Por Felipe Vieira
Documentário bom é aquele que joga luz sobre coisas que eram nebulosas para o espectador. E nesse sentido, “Andar na Pedra – A história dos Raimundos” (2026), de Daniel Ferro, disponível na Globoplay, tira 10 com louvor. São cinco episódios de uma hora cada em que o diretor entrega uma microscópica análise da trajetória e dos perrengues pessoais de um dos – sem qualquer exagero – maiores fenômenos da música brasileira em todos os tempos.
Ferro abre as câmeras para que os quatro integrantes contem suas respectivas versões de anos de barulho, brigas e de desbravamento do cenário pós-geração 80 – Canisso faleceu vítima de um infarto em 2023, durante a fase de pré-produção, então suas falas vêm de áudios das entrevistas para a preparação do roteiro. Mas a presença da esposa dele, Adriana, como suporte para suas falas é uma nobre solução para a ausência física do baixista.
A integridade artística de Rodolfo ao longo da trajetória da banda merece máximo respeito – assim como o fato de ele não cagar regra sobre sua fé religiosa em nenhum momento.
Mesmo o polêmico Digão sai incrivelmente humanizado da série. É possível ver, por trás da marra, a criança que ressente o tratamento seco e violento que recebeu do pai e que perdeu precocemente o irmão mais velho – seu maior ídolo e inspiração. Sem contar que fica claro, para além de qualquer dúvida, que ele foi o que mais trabalhou – inclusive de forma braçal – pra manter o grupo.
A minha geração foi testemunha ocular – e, principalmente, auricular – do impacto daquele trem-bala desgovernado que eram os Raimundos. E finalmente entender o que se passou “de dentro” traz ainda mais respeito por essa história.






