Primavera Sound em Barcelona; chuva, frustração, sol e redenção

Primavera Sound 2026

Com apresentações marcantes de nomes como The Cure, My Bloody Valentine, Wet Leg e Viagra Boys, festival segue apresentando novidades, mas derrapa na chuva e frusta quem foi ver Massive Attack.

Há alguns anos, o Primavera Sound é um dos destinos obrigatórios para fãs de indie-rock e música pop contemporânea . Tanto que o festival de Barcelona cresceu e ganhou filiais em várias partes do mundo, incluindo São Paulo, replicando o formato. Com diversos palcos simultâneos e uma programação caprichada, a edição 2026 na cidade espanhola prometia mais uma vez ser marcante. Os eventos atmosféricos que tem atingido o planeta, porém fez mais uma vítima e acertou em cheio o festival.

A chuva e os ventos fortes em Barcelona não só cancelaram algumas das principais atrações, como o aguardado show do Massive Attack, mas especialmente expôs uma grande fragilidade do Primavera Sound, que não soube administrar e comunicar da melhor forma os efeitos do caos que tomou conta no Parc del Fòrum, espaço que recebe o festival.

Assim mesmo, com um dia de shows prejudicado e com um asterisco em sua história, o festival mostrou que continua incrível por reunir veteranos, novidades hypadas e muitos nomes pouco conhecidos. Para quem gosta de música e prefere ir além dos algoritmos foi mais uma vez uma apoteose. Mesmo calcado basicamente numa musicalidade ocidental europeia e norte-americana, prioritariamente branca, com ênfase no indie rock, o Primavera Sound é uma boa oportunidade para conhecer o que anda rolando pelo mundo.

Abertura– maromba e guitarras

Todo ano, o festival promove uma noite de abertura, com menos atrações ocupando um dos palcos do Parc del Fòrum e servindo como uma prévia da edição. Este ano, foram quatro shows, com o bom show dos britânicos do Yard Act, que faz um pós-punk honesto, bem feito, mas que parece funcionar bem melhor num inferninho.

O cantor e compositor espanhol Álvaro Lafuente Calvo, mais conhecido como Guitarricadelafuente, é um daqueles nomes que chamaram a atenção fazendo covers na internet e logo criou um séquito de seguidores. No palco, ele tem uma boa desenvoltura, mas parece mais se esforçando para que cada faixa seja apresentada de uma forma diferente, enquanto a música não evolui muito, num indie folk comum, que ganha mais vida quanto ele insere elementos de flamenco.

Era noite de abertura, com poucos shows, mas um dos melhores de todo festival aconteceu logo nesse início, com os queridinhos da temporada, Wet Leg. A banda também havia tocado na abertura em 2022, mas é gritante a evolução do grupo. Se antes era uma banda inofensiva, quase frágil, o tempo tornou o Wet Leg um grupo de respeito, consistente e com um baita show. As guitarras altas e sujas funcionaram muito bem, fazendo a parede para a vocalista Rhian Teasdale desfilar sua performance de rock woman da melhor qualidade. Um misto de sensualidade marombeira com rock star que é decisivo para a banda ser ainda melhor ao vivo do que no disco. Ela toca, canta, dança, faz pose e controla o palco, mesmo parecendo um jovem garota atrás de um óculos de estudante. Showzaço, baseado no excelente álbum moisturizer, para abrir bem o festival.

Primeiro dia– Chuva e frustração

O primeiro dia valendo do Primavera Sound chegou sob ameaça de muita chuva. Assim mesmo, o público chegou cedo para conferir as atrações espalhadas pelas dezenas de palcos do Parc del Fòrum, um grande parque dentro da cidade e a beira da praia em Barcelona.

Entre os diversos palcos, os dois mais próximos ao mar são meio isolados, não recebem nomes badalados, mas são os que mais funcionam para quem quer conhecer novidades. O melhor é que sempre tem um público ávido, curioso, presente. Logo no início, um nome pouco conhecido já satisfazia o desejo de conhecer boas novidades. Grupo britânico formado só por garotas, o The New Eves é uma boa e promissora banda de folk art rock. Munidas de violinos, violoncelo, com uma baterista tocando em pé e referências, propositais ou não, que remetem a Velvet Underground, Nico e até Stooges. Pra prestar atenção.

Quem concentrou as atenções foi a banda indie hypada no momento, Geese. Alguns mais resistentes podem até virar os olhos, podem questionar mil coisas, mas além do excelente e elogiado álbum lançado no álbum passado, Getting Killed, a banda também acerta o tom no palco. Com um indie rock bem feito, com o talentoso vocalista e guitarrista Cameron Winter mandando muito bem à frente, sabendo conduzir a banda entre os momentos doces e pesados. A sensação é que estamos vendo surgir algo que pode se tornar bem grande.

Durante o show do Gesse, a ameaça de chuva se concretizou, acompanhada de fortes ventos. Logo após o fim do show, os telões nos palcos anunciavam que as apresentações estavam suspensas em todos os palcos. Restava ao público se proteger e aguardar a situação melhorar. Neste momento, o festival mostrou sua grande falha e motivo de merecidas críticas. Mesmo com a chuva já esperada, era provável também que os shows precisassem ser suspensos por um tempo. O PS deu uma aula de como não saber contornar uma crise com a pior comunicação possível:  a não informação. Haviam telões, sistema de som, centenas de profissionais envolvidos, aplicativo exclusivo, redes sociais ativas e, assim mesmo, não havia uma atualização mínima do que ia acontecer na sequência.

Com o tempo, alguns palcos voltaram a funcionar, sem uma informação adequada e sem um comunicado se os shows do palco principal iriam acontecer. No boca a boca circulou a informação que um pedaço do telão de um dos palcos principais teria cedido na apresentação de Alex G. Pelo tamanho e localização, era óbvio que os dois palcos principais, que receberiam ainda naquela noite Massive Attack. Doja Cat e Bad Gyal, seriam os mais antingidos pelas ações climáticas.

Depois de algumas horas, a chuva abrandou e parte do público que permaneceu aguardando atualizações se deslocou para os dois palcos principais, a uns 10/15 minutos do único local coberto do Parc del Fòrum. A imensa área estava isolada, sem permissão para a entrada do público. Depois de um tempo de esperar a chuva voltou a apertar e os seguranças evacuaram  o local. Quem ainda esperava pelos shows teve que retornar para a área coberta. A desinformação ainda reinava e não havia nenhum comunicado oficial sobre se os shows ainda aconteceriam ou não.

Mais tempo de espera e muita gente já ia desistindo do festival. Até que a chuva deu nova trégua e um comunicado (agora sim!) dizia que os shows iriam acontecer. Milhares de pessoas voltaram a se deslocar e aguardar em frente ao palco do Massive Attack. Depois de cerca de uma hora, com o telão e as caixas de som mostrando anúncios de publicidade, os comentários eram que os shows haviam sido definitivamente cancelados. Pelo instagram oficial do festival a informação foi confirmada, mas nada oficial no sistema de som e telões. Frustradas, as milhares de pessoas desistiram e foram reunir forças para voltar no ouro dia. A sorte do festival é que ninguém mais revoltado tomou alguma iniciativa mais radical.

Segundo dia – O sol e a cura

No segundo dia de Primavera Sound, o sol abriu e a sequência de shows fez lembrar a razão do festival ser tão especial. O bom de um festival grande, repleto de palcos e atrações, é que você pode conhecer artistas que nunca ouviu falar, pode conferir se aquele novo nome badalado se segura no palco e ainda ver shows de nomes que marcam a sua vida. Se não estiver gostando de algo, pode ir embora e ver outro show em algum dos outros palcos sem dor na consciência. Também pode fazer uma escolha e depois se arrepender de ter perdido algo maravilhoso em outro local.

Fica a dica para quem está começando a tocar em grandes festivais. Não faça seu show normal, como você costuma fazer, ainda mais se tiverem vários palcos. É importante mandar muito bem logo no início e manter o público atento e interessado desde o princípio, pois ele pode desistir. Ainda mais em um festival com tantas outras atrações clamando por sua atenção. Foi o caso de duas bandas de Madrid .bd. e Las Petunias, que, mesmo com shows corretos e bons trabalhos gravados, ainda precisam amadurecer a sonoridade no palco e tornar as apresentações mais instigantes. Talvez funcionem melhor em palcos menores, mas acabaram fazendo shows dispersos.

Entre as dezenas de palcos do PS, o auditório é o mais improvável do festival. Um enorme espaço para mais de 3 mil pessoas, que assistem aos shows sentadas num ambiente com ar-condicionado. Às vezes lota tanto, com filas e espera, que você pode perder outros palcos enquanto espera. Precisa ou chegar cedo ou ser certeiro na escolha. Tem, porém, grandes chances de pegar excelentes apresentações num ambiente mais confortável.

Foi o caso de Annashstasia, uma jovem cantora norte-americana, filha de pai nigeriano, que hipnotizou todos com uma voz incrível, grave e doce ao mesmo tempo. Munida de um violão, mostrou um folk comovente que passeia por blues e soul, indo da melancolia à alegria com muita força e emoção. Reforçada por uma banda quase toda feminina, com violoncelo, harpa, guitarra e teclado.

Este dia o foco era, no entanto, os dois palcos maiores do festival, onde o público, com perfis os mais variados, mais se concentra. Instalados em um espaço enorme, com piso coberto, é um ambiente que nos primeiros shows dá para assistir até sentado. O indie fofo e bem feito do NewDad foi um ótimo aperitivo. Com ecos de pós punk, faz um som correto e honesto, daqueles que não vão marcar, mas diverte e cumpre muito bem o papel destinado a eles. Teve ainda uma providencial cover do Yeah Yeah Yeahs.

Os veteranos do Slowdive vieram em seguida e fizeram seu dream shoegaze guitar com a velha competência, com Rachel Goswell à frente. Das oitentistas bandas do subgênero, é das mais duradouras e deve ser a que mais agrada a geração Z, mesmo não tendo o mesmo brilho de suas correspondentes.

Falando em veteranos, em outro palco e ambiente, a banda Rilo Kiley atraiu um público 40+ para ver um competente show de indie pop sem riscos e sem tropeços, com a simpática Jenny Lewis no comando. Parecia uma sequência de hits radiofônicos que não chegaram no Brasil, mas ali todos conheciam e cantavam junto, finalizando com a certeira “Portions for Foxes“.

Em um daqueles palcos ao lado do mar, melhor lugar para ver as novidades, foi hora de se surpreender com a banda Water From Your Eyes. O difícil aqui é enquadrar e entender, já que a banda faz um som estranho e que parece até desconexo. É como se cada integrante seguisse seu próprio caminho e nada tivesse sentido, baterias secas, camadas de guitarras tortas, baixo mais groovado, e a cantora Rachel Brown fazendo vocais falados monótonos e surrealistas. No fundo fazem um art rock indie pós punk, provocante e desconcertante, com a cara dos tempos atuais: estranha e esquizofrênica.

No mesmo palco, o potente show da banda norte-americana Kylesa, peso certeiro e muito interessante, passando por heavy metal, stoner e rock psicodélico, muito bem feito, com a ótima vocalista Laura Pleasants à frente. Ótima constatação no fim do dia foi ver a forte presença feminina nos palcos, muitas delas à frente de suas bandas.

O melhor do dia, no entanto, ficou para o final. Poucos artistas no mundo conseguiriam fazer um show de mais de duas horas e meia sem se tornar enfadonho. O The Cure faz isso muito bem. São poucos elementos além da música. A iluminação sóbria e as imagens no telão contribuem para o clima, mas o que importa são os seis músicos executando ao vivo, sem firulas ou excessos, um repertório afiado e preciso, produzindo aquela ambientação sonora melancólica e quase sombria.

Veterana dos anos 1980, a banda é das que melhor sobreviveu aos percalços do tempo e ainda segue na ativa criativamente, lançando discos novos e promovendo turnês. Fizeram um show memorável, ainda melhor do que no Primavera Sound de São Paulo,  em 2023. A mescla de músicas do novo álbum, lados b antigos e boa parte de suas dezenas de hits funciona muito bem, mesmo com pequenas alterações em uma outra música.

Foi um show para os fãs relembrarem clássicos menos óbvios, “A Forest”, “The Lovecats”, “Hot Hot Hot!!!”, “The Walk” ou “Fascination Street”. Tocar músicas do álbum mais recente, como “Alone” e “Endsong”. Ou relembrar canções que pareciam esquecidas e que eles tocaram pela primeira vez em muitos anos, como “2 Late”, “alt.end”, “Mint Car” e “Wrong Number”. Mas também era para mergulhar no Cure mais conhecido e até pop, e mostrar como a banda emplacou tantos hits pelo mundo e continuam atingindo um público amplo: “Pictures of You”, “Lovesong”, “Just Like Heaven”, “Lullaby”, “Why Can’t I Be You?”, “Friday I’m in Love”, “Close to Me”, “In Between Days”, e claro, “Boys Don’t Cry”.

Quantas bandas possuem um repertório vasto e conseguem equilibrar tão bem tantas possibilidades no palco? O melhor é ver tudo isso com Robert Smith e companhia em forma, tocando e cantando como se jovens fossem, e triunfando em alto nível em um mundo onde dizem que as coisas precisam ser rápidas e descartáveis.

Parecia que nada mais teria efeito, mas para fechar a noite ainda deu tempo de conferir o Viagra Boys. Já tinha ouvido falar como o show é bom, mas é ainda melhor do que imaginava. Agressivo, divertido, político e dançante a banda sueca faz um garage rock punk certeiro, com o vocalista Sebastian Murphy conduzindo tudo enquanto a banda arregaça. Showzão para encerrar a noite. Para o dia que seria o menos potente do festival, o saldo foi bastante positivo.

Terceiro dia– Redenção e barulho

O terceiro dia de festival, o tempo continuava firma. Nada melhor, do que começar no confortável auditório com o caprichado These New Puritans. A banda inglesa traz uma sonoridade que passa por art rock, passeia por música de câmara, se utiliza da eletrônica e até coloca um pé controlado na experimentação e no diálogo com sonoridades de fora do Ocidente.

O repertório é curto, apenas sete músicas divididas entre fases distintas do grupo, com foco um pouco maior no álbum mais recente, Crooked Wing (2025), que marcou o retorno do grupo. A ideia de criar uma ambientação é notável e cada um dos instrumentistas performa como peça fundamental na montagem no quebra-cabeças sonoro e em arranjos intrincados, com destaque para o baterista George Barnett e a vocalista Elisa Rodrigues, que dá mais força ao resultado final.

O Primavera Sound é prioritariamente um festival de rock e suas derivações e cada vez mais com pop e rap ganhando espaço, mas segue predominantemente com artistas brancos. Conferimos uma das artistas pretas sensação do momento, Sudan Archives. Visualmente interessante, mas o pop r&b eletrônico da violinista, cantora e compositora americana não atraiu o suficiente para continuar ali e dali o destino foram os dois palcos maiores, que receberiam uma sequência de shows que prometiam mais.

Mudança de chave para a cerimônia indie folk-rock do grupo norte-americano Big Thief, um som cru e intimista comandado pela vocalista e guitarrista Adrianne Lenker (mais uma!). O repertorio teve um peso um pouco maior no álbum mais recente Double Infinity (2025), mas foi bem distribuído por outros momentos da carreira, entre álbuns e singles.

A britânica Little Simz foi outro dos artistas pretos com destaque no festival e aqui vimos um dos mais divertidos e animados shows do festival. Exalando simpatia, botou todo mundo para dançar com seu hip hop contemporâneo ensolarado e com um flow cativante. A banda ajudou a tornar a sonoridade ainda mais consistente, mas mesmo quando os músicos saem do palco, e a artista assume as bases, tudo segue funcionando em alto astral. Grande show

O My Bloody Valentine mostrou como mudar o clima rapidamente e criou um ambiente alucinógeno para 70 mil pessoas, com um som agora baseado em guitarras, distorção e melodias. A banda pouco aparecia em meio às penumbras, enquanto o telão exibia vídeos hipnóticos que combinados com a massa sonora produzida fez o público entrar em outra sintonia. Uma parede de amplificadores exalavam as guitarras de Kevin Shields, que comandou as distorções, enquanto Bilinda Butcher quase sussurrava as doces melodias.

O repertório alternou músicas dos três álbuns, com foco maior no Loveless, incluindo hits como “Onky Shallow” e “When You Sleep”, além dos Eps do início de carreira. Como esperado, uma hora de guitarras muito barulhentas e hipnotizantes, finalizando com “You Made Me Realise” e sua porrada batizada de “holocaust session” para ninguém sair incólume. Fabuloso.

Nao sequência, o show de retorno do The XX. O papo aqui era dream pop, ambientação e um clima mais etéreo. A combinação do baixo marcante de Oliver David Sim, a guitarra viajante de Romy Anna Madley Croft e os beats de Jamie xx, flui muito bem. O show funciona muito bem quase todo tempo e seria um dos melhores do festival se não focassem no final para uma dance eletrônica mais genérica e que destoava totalmente do clima criado.

O festival já caminhava para o final  com uma de suas maiores, o Gorillaz, que alternou os hits com músicas do novo ótimo álbum, The Mountain. Com uma plateia mais diversa e muitas crianças acompanhadas dos pais, a banda fez uma grande festa no palco, recebendo convidados que incluía Moonchild Sanelly, Yasiin Bey e Little Simz.

Mesmo com os percalços desta edição, o Primavera Sound segue sendo uma espécie de ida à Meca para quem é devoto da boa música pop ocidental e do melhor indie rock feio no planeta. Se você se encaixa, coloque na lista de uma das obrigações de sua vida.

Para quem gosta de música sem preconceitos.

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