por Ciro Garcez
Catatau é a síntese escolhida para ser o título do quarto álbum do cantor e compositor arapiraquense, Ítallo França. Como dá para entender, logo pelo título a síntese já nos propõe que o cantor tem muito a dizer, e como é bom que ele tem. Lançado em maio deste ano, 2026, e produzido pelo próprio Ítallo França em conjunto com Paulo Novaes, conta com participações de Zé Ibarra, Tori e Marina Nemésio, além de uma equipe diversa, com muitos nomes de destaque ou que estão ascendendo no cenário musical brasileiro.Catatau, é um catatau de coisas, assuntos, texturas, ritmos; um álbum múltiplo, porém conciso, o que mostra a maturidade do trabalho solo que Ítallo desenvolve.
É bom contextualizar quem é Ítallo França, para quem descobriu agora. Ítallo é de Arapiraca, Alagoas, e tem uma carreira solo de dez anos, com o seu primeiro álbum sendo oCasa(2016),porém antes ele já tinha se envolvido com grupos, como a bandaAlfabeto Numérico, que gravou o EPEstrela Carente (2014); e também com o mega-grupo e coletivo artístico The Mozões, que tem o álbum homônimo, de 2015. Nesses dez anos, Ítallo França ainda lançouO time da Mooca (2020), eTarde no Walkíria (2023).Tarde no Walkíria, que tem talvez a música mais tocada da carreira do cantor, que é “Retrato de Maria Lúcia”, música que estourou após ser gravada por Zé Ibarra no seu álbum,AFIM(2025), e que deu maior projeção ao trabalho de Ítallo. Além disso tudo, ele ainda é parte do time de compositores do álbum EQUILIBRIVM II (2026), de Anitta, no qual ele é um dos autores de “Ogum me Rodeia”.
Gosto de colocar essa pequena biografia para entender um pouco sobre o próprio Ítallo. Ele é um dos nomes que tem se destacado da cena alagoana atualmente, mas é um longa trajetória, que ele mesmo diz que “era pequeno, continuei pequeno”. “Retrato de Maria Lúcia” o projeta, e apresenta oTarde no Walkíria para um novo público, presenteia a quem buscou ele músicas e letras muito arrojadas. Mas é isso, é muito além do que seria umOne Hit Wonder.Catatau é um álbum que mostra que ele tem muito mais a mostrar. Um álbum que sampleia o discurso de posse de Lula em 2002, em “Nina do Avon”, e faz pensar porque não pensaram nisso antes; que coloca o futebol como uma das graças no meio do cansaço do povo brasileiro, que dialoga com várias gerações, fala de amor; e que, principalmente, fala sobre trabalho. Fazer música, viver de música e sair do seu estado, como o próprio Ítallo coloca, é “matar dez leões por dia”. Fazer música dá trabalho, é trabalho, e Ítallo França, dentre o catatau de coisas que tem pra falar, tenta conversar sobre o que une a todos nós, além de crianças, esperança, lazer e futebol; que é o trabalho.
Em ano de eleição, votação da escala 6×1 e Copa do Mundo, esse é um momento que tudo acontece ao mesmo tempo, e o trabalho não pode ser negligenciado, ele está no centro de tudo. Se nossas vidas são tão atreladas ao trabalho (e eu lamento por isso), ao ponto de nossas identidades serem moldadas pelas horas que gastamos ali, Ítallo propõe e não foge do debate. Aqui vem uma entrevista longa (mais uma), que Ítallo concede ao El Cabong, com um catatau de coisas, de assuntos, e que felizmente, não há fuga, há muito o que pensar.
el Cabong: Você se considera um cara nostálgico?
Ítallo França: Cara… Eu conversei sobre isso recentemente e… eu acho que eu tive uma fase da minha vida que eu fui nostálgico. Eu sou canceriano. O canceriano, o estereótipo dele, é o do cara que vive no passado, que o passado é uma coisa muito presente, não sei o quê. Isso, em algum momento da minha vida, fez muito sentido. Eu acho que eu fui um cara nostálgico durante muitos períodos da minha vida. Eu acho que quando eu tinha 15 anos, eu tinha saudade dos meus 10, 5 anos; nos 25, eu tinha saudade dos 15; e por aí vai. Só que hoje, eu tenho 34 anos e eu tô vivendo uma fase da vida que eu não costumo sentir saudade do que eu vivi. Eu sinto algum orgulho. Obviamente, eu faço essa reavaliação, como todo mundo faz do passado, com alguma frequência. E a nostalgia, ela tem algo de… de romântico, né? Eu não vejo com romantismo a lembrança que eu tenho de 10, 15 anos atrás. Eu vejo com algum orgulho. Então, hoje, eu tô vivendo uma fase muito inédita nesse momento da vida. De não olhar muito para trás com esse olhar romântico.
Agora, indo para o meu lugar, o meu trabalho como artista e tal, eu acho que eu revaloro. Eu tento, no meu trabalho como criador, como compositor, essas coisas, eu tento não deixar cair a peteca em alguns assuntos de música que eu vejo que hoje, na atualidade (e eu não tô falando dos meus colegas de geração que fazem música), é uma coisa de mercado.
O que toma conta do mercado hoje de música é uma música muito depauperada, né? Principalmente na questão da letra e tal, dos assuntos. Eu acho que nós estamos cada vez mais empobrecidos com o discurso. E eu acho que quando a gente não se preocupa com o texto… e isso já é um reflexo do quanto a gente lê pouco, escreve pouco, e aí pensa pouco também; e aí, por isso, qualquer coisa encanta. Então, só pra dar a resposta mais completa: eu entendo que é possível interpretar que o meu trabalho como músico possa ter uma nostalgia, mas eu, o CPF aqui falando, do Ítallo França, eu acho que não tenho. Eu não vivo a vida com nostalgia mais. Já tive esse momento, hoje não.
O que toma conta do mercado hoje de música é uma música muito depauperada, né? Principalmente na questão da letra e tal, dos assuntos. Eu acho que nós estamos cada vez mais empobrecidos com o discurso.”
el Cabong: Sim. Eu comecei com essa pergunta porque eu vejo que existem pontos de nostalgia na sua obra, desde Casa(2016) até agora com Catatau(2026), existe esse olhar para o passado. Como no seu trabalho isso afeta? E como você pensa os álbuns a partir de onde, assim?
Ítallo França: Cara, isso mudou, né? Isso vem mudando constantemente. Eu acho que oCasa, por exemplo, e não só ele, mas os três primeiros discos, né? Inclusive, eu sinto que oCatatau marca um pouco uma certa ruptura. Eu acho que também é um reflexo desse momento da vida que eu tenho vivido, que essa nostalgia já não é uma coisa tão forte na minha vida. Eu acho que, por exemplo, na minha ideia ali na época, e cada vez mais olhando de longe, eram reflexões sobre a primeira infância. Inclusive, porque eu estava mais próximo da primeira infância, há 10 anos atrás eu tinha 24 anos, quando lancei o disco, mas escrevi as músicas com 20, 21, 22. Então, eu estava mais próximo da infância. Porque você fica pensando assim “Ah, pô, com 22 anos”, há 10 anos atrás, eu tinha 12. Então, você está muito mais… Eu acho que as memórias de infância estão muito mais próximas de você. Então, oCasa cumpre essa função de trazer as primeiras memórias, que são as memórias de família, as memórias que você tem com seu pai, sua mãe, sua casa, seus parentes, seus primeiros amigos e tal.O Time da Mooca (2020), que é o meu segundo disco é, entre outras coisas, de memórias. Já de uma memória pré-adolescente, adolescente, e um pouquinho de fase adulta.O Tarde no Walkíria (2023), que é o meu terceiro disco, é o meu disco mais conhecido, mais ouvido, é de memórias da fase adulta. Já fala sobre as primeiras questões da fase adulta, que eu lancei em 2023, mas com músicas que eu tinha feito ao longo dos anos. Tem músicas mais antigas do que de 2023, 2019, 2020, 2021. E aí eu acho que oCatatau não tem essa nostalgia, ele não fala mais de um tempo. Obviamente, em alguns momentos, pode até ter alguma coisa falando sobre uma coisa que foi vivida, um negócio, mas está muito ligado ao que vem para frente e ao que tem hoje. Então, sim, eu acho que o meu trabalho é marcado por uma revisão do passado, da minha vida, mas oCatatau, quebra um pouco desse ciclo.
Eu acho que escrever novos assuntos, como comentar coisas da vida através da palavra, e através da música, do som, da melodia, é uma coisa que me encanta e me estimula demais.”
el Cabong: E o que você vê nos álbuns que continuam dentro da sua carreira? Tanto de letra, quanto de experimentação sonora? Acho que tem alguns temas persistentes na sua obra. Tem letras sobre amor, o futebol é muito presente na sua obra também, as métricas das letras. Desde o Tarde no Walkiria, você flerta mais com música eletrônica. No Catatau chama muito a atenção o sample de som ambiente, mesmo que não seja majoritariamente no disco. Mas, afinal, o que você vê da sua linguagem persistindo nesses álbuns?
Ítallo França: Então, esse quarto disco, que é oCatatau, acho que é um disco que começa a desenhar alguma identidade no meu trabalho. Porque oTarde no Walkiria, pra muita gente, é o meu primeiro disco. E é normal. Eu faço música, esses discos que a gente tá falando, conversando, de 2016 pra cá. Eu era muito pequeno em 2016; continuei muito pequeno em 2020, quando eu lancei oTime da Mooca; em 2023 eu saí um pouquinho da bolha, mas muito pequeno também; e oCatatau, estamos vivendo a história dele ainda. Eu acho que oCatatau, principalmente, ele traz uma coisa de… um desenho mesmo de uma identidade, de uma possível identidade no meu trabalho, que eu acho que, sinceramente, não é exatamente a grande preocupação da minha vida, ter uma identidade. Até porque eu acho que eu vou ter uma discografia de fases, então o que eu estiver curtindo no momento, eu vou estar falando. Mas, talvez, algumas coisas fiquem cristalizadas. E uma delas, eu acho que é a preocupação, o rigor com a letra de música. E quando eu falo rigor, não é porque eu estou querendo escrever uma letra difícil, uma letra extremamente formal, técnica. Não, eu acho que ela pode ser uma letra completamente doida, despirocada em algum momento. Mas, até quando isso acontecer, você vai saber que isso está acontecendo porque eu, de alguma forma, domino a técnica de compor canções.
E é só isso. Quando eu falo que eu domino, não estou dizendo que eu sou bom, nem que eu sou o melhor de todos, nem nada. Eu acho que para a gente exercer o trabalho, e é isso que oCatatau tenta trazer, a música como trabalho mesmo, a arte como trabalho, eu tenho que… se eu quero pregar uma porta, eu tenho que saber bater um prego, apertar um parafuso. Fazer música é exatamente a mesma coisa. Eu tenho que dominar alguma coisa, as coisas básicas da produção. Eu tenho que saber. E aí, eu acho que isso vai ser um ponto marcante, porque é um ponto que me dá prazer também. Eu acho que escrever novos assuntos, como comentar coisas da vida através da palavra, e através da música, do som, da melodia, é uma coisa que me encanta e me estimula demais.
el Cabong: Quando você fez o Catatau, você tinha o que em mente? Quando você chegou no estúdio, você já pensava nesse disco assim? E pra chegar nele com esse nome também, como foi?
Ítallo França: OCatatau não existia antes, o disco não começou com um nome. Na verdade, quando o disco já tava quase que pronto, o nome “catatau” apareceu pra mim. Ele veio de uma conversa, tava conversando com a pessoa falando sobre Paulo Leminski, e aí eu falei que oCatatau(1975) era um livro do Paulo Leminski que era pouco conhecido, mas muito bom. Um livro de muito prestígio, porque era um livro de prosa experimental dele, quase um tratado filosófico. E aí, enquanto eu falava a palavra “catatau”no meio da frase, eu me dei conta de que a palavra era muito boa e poderia ser o nome do disco, porque eu acho ela uma palavra bem humorada, uma palavra boa, e você abre a boca pra falar, por causa das várias letras “A” que existem na palavra. Eu acho que o título tinha a ver com o que eu queria no começo, que era de fazer um disco que falasse tudo que eu queria falar. Eu acho que é um disco muito verborrágico, então eu precisava falar muitas coisas pra dizer tudo que eu queria dizer. Obviamente, eu nunca disse tudo, mas pra um trabalho, eu acho que eu disse muita coisa. Então, o disco cumpriu essa missão. Acho que ele tem vários temas, ele circula por vários, e em todos eu falo muito.
O disco é um catatau de coisas: assuntos, palavras, músicas. São 13 faixas, todas com letra, não tem instrumental. Em todas eu falo muito sobre várias coisas. Essa era a primeira intenção do disco, obviamente, a coisa vai se desenhando. Primeiro, eu queria fazer um disco sobre trabalho, e eu acho que tem um componente forte do trabalho e das suas questões, principalmente da uberização, da precarização do trabalho. Mas depois a coisa foi se delineando para outras coisas também. E aí, obviamente, sempre existe o espaço para aslove songs, as músicas de amor, que acabam tomando um grande espaço, porque é um tema que todo mundo gosta, não tem como, as pessoas procuram isso e tal. Eu acho que eu tenho também uma coisa… eu consigo fazer um tipo delove song que as pessoas costumam gostar e tal, e aí acaba se destacando entre as outras músicas. Mas a primeira ideia do disco era fazer um disco um pouco mais político, sabe? Um político que não se escondesse tanto, que não fosse tão sutil, falasse o que tem que falar. Sabendo que o disco sairia em 2026, que é o ano de eleição, acho que seria importante trazer esse disco para o mundo com essa temática.

el Cabong: Na entrevista que você deu para Lu Melo, no site Tenho Mais Discos que Amigos, você fala que 2002 foi um ano importante na História, quando você fala do sample do discurso de Lula em “Nina do Avon”. Você lança Catatau em 2026, ano de eleição, ano que foi votada a escala 6×1. Também é um ano que tem a escalada da extrema-direita na América Latina, ganhando eleições presidenciais na região, que é completamente diferente do cenário de 2002. Enquanto em 2002 tem aquilo que chamam de “Onda Rosa”, agora vem a “Onda Azul”. Então, como você pensa a importância das músicas do álbum serem lançadas em 2026?
Ítallo França: A música, principalmente essa música que você cita, que é a “Nina do Avon”, que fala do ano 2002 e tal, eu acho que ela marca duas coisas em mim. Eu acho que, por exemplo, a primeira leitura que pode ser feita dessa música, que é superficial, mas completamente válida, é de que existe um sentimento de nostalgia com o ano de 2002. Existe. Mas tem uma coisa também que é o otimismo, sabe? Eu acho que as pessoas não têm dimensão do que foi o ano de 2002 ainda, sabe? 24 anos depois, elas não sabem o que foi. Eu acho que o Brasil estava integrado às intenções do mundo naquela época, que era de dar oportunidade para os governos progressistas. Não era um governo socialista, mas um governo que tinha preocupações sociais. Isso aconteceu em outros países da América do Sul e até em países da Europa. Barack Obama foi eleito em 2008. Então, tudo que faz parte desse período entre 2002 e 2010. Eu não tô falando que o Barack Obama é um santo, não, mas é porque isso para os Estados Unidos já é demais, porque hoje eles tem o Trump, que é um extremo oposto, mas há 20 anos atrás quase, eles elegeram o Barack Obama. Então, assim, eu acho que o Brasil vivia esse momento de integração com o mundo, e hoje, 24 anos depois, nós temos o mesmíssimo Lula, quer dizer, não é o mesmo Lula, mas é a mesma pessoa, se candidatando porque a gente não tem mais opções na esquerda, e a América Latina está completamente depauperada, sendo governada, na maioria dos seus países, por pessoas que quando não são de direita, são de extrema-direita, o que é pior ainda.
Então, é um momento de angústia, principalmente. Embora o Brasil tenha o Lula como o nosso presidente, que pode ganhar uma próxima eleição, é triste que só tenha ele também. E, assim, eu acho que a música, a “Nina do Avon”, ela vem para acenar, se ela tivesse, se ela pudesse ter um poder que fosse de acenar para as novas gerações, que nós podemos, mais uma vez, viver aquilo. Até porque eu acho que o mundo vive de ciclos, eu acho que vai ter um momento, principalmente no Brasil, nessas eleições, que já não vai ser mais como foi em 2018, com o Bolsonaro, a eleição dosoutsiders. Eu acho que vai ser a eleição realmente dos políticos tradicionais, não estou dizendo que isso é bom, mas não vai ter mais aquele fenômeno do cara da internet que faz muito sucesso noTikTok ou noFacebook,Instagram, qualquer coisa, e que vai aparecer do nada, que ninguém conhece, e ele vai lá e ganha uma eleição para presidente. Acho que isso não vai acontecer agora. Então, isso já marca o fim de um ciclo, que é o ciclo dos outsiders, que pode voltar, porque são cíclicos, então pode voltar. Eu queria muito, como tudo é ciclo, que em algum momento, nós conseguíssemos, no Brasil e no mundo, formar grandes quadros de esquerda para ter a opção de ter um horizonte progressista nos próximos anos para a América Latina, que hoje eu não percebo no Brasil. Se você for ouvir “Nina do Avon” e pensar nisso, eu queria que a gente pensasse como um sinal otimista de que a gente pode pensar esse Brasil de novo, porque é só ter um esforço coletivo, é só se esforçar coletivamente com outras pessoas e tentar criar um novo caminho. Eu acho que é possível. Só que se ficarmos isolados, a direita vai vencer tudo.
(tem) uma geração que já viveu na internet e que tem esse problema do vício em telas, que é uma preocupação para mim e para muita gente. Porque eu acho que, além do próprio vício em si em tela, que pode fazer mal à saúde em várias frentes, eu acho que tem a coisa também de você pulverizar o teu passado. Que memória eu vou guardar no celular? Porque eu não brinco na rua, não tenho um amigo que eu faço. A minha memória vai ser toda registrada na tela. Vai ser um layout. Tudo que estiver guardado na memória vai ser através de um layout. Isso eu me preocupo.”
el Cabong: Isso do otimismo lembra uma das minhas músicas favoritas do álbum, que é “Alô, Alô, Lolô”, que não sei o que dá, na minha cabeça também fez uma relação com uma música de Tori, que é “Júlia e Bebéu”, sendo que são sobre gerações completamente diferentes, mas, não sei, acho que as duas dão um otimismo. E é isso, acho que é a ponte entre dois tempos totalmente distantes atualmente, se pensar “Nina do Avon”, tendo 2002 como base, e “Alô, Alô, Lolô”. Eu queria que você comentasse um pouco sobre “Alô, Alô, Lolô”.
Ítallo França: Você citou “Júlia e Bebel”, eu acho que essa música tem algo de nostalgia do passado, a nostalgia que a gente conhece, e “Alô, Alô, Lolô” é a nostalgia do futuro. É aquilo que a gente não conhece, mas que temos alguma esperança, pelo menos eu tenho esperança de que pode ser melhor. E eu digo que isso parte de uma observação muito pessoal, porque Lolô é a minha sobrinha, e é uma música como a música da Tori (que eu amo, inclusive), que fala da família, das memórias particulares, do seu parente; Júlia e Bebéu são os avós da Tori. E eu acho que essa música, a música que eu fiz para a minha sobrinha, ela serve como um aceno. Eu acho que ela se liga à “Nina do Avon” nesse sentido, porque ela tem um aceno. Eu fui criança em 2002, mas agora estou falando para uma criança de 2026. Ela está com 14 anos agora, mas escrevi a canção um pouco antes. E ela é uma criança para mim ainda. Com 14 anos você é muito jovem, então você está realmente participando da construção de uma nova História para o Brasil. Essa música serve como um aceno para essa geração alfa, beta. A geração da Lolô é alfa, mas já tem uma geração que vem depois da dela, que é uma geração que já viveu na internet e que tem esse problema do vício em telas, que é uma preocupação para mim e para muita gente. Porque eu acho que, além do próprio vício em si em tela, que pode fazer mal à saúde em várias frentes, eu acho que tem a coisa também de você pulverizar o teu passado. Que memória eu vou guardar no celular? Porque eu não brinco na rua, não tenho um amigo que eu faço. A minha memória vai ser toda registrada na tela. Vai ser umlayout. Tudo que estiver guardado na memória vai ser através de um layout. Isso eu me preocupo.
el Cabong: E tem ainda o caso dessa memória não mais física, e não sendo física, você precisa solicitar as Big Techs ou pagar as Big Techs para ter o direito da sua memória.
Ítallo França: Isso me dá uma angústia absurda. Porque, cara, eu não sei, eu não tenho uma opinião exatamente formada sobre isso, mas essa coisa de você ter que comprar o latifúndio da memória, o que é isso? Você compra para você ter um espaço para você colocar as suas coisas. E, ao mesmo tempo, eu sinto que a gente nem precisa daquele espaço todo, não precisa ter 2.400 fotos sobre a gente. É demais, não precisa ter tanto passado, tanta mídia sobre nós. A gente não reflete. É uma ferida do nosso tempo, nós temos que lidar com isso. É engraçado que nós temos nossos avós, nossos pais, que não tiveram esse acesso a essa mídia toda, e eles têm o seu passado ali registrado em 80 fotos de uma vida inteira; 80, 100, 120 fotos de momentos muito diferentes. E todas elas físicas, como você tinha falado, a memória não é mais física. A memória é de mídia, de nuvem, destream, de onda. E, assim, é uma dinâmica diferente. Eu acho que deve ter algum ponto positivo nessa história toda. Porém a geração de jovens brasileiros, eu sei que tem muita coisa ruim. Eu sei que tem a coisa doRed Pill, tem uns meninos aí que estão sendo ensinados de uma forma extremamente conservadora, uma visão sobre mulher completamente nociva, não só para as mulheres, mas para os próprios homens. Porque o homem que rivaliza com a mulher, ele também se minimiza, tá ligado? Irmão, vive tua vida. Fica de boa. Deixa a mulher ser algo que ela quiser e fica tranquilo. Sei lá, se libera. Para de ser tão preso às coisas. Então, existe essa meninada também, que está pensando em muita coisa ruim, mas existe uma galera que é essa galera, acho que a minha sobrinha está mais inclinada a ouvir, que é uma galera que está aprendendo muitas coisas também, muitas coisas boas, na internet, por causa da facilidade do acesso à internet, e tá fazendo uma certa reflexão que nós nunca fizemos ou fizemos pouco. Uma coisa sobre o uso de drogas, acho que a geração alfa tem uma reflexão interessante, a galera fala, mas a geração alfa não bebe e por isso eles são caretas. Posso falar por mim. Eu comecei a beber na primeira bebida, na primeira vez que eu fiquei bêbado eu tinha 16 anos, era de menor. E eu acho que é um negócio que incutem, que o homem tem que beber para viver essa parada, não sei o quê. Será que eu tenho que viver mesmo? Não me arrependo de nada do que eu fiz, mas por que eu tenho que passar pela bebida para dizer que eu vivi alguma coisa? Então, se essa geração está dizendo para mim que não é preciso, eu tenho que ouvir e respeitar mesmo, é isso. Eu acho que quando eu faço esse aceno para a geração alfa, eu estou te ouvindo e estou te respeitando, vocês estão vendo coisas que eu não estou vendo, então é isso.
Você compra para você ter um espaço para você colocar as suas coisas. E, ao mesmo tempo, eu sinto que a gente nem precisa daquele espaço todo, não precisa ter 2.400 fotos sobre a gente. É demais, não precisa ter tanto passado, tanta mídia sobre nós. A gente não reflete. É uma ferida do nosso tempo, nós temos que lidar com isso.”
el Cabong: Acho também que a Geração Alfa e a Geração Z, eles conseguem lidar com gênero, sexualidade e diversidade de uma forma que até agora nós não conseguimos, se você for ver até os millennials. Como eles encaram uma pessoa trans, é totalmente diferente do que se tratou durante todas as outras gerações (pelo menos as que eu convivi), e essa diversidade também.
Ítallo França: Concordo absolutamente com o que você falou. A minha distância para minha sobrinha é de 20 anos, e ela já nasceu numa geração, num mundo, completamente diferente dessa, principalmente nessa relação de gênero que você traz, e sexualidade, de orientação sexual. E isso é muito interessante, sabe? Porque eu sinto que (e eu sinto um pouco de inveja) se eu tivesse vivido numa geração mais liberada que a minha, boa parte de todas as manifestações preconceituosas que eu já tive quando eu era criança/adolescente/adulto, poderiam ter sido completamente evitadas. Se eu já tivesse nascido num mundo mais democrático, assim, sei lá, eu me reconheço como mulher, sou mulher, eu não me reconheço como nada, também não sou nada, e é isso, vamos falar pra frente, isso não diz muito sobre mim, isso é só uma determinação que eu fiz pra me sentir um pouco mais confortável com a vida, sabe?
el Cabong: Sim, e colocando isso da infância, por que Catatau tem a sua foto criança na capa?
Ítallo França: Então, até pensei em outras fotos proCatatau, mas agora se der uma olhada mais direta, quando estávamos fazendo omood board do que seriam osvisualizers doCatatau, que foi um projeto audiovisual dirigido pela Belle (Belle de Melo). Ela fez um mood board, ela fez um pdf, contando basicamente como ela queria fazer o filme, porque aí vai se tornar um curta, enfim, esse filme ainda vai sair, mas já saíram algumas cenas do visualizer que foram gravadas e tal, etc. Quando ela trouxe isso, ela pegou a minha foto, que é a foto da capa, que eu mandei pra ela, ela pediu várias fotos da minha vida, de infância, de família, de não sei o que, e aí ela pegou a foto e colocou nomood board e eu fiquei pensando: caralho, essa foto realmente é uma foto expressiva. Porque ali junto de um documento visual, eu comecei a ver essa foto com outros olhos. Eu não considerava ela logo no começo, e eu acho ela uma foto muito autêntica. Você vai ver a capa do Tarde no Walkíria, que é uma capa que eu gosto muito, que tem eu ali no mar de Maceió, essa foto, eu tava até comentando com uma amiga minha sobre isso, que eu não coloquei essa foto como capa do disco porque eu tô muito bonito. Na verdade, é uma foto que o meu cabelo tá totalmente desgrenhado (inclusive, não tá na régua), tá todo um tufo pra cá, um tufo pra lá; eu tô com a boca entreaberta, ninguém tira foto com a boca entreaberta; o olho vivo fechando, porque o sol tava batendo na minha cara; e eu tô pegando no peito; é uma foto de movimento, e assim; foi uma foto que foi tirada meio distraída, porque eu queria muito que representasse a espontaneidade. NoCatatau acho que essa espontaneidade também é preservada, porque sou eu criança, e a criança geralmente já é muito espontânea, e uma foto que eu tô meio bolado, assim; era uma foto 3×4 que eu fui tirar pra fazer a matrícula na escola, quando eu fui estudar quinta série; não era 2002, mas era início de 2003, então é um pouco dessa época de 2002, que é um dos temas do disco. Tem uma hora que eu fui convencido de que tinha que ser essa capa, porque tava tudo muito voltado para aquele momento de alguma forma. E eu acho que a foto (eu mesmo acho que eu represento muito o brasileiro médio), é uma criança, sei lá, uma criança de cabelo raspado, tá muito curtinho o cabelo, muito provavelmente vai ter sido uma das crises de piolho que eu tive na vida, toda criança tem, não lembro se era o caso, mas poderia ser, facilmente, e uma criança parda, né, então é uma criança muito brasileira, criança mestiça. Eu acho que é a cara do moleque que joga bola, a criança hipotética brasileira geralmente é uma criança com a minha cara. Então, por ser um disco muito brasileiro, acho que um disco com o meu rosto ali com 10 anos, seria simbólico, e eu tô muito satisfeito com o resultado.
el Cabong: Você tem participações que incluem Zé Ibarra, Tori e Marina Nemésio. Quando vemos a ficha técnica, tem pessoas que vem acompanhando você e as pessoas que frequentemente colaboram com seu entorno, como Domenico Lancellotti, Julia Guedes, Nyron Higor. Como foram essas participações? Como foi ter essas pessoas no álbum?
Ítallo França: O Zé é um homem que me deu um grande oportunidade na vida, assim, ele gravou uma música minha que ficou muito conhecida na voz dele, que é “Retrato de Maria Lúcia”, no último disco dele (Afim, 2025), daqui a pouco vai chegar a um milhão deplays noSpotify, por exemplo, e é uma pessoa que eu tenho intimidade, a gente já se conhece há algum tempo, a gente conversa, a gente discute muito quando se encontra, conversa muito e tal, então, e essa música que a gente canta noCatatau, a música que compomos junto, eu iniciei a música, ele fez um refrão, e eu terminei a letra. Isso é uma coisa importante também, falar sobre as parcerias de um disco, as parcerias de composição, todas as letras eu que fazia, em algum momento a pessoa contribuía com a melodia, mas, enfim, todas as letras do disco foram eu que fiz. Uma coisa que eu me orgulho, é de ter repetido os feats doTarde no Walkíria, porque Marina já canta comigo o “Retrato de Maria Lúcia”, Tori canta comigo “Para Anastácia”, e as duas vieram cantando comigo. Tori canta “Janeiro”, Marina canta comigo “Drive My Car”, epara mim, Marina e Tori são praticamente família, são minhas irmãs. Nós fizemos diversas coisas juntos, fizemos um show junto noCentro da Terra (espaço cultural paulista), fizemos shows em Recife, Aracaju, Maceió; e queremos fazer mais, fazer em BH, Salvador, Rio, em todo lugar! A gente se ama muito, são minhas irmãs, junto com o João Menezes, que faz coro no disco, mas que faz esse show da gente, a gente se ama tanto que inventamos um show só pra ficar junto um pouco mais, sabe? Então são meus irmãos, né? O Paulo Novaes, que é um amigo mais recente, que produziu o disco, também é um desses amigos que já entrou na categoria de família. O disco é rodeado de pessoas que eu amo muito, a maioria das pessoas. O Nyron é meu conterrâneo, uma pessoa que eu admiro muito, um grande músico, compositor, baixista; um grande artista. Ele tocou baixo em duas músicas:“Pelé Dotô” e “Nina do Avon”, que são duas músicas que eu amo. Aí tem Domenico Lancellotti, que é uma pessoa que eu admirava bastante, há muito tempo, queria que ele tocasse no disco comigo, e ele tocou; Frederico Heliodoro toca baixo na música do “Última Roupa”, que eu faço com o Zé, o Zé trouxe ele pro disco. Cara, tem muita gente que eu tô esquecendo. Júlia Guedes, que toca piano, Thomas Harres toca bateria em “Alô, Alô, Lolô”. Davi Fonseca, meu irmão querido, compõe comigo “Na Semana do Jogo”, que é uma pessoa que eu admiro demais, é um pianista e compositor absurdo; e é isso, assim, eu devo ter esquecido de alguém, peço um milhão de desculpas, porque foi um disco muito coletivo, muita gente, mas todos muito especiais.
el Cabong: Saindo um pouco do Catatau, tem algo muito interessante sobre uma das suas músicas, que é “Retrato de Maria Lúcia”, que teve proporções enormes. Como você falou agora, vai dar um milhão de plays na versão de Zé Ibarra. É muito curioso o caminho que essa música fez, você cantou lá no Festival Carambola com Júlia Mestre, ela se tornou a música mais conhecida do Tarde no Walkíria; e meio que ela tem uma jornada própria após ser lançada. Aí, como ela tem afetado a sua carreira?
Ítallo França: É, eu acho que você definiu bem, ela tem realmente uma jornada própria. Inclusive quando eu cantei pela primeira vez publicamente “Retrato de Maria Lúcia”, com a Júlia Mestre, foi em 2021, dois anos antes doTarde no Walkíria, não era um fonograma, mas era entre os amigos uma música meio comentada. As pessoas, o próprio Zé (Ibarra) já tocava, inclusive, antes do meu disco sair. E aí beleza, foi acontecendo, e aí gravei a música, a música também saiu, só que como eu era um artista sem o aparato que outros artistas maiores tem, a música saiu, mas não muito, foi saindo. Eu acho que a história doTarde no Walkíria é muito orgânica. Hoje é um disco que tem mais de 2 milhões de plays, quase 3 milhões de plays, mas que não aconteceu. Foi um disco que nunca estourou, ele tem uma caminhada lenta, mas muito consistente, e eu acho que em parte isso se deve ao sucesso de “Retrato de Maria Lúcia”, que é uma música que foi gravada pelo Zé, foi gravada pela Júlia (Mestre). O Saulo Fernandes tocou a música, que é daí de Salvador. O Saulo Fernandes, num dado momento, ele foi fazer um show acústico, noBlue Note, em São Paulo, ele tocou a música e falou, “bicho, essa música foi de um compositor lá de Arapiraca, Alagoas, e eu ouvi. Quando eu conheci essa música, eu fiquei uma semana chorando”. Assim, Saulo Fernandes! isso é doideira, é uma coisa muito inacreditável também, não gravou, mas olha onde chegou, sabe? Eu vejo todos os dias, eu vejo pessoas tocando e marcando, então eu sinto que é uma música que ganhou um espaço legal, nem sei como chegou nisso, mas é uma música que emociona as pessoas e tal, então acho que ela tem realmente uma vida própria. Ela é uma música além doTarde no Walkíria, acho que até além de Ítallo França, acho que vai chegar um momento (espero), que vão se esquecer que essa música é minha, de tanto que ela vai ser do mundo, e pra mim é ótimo, eu não tenho problema nenhum com isso, eu acho até que é meu orgulho, na verdade. Quando a obra, ela fica muito maior pro artista, pra mim, isso é a grande ambição que eu tenho na vida, inclusive.
Eu tenho ouvido muito, que é o Clube da Esquina 2 (1978), e assim, eu seria mais básico se fosse o Clube da Esquina (1972), mas eu tenho realmente uma história de adoração por esse disco, que sempre que eu ouço, eu fico muito mexido, acho que parece que tem tudo ali, sabe? Se você for ouvir o disco inteiro, de cabo-a-rabo, você vai encontrar tudo que você precisa, tudo que você precisa saber sobre o Brasil, sobre a música, sobre tudo, tá ali.”
el Cabong: Quais são os seus discos clássicos?
Ítallo França: Cara, então, agora eu tô em Belo Horizonte, eu tenho pensado muito no Milton Nascimento, é inevitável. Penso muito no Clube da Esquina, mas sobretudo no Milton Nascimento. Eu tenho uma adoração, que eu acho que todos os meus colegas de geração, pessoas que fazem música comigo, tem um tipo de devoção, um respeito muito bonito e profundo pela pessoa, pelo artista que é o Milton Nascimento. Eu tenho pensado muito nele, e tem um disco que eu tenho ouvido muito, que é oClube da Esquina 2 (1978), e assim, eu seria mais básico se fosse oClube da Esquina (1972), mas eu tenho realmente uma história de adoração por esse disco, que sempre que eu ouço, eu fico muito mexido, acho que parece que tem tudo ali, sabe? Se você for ouvir o disco inteiro, de cabo-a-rabo, você vai encontrar tudo que você precisa, tudo que você precisa saber sobre o Brasil, sobre a música, sobre tudo, tá ali. Então, eu acho que o primeiro disco que eu me lembro, enquanto você fala isso, é oClube da Esquina 2, que é construído por muitos mineiros. Eu conheço tanta coisa, sei lá, o que ajudou oCatatau, por exemplo, foi oAlubramento (1980) do Djavan, pra mim é um clássico; oQuem é Quem (1973), do João Donato, também é um clássico, não só pra mim, mas pro Brasil inteiro; alguns discos do Chico, mas principalmente oAlmanaque(1981); e oRios Pontes e Overdrives (1994), do Chico Science e Nação Zumbi, que também é um disco que sempre foi muito importante na minha vida, enfim, eu traria vários discos.
NoTarde no Walkíria eu ouvia muito um disco da Gal, chamadoRecanto(2011), um disco que misturava bases eletrônicas com alguma coisa de violão, de guitarra, que é um disco até hoje eu sou maluco por esse disco, maluco, maluco. Mas ele é muito doido, e eu não queria fazer algo muito doido noCatatau, eu queria fazer uma coisa um pouco menos. já noTarde no Walkíria,eu acho que tem esse momento que eu me permito esticar um pouco a corda. Então colocaria também oRecanto da Gal, mas tem tantos, eu posso estar esquecendo de outros aqui, são muitos discos que eu já ouvi. Eu estou escutando bastante o Muito(1978), do Caetano, oEstrangeiro (1989) também do Caetano. Enfim, tem muitos discos.
Eu fico pensando, como que a gente tinha esperança? Olhando agora com os olhos de hoje, saindo de um lugar tão distante… nos últimos anos, lançando coisas, discos, e as pessoas me conhecendo, eu vejo quantas pessoas desconhecem Alagoas, sabe? Não conhecem mesmo, não tem nenhum aprofundamento sobre a música de lá.”
el Cabong: Mudando de assunto, eu queria que você falasse um pouco sobre a cena alagoana atual. Você apareceu, mas tem várias outras pessoas aparecendo, e ela é uma das que mais despontam novos nomes em nível nacional atualmente. O que você imagina que causou que essas pessoas todas estão aparecendo?
Ítallo França: Eu nem posso falar que é uma coisa de geração, porque, por exemplo, o João Menezes, que ainda não lançou um disco dele solo, mas já lançou um disco dele com o Paulo Novaes, que é oCoisa Híbrida (2026), ele é uma pessoa muito mais jovem do que eu, né? Eu nasci em 1992, ele nasceu em 1998, quase 99, no apagar das luzes de 98, então, já é uma pessoa mais jovem. Marina Nemésio também é um pouco mais velha, acho que vai fazer 30 anos esse ano. O único que está mais próximo da minha idade, que realmente viveu as coisas que eu vivi, em termos de geração, em Maceió, em Alagoas, é o Bruno Berle, porque todos os outros são muito jovens. O Batata Boy é muito jovem, Nyron Higor também, da mesma idade do João. Eu sou muito próximo de João e Marina. São meus grandes amigos. Hoje nós vivemos juntos, nos vemos sempre, mas eu tenho uma história com todos esses meninos e meninas da cena alagoana, que está sendo descoberta nos últimos tempos no Brasil, há pelo menos 10 anos. É uma galera boa que você conhece, mas o resto do Brasil não conhece. Na época, fez um barulho um disco que a gente fez, oThe Mozões(2015). Eu acho que a gente tinha uma noção, nesse período aí de 2014, 2015, 2016, que a gente era bom. Que tínhamos coisas pra dizer, que todo mundo era meio bom no que fazia, e que em algum momento ia acontecer, só que não sabíamos quando. Acho que tínhamos uma esperança. E velho, eu fico pensando, como que a gente tinha esperança? Olhando agora com os olhos de hoje, saindo de um lugar tão distante… nos últimos anos, lançando coisas, discos, e as pessoas me conhecendo, eu vejo quantas pessoas desconhecem Alagoas, sabe? Não conhecem mesmo, não tem nenhum aprofundamento sobre a música de lá. E é isso, assim. Hoje eu sou muito próximo de João e Marina, que são meus irmãos. Mas estive próximo e participei do trabalho de todos, de alguma maneira, ou eles participaram do meu trabalho, de alguma maneira, também. Fora as pessoas que continuaram em Alagoas, porque eu tenho muitos amigos que estão lá, e estão tentando fazer uma música autoral.Eduardo Pereira, por exemplo, que participou do The Mozões também, é um desses compositores interessantes que mora em Maceió. E eu acho que, em algum momento, o Brasil vai descobrir também, sabe? É curioso, porque é um estado muito pequeno, mas tem uma cena que é muito instigante.
el Cabong: Você enxerga que teve algum tipo de incentivo? Existiu algo ali em Maceió, Arapiraca? Alguma coisa que fomentasse essas carreiras? Ou foi mesmo fé?
Ítallo França: Cara, eu acho que é fé e luta. Mais do que qualquer tipo de estímulo do poder público em relação a isso, ou algum tipo de política pública que estimule a produção de música autoral em Alagoas, basicamente, não existe. Não tô dizendo que é o pior do mundo.
Eu acho só que a maioria das pastas de cultura de todos os estados do Brasil, obviamente vão ter algumas exceções, mas no geral, o Brasil não é um país que se preocupa muito com cultura; Alagoas não é diferente. Então, acho que o estímulo do Estado, nunca tivemos. Eu acho que foi muito fé, muito uma autoconfiança de que a gente tinha coisas a dizer, e que temos uma história bonita do nosso estado. Acho que o fato de sermos nordestinos, nós sempre vamos ter uma coisa diferente. Nós nos manifestamos de uma forma diferente, que pode interessar para o mundo, pode interessar para o Brasil.. E, por fim, a luta, porque todo mundo teve que vir para São Paulo, para o Rio, tentar a coisa, e todo mundo teve espaço e conseguiu espaço. Todo mundo meio que se encantou em São Paulo, os paulistas, as pessoas que moravam lá, viram que nós tínhamos algo para dizer. Eu acho que eu poderia resumir isso: Todo mundo que chegou lá chegou querendo matar dez leões por dia. E conseguiu.
el Cabong: E chegando na finalíssima: Qual a importância do futebol na sua vida?
Ítallo França: (risos) Cara, o futebol é o seguinte. Eu fui uma criança muito encantada com o futebol, como a maioria das crianças, principalmente os meninos. Até queria que mais as meninas se encantassem com o futebol, como os meninos, mas na minha época eram mais os meninos. Eu acho que, primeiro, o futebol, ele me encanta até hoje. Talvez ele me encante menos do que quando eu era criança. Obviamente, porque a criança se encanta com muita coisa. Eu torço para o Flamengo, e as vezes a galera…
O Flamengo é uma coisa muito absoluta, é muito grande. E isso me faz pertencer a um grupo que é muito do povo, muito daquilo que eu gosto, o que me identifica, que são as pessoas pobres, negras e pardas do país. Quando eu digo que eu sou flamenguista, eu me sinto parte desse grande grupo de brasileiros que se identifica através de um time.”
el Cabong: Ficam te atazanando por que não torce para o ASA de Arapiraca?
Ítallo França: Sim, exatamente. E aí eu fico numa saia justa, porque se eu disser que eu torço para o ASA também, aí vão me chamar de terceirizado. E assim, hoje eu estou no caminho… Primeiro, o que eu penso sobre tudo isso? Eu acho, o Ítalo tem 34 anos falando aqui, que é um homem de esquerda, uma pessoa progressista, que gosta de problematizar as coisas. Eu acho que eu não seria flamenguista, mas a condição é de eu ser. E o time do coração, é o time do coração. Eu não quero deixar de ser flamenguista nunca, eu amo ser Flamengo. Mas eu acho que eu tenho o coração aberto para torcer para outros times, (e me desculpe se eu estiver te ofendendo) na Bahia, eu torço para o Bahia (risos). Em Recife, em Pernambuco, eu torço para o Santa Cruz. Quando eu falo que eu torço, é porque eu tenho simpatia pelos times, Aí em São Paulo, eu gosto do Corinthians; em Belém do Pará, eu gosto muito do Remo… eu gosto e simpatizo por outros times. Eu acho que isso faz parte da alegria de querer que outros times sejam felizes, como meu time me faz feliz. Então, o negócio de ser flamenguista (isso sim, eu acho que é a melhor parte de ser flamenguista), é que me integra com uma parte muito grande do país. Eu me sinto parte da cultura do meu país quando eu digo que eu sou flamenguista. E eu não estou dizendo que os outros times não são parte da cultura, claro que são. Mas o Flamengo é uma coisa muito absoluta, é muito grande. E isso me faz pertencer a um grupo que é muito do povo, muito daquilo que eu gosto, o que me identifica, que são as pessoas pobres, negras e pardas do país.
Quando eu digo que eu sou flamenguista, eu me sinto parte desse grande grupo de brasileiros que se identifica através de um time. E aí, hoje, o futebol tem essa importância também, além da coisa do encantamento do jogo pelo jogo, mas a importância política.
Eu me sinto integrado no meu tempo, na minha época, na minha vida; de poder gostar de futebol, então torcer pro flamengo e, ao mesmo tempo, torcer para que outros times sejam felizes de vez em quando. E tem um time na minha cidade também que, de vez em quando, elimina um time grande na Copa do Brasil, que é o Asa, que já eliminou o Palmeiras. Então, tudo isso me alegra, me distrai das angústias da vida. Eu acho que a importância do futebol se eu fosse definir uma só, eu acho que é isso: É uma grande distração das grandes angústias da nossa vida.
el Cabong: Nossa, quando eu escuto suas músicas de futebol, eu penso muito em Jorge Ben Jor (mesmo que as músicas não sejam parecidas), porque você coloca sua identidade de torcedor, de flamenguista. E é isso, é uma coisa que está na sua discografia e na discografia de Jorge Ben Jor aparece sempre. Então, eu acho sempre curioso, porque às vezes, futebol não está na MPB tão fortemente quanto deveria estar, sendo o principal esporte brasileiro.
Ítallo França: E na nossa bolha, a música e o futebol não é uma ligação tão, pelo menos hoje, tão bem quista, porque é um esporte que ainda é muito ligado (principalmente o futebol masculino), à cultura hétero. Inclusive, isso afasta pessoas do meu nicho. Por exemplo, noTarde no Walkíria, tem um público LGBTQIAPN+, muito grande, e aí, no Catatau, que é um disco que tem coisas de futebol também (não é um disco de futebol, mas tem coisas de futebol), isso afasta esse público. E eu fico triste, porque eu não queria que afastasse. Mas é normal também, não tem nenhum grande problema, até porque, eu acho que não tem como falar da minha vida sem falar de futebol, porque além de ser esse fator que eu te falei, da distração das angústias da minha vida, é uma coisa que está comigo desde 9 anos de idade, então é muito importante. Protagonizou grandes momentos da minha vida, então não tem como tirar isso.
Sim, eu vejo alguma identificação, principalmente noTime da Mooca, que é meu segundo disco, com coisas do Jorge Ben Jor. Eu falo pro Flamengo ali também, e aí sim é um disco mais centralizado no futebol.
Ciro Garcez é formado em Jornalismo e BI em Humanidades pela UFBA. Curioso por cultura e indústria cultural.







