Por Ciro Garcez
Mata-Leão é o disco de estreia da carioca Lorena Moura. Com a produção de Paulo Emmery e Antonio Fisher-Band, e composições de Lorena Moura, Luca Fustagno, Paula Reis Vianna e Maria Santos; este disco foi uma grata surpresa de 2025. O nome faz referência ao mata-leão de “Matar um leão por dia”, quanto pode ser entendido como o famoso golpe. Lançado em novembro, ele chegou aos meus ouvidos em março de 2026, e aí descobri a voz de Lorena e todas as histórias contidas no disco, e é impossível não querer ouvir mais. É curioso ver que estava em listas que tinham álbuns que fizeram o meu 2025, e que só chegou tarde assim. Felizmente contornei esse erro, quando ouvi rapidamente nos stories de alguém, que me fez fuçar e achar o disco. A voz da de Lorena Moura seduz facilmente com seus graves e expressividade; as letras diversas, que vêm cheias de humor, deboche, invenção, e com um clichê ou outro; além dos incríveis arranjos, com um instrumental poderoso e viciante, culpa de uma super banda formada durante as gravações e do trio que acompanha a maior parte do disco, que tem Antônio Fischer-Band (teclas), Arthur Martau (bateria) e Paulo Emmery (baixo e violão). Pensar que é um disco de estreia deixou as coisas mais interessantes ainda.
Mata-Leão, pode ser visto como o resultado do encontro de três pessoas: Lorena na voz, composição e direção criativa; Luca Fustagno, melhor amigo de Lorena, o principal compositor junto com ela e que compartilha a direção criativa; e Paulo Emmery, que é o produtor. Se faltasse Luca Fustagno ou Paulo Emmery,Mata-Leão seria outra coisa. Este é mais um disco fruto da pandemia, mas que está além do isolamento social que o mundo viveu. Ele abre outra porta, muito mais otimista que aqueles dias tenebrosos.
Estendendo o diálogo que o disco provocou, a cantora, compositora e graduanda de música pela UNIRIO, Lorena Moura, concede uma entrevista para o el Cabong. Falamos sobre a cena, composição e a loucura que é gravar o primeiro disco.
el Cabong: Mata-Leão é o seu disco de estreia, e esse é um passo bem importante na carreira. Mas antes disso, queria saber como é a música na sua vida. Você, além de cantora, faz faculdade de música, e fora isso é ouvinte e tantas outras faces. Como é o seu relacionamento com a música?
Lorena Moura: Acho que é mais fácil falar de como entrou na minha vida, que eu acabo explicando tudo. Eu comecei criança, entendendo o que era. Minha avó toca piano e tal, e ela me fez começar a cantar e me mostrar as coisas. Eu comecei sempre cantando, tudo eu gostava de cantar, gostava de fazer. Eu comecei a tocar piano quando era mais nova, e acho que todo o caminho foi muito afetuoso. Eu fui descobrindo que a música era uma grande cor na vida. Eu não tenho uma família exatamente musical, é bem mais minha avó e mais pra trás ou pros lados, minha família imediata não é musical. Mas enfim minha avó cantava no coral da igreja dela, aí eu fui cantar junto com ela nesse coral também. E aí depois eu fui aprender a tocar piano e a me envolver. Mas assim, eu acho que sempre foi uma certeza durante a vida, porém eu fui dizer que era o que eu realmente queria quando fui pensar na faculdade, que é quando surge a pergunta “mas sim, o que eu quero fazer mesmo?”.
Acho que eu não assumia tanto essa vontade pra mim, porque é muito assustador, mas não teve jeito, foi música mesmo. Aí estudei pra passar no vestibular de música, que tem a prova específica também. Foi aí que eu mergulhei, e logo nesse período veio a pandemia também. Eu já tocava piano, tocava um pouco de violão e comecei a aprender mais, já cantava. Aí também foi quando eu me juntei com meu amigo de muito tempo, Luca, e começamos a compor juntos, que resultaram nas músicas que dera no álbum.
Eu sou uma admiradora da música, como acho que todo mundo que toca é, mas a música tem um local muito afetuoso pra mim. De liberdade criativa e expansão das coisas que ruminam na gente, mas nós temos dificuldade de externalizar. Quando eu tô compondo alguma coisa assim, tudo que tá por trás do que nós vemos, ou que falamos ou o que chega até nós sai de alguma maneira. Então eu acho que é um lugar de expansão das coisas que nós mantemos guardado, sabe?
el Cabong: Mas pegando essa parte acadêmica, imagino que seja um relacionamentos bem distinto de ser músico na rua. Existe um rigor acadêmico e uma diferença e exigência no ensino superior que às vezes nem se encaixa com o fazer música popular. Como você vê isso?
Lorena Moura: Você tocou num ponto bem interessante, que eu tenho até dificuldade. Como que é o rigor acadêmico da música, ainda mais estando nesse meio. Por exemplo, entre instrumentistas tem essa coisa, às vezes é quase uma operação de máquina. É uma dedicação ao instrumento, é uma dedicação física também. E tem que ter um rigor muito grande, que eu acho que a coisa fica um tanto mecânica. Tem muitas coisas maravilhosas na faculdade, muitas que eu aprendi, mas essa parte mecânica me perde um pouco. Eu tenho dificuldade de adentrar assim, mas é isso, também ensina coisas muito importantes. Porém é uma parte complexa de lidar.
el Cabong: E como foi esse salto de estar fazendo faculdade e aí vai fazer um álbum? Como se deu esse processo para trabalhar pensando em um álbum?
Lorena Moura: Então, quando eu comecei a gravar o álbum, eu fazia essas músicas com o Luca já há três anos, então nós tínhamos várias já. Então começamos a querer gravar um EP, porque era menor, mais fácil. Nós fizemos uma seleção de músicas, e escolhemos seis, que daria um EP extendidinho, com produção de Paulo Emmery. Fiquei trocando ideia com Paulo por um ano, foi muita trocação de ideia até finalmente ir gravar. Aí fomos gravar e demorou dois anos gravando o álbum. Ainda fiquei um tempão com o Paulo fazendo as coisas do disco, e o trabalho foi amadurecendo, até que ele vem e fala “Vamos colocar mais duas músicas pra segurar um álbum. Acho que tem que virar um álbum, bora fazer”. Como o processo foi longuérrimo, eu tinha feito outras músicas nesse período, aí nessa mais duas músicas entraram, “Quis” e “Elise”.
Foi bom ter esse momento de colocar essas duas, porque também me mostraram processos diferentes de gravar. As primeiras músicas tinham muitas etapas para gravar, com um dia só de bateria para todas, um dia gravando tudo de guitarra, aí você vai vendo a música virar um certo Frankenstein. Para mim, que era minha primeira vez gravando um, foi uma experiência muito louca. Essas duas já foram outro processo, dava para ver as músicas sendo formadas, com um tempo dedicado só a elas, o que fez ser mais rápido vê-las prontas também. Aí mais ou menos foi assim o processo de gravar o álbum.
el Cabong: Como foi arranjar seus parceiros de composição e como foi entrar em sinergia com eles para compor?
Lorena Moura: Os meus parceiros de letra são o Luca Fustagno, a Maria Santos e a Paula Viana. Luca e Paula eu conheço da escola desde que tenho treze anos, e Maria foi um pouco mais tarde. Eles três são os meus melhores amigos. Luca é o meu parceiro primário, digamos assim. Começamos a fazer as coisas juntos e idealizamos juntos muitas coisas do álbum, ele faz as letras e eu faço a música, e nós vamos trocando sobre isso. A primeira música que fizemos foi “Carinho”, que era baseado em um poema que ele fez com a Paula, então tem ela também nesse processo. E eu e a Maria Santos fizemos três músicas juntas, de maneiras bem diferentes. “Elise” e “Tripulaçao/Eu” são fragmentos de um livro que ela fez de prosa poética, que eu fui pegando os trechos e juntando pra fazer a música. Então toda a letra é baseada no texto, menos a parte em ingles de “Tripulaçao/Eu” , que o Luca fez. Já em “Quis”, a Maria me mandou esse texto e eu mudei algumas coisas de lugar, e após isso fiz a música. Aí o Luca veio depois e nós terminamos juntos a segunda parte.
O meu processo normalmente vem de forma solitária para depois juntar os dois universos para compor a música. Eu e o Luca compúnhamos juntos anteriormente, mas atualmente é separado, ele me envia algo ou eu envio algo para ele, e aí ele me manda de volta. Nós dois temos um grupo chamadoPurgatório, que todas as letras estão lá e eu vou fazendo e enviando pra ele, e vamos assim, trocando remotamente. Particularmente eu não amo compor junto, estar junto em uma sala para fazer música, me dá um pouco de pânico. Eu prefiro fazer as coisas no meu tempo. Acho que o processo se deu de uma forma muito simbiótica e separada, sabe? São dois trabalhos que se juntam e formam uma terceira coisa.
el Cabong: Tem uma coisa nas letras do disco que são muito diferentes. Tem músicas que me dão a ideia que são orações ou cartas, como “Mãe” e “Tripulação/Eu”, mas tem letras como “Titanomaquia”, que são quase contos. O disco também tem vários tons, que falam de sofrer, de amor, mas também tem sobre outras coisas que não passam sobre esse sentimento. As palavras se colocam de formas diferentes. Como foi esse processo de imaginar essas músicas?
Lorena Moura: O álbum foi construído durante cinco anos, então de certa maneira é uma coletânea. Mas ao mesmo tempo conta uma história da gente na pandemia, sofrendo e imaginando. Acho que “Titanomaquia” é muito isso, somos nós tentando imaginar um futuro impossível, apocalíptico, que era o que se enfrentava na cabeça, no imaginário coletivo, e tentando deixar aquilo um pouco mais debochado, bem humorado e pacato. Porque é aquilo, o mundo vai cair, mas você tem que tirar as roupas do varal. A banalidade no meio do apocalipse. E nós realmente passamos por vários lugares: rezamos, falamos com a mãe, tem música de corno, de tristeza, apocalipse. É meio “top oito momentos péssimos que eu vivi na pandemia”, e também amadurecendo, crescendo. Quando começamos a fazer isso eu tinha dezoito anos e quando eu lancei eu tinha vinte e três. Então é isso, ao mesmo tempo que é uma coletânea, tem uma temática única.
el Cabong: E como você conheceu e reuniu a equipe que toca no disco?
Lorena Moura: Assim, eu devo principalmente à faculdade, mas não só. Eu não conheci todas essas pessoas no curso de música, mas eu acho que foram derivações de lá. Eu conheci o Paulo, e aí eu também fui conhecendo as pessoas. Isso também era uma das grandes motivações de entrar na faculdade, que era conhecer gente, conhecer músicas e a galera que eu admirasse, e tocasse. O processo durou dois anos e foram acontecendo as coisas aos poucos, e eu devo muito ao Paulo nesse processo, ele é muito bom e tem muita visão do que rola.
O núcleo principal era o Paulo Emmery (baixo e violão), Arthur Martau (bateria) e Antônio Fischer-Band (teclas). Os três tem uma conexão boa entre si, e tem essa sagacidade de entender as coisas. Eles foram chamando gente pra gravar outros instrumentos, Gabriel Quinto mesmo, que gravou a maioria das guitarras, chegou um dia lá e gravou tudo. Então foi meio que um sonho essas coisas acontecendo, o dia da guitarra foi um desses, que as coisas já estavam avançadas, o Gabriel chegou, ouviu e entendeu tudo e quando ele tocou era isso que faltava. O dia de “Titanomaquia” com Thomas Harres tocando as baterias também foi um desses dias de sonho. “Carinho” também foi outro desses episódios, que foi uma música que deu problema à beça, eu já não queria mais no disco, aí Paulo teve uma longa conversa comigo e quando Guilherme Lírio (guitarra) e Antônio Neves (trombone e trompetes) chegaram e tocaram, fez todo o sentido. Tem esses episódios da música que está na sua cabeça é de um jeito, e até ela estar pronta de fato passam momentos de desespero. Mas é isso, acho que se deu mais ou menos assim nesses processos, de ter também esses três gigantes sabendo esperar e quem chamar para somar no álbum.
el Cabong: E quais álbuns você estava escutando e se inspirou enquanto fazia Mata-Leão?
Lorena Moura: Cara, eu acho que porque eu tava tão perdida, eu tava atirando para todos os lados de alguma maneira, e foram épocas diversas também. Eu tava ouvindo muitoNa Rua, Na Chuva, Na Fazenda, de Hyldon, e não sei exatamente como ele se encaixa, mas quando tava fazendo “Manhã”, eu tava pensando muito nisso. Eu tava ouvindo muitoMúsica do Esquecimento, da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo;The Kick Inside, da Kate Bush;No Reino dos Afetos, de Bruno Berle;Eva, de Evinha;Little Eletric Chicken Heart, da Ana Frango Elétrico, que foi uma grande inspiração para os arranjos, além daquilo de ter coisas muito grandiosas e deboche também. E tem quem eu mais ouvia e não dá pra citar um álbum, que era Ângela Ro Ro. Quando eu comecei a compor eu estava vidrada nela, e ainda eu fazia muitas músicas no piano, então tinha muito a referência dela, as vezes nem da composição, mas da postura dela. Ela sabia muito bem seduzir o ouvido, puxar pra perto.
el Cabong: A morte dela também deve ter te abalado, bem no período de lançamento do disco.
Lorena Moura: Nossa, eu sofri demais. Eu trabalhava em uma casa de shows aqui do Rio, e ela fez uns dois enquanto eu trabalhava lá, e foi uma honra. Também fui ver em outras ocasiões. Ela era muito doida, mas ela era muito autêntica e hilária. E eu amo que ela era muito engraçada, que tem esse humor que quebra a expectativa, que é muito importante para compor também. E ela amava contar as histórias das músicas e cantar. Era muito especial.
el Cabong: Eu vejo que você não tá sozinha no estilo de música que você toca. Dá pra ver Ana Frango Elétrico no som, e se vê alguns artistas, sobretudo cariocas, que tem feito música que remete muito às décadas de 1970 e 1980, seja com harmonia, voz, arranjos ou letras. Como você vê esse tipo de música e canção retornando agora com vocês que tem vinte e poucos anos?
Lorena Moura: Eu acho que Ana Frango Elétrico tem uma maneira muito especial. Porque acho que ela sabe pegar a referência, mas não imitar, saca? Dá pra ver no som dela que tem várias coisas que são identificáveis, e eu acho isso super justo, acho que temos que assumir que queremos fazer umas coisas e que elas soem desse jeito, mas que sejam parte da sua identidade. Eu penso que ela faz coisas super novas na letra, que faz ficar muito com a cara dela, de uma maneira muito original.
Acho justíssimo fazer coisas que remetam a outras. Mas pra mim é muito interessante pegar essas coisas antigas e trazer pro novo de uma terceira maneira. Eu tenho um certo pavor de ficar datada nesse sentido”
Eu tenho muito medo de fazer imitação. Considero que quando se pega essa estética dos anos 1970 e 1980, meio saudosista, eu adoraria não cair no saudosismo pelo saudosismo, de usar uma estética só que sem a narrativa que acontecia por trás daquilo. Creio que tudo bem pegar uma sonoridade, e eu pego muito, e eu acho super justo, as coisas são lindas e são para ser usadas e reutilizadas. tem uma estética diferente eu fazendo música com uma referência antiga e falando de agora.
Acho justíssimo fazer coisas que remetam a outras. Mas pra mim é muito interessante pegar essas coisas antigas e trazer pro novo de uma terceira maneira. Eu tenho um certo pavor de ficar datada nesse sentido, contudo não condeno. Se você não tem essa referência você tem outra e se não fizer isso vai fazer outra coisa. É natural também, já que os anos 1970 e 1980 foram gigantes na música brasileira e são escola. Com a cena ficando maior e crescendo, existem mais estilos e é normal que retornem as referências que ficaram meio apagadas por um tempo.
el Cabong: O clipe de “Quis” parece muito o resultado do que você passa com o Mata-Leãocomo um todo, aí eu queria saber como gravar e ter a concepção dele?
Lorena Moura: O clipe tem isso, ele foi feito por muitas mãos, e todos são meus amigos. O Lorenço Moura, meu irmão, foi quem dirigiu o clipe. E todos amigos meus que trabalham com cinema que fizeram junto, e o Luca também participa. O roteiro é meu, dele e do Lorenço. Então também realmente é um momento que achamos para desembocar nossas referências estéticas. É como o álbum, bem múltiplo, por vezes megalomaníaco, mostra um bocado de coisa. Também foi a minha primeira experiência gravando clipe, da maneira que queríamos, sonhávamos, da forma que era possível, algumas menos possíveis, mas foi bom, uma experiência intensa. Aquelas duas senhoras que estão no clipe são minha avó e a melhor amiga dela, e carregamos elas pela cidade para gravar coisas. Foi tudo na cara e na coragem, mas foi bastante interessante, e mostra um universo para além de “Quis”.








