Discos: Tom Zé aborda temáticas indígenas e africanas em ‘Língua Brasileira’

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4.2

Músico e compositor baiano mantém viva a chama da Tropicália ao longo de onze faixas cheias de inventividade e rebeldia


Por Raphael Vidigal*

Certa vez, um estudioso comentou que a matemática é a linguagem universal, afinal de contas, os números são iguais em qualquer lugar do mundo. Dois é dois tanto no deserto africano do Saara quanto nos iglus canadenses. Já o idioma – ou alfabeto –, outra forma de comunicação inventada pela humanidade, abarca uma diversidade que virou tema bíblico, como comprova a nossa afamada Torre de Babel: onde todos falam e ninguém se compreende.

Outro caso célebre é o de Policarpo Quaresma, herói do romance de Lima Barreto que teve um triste fim mas, antes disto, lutou bravamente pela conservação da língua que considerava digna. Em não podendo reestabelecer o tupi-guarani em terras brasileiras, decidiu resistir à intervenção dos estrangeirismos franceses que deturpavam nossa soberania. Recusava o uso de expressões como abajur e buquê, preferindo, por exemplo, arranjo de flores.

A Língua Brasileira de Tom Zé é um pouco mais flexível e maleável. A capa do álbum que ele acaba de lançar apresenta uma espécie de cubo mágico, com as letras dispostas numa conversação íntima com o concretismo. A palavra tem corpo ou, antes, até a letra e, portanto, cor, cheiro, som, perspectiva e nuances mil. Serve a protestos e ao lirismo de “Clarice”, uma das mais delicadas letras do disco, quase um haicai que estica as palavras para chegar à sua essência: “nesse quarto minguante que mingua…/ uma língua…”.

Ela aparece lá no fim do repertório, em seu papel de síntese do livro de intenções do compositor, com pouco mais de um minuto de duração. Os números, embora iguais no mundo todo, também revelam suas imbricações. Antes disso, com a estética tropicalista que consagrou sem perder o poder de inventividade e rebeldia, Tom Zé atravessa estradas idílicas na envolvente “Unimultiplicidade”, que se assanha como balada antes de distorcer esse rumo.

E recebe as intervenções alucinadas de Maria Beraldo na faixa que intitula o álbum. Os indígenas aparecem aqui e acolá, tal como os orixás, dando o peso devido da presença africana e dos povos originários nessa língua peculiar. O que se fala no Brasil não é exatamente português, nem é mais o tupi de priscas eras, mas algo no meio desse caminho, ou além dele, fruto da tal mistura entre continentes, formas e conteúdos que se colidem. Dessa mistura nasce o Brasil.

Com suas infinitas deformações e desigualdades, a presença de nordestinos e árabes, os conflitos que emergem na trilíngue “San Pablo, San Pavlov, San Paulandia”, que não abre concessões ao consenso, pelo contrário, explode as contradições típicas da sociedade brasileira. “Hy-Brasil Terra Sem Mal” pensa na idealização de uma ilha. “Pompeia-Piche no Muro Nu” elimina as distâncias entre romanos e paulistas, e vai do piche à pichação, linguagens combatidas…

“Gênesis Guarani” senta pé no rock. “Metro Guide” vai pelo lado do xote, xaxado e baião. Tom Zé revolve suas origens em Irará, no sertão da Bahia, com aquela ironia que o leva a comparar-se de cima com os cidadãos de Nova York, tida como a capital do mundo, e criar uma canção feita com: números. Números de serviços públicos, de associações comunitárias, que englobam do Serviço Único de Saúde à vigilância epidemiológica, em tempos de pandemia…

Há ainda “Índio Desliga Jaraguá”, sobre a briga sangrenta pelas posses de terra nesse país descoberto e violentado. Assunto que vem bem a calhar quando as manchetes nos mostram crimes cada vez mais hediondos nessas áreas e a tentativa governamental de extinguir as demarcações indígenas. E a parábola “A Língua Prova Que”, quando o pior e o melhor se espelham. Em tom épico, Tom Zé encerra sua saga linguística com “Os Clarins da Coragem”. Clama por liberdade, se porta como autêntico Policarpo Quaresma, tropicalista.

 

* Publicado originalmente no itatiaia.com.br

Tom Zé - Língua Brasileira
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