Lançado no final de maio, o novo disco de Larissa Luz é um convite ao olhar para si mesmo e ao resgate de raízes.
Por Duda Araújo*
No final de maio, Larissa Luz, cantora, atriz, comunicadora e diretora artística baiana, lançou o seu quarto álbum solo, “Desmonte”. Com raízes fortes no rock, ijexá e samba-reggae, o disco é um convite potente a questionar estruturas e opressões impostas na arte e na sociedade como um todo.
Com 13 faixas e 33 minutos de duração, “Desmonte” não é apenas um álbum, mas também uma reflexão sobre autoconhecimento e origens. Para fazer este projeto, Larissa precisou mergulhar em si mesma e entender suas nuances, suas lutas, seus desejos e tudo mais que atravessa a sua existência. Em meio a tantas perguntas sobre si mesma, sobre o mundo, sobre tudo o que veio antes e sobre o que virá depois, ela encontrou a arte como uma plataforma para elaborar esses sentimentos e encontrar respostas.
E, além da arte, a ancestralidade foi outro pilar essencial na construção do álbum. Aliás, faz parte da base de toda a sua trajetória. Nos últimos anos, ela vem desenvolvendo o projeto Rock In Gil, que homenageia Gilberto Gil e resgata as raízes negras do rock, que ao longo dos anos foi sendo embranquecido. Com esse projeto, Larissa não entrega um simples tributo, mas um poderoso movimento. Além disso, em Desmonte, a artista usa também de sonoridades e ritmos afro diaspóricos para construir a identidade do álbum. O rapper Áurea Semiseria e o cantor Zé Atunbi, ex-vocalista do Afrocidade, foram adições de extrema importância nessa construção, marcando presença nas faixas “Antiparasita” e “Retomada”.
Nessa ideia de resgate, uma das faixas mais interessantes é “Careta”, uma brincadeira com a tradicional cantiga popular sobre o boi da cara preta. Ela não só retoma um elemento da sua infância, mas ressignifica os conceitos simbólicos presentes na canção, dado uma nova roupagem que busca desmontar medos e preconceitos através de uma análise cirúrgica da artista sobre imagens e significados que, mesmo pequenos, podem reforçar ideias perigosas.
O disco levanta importantes questões sobre autoestima, independência, individualidade e autoconhecimento. Em músicas como “Tô Me Achando” e “Intensa”, uma das mais populares entre o público, Larissa explora mensagens sobre empoderamento, sentimentos e nuances que se conectam a essas questões e a maneira como a artista lida com esses momentos.
Com uma sonoridade potente e reflexões pertinentes, outro fator que chama atenção no álbum são as visualidades. O universo de Desmonte é surrealista e distópico. Nos cenários, paisagens desérticas, maquinários e sucatas ajudam a construir uma narrativa que é também uma metáfora ao desmonte, mas também à reconstrução.
Para o el Cabong, Larissa contou um pouco sobre o processo de construir esse álbum, falando sobre referências, reflexões e o universo criado para contar a história dessa fase da sua carreira.
el Cabong: Quando você apresenta o álbum, você fala que nesse momento de carreira e de vida você tem maturidade para responder as perguntas e se estabelecer nas decisões que você toma. Fiquei intrigada em saber quais foram essas perguntas e como elas te motivaram a produzir Desmonte?
Larissa: As perguntas que me motivaram a produzir Desmonte… Primeiramente, acho que quem eu sou. Acho que essa foi uma das principais. Qual o meu propósito? Do que que eu não abro mão, e não quero abrir mão? O que eu quero fazer com a minha arte? Onde eu quero chegar com a minha arte. E o que eu deixei de fazer para corresponder com alguma coisa? Acho que essas foram algumas das perguntas que me nortearam.
el Cabong: Já há algum tempo você levanta a bandeira do rock no seu repertório. Com o seu projeto ‘Rock in Gil’, você já tem essa proposta de escancarar que a raíz do gênero é negra, e ainda vem com essa perspectiva do rock brasileiro. E essa é uma das referências para essa fase da sua carreira. Mas, além de Gil, quais foram as outras referências que foram base para você construir a sonoridade do álbum?
Larissa: Além dessa que você falou, Gal também, e algumas outras que eu ouvia na adolescência e que me despertaram para esse para esse ímpeto rebelde, transformador, esse ímpeto político também. Tem uns clássicos, como a banda de Pitty, algumas mais atuais, como uma que eu conheci há pouco tempo, Nova Twins, umas meninas que eu tô viciada em ouvir. Jimmy Hendrix, outros negros do rock que eu fui conhecendo ao longo do tempo, Chuck Berry também. Eu fui passeando por essas referências que já estiveram durante um tempo na minha vida, outras que chegaram por agora e tentando fazer esse passeio pela minha construção musical geral e do álbum também.
A gente não está pronta para olhar para as nossas sombras, para nossas partes não tão bem quistas
el Cabong: Sobre o nome do álbum, Desmonte têm esse caráter de balançar normas e estruturas sociais, mas você confessa que também passou por um desmonte íntimo, tanto no processo de mergulhar em si mesma quanto no processo criativo. Como foi esse processo de se conectar consigo mesma para produzir esse álbum?
Larissa: Mergulhar em si é um desafio, né? Parece que não, às vezes, né? Tem algumas pessoas que falam como se fosse uma coisa até simples, mas mergulhar em si precisa de muita coragem, de muita disposição e eu esperei assim para me sentir pronta, porque também às vezes a gente mergulha num processo de auto-conhecimento, de se olhar. Mas a gente não está pronta para olhar para as nossas sombras, para nossas partes não tão bem quistas, também, porque fazem parte de nós. E quando eu estive pronta, eu resolvi parar para fazer esse balanço, do que eu construí até aqui, do que eu fui deixando pelo caminho, do que eu tenho dentro e eu gostaria de tirar. Quebrar algumas coisas que precisam ser quebradas, desatar alguns nós para poder seguir mais leve. Foi um momento para fazer revisão das peças todas de dentro para poder funcionar um tanto melhor.
el Cabong: Larissa, você por si só já é uma figura de força e empoderamento feminino. Mas, ao longo da sua carreira também como atriz, você incorporou personalidades extremamente fortes, como Elza Soares e Bibiana de Torto Arado. E, além das questões voltadas à identidade e ancestralidade, você também aborda muito o empoderamento e emancipação feminina no álbum. Nesse sentido, como você encara e recebe a percepção do público sobre Desmonte nesse local de empoderamento?
Larissa: na verdade, eu não quis também ter muitas expectativas em relação a esse trabalho, mas o que eu mais prezo sempre é respeito. Eu acho que o respeito é uma coisa que está cada vez mais escassa e é a fonte de todo problema, da maior parte dos problemas. Respeitar a dor do outro, respeitar o sentimento do outro, respeitar a opinião, respeitar a visão. Eu acho que muitas pessoas estão esquecendo de exercitar o respeito. E para mim essa era a minha única expectativa, assim, porque quando a gente coloca um trabalho no mundo, a gente se expõe muito, né? E a gente coloca as nossas fragilidades, as nossas necessidades, as nossas pautas, as nossas questões. E hoje, com a internet e com a forma que as coisas estão se dando na internet, as pessoas se sentem no direito de ferir outras pessoas com opiniões invasivas ou com opiniões ofensivas. E isso é muito muito cruel com qualquer pessoa. Com a pessoa que faz arte, talvez seja um pouco mais profundo. Eu falo porque é meu lugar de fala, porque eu sinto que a gente trabalha com algo que é muito sensível, que sai muito da alma. Então, quando as pessoas não respeitam e atravessam essa linha para tecer algum comentário não grato, acho que é algo que é bem cruel. Então, espero o mínimo, que é respeito. O resto, é lucro. Porque eu acho que cada um tem a liberdade de curtir, se identificar, se identificar de uma forma, de outra. Cada um vai viver de um jeito, cada um vai sentir de uma forma e quando a gente coloca uma arte no mundo é um pouco para isso. Para que cada um sinta e viva da forma que lhe cabe, da forma que lhe bate, é para ser livre mesmo no sentir. E eu quis fazer sem expectativa porque a gente também trabalha o tempo inteiro com essas expectativas. E cada vez mais com expectativas exatas, de números, de alcance, de retornos. E isso vai tirando um pouco da profundidade, da humanidade, do fazer artístico. Virou quase uma utopia, a gente pensar em fazer arte sem pensar nos retornos. E eu falei: ‘Nossa, a vida é tão passageira, né? Tão curta’. E eu escolhi fazer da arte meu instrumento. Não posso passar por ela sem dizer e fazer as coisas que eu sinto que tenho que fazer. Já que eu tenho condição hoje de arriscar, por que não? Então é isso. Acho que eu estou esperando o mínimo, mas dei o meu máximo.
el Cabong: Você afirma que esse álbum mais “eu” que você já fez, então, nesse sentido, mesmo fazendo esse álbum sem ter muitas expectativas, como você enxerga também lançar um trabalho que é tão autêntico em um cenário onde cada vez mais as pessoas se preocupam mesmo em lançar coisas pelo retorno, pelo lucro e sem se preocupar tanto com essa intimidade que um trabalho artístico ele se propõe a ter?
Larissa: Eu acho que isso foi um desafio para mim mesma. Nem falo do que eu vejo, estou falando de mim mesma assim, que a necessidade de corresponder ao mercado é uma coisa que nos acomete assim de uma forma pessoal, né? Pessoalmente falando, eu sinto que isso interfere diretamente no meu fazer artístico, sabe? Não quero colocar juízo de valor nem sobre a arte de outras pessoas. Eu digo que eu, enquanto artista, sinto que essa demanda, essa de que você seja de um tamanho x, que você alcance o número y, porque se você não tiver um número, você não faz um show, se você não tiver um show, você não faz tal coisa… vira uma bola de neve. Você tem que estar sempre correspondendo à internet, você tem que postar, você tem que fazer mais e mais e mais. Isso é uma demanda do mercado e interfere diretamente no nosso fazer artístico. Eu vejo artistas próximos a mim que também se sentem angustiados por essa necessidade, por esse pedido constante do mercado de que a gente esteja correspondendo a alguma coisa, dentro de alguma prateleira, dentro de alguma caixa, dentro de alguma de algum de algum protocolo. Quase nada mais induz a gente a fazer porque sentimos, porque acreditamos, porque sentimos vontade de falar, porque a gente sente vontade de tocar alguém, porque queremos compartilhar com as pessoas um pensamento para que as pessoas venham junto. Tudo nos leva a outro caminho. Então, romper com isso é realmente um um grande desafio que eu resolvi encarar para me desmontar, para me desconstruir, para me tirar nesse lugar. De atender, corresponder, me enquadrar, me encaixar. Então, começa daí o conceito de se desmontar. De desmontar alguma coisa, de desmontar um pensamento que diz que a gente precisa ser alguma coisa para poder ter algum tipo de retorno. Isso é exaustivo. Isso drena a nossa capacidade criativa. Eu precisei fazer esse desmonte para continuar existindo, então foi quase que uma uma cura mesmo.
Eu vejo artistas próximos a mim que também se sentem angustiados por essa necessidade, por esse pedido constante do mercado de que a gente esteja correspondendo a alguma coisa, dentro de alguma prateleira, dentro de alguma caixa, dentro de alguma de algum de algum protocolo.
el Cabong: E você falou agora um pouquinho de onde surgiu o conceito do Desmonte e além da da questão sonora, a sonoridade do álbum que já é muito interessante, a parte estética é muito interessante, é meio distópica, lembra um pouco Mad Max, então, como é que você concatenou essa questão da sonoridade e a questão estética? Como nasceu essa visualidade do álbum? Quais foram as referências?
Larissa: Eu já estava pesquisando umas coisas, imageticamente falando, nesse universo. É surrealista, distópico, eu estava querendo construir alguma coisa nesse sentido. Eu comecei a pesquisar, comecei a investigar, ver umas referências e construir, e fui indo para esse caminho, pensando nesse conceito de desmontar estruturas. Pensei nessa coisa da máquina, e lembrei de um cenário que eu estava muito a fim de explorar que era uma oficina de trios elétricos, porque tinha muita simbologia naquelas peças desmontadas, naquelas estruturas desfeitas. Tinha muita metáfora ali. Eu fiquei pensando em uma imagem que é tão forte na nossa mente, totalmente desfeita ali na nossa frente. Era um pouco disso que eu queria fazer com os pensamentos. Então, eu achei que era uma metáfora muito boa. E o Mad Max tem a ver também, porque diz muito sobre a cultura punk. Sobre crise econômica, esse fascínio por máquinas improvisadas. Então, acho que essa reconstrução, esse desmonte e essa reconstrução partindo das carcaças, das ferrugens, são relações muito boas e diz muito sobre a nossa existência, principalmente, os dissidentes, os marginalizados, os que estão sempre lutando por um cenário mais justo para si.
el Cabong: É interessante como você brinca com sonoridades diferentes, com estéticas diferentes quando você traz o punk, mas você mistura com o tambor, com sonoridades com uma matriz afro, essa questão da afro-diáspora dentro do álbum, e a tradição de maneira geral. Você dá uma roupagem muito moderna para coisas que são mais tradicionais e uma das faixas que mais chama atenção no álbum é “Careta”, uma brincadeira com uma cantiga popular que aqui vem com uma sonoridade mais punk, mais pesada. Então, me conta um pouquinho como é que surgiu essa inspiração, de onde é que veio a ideia pra essa faixa?
Larissa: É, quando eu vou lá no passado, minhas bases, minha origem, a gente sempre chega nesse lugar da infância. Eu usei muitas referências da minha adolescência e da minha infância também, coisas que me acompanharam. E eu percebo que aquelas cantigas nos atravessam de forma involuntária. Em um primeiro momento, quando eu pensei no “boi da cara preta”, eu lembrei dos carnavais, quando as caretas bater na porta de casa, dar susto nas crianças, e o quão a cara preta, simbolicamente, representava um perigo. E quis ressignificar mesmo. E aí linkei com essa ideia de “Vaca Profana”, que é uma música que fala isso, dona das divinas tetas, o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas. E aí isso foi se misturando com os símbolos da careta, da pessoa careta e do que a gente realmente tem que ter medo ou do que que a gente realmente é, quais são os medos que a gente absorveu por conta de uma de uma ideologia altamente preconceituosa, né? E que a gente precisa desfazer os símbolos que colocaram na nossa mente que eram símbolos aterrorizantes, justamente pra gente não transgredir uma linha que colocaram como limite. Pra gente não se achar demais, não se crescer demais. Então, acho que essa música é um pouco disso. É uma análise sobre o simbólico, que muitas vezes é visto como algo pequeno, mas que é muito forte. Como a gente organiza e administra esses símbolos, pode dizer muita coisa em relação ao nosso comportamento, à nossa autoestima, nossa postura. Então, às vezes é sobre desfazer, desmontar pecinhas que foram apertadas e colocadas lá atrás na nossa na nossa mente.
A gente precisa desfazer os símbolos que colocaram na nossa mente que eram símbolos aterrorizantes, justamente pra gente não transgredir uma linha que colocaram como limite
el Cabong: E para a gente finalizar, e retomando também a primeira pergunta que fiz a respeito das perguntas que te motivaram a fazer esse álbum. Agora que Desmonte já está no mundo. O público vem dando esse feedback, e esse é o momento do mundo falar como o álbum atravessou eles. Então, me conta: você acredita que as perguntas que te motivaram a fazer esse álbum foram respondidas, ou ainda existe uma margem de questionamentos que você quer continuar explorando?
Larissa: A maioria sim, outras estão sendo respondidas ao longo do tempo, vivendo a existência do álbum. A resposta do público é muito importante também nesse processo, apesar de achar que a minha conexão com o com o meu eu é de suma importância, eu reconheço o quanto é importante que eu sinta pessoas comigo, compartilhando de ideias que eu trago e me trazendo outros insights, outras ideias para somar. Então, algumas respostas têm vindo com o retorno do público. Isso é bem legal porque tem momentos que a gente acha que interagir socialmente é algo pesado, difícil, árduo, cansativo, mas não tem vida sem interação. Dá para achar que a gente vai ser feliz, sem interagir com ninguém, mas a gente precisa interagir. A vida é uma troca, a vida é uma feira, e feira é isso, é troca, é barulho, é comunicação, pessoas falando, trocando ideias. Então, algumas respostas estão vindo com o público e muito das outras eu tive fazendo o disco. Pensei: ‘Nossa, isso é muito eu. Nossa, por que eu deixei isso para lá? Isso aqui é tem muito a ver comigo. Isso aqui faz parte de mim’. Então, fui percebendo algumas coisas ao longo do processo.
* Duda Araújo (@dudaaraujott)é estudante de jornalismo, estagiária do jornal A Tarde e já colaborou no Cine Ninja e na newsletter “O que toca na vitrola”.







