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Sem nostalgia: dilemas e desigualdades marcam cultura do vinil em Salvador

Última reportagem da série mergulha em debates sobre elitismo, machismo, especulação e falta de estrutura

Por Julli Rodrigues*

O movimento em torno da cultura do vinil em Salvador no pós-pandemia de Covid-19 assumiu uma face mais diversa e efervescente do que nos anos anteriores, com maior participação de jovens e mulheres, além de iniciativas regulares que colocam o formato em destaque. Mesmo assim, a cena lida com uma série de questões que, na visão de seus integrantes, ainda precisam ser solucionadas. A lista vai desde o machismo – que segue presente, apesar do aumento da presença feminina – até entraves burocráticos para a realização de eventos, passando também por discussões sobre elitismo, especulação e inflacionamento de preços.

Embora não haja pesquisas aprofundadas com metodologia científica ou recorte local sobre o tema, umlevantamento realizado pelo site Universo do Vinil em 2017 dá indícios sobre o perfil predominante do público consumidor de discos no Brasil: 87,3% eram do sexo masculino, 62,8% tinham ensino superior e 63% tinham renda acima de R$ 3 mil (valor equivalente a R$4.771,80 nos dias de hoje, com correção pelo IPCA). Quase nove anos depois, esses resultados ainda podem servir como “chave” para entender algumas discussões presentes na cultura do vinil em Salvador. 

Respirando liberdade por igual…?

Colecionadora há cerca de 15 anos, a administradora Fran Fragas tornou-se uma das principais “caras” do meio do vinil na capital baiana. Além de organizar a Feira de Discos do Shopping Rio Vermelho e gerenciar aFran Lojinha, ela é conhecida por sua presença nas redes sociais. No perfil@discosdafran, que foi criado durante a pandemia e já soma mais de 9 mil seguidores, Fran costuma publicar fotos e vídeos dos discos da sua coleção, além de dar dicas para quem quer começar no hobby.

Fran avalia que a experiência de ser uma mulher na cultura do vinil nunca lhe trouxe grandes desconfortos, embora “gere curiosidade”, devido à predominância dos homens nesse ramo. Ainda assim, ela admite: “Já houve questionamentos que talvez, se eu fosse um homem, a pessoa não fizesse”. Confira o depoimento:

Embora admita os possíveis percalços, Fran defende que existe uma abertura para a participação feminina na cena. “Eu super acho que tem espaço para as mulheres fazerem, movimentarem de forma diferente. Os meninos têm uma mecânica de pensamento diferente do nosso, só que eles fazem, e a gente termina não tendo muito espaço para fazer. A gente precisa fazer, se unir mais, apoiar uma à outra”, observa.

Também durante a pandemia de Covid-19, a jornalista Daniele Cezar fundou a loja@dezdiscos no Instagram. Inicialmente, o perfil tinha o objetivo de vender discos pelo preço único de R$10 e deu tão certo que acabou se tornando a principal fonte de renda dela. Ela avalia que a disposição para produzir conteúdo na rede social foi fundamental para o sucesso do projeto: “Desde quando eu comecei a Dez Discos, sempre tive presença muito forte no Instagram, nunca tive problema em me expor, eu não tenho vergonha de falar, então eu também não tive muita dificuldade de conquistar um público fiel, que compra toda semana”. 

Daniele considera ter sido pioneira ao “mostrar a cara” nas redes sociais para vender discos, já que, segundo ela, não havia outras colecionadoras e/ou donas de loja fazendo o mesmo, ao contrário do que acontece atualmente. “Hoje o espaço está mais aberto para a gente, houve uma validação. Isso porque é um universo muito masculino, querendo ou não, de homens muito machistas. Isso está sendo mudado e está sendo positivo. A gente tem oportunidade agora, coisa que antigamente não tínhamos”, observa. 

Após firmar uma parceria com o Cine Glauber Rocha, a Dez Discos passou a ter um ponto de venda presencial na Livraria Terra Libris, situada no térreo do espaço cultural. É uma das quatro lojas físicas de discos comandadas total ou parcialmente por mulheres em Salvador, dentre as 14 mapeadas pelo el Cabong. Completam a lista a Aurisom, na Praça da Sé, e aDiscou Discou, no Garcia, além daVendo Vinil SSA, que funciona desde 2024 no bairro do Rio Vermelho e foi fundada por Marcelle Fontes. 

Em entrevista ao el Cabong durante a Feira de Discos do Shopping Center Lapa, em março, Marcelle contou à reportagem algumas experiências negativas que já teve por ser uma mulher no comando de uma loja de discos. “Já houve casos de clientes homens marcarem comigo e me desrespeitarem dentro da minha própria loja, de perguntar se o toca-discos era meu, se eu era funcionária. Existe um desdém, assim… Hoje mesmo tiveram clientes homens que chegaram aqui, me olharam com uma cara de ‘você não sabe nada’. Eu não preciso dar carteirada, eu sei e tá de boa, mas não é bem assim, né? É cansativo, é repetitivo, aquela mesma mentalidade”, lamenta.

A DJ Gabão durante evento na loja Caveira Discos do Pelourinho. Foto: Igor Andrade

O “gargalo” da participação feminina também é uma realidade na discotecagem. A DJ e multiartista Gabriela Piñeiro, ou Gabão, é uma das poucas mulheres que tocam com vinil na capital baiana. Ela sente que o sexismo adiciona um “peso” maior à jornada artística: “Nosso ritmo de inserção na cena é muito mais lento do que o dos caras. A gente tem que se provar muito mais, provar que a gente sabe tecnicamente, provar nosso valor, e isso acaba tensionando o nosso trabalho, na verdade. A gente poderia estar muito mais à vontade para tocar se não tivéssemos essas paranoias, essa síndrome da impostora. Mas acho que com o tempo vamos superando isso, e o ideal é estar junto de outras mulheres que também queiram construir”.

Dinheiro na mão é vendaval

Quem começa a colecionar discos já ouve logo o comentário: “vinil é um hobby caro”. Não é difícil entender o motivo, já que os valores de álbuns novos partem, em média, de R$ 150 a R$ 200, sem contar o investimento em equipamento. Falando de equipamentos novos, uma vitrola simples no estilo maleta custa entre R$ 400 e R$ 500, enquanto toca-discos de maior qualidade são vendidos a partir de R$ 1.200. Isso sem contar as caixas de som e outros aparelhos. No mercado de discos usados, dá para encontrar de tudo: desde os “garimpos” de R$ 1 até as raridades que não saem por menos de R$ 1.000. 

Para os colecionadores e DJs soteropolitanos ouvidos pelo el Cabong, o alto preço da mídia física é um problema. Alguns destacam, no entanto, que fatores mais “subjetivos” tendem a influenciar a precificação dos discos, a exemplo da especulação. Em muitos casos, o preço de um disco aumenta devido à formação de um “hype”, ou seja, quando aquele LP passa a atrair mais atenção devido a um fenômeno midiático, como o lançamento de um filme, ou à recomendação de um DJ ou influenciador da área. 

Até mesmo o falecimento de um músico faz com que os valores disparem, como explica o DJ e produtor musical Marcos Júnior, ou Rylle. “Se um artista grande morre, o disco dele fica totalmente supervalorizado, principalmente se for um artista brasileiro. Assim que Gal Costa morreu, os discos tiveram uma grande inflação. Discos que você achava por R$ 50, no máximo até R$ 100, hoje beiram o absurdo. Em Salvador a galera é meio exagerada com os preços”, pontua. 

Feira de vinil – Créditos: Josenilson Edington

Outro fator que atua sobre o preço de um disco é a sua “originalidade”, no sentido de ser uma prensagem de época ou um repress (nova tiragem do mesmo álbum). Há quem prefira as primeiras por apresentarem um resultado sonoro mais “fiel” ao que o artista ou banda queria registrar, sem as remasterizações que costumam ser feitas nas edições seguintes. Como esses LPs estão menos disponíveis no mercado, o valor tende a aumentar. “Hoje em dia, os discos originais de época estão sendo vendidos muito caros. Você pode comprar um LP mais novo com uma prensagem bacana mais barato. Tem gente que compra vinil só pra guardar, nem usa”, comenta o colecionador Raimundo Júnior.

O debate sobre esses temas ganhou corpo no último mês de abril, com um vídeo publicado pela DJ Preta Barros no Instagram. Levando em conta especificamente o contexto do forró, nicho no qual é especialista, Preta fez duros ataques ao que considera como “elitismo” no meio do vinil, principalmente na discotecagem, onde é necessário um investimento maior em equipamento.

A queixa sobre os altos preços de discos e aparelhos não vem de hoje. O produtor cultural Rogério Bigbross, que atua no ramo de vendas de vinil e CDs desde 1991 e comanda a loja Big Bazar Records, lembra que a mídia física sempre foi algo caro e inacessível à maioria da população. No entanto, o burburinho criado em torno da “volta do vinil” contribui para que os preços disparem. Ouça:

A internet virou o famoso ‘vai que cola’. Vou jogar esse preço aqui, vou dizer que é raridade, vai que alguém acredita e compra”
– Rogério Big Bross

Para o músico e empresário Eldo Boss, sócio da loja Discodelia, o fator socioeconômico deve ser levado em conta quando se trata do mercado de Salvador. Segundodados divulgados no último mês de maio pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025, o rendimento médio mensal domiciliar per capita do trabalhador da Bahia foi de R$1.452, bem abaixo dos R$ 2.264 registrados no país como um todo.

“A gente é uma cidade pobre. Temos uma das médias salariais mais baixas do Brasil e do Nordeste. Por isso a média de uma venda de disco novo aqui na loja é de R$ 200. Não tem como ser mais. Quando você faz um comparativo com lojas de São Paulo, Curitiba, Rio Grande do Sul, você chega lá e os discos são todos novos, eles conseguem importar e vender com preços acima de R$ 300 ou R$ 400 e ter um público para isso. Você tem lojas lá que conseguem lançar, mensalmente, discos de artistas de lá, e vendem esses discos”, analisa.

Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo

Na esfera da discotecagem em vinil, outras questões surgem, a exemplo da falta de espaços apropriados para os DJs se apresentarem. Uma queixa comum de quem tenta realizar iniciativas do tipo é a dificuldade para tirá-las do papel em Salvador, em grande parte por entraves burocráticos e logísticos. O DJ André Oliveira, criador do projetoBarulhinho Bom, que ocupa o Bar do Neuzão às quintas-feiras, inicialmente pensava em ter um local próprio para receber outros colecionadores e pesquisadores, mas voltou atrás.

“Em Salvador é muito complicado fazer um investimento nisso, é uma cidade de altos e baixos, a prefeitura não chega junto, ao contrário, até dificulta. Claro, o espaço ainda está em mente, é uma ideia de médio, longo prazo, mas aí eu falei ‘vou fazer algo itinerante, levar meu equipamento e chamar as pessoas para fazer’. Só que até a questão da itinerância é complicada, por conta do alvará e da dificuldade”, diz. 

O DJ Marcos Sandes, ou Môpa, vive situação semelhante: “Futuramente quero fazer um projeto focado em vinil, da era disco até a house music, para que as pessoas possam escutar e curtir a noite. Estou só à procura de um espaço em que caiba isso aí. A ideia seria um evento itinerante, mas aqui em Salvador fica meio difícil fazer isso por conta da prefeitura”.

Equipamento – Foto: Josenilson Edington

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur) informou ao el Cabong que qualquer atividade sonora a ser realizada no município de Salvador necessita de Alvará de Autorização para Utilização Sonora, conforme estabelece a Lei Municipal nº 5.354/1998, que dispõe sobre a utilização sonora na capital baiana. O documento pode ser solicitado de forma online, por meio doPortal de Serviços da Sedur.

Ainda segundo a secretaria, nos casos de realização de eventos em Salvador, também é necessário o Alvará de Autorização emitido pela Central de Licenciamento de Eventos (CLE). A solicitação pode ser feita presencialmente na sede do órgão, localizada no Empresarial Thomé de Souza. A relação da documentação necessária e demais orientações para o licenciamento estão disponíveisno site da secretaria.

O DJ Anderson Santos, ou Uruba, chama atenção para questões técnicas próprias do vinil que devem ser levadas em conta na realização de eventos. Segundo ele, nem todos os espaços oferecem uma estrutura adequada para esse tipo de discotecagem. “Como o processo é tátil e mecânico, tudo pode implicar em algum problema. A mesa onde vão ficar alocados os toca-discos tem que ser a mais estável possível, porque isso vai implicar diretamente na nossa performance durante a discotecagem”, afirma. 

O DJ Mauro Telefunksoul tem um ponto de vista semelhante. Ele compara o contexto soteropolitano com o de outras capitais, a exemplo de São Paulo, onde as casas noturnas e os bares oferecem mais estrutura para quem toca com vinil. Para ele, a indisponibilidade de equipamento nos espaços é um entrave considerável para o desenvolvimento de uma cena de discotecagem em mídia física. Ouça:

Telefunksoul avalia que a falta de uma mobilização coletiva organizada também dificulta que a cena se consolide. Por outro lado, ele reconhece que a atuação de pessoas apaixonadas pela música e pelo vinil é o que impulsiona o movimento, apesar das dificuldades. “A gente não vê mais coletivos, é muito difícil, muito pouco. Tá mais na linha do ‘eu’, ‘eu faço, eu sou, eu vou’, do que ‘nós vamos’. Acho que a cena ainda precisa se encontrar mais. Mas vamos que vamos, porque se deixar morrer é pior”, resume.

* Julli Rodrigues é jornalista, produtora musical da Educadora FM e DJ seletora. Mais detalhes sobre a autora aqui.

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