Ao som do realejo

Aos 73 anos de idade, o mestre popular João Pernambucano apresenta “Realejo Nordestino” com pérolas instrumentais da música nordestina.

Um pequeno instrumento que lembra uma gaita na mão, mais de seis décadas de experiência nas costas e o clima de sertão se expandindo através de sua música. Esse é João Pernambucano, um músico popular, que aos 73 anos de idade está lançando seu primeiro CD amanhã, às 20 horas, no Teatro Vila Velha, com abertura da Banda de Pífanos de Canudos Velho.

Armado com um realejo e acompanhado apenas de zambumba, triângulo e pandeiro, o músico apresenta, tanto no disco quanto no show – batizados como “Realejo Nordestino” – um repertório de composições quase todas próprias que passeiam por xotes, forrós, frevos e até boleros. Não há voz, apenas o canto do realejo solfejando a vida no sertão.

O tom na vida é o mesmo na música, pura riqueza vestida de simplicidade. João Pernambucano é uma daquelas preciosidades escondidas. Hoje, ele é um dos poucos músicos que mantêm a radição do realejo, um orgão de boca, utilizado como brinquedo musical em feiras e vilas do Nordeste. Com seu jeito simples, como é característico do sertão, ele diz que é fã do instrumento. “Sou músico de juízo. Não sei ler bem e não escrevo, mas por causa do costume de criança aprendi a tocar”, conta.

Há 40 anos ele mora na capital do bode, Uauá, mas sua origem é Caruaru, em Pernambuco, onde aprendeu com o pai a tocar o realejo. No começo, era para ajudar na venda de pão, até começar a levar a carreira de músico de forma mais profissional. Aos 20 anos, já partia para se apresentar em vários lugares do país de São Paulo ao Ceará. Nas andaças aprendeu a tocar sanfona, triângulo, reco-reco e pandeiro, chegando a se apresentar ao lado de Jakson do Pandeiro e do Trio Nordestino.

Boa parte de sua vida Pernambucano passou trabalhando com outras profissões, especialmente como pedreiro. Viveu um tempo em São Paulo e em Salvador, depois voltou para Pernambuco. Casado veio morar no sertão baiano onde ajudou a construir cisternas. Aos 69 anos, decidiu colocar a vida de músico como prioridade. Hoje, depois de anos trabalhando, está aposentado. Passa a maior parte do tempo alternando entre deitar na rede, dormir e tocar um pouco.

Mesmo nos tempos mais difíceis, seu João não abandonou a música. Tocou em conjuntos pé-de-serra, animou festas populares e acabou dominando vários ritmos. “Aos 73 anos de idade ainda toco a noite inteira nas festas de São joão. Decoro tudo. Nessa idade que tô não esqueço”. Um de seus maiores orgulhos é exatamente a memória musical. Assim preservou modas típicas nordestinas do tempo em que ainda ouvia seu pai tocar. Sua próprias composições são herdeiras desse período, mas nada disso estava registrado.

Através do projeto “Sons de Canudo”, organizado pelo pesquisador Marcelo Rabelo, Pernambucano gravou seu primeiro CD e pôde deixar para posteridade a doçura de sua música. O disco traz 12 faixas, quase todas dele próprio. Mesmo sem experiência em estúdio, o disco não deu muito trabalho. Bastou uma boa sequência de ensaios e entrar no estúdio para gravar ao vivo com os músicos.

“Acho que esse disco tem uma importância não só a nivel de registro e de recuperação do repertório desse mestre, mas principalmente por revelar essa música do sertão da Bahia que durante muitos anos ficou esquecida. Com esse CD, pessoas dos lugares mais distantes vão poder conhecer essa música“, afirma Marcelo. Para ele, o público precisa conhecer a cultura da região de Canudos, marcada apenas pela guerra. ”O disco é uma possiblidade para que os moradores da região possam mostrar que a cultura deles está viva”.

João Pernambucano já se apresentou outras vezes em Salvador. A primeira foi no Mercado Cultural de 2003, quando se destacou entre os vários artistas do evento. Ele voltou ainda em 2004, para abrir o show de lançamento do CD de Landinho Pé-de-Bode (outro nome do sertão baiano).

Tanto no disco quanto no show, mestre João é acompanhado dos mesmos músicos. Realejo a frente, e o acompanhamento de João Batata na zabumba, Jorjão no triângulo e João de Eliseu. Quase o formato de um trio nordestimo clássico, só que aqui é o realejo quem faz as vezes da sanfona. E faz muito bem. Uma viagem para o sertão.

Sons de Canudos
Entre os próximos lançamentos do projeto “Sons de Canudos“ está o terceiro disco da Banda de Pífanos de Bendegó, que já está gravado, faltando apenas os últimos detalhes. O trabalho seguinte será da Banda de Pífanos do Raso da Catarina, um grupo de um povoado do município de Macureré, ao norte do Raso. O grupo tem como diferencial entre outas do mesmo tipo a temática que resgata a memória do Cangaço.

João Pernambucano e Banda de Pífanos de Canudos Velho | dia 6, 20h | Teatro Vila Velha (3336-1384) | Av. Sete de Setembro, s/n, Passeio Público | R$20 e R$10


Realejo Nordestino
João Pernambucano
Sons de Canudos
R$ 15
João Pernambucano está entre aquelas pessoas que mostram que o conhecimento não está apenas nas escolas, livros e na Academia. Aos 73 anos de idade, ele está lançando seu primeiro disco, um trabalho simples, sem truques, gravado ao vivo em estúdio, que leva o ouvinte ao clima das festas do sertão. Apesar de ser uma estréia, o CD está longe de ser trabalho de um amador ou de um iniciante. João Pernambucano começou a tocar aos sete anos e não parou mais. 63 de carreira não é pouco. A música, porém, para homens como ele sempre foi encarada como forma de se expressar e rechear os momentos de quietude do sertão. Não é encarada como ferramenta de prestígio ou de lucro num mercado. Por isso, tanto tempo sem um registro de sua obra. O CD reúne 12 faixas que trazem o sabor de estar no meio da caatinga em meio a uma festa de sertanejos e o convite para puxar o par para a dança. João Pernambucano desfila uma sonoridade bem particular, xotes, forrós, frevos e até boleros, em composições quase todas próprias, todas instrumentais, com o som de seu realejo no comando, sutil e imponente ao mesmo tempo.

  1. “Passa a maior parte do tempo alternando entre deitar na rede, dormir e tocar um pouco”.
    É exatamente isso que um verdadeiro músico precisa. E o primeiro disco aos 73 anos é uma prova de amor à música. Confesso que achei bem mais interessante do que ler sobre bandas de rock.

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