez.

Felipe Vaqueiro: Isso em diferentes casas, não querendo apontar dedo, mas por uma questão complexa, que vai entrar em várias coisas também: financeira, estruturais, históricas, culturais. Mas que nos levam realmente a pensar nisso. O primeiro ponto que me leva a isso foi uma conversa que eu tive com Zé (integrante da Colibri) quando éramos mais novos, antes da pandemia, muitos momentos que nós estávamos com Colibri, Astralplane, BAGUM, Flerte Flamingo. Nós estávamos em uma onda de conversar, de estar em coletivo, e Zé trazia essa coisa quando falávamos dessa coisa de ir pra São Paulo, de fazer essa ida não ser uma necessidade, de fortalecer esse circuito. Essa coisa que Zé Neto fala sempre me bate enquanto uma dúvida prática, é quase um desafio estrutural mesmo. Salvador é a cidade da música, alegada assim pelas políticas públicas, mas como ela de fato poderia ser uma cidade para o músico e para o artista. É que nem quando fico pensando quando passamos pelo comércio ou algum lugar de Salvador assim, que é marcado por ter vários imóveis, uma situação marginalizada. Como é que urbanisticamente/política/publicamente, essa união entre o Estado e, quem sabe, o terceiro setor conseguiriam resolver esse problema? Porque é um problema que não nos cabe só como indivíduos, sabe? Ele vai para o lugar coletivo , em que não faz sentido nós brigarmos por algumas coisas? Nossos amigos de Portugal ficaram impressionados pelo fato de estarmos pela sobrevivência sempre, que somos muito mais em número, mas não conseguimos nos unir por coisas básicas, como comida na casa de show, cachê mínimo. Não que nós precisemos ter uma grande estrutura. Isso pra mim me trouxe esse estalo, tanto é que eu e Tota fazemos parte de uma associação de artistas nordestinos que está em construção, que reúne produtores, músicos e artistas e pensa sobre redes, atividades coletivas e circuitos que nos integrem, o Brasil também é grande, é difícil fazer isso tudo. Sair de lá de Salvador, no final das contas, me faz sempre voltar a pensar lá, como tornar isso aqui mais saudável. Não é como se Salvador não tivesse coisas também, mas tipo, lembra do baile da Under que era uma experiência específica que existiu por um tempo? Qualquer coisa como o baile da Under não consegue perseverar e conseguir existindo. Ou por que quase todas as bandas da nossa geração acabaram? É meio louco isso também, é uma cidade cruel. Acho que ir pra São Paulo me faz pensar muito em Salvador também nesse lugar, não que me dê solução, me dá mais dúvidas como são as formas de funcionar no mundo e no Brasil. É louco como Salvador tem várias coisas incríveis, mas ao mesmo tempo é muito escrota nesse lugar. De Tangolo Mangos a Zé Ibarra, todo mundo tem dificuldade de marcar coisas lá, sabe? Tem esse denominador comum, e eu sei que não tem a ver com os profissionais e nem com o que é feito lá, eu acho que tem a ver com esse bagulho, de fato estrutural, e nós somos meio que fruto disso.

Acho que ir pra São Paulo me faz pensar muito em Salvador também nesse lugar, não que me dê solução, me dá mais dúvidas como são as formas de funcionar no mundo e no Brasil. É louco como Salvador tem várias coisas incríveis, mas ao mesmo tempo é muito escrota nesse lugar. De Tangolo Mangos a Zé Ibarra, todo mundo tem dificuldade de marcar coisas.

Bruno ‘Neca” Fechine: Também tem uma concentração de renda, aqui (São Paulo) vai ter mais condições. Eu já vi aqui banda de vários lugares do Brasil, inclusive a gente. Para além de não conseguir ter estrutura para uma cena local para Salvador, também essa coisa de artistas de outros lugares não poderem ir e nós não podermos ver isso de “pô, tem essa banda de tal lugar que tá aqui”. Essa galera existe, cola aqui na cidade, toca aqui um show num lugar legal, todo mundo se diverte. É difícil, concentração de renda, mas mesmo assim, até pra chegar é difícil, você pegar um avião é muito caro, não tem um trem que leve pra Salvador. São várias coisas.

João Antônio: Na minha cabeça é um mistério assim. Porque eu lembro daquela época em Salvador, lá em 2018/2017, a épocahype em Salvador, que tinha muita coisa acontecendo. Tinha festival de banda na Irish, tinha show da HAO, tinham várias casas, vários movimentos de vários lugares que eu senti que fazia sentido. Tinha a Commons, o Portela Café, vários locais, várias estruturas que dava pra gente utilizar na cidade. E aí pra mim é inexplicável que depois da pandemia, que pra mim já não é mais tão recente, já poderia ter voltado esse movimento. Essas coisas da estrutura mesmo, não sei. A Commons tinha acabado de ganhar um edital que ia passar um monte de artista irado, um festival que ia ser ao longo do ano, tá ligado? O próprio Radioca deixou de acontecer todo ano.

Bruno ‘Neca” Fechine: Talvez realmente tenha sido um momento histórico, que deixou feridas muito profundas.

Felipe Vaqueiro: É porque, no final das contas, essas coisas, para se sustentarem, precisam de uma série de fatores. Tanto de auxílios e certas garantias do Estado que na pandemia não rolaram muito, mas também coisas ao longo do ano, como o consumo do público. Para mim essa parada que estamos falando é um castelo de cartas. Você demora um tempão para estruturar as coisas e elas acabam muito rápido. Pra mim isso que você falou, João, é literalmente isso, negócios que demoraram vidas para serem feitas, a pandemia quebrou muito rápido. E tipo assim, Vince não vai tá lá pra fazer a Commons de novo, Portela também não, ele já tinha um prejuízo enorme. Na pandemia bagaçou geral, então nós estamos nessa meiuca, essa geração que pegou essas casas e essa efervescência no final, para agora viver esse faroeste de casa de show para fazer acontecer.

João Antônio: É meio foda esse movimento pra gente, porque Salvador é uma cidade com uma indústria cultural que tem muitos espaços gigantescos pra tocar. Mas quando não tem Portela, não tem Commons, nós não vamos tocar no TCA (Teatro Castro Alves), não vamos tocar na Concha, não vamos tocar na Fonte Nova. Quais espaços sobram para uma banda de médio porte tocar em Salvador?

Felipe Vaqueiro: Pequeno/médio porte para desenvolver carreiras, desenvolver público, desenvolver plateia, para quem sabe um dia, lotar uma Concha.

João Antônio: Não existe mais. Acho que em algum momento já teve.

Felipe Vaqueiro: Sempre existiu com questões, comparando com a oferta da cidade de São Paulo. Mas passou a se tornar uma coisa mais insustentável e que leva até para um horizonte que nem a galera de altos interiores lida, que são rolês independentes que você vai ter que ir gerando e pegando espaços, tendo responsabilidades que outrora casas de show teriam. É uma coisa que eu acho que vai acabar acontecendo e acho que já tá acontecendo em Salvador. Essa coisa me lembra, João, um pouco do início da banda, quando tocávamos na UFBA, que eu não sei se é uma coisa que ainda tá rolando, mas é esse tipo de iniciativa, de você fazer outros tipos de parceria e fazer coisas. Enfim, não dizendo para que façam festivais e etc, eu odeio essa lógica também de precisarmos resolver essa rede fazendo festivais para que as bandas toquem. Mas eu acho que é essa lógica de ocupar lugares que não necessariamente eram casas de show, é um caminho também, ou quem sabe no futuro, pensar em casas com gestão horizontal, espaços que em algum grau como as praças são (Quincas Berro D’água, Tereza Batista, Pedro Arcanjo), só que umas casas um pouco menores, um pouco mais acessíveis… seria uma ideia interessante, né? Olha, doideira isso, não sei se existe em algum lugar, se o Coaty já foi algo assim, enfim. Vários espaços em Salvador batem com isso que eu tô falando, mas eu digo um menorzinho, mais enxuto. E tem isso dessa sacralização do teatro, que dá essa afastada, seria legal ter um espaço de casa, como uma Casa Noise, que tem em Feira de Santana. Uma estrutura daquele tamanho em Salvador.

João Antônio: Seria muito massa. O ruim é que as pessoas que tem essa vontade em Salvador não tem esse dinheiro, aí é complicadíssimo.

Felipe Vaqueiro: Essa é a grande diferença pro interior de São Paulo, lá tem um bocado de gente com muito dinheiro que faz isso.

Bruno ‘Neca” Fechine: Eu acho também que tem várias questões profundas. Eu não moro mais tem um tempo já, eu falo como umoutsider, mas eu sinto que a vida em Salvador é muito difícil como músico. Quando eu vou e volto fico olhando, e tudo é tão difícil, tudo é tão precarizado, as coisas são tão mais caras, não só a cultura enfrenta essa precarização. Aí como é que a galera vai olhar, se juntar, fazer algo na praça, fazer algum bagulho? Eu sinto que aconteceu isso com as casas antigas também, os caras olharam e disseram “de jeito nenhum, não dá, não tem como”.

João Antônio: Esse bagulho das casas de show não é nem comparando com sudeste, São Paulo, Sul. Quando nós fomos em Arapiraca, nós tocamos em um lugar que é melhor que qualquer casa de show de Salvador. Quando nós vamos em Feira de Santana, nós tocamos em um lugar que é melhor que qualquer casa de show de Salvador. Quando nós vamos em Belém do Pará… Todos os lugares que nós tocamos são muito melhores do que qualquer um que nós toquemos em Salvador. Então pra mim é um bagulho inexplicável mesmo, não sei o que é que rola. Na minha cabeça acho que por ter essa coisa da indústria da música baiana, eu acho que o investimento das pessoas que querem investir em música vão mais nesse sentido, porque eles querem ganhar dinheiro, eles não querem apostar em uma banda de rock em Salvador. Nem espaço e nem estrutura para se fazer isso possível.

Felipe Vaqueiro: E por alguns anos nosso sustento/dinheiro foi por causa das casas de show, especificamente do Blá! Blá! Blá!, que virou Discodelia depois. Mas falo de Blá! Blá! Blá! porque Tony dava uma força do caralho para nós, e ele, por ser um cara da geração antiga do rock que ainda tinha essa coisa do sonho, de fazer o rolê acontecer, e que pra mim simboliza isso muito. Também tem o Colaboraê, que nos recebe de portas abertas. Mas eu acho que é diferente, como João falou, da era pré-pandemia, não só pela oferta de lugares, mas também porque eu acho que nós tínhamos mais formas de fazer as coisas, mais maneiras de conseguir, e mais espaço também, nós tocamos muito no Poleiro, no Buk Porão. Era mais descentralizado do Rio Vermelho também, ainda que já fosse centralizado. Eu sinto que essas coisas mudaram e nós não temos um horizonte exatamente de coisas. É um lugar muito marcado pela sazonalidade, interiores com o São João e a capital com o carnaval. As atenções e os investimentos de mídia, Estado e patrocínio acabam levando pra isso.

Eu acho que cada um de nós tem sua subjetividade. Nós temos o que cada um gosta de ouvir, o que tá na onda, o que não gosta, mas eu acho que nenhum de nós é muito fechado pra nenhum estilo ou ideia musical assim.”

el Cabong: Mudando de assunto, eu acho interessante que cada um de vocês tem uma linguagem específica e conseguem se juntar e fazer o Tangolo Mangos. Vaqueiro com referências de violão e viola; João Antônio sempre posta algo de Bossa Nova nas redes sociais; Neca com o Ketoots e outros trabalhos; Deno com referências de forró, brega e MPB; Théo com várias referências de guitarristas clássicos e city pop. Queria que vocês falassem um pouco como juntam isso e quais coisas vocês têm escutado que influenciam vocês.

Felipe Vaqueiro: Acho que é que nem no animê, tem que ter vários atributos da tripulação da galera, váriasskills, que nem no One Piece. E eu acho que pelo fato da gente nutrir uma relação de amizade também, ainda que quando nós estamos brigando é engraçado, porque quando falamos para outros amigos, eles falam “vocês acham que vocês brigam? Vocês são muito de boa.” Acho que no final, como todo grupo, existem as indiferenças que nos fortalecem, que nos fazem nos encantar um pelo o outro e aprender um com o outro. Nós dividimos muito, mas como você falou, cada um carrega particularidades, e eu acho que no final do dia nós gostamos do resultado desse piquenique.

João Antônio: Eu acho que cada um de nós tem sua subjetividade. Nós temos o que cada um gosta de ouvir, o que tá na onda, o que não gosta, mas eu acho que nenhum de nós é muito fechado pra nenhum estilo ou ideia musical assim. Não querendo pagar de eclético, porque enfim, eu basicamente só escuto músicas bem pop de qualquer gênero possível, mas acho que ter essa liberdade de escutar várias coisas… na minha cabeça é como se fosse um telefone sem-fio que dá certo. Cada um fala uma coisa pro outro, a palavra se perde, mas quando volta pro primeiro da fila, a palavra tá igual. Cada um busca uma referência e fazemos aquilo funcionar, não sinto que pensemos muito sobre isso, é uma coisa meio orgânica do que estamos ouvindo no momento.

Bruno “Neca” Fechine: Tem essa coisa que você falou de todo mundo ser meio aberto também, não apenas a gêneros musicais no geral, mas acho que também estar aberto a entender as brisas dos outros. Nesse lugar de tocar uma música no carro super doidona e todo mundo comentar. Existe um perfil de cada um assim que a gente conhece e que vê algo e diz “João Antônio vai gostar disso”, outro dia fizeram isso, mandaram uma música pra mim e falaram “Pô, é a cara do Ketoots”, e eu achei massa. E aí é isso, ouvir as músicas no carro as vezes você pega brisas que você não pegaria no seu dia-a-dia, ouvindo na sua casa, você entende coisas. Acho que tudo reflete no resultado final e na coletividade.

João Antônio: Esse exercício que acabamos fazendo nas turnês, eu sinto que foi muito importante, de cada um botar uma música, pega uma temática, cada um escolhe uma música, cada um escolhe um álbum e aí ficamos gastando onda. Esse compartilhamento de referências eu acho muito massa. Pô, eu nunca tinha escutado Daft Punk até Neca metralhar Daft Punk no carro. Hoje eu escuto toda semana.

Bruno “Neca” Fechine: É verdade, na turnê desse ano da época do lançamento doPedágios y Caronas, que infelizmente João não pôde rodar todos os shows, mas sempre teve um momento que Deno fala assim “é, se pá tá chegando a hora do Daft Punk”, aí já é figurinha carimbada colocar essa música que a gente sempre bota *sons do solinho “Veridis Quo” do Daft Punk feito por João Antônio*.

Felipe Vaqueiro: Eu vou tentar fazer um resumoPedágios y Caronas simbólico, com coisas que ouvimos no carro e tem a ver com esse papo todo.

(E veio mesmo, escute a playlist que os Tangolo Mangos fizeram: )

el Cabong: O Garatujas foi um disco que teve muitas participações nas músicas, o que pra mim difere muito do Pedágios y Caronas, que é muito mais só vocês, Tangolo Mangos. Como é pra vocês essa diferença?

Felipe Vaqueiro: Eu não leio assim, eu acho que é bem parecido comGaratujas. A única diferença é só “Você Me Conhece Tão Mal”, que ela é claramente uma música de processo. Dentro do processo de sampleamento, Necão sampleando a gente mesmo, junto com Flora (Tecnoplanta) e Vênus e só. As contribuições noGaratujas são mais extensas, a lógica delas é a mesma noPedágios y Caronas. Migga Freitas toca bacurinha em “Vou Acordar com essa nova ideia na cabeça”, Iaguinho (Iago Tartaglia) participa tocando flauta (saxofone e flauta transversal) com um arranjo de Deno em “Ohayo/Saravá”, Gio (Giovanni Cidreira) participa em “Gerais do Vieira” no coro com os agudos e agregou muito esteticamente na música. Acho que todos seguiram essa premissa um pouco, o volume de participações é diferente, mas a premissa de escolhas foi parecida com a doGaratujas. Pra mim é muito parecido com o exemplo Natan (Drubi) tocando violão 7 cordas, que era: a gente querer o violão 7 cordas, ninguém na banda toca, mas temos amigos que tocam, então bora chamar eles.

João Antônio: Acho que por esse álbum ter sido gravado em estúdio, nós acabamos, querendo ou não, sendo mais minimalistas e obejtivos. Então as ideias, eu acho que foram mais reduzidas assim. Quando nós nos gravamos noGaratujas, por exemplo, o céu é o limite, então qualquer maluquice a gente botava dentro. Se tivesse uma parada de acordeão, violão 7 cordas, flauta, e parecesse que ia ficar legal, então … se a gente tá se gravando, colocamos o que nós quisermos, então chama alguém pra tocar esse instrumento. (Salve Jocão (Joca Lobo) e Natan).

Bruno “Neca” Fechine: Eu acho que passa também pelo conceito que Apu ficou muito na brisa, que foi o conceito do ao vivo. Aí a gravação foi com canais com o som ao vivo, não teve muitas dobras de guitarra, não teve um milhão deoverdubs, então acaba que isso influencia na quantidade de coisas que precisamos de outras pessoas. Então essa filosofia acaba levando para esse lugar, mas é o que Vaqs falou, no momento que queríamos muito, meio que rolou.

Felipe Vaqueiro: É bom pontuar isso também, Apu era aberto para todas as ideias, mas nós já chegamos nesse contexto, ele já sentia isso também, que a nossa performance ao vivo superava o disco e queria fazer mais jus a esse som. Além de que, no final, é um disco que esses cincos elementos dos nossos instrumentos fosse o principal.

João Antonio: Eu sinto que Apu também deu uma segurança muito grande pra gente. Várias vezes eu escutava as músicas lá no estúdio e eu achava que tinha uma coisa de bateria fora ou alguma coisa assim, ou Théo achava que tinha uma linha fora também, aí falávamos com Apu pra mudar e ele dizia que não ia consertar, que pra ele não era um erro. Às vezes era categórico, ele era muito bom.

Bruno “Neca” Fechine: Ele é muito aberto e muito decidido. Ele foi muito seguro com a ideia dele e ele nos trouxe para essa segurança, e isso foi muito bom.

Felipe Vaqueiro: Mas se eu fosse dar outro motivo para essa pergunta, eu sinto que a quantidade de músicas, não ter que fazer um álbum tão grande pra gente não dar um passo maior que as pernas, também acaba levando para isso, que a gente se limitou nesse sentido da gente nao ter tanto dinheiro pra ficar bancando gravações, não tem tempo pra fazer um disco gigante, e outra, se quisermos prensar o vinil, tem que ter um certo tempo. OGaratujas tem uma hora, muito grande, acho que isso acabou nos induzindo também nessa coisa do tempo, de aproveitar bem o tempo. E outra, tem uma participação especialíssima, Tota bate palma em “Sofá”, pouco gente fala disso.

Ah, e tem outra coisa, tem Valentim Frateschi, por mais que não seja umfeat, eu sinto que de certa forma, por ter citado ele nominalmente em “Dominó”, citando uma música dele, acaba que fizemos algo inédito pra gente, que é uma citação, que é muito mais que umfeat.

el Cabong: Chegando nas finalíssimas, queria saber o que vocês imaginam e desejam pro Tangolo Mangos no futuro.

João Antônio: Eu tenho cara de monge? Eu quero dinheiro na minha conta!

Felipe Vaqueiro: João cansou de bater palma pra lista doSpotify, ele quer a moeda.

Mas falando sério, o que eu realmente espero e almejo muito, enquanto nós no meio profissional, é que a gente tenha subsistência financeira tanto pra gente conseguir tirar algo pra nós, mas também pro projeto conseguir se sustentar, pra gente dar vazão às ideias que nós temos, de forma que consigamos manter esse som por mais tempo vivo, dure o quanto tiver que durar. Mas, sinceramente, se der pra ser mais bem pago, ia ser pica.

Bruno “Neca” Fechine: Mais bem pago, mais confortável…

Felipe Vaqueiro: Nós estamos no caminho, no caminho da profissionalização.

João Antônio: É que nem eu sempre digo: não tem piorado.

Bruno “Neca” Fechine: No final das contas, essa coisa que falamos no início, dos dez anos, que a sensação de zero até dez é um caminho, mas de dez a vinte é menor, né? Parece menor, eu acho que é menor (nota de Vaqueiro: papo de investidor).

Felipe Vaqueiro: Mas é verdade, não é à toa que nossos amigos de Salvador e dos fãs mais novos falam que o jogo virou. Mas nós entendemos que o jogo virar é um grande processo, mas realmente demos alguns passos. E assim, o que é virar o jogo? São vários artifícios simbólicos. Tem uma coisa que eu amo, que é Apu falando que vai inscrever a gente noGrammy. Mas assim, eu tô pouco me importando com os símbolos, pra mim o bagulho vira mesmo essa coisa de subsistência, eu acho que o jogo vai ter realmente virado quando, não vou nem dizer todo mês, mas que no ano nós possamos falar que esse projeto que investimos tanto tempo, ele nos traz não só uma realização pessoal, mas algum tipo de conforto financeiro. Conversando com Fefel do Boogarins, e até pra eles o ano perpassa por momentos de vacas magras e gordas, como toda profissão. Então se isso acontece com eles, que são a referência do nosso nicho, quem dirá nós e outras bandas em outro momento de carreira. Então, como eu falei desse negócio do jogo virar, ele é relativo, mas eu acho que: se nós estivermos conseguindo dar vazão aos projetos; fazer nossas coisas com uma dignidade financeira; conseguir agregar pessoas que nós acreditamos em outros projetos, em coisas que não são só nossas, utilizando seja por meio de outros artistas e bandas tocando juntos, além de profissionais que estão nesse bolo; rodar mais, voltar em lugar que nós já fomos, visitar locais e visitar os vários amigos que fizemos no Brasil e no mundo. Aí eu acho que vamos estar ganhando, é isso que eu espero.

João Antônio: Eu quero ter dinheiro para voltar a morar em Salvador também.

Felipe Vaqueiro: Pô, morar em Salvador é um dinheiro, porque Salvador é uma cidade meio cara. É doido, porque nosso horizonte de ganhos é mais ligado a shows, a maior parte dos artistas ganha a maior parte do dinheiro com circulação de show do que com discos. Então espero que nós circulamos bastante,  acho que isso vai acabar acontecendo, e que consigamos… ah, amolecer o coração de uma galera, uns festivais, de institutos aí, no colocar nolineup. Chama nóis.

el Cabong: Para encerrar, queria que vocês indicassem algo pra além de música, qualquer coisa que vocês gostem de ver. Podem indicar uns animes aí também.

Felipe Vaqueiro e João Antônio: Copa do mundo, neste momento eu estou muito copa do mundo (a entrevista foi antes do Brasil ser eliminado).

João Antônio: Tá, mas vamos lá. Eu gosto muito de anime e de mangá,recentemente eu não tenho visto nada novo que seja bom assim de falar, na verdade. Mas eu vou deixar a minha indicação de mangá aqui que se chamaMushishi, que tem um anime também. De livro eu indicoNarciso e Goldmund.

Felipe Vaqueiro: Tem aquele anime,Fullmetal Alchemist: Brotherhood, que fica de indicação e em paralelo tem outro anime que é da mesma autora (Hiromu Arakawa),Yomi no Tsugai – Daemons do Reino das Sombras. Eu tô um contexto de assistir poucas coisas seriadas, então estava há muito tempo ser ver anime, mas antes desse um que me pegou, que foi por indicação de João, foiFrieren. Mas assim, eu tenho consumido muita coisa de vídeo de eletrônica, não eletrônica geral, mas tentando aplicar a cada música, em contexto desynth. Eu tô fazendo com Lu Brina (Luiza Brina) e uma galera aqui de São Paulo, um curso livre gratuito de eletrônica aqui no SESC, então são as coisas que eu mais tô curtindo fazer, então tô muito feliz de acender um LED. Também é massa pensar nas possibilidades, desde a subsistência técnica, de aprender a soldar coisas até pensar em novas formas de expressão artística também. Se envolver com tecnologias dá uma expansão sobre a expressão artística.

Bruno “Neca” Fechine: Em maio, quando estávamos em turnê, eu não consumi muita coisa, então eu virei um instagramreels. Mas antes disso e agora que eu consegui voltar à normalidade, eu estava um pouco obcecado e vendo muitoHilda Furacão. É muito, muito bom, eu estava meio obcecado, eu terminei esses dias, e é muito lindo, é muito triste. É muitoold school, muito específico e é bem bonito. Eu recomendo muito essa minissérie. Eu sou viciado emTwin Peaks, mas uma hora acaba e você fica meio órfão, e aí o grande objetivo da pessoa que terminaTwin Peaks é achar outras séries que te tragam a mesma sensação, eHilda Furacão me trouxe.

* Ciro Garcez é formado em Jornalismo e BI em Humanidades pela UFBA. Curioso por cultura e indústria cultural.

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