por Ciro Garcez
Tori é uma cantora, instrumentista, compositora e produtora de Aracaju, Sergipe. Tem em seu segundo álbum, oAreia e Voz (2025), o primeiro como produtora, juntamente com o carioca Domenico Lancellotti; e é também o que marca a sua mudança para o Rio de Janeiro. O nome dela começou a ecoar nacionalmente quando ela lançou o seu primeiro álbum, o excelenteDescese(2023), álbum com produção de Bem Gil, Bruno di Lullo e Domenico Lancellotti; e que tem várias participações do que desponta como a nova cara da MPB. Sugiro que após a leitura e se você não sabia quem era Tori, escute oDescese do mesmo jeito que deve escutar oAreia e Voz, grandes disco dos seus respectivos anos de lançamento.
Tori vem de Aracaju, e antes de abraçar a carreira solo profissional, ela lançou um EP, oAkoya (2016) e fez parte da banda Ipásia. Pode parecer que ela é iniciante, mas já tem dez anos de carreira musical, e que dá para ter um belo exemplo de alguém que não tem medo de experimentar sons e composições. É curioso pensar que os seus dois discos são também um belo panorama de da nova MPB, dos anos 2020, com algumas das vozes que parecem ter uma carreira longeva, e que se não estouraram, estão por aí em alguma trilha de novela, cantando com seu músico favorito e cada vez mais criando uma base de admiradores. Tori parece ter não só criatividade e qualidade diante do que faz, ela também tem um excelente olho para as pessoas que estão ao redor dela nos seus discos.
Areia e voz é com certeza um dos grandes discos de 2025, e ele consegue passar sensações em tudo o que ele apresenta. Não é um disco apoiado exclusivamente em letras ou exclusivamente em melodias. Ele é acertadamente um disco que trabalha bem todas as áreas. É um grande acerto da produção e da equipe de músicos. Outra coisa, que não é mais sobre minhas impressões pessoais, é ver um álbum comercial, mas que não tem medo da experimentação, de produzir estranhezas, ter uma dose de risco. O risco aqui torna toda a viagem proposta diante do álbum algo muito mais interessante. Tori, que me atraiu muito no seu primeiro disco pelas músicas, que brincam muito mais com a estranheza das melodias e ainda usa nomes estranhos para as músicas. E não é julgando de forma negativa, acho que agrega muito mais, sendo uma das minhas partes favoritas. Talvez também tenha uma avalanche de lançamentos com pouca inventividade na MPB, então quem se arrisca com tamanha qualidade e não canta letras piegas de amor já tem um diferencial gigante.
Quando eu me deparei com a primeira faixa de do discoAreia e Voz, “Rios Aéreos”, senti exatamente o que o nome sugere: uma torrente de vento me puxando para paisagens, lugares. Um vento navegável, meio frio, curioso.Areia e Voz é um álbum geográfico, por assim dizer, não por ser preso a terra, mas por mostrá-la. É curiosa essa areia disposta no título, porque mesmo que a intenção fosse trazer a contraposição da voz de Tori com ruídos, um deles a areia (que sem dúvidas é um o que está disposto durante o álbum), parece que o vento me carrega e começa a desfazer as fronteiras rígidas, a geografia do álbum não é a das fronteiras estabelecidas, mas a que possibilita transgredir, o que traz a liberdade. Assim vamos em Sergipe, ouvimos rock psicodélico e música mineira, falamos com nossos avós ou simplesmente contemplamos o que está a viajar nos nossos ouvidos.
Mas deixa de introdução e convido você a ler essa entrevista, que gentilmente Tori concedeu a mim e ao el Cabong. Boa leitura.
Ciro: O que aconteceu entre o Descese e o Areia e Voz? O que fez você ir da terra para o ar?
Tori: Então, até fazer oDescese (2023) eu morava em Aracaju, estudava ciências sociais e eu tinha uma banda. Eu comecei a tocar com 16 anos, aí passei a ser uma banda… tipo, a banda passou a se chamar Tori, que depois mudou de nome para Ipásia. Então a música sempre foi uma coisa presente, mas até o Descese ela era uma coisa muito paralela, eu tinha intenção de seguir carreira acadêmica e continuar a fazer música, que eu amo fazer desde sempre. Mas aí, durante a pandemia, eu tive a possibilidade de fazer oDescese,quando a internet e as conexões ficaram mais intensas. Nisso eu conheci o disco homônimo de Mãeana, de 2015, e eu amei muito esse disco. Fui pesquisar a produção e vi que foi Bem Gil que tinha feito, aí entrei em contato com ele pela internet e essa conexão se estabeleceu. Logo depois ele topou produzir o disco e eu fiquei absolutamente em êxtase quando ele topou. Quando eu vim pra cá (Rio de Janeiro) fazer oDescese, acabou que a temática dele tem muito haver com a minha vida em Aracaju e a vida acadêmica. Tem muitas piras da antropologia e outras coisas, e eu tinha essa questão conceitual-filosófica dos discos que eu sempre pirei muito, eu adorava. ODescese também foi o momento que eu fiz o retorno ao violão, já que quando eu era da Ipásia, eu passei a ser guitarrista, muito também porque queria me distanciar dessa imagem de cantar e tocar violão, que as pessoas costumavam atrelar o meu som a uma coisa fofa, e eu não queria ser fofa, eu queria ser roqueira. NoDescese eu fiz as pazes com isso de ser lida como fofa e voltei para o violão. Eu sempre imaginei coisas sobre outros arranjos para além do violão. Outra coisa que acontece nesse disco é que Bem (Gil) e o time que ele trouxe, que era formado por Bruno di Lullo e Domenico Lancellotti, eles tiveram muito o violão como esqueleto da coisa. Os arranjos foram pensados a partir de tudo o que o violão sugere. NoDescese eu entreguei muito, por mais que estivesse ouvindo bastante e tendo ideias pontuais sobre algumas coisas, como metais, eu entreguei muito a produção.
Entre o Descese e o Areia e Voz aconteceu que eu vim morar aqui no Rio de Janeiro, vim gravar um disco, voltei para Aracaju, me formei, voltei para ficar aqui, e fiquei tocando com outras pessoas. Toquei tanto com pessoas daqui do Rio quanto com outras, enquanto viajava para tocar. Assim, tocar com banda é muito difícil, logisticamente falando, então ele quase sempre foi tocado em violão, ou em duo ou em trio, umas duas vezes em quarteto. Ele foi muito pouco tocado cheio, com banda completa. E aí, nessas minhas viagens para possibilitar que o show caminhasse, eu convidei uma galera, por exemplo, eu conheci Julia Guedes, Nina (Maia), Chica (Francisca Barreto), Bernardo Bauer; pessoas que depois participaram doAreia e Voz. Então teve muito desse movimento no disco, que enquanto produzia o disco com Domenico, eu via as canções e já imaginava pessoas participando, que música combinava com cada uma. NoDescese, por exemplo, eu não conhecia as pessoas, então eu conheci muita gente porque as pessoas tocaram no disco, o que me fez conhecê-las. Já noAreia e Voz, foi mais chamar amigos que eu já tinha tocado, que eu já sentia que ia ser massa.
Sobre essa coisa dos elementos, na verdade eu só me dei conta que estava traçando esse caminho quando percebi que oAreia e Voz é sobre ar. Eu sabia que oDescese era o fenômeno contrário a Ascese, entrar em comunhão com a matéria. Mas é isso, só foi quando eu percebi que tinha muito ar nas músicas do Areia e Voz, que eu me dei conta que oDescese tinha terra e que oAkoya, meu primeiro EP de 2016, era água. E até as músicas que ficaram de fora do Areia e Voz, porque não dava para gravar e não tinha mais verba para gravar música, são músicas que já estão falando do fogo. Ao invés de tirar músicas mais fracas do disco, eu decidi tirar as que já apontavam para o fogo, o que foi engraçado, porque tudo o que eu fiz não foi intencionalmente. Sobre sair da terra para o ar, que de fato eu saio de uma coisa sólida para uma etérea, eu já acho que os elementos estão sempre muito misturados, e até a última música doDescese, “Minha Dança”, uma música de João Mário, ela fala:
E sai pro ar
Volta a dançar
No sal do chão
Ela descreve o movimento do pé quando tá dançando, de toda hora estar no chão, ir pro ar e voltar para o chão. O disco acaba com “sai pro ar”, e de fato ele sai pro ar. Eu só percebi isso muito tempo depois. Então é isso, é uma mudança, mas ao mesmo tempo tá tudo lá sempre.
Gosto de escrever, não apenas músicas, gosto de ficar gastando onda escrevendo, então as palavras são grandes coisas.”
Ciro: Você tem uma relação curiosa com as palavras, muitas vezes escolhe palavras diferentes como títulos. Qual é sua pira nisso?
Tori: Entrevista é sempre uma coisa muito psicanalítica. Então, não sei, mas vamos entender melhor minha relação com as palavras. ODescese, por exemplo, tem muitas palavras difíceis. Os nomes das músicas são esquisitos: “Hybris”, “Normose”, “Arborescente”, “Descese”, “Psoas”. Até chegaram para mim e perguntaram por que eu não mudava os nomes para ficar mais palatável. Eu considerei, porque eu considero muito as coisas que me dizem, e fui refletir. Mas eu achei que seria meio injusto com as palavras, porque, principalmente com oDescese, as palavras me deram muitas músicas. “Psoas”, por exemplo, é o nome de um músculo e minha mãe estava com ele travado, ela foi liberar o psoas e me contou a história dela, que ela foi liberar ele na médica e contou que era conhecido como o “músculo da alma”, e aí depois eu fiz essa música após saber disso. Outras músicas também foram assim, fiquei sabendo o significado de uma palavra. Tem isso também, há várias coisas da vida que nós não sabemos que tem palavras para isso e aí você descobre que tem, e aí você fica meio que encantado com a palavra. Não que eu diga palavras esquisitas nas músicas, às vezes eu digo, mas normalmente elas só estão no título. NoAreia e Voz,naturalmente, eu percebi que as palavras ficaram menos esquisitas, ficaram palavras mais normais. “Trastejo”, que as pessoas foram me falar que era esquisito, porque eu nem achava, ela vem de tocar violão, de trastejar nele. No geral o disco tem palavras mais comuns e eu sinto que ele é mais simpático, mais palatável que oDescese, que já é um disco mais misterioso, esquisito, mais torto talvez…
Eu, particularmente, gosto muito de escrever. Gosto de escrever, não apenas músicas, gosto de ficar gastando onda escrevendo, então as palavras são grandes coisas. Então tem até uma parada sobre isso. Eu estudei em uma escola chamada “Nossa Escola”, e ela era uma escola que fazia a propaganda que incentivava muito a leitura, só que eu nem lia muito, na verdade. Só que eu escrevia muito, e acho que escrevia relativamente bem, os professores achavam que eu escrevia bem. Eu lembro de uma vez que a diretora veio me perguntar quantos livros eu já tinha lido naquele ano, e eu não tinha lido nenhum, porém eu escutava muita música e tinha muito contato com o texto nas canções. Eu lembro que eu usava muito uma palavra no texto dissertativo que era “engendrar”, palavra que eu aprendi com Caetano naquela música “Não Me Arrependo”, que ele fala:
Vejo essas novas pessoas
Que nós engendramos em nós
E de nós
Então várias palavras que eu usava nas minhas dissertações eu pescava de canções e não de livros. Tem também uma coisa muito sinestésica. Às vezes as palavras me levam para algumas melodias, que quando eu vou interpretar uma música, com uma melodia relativamente simples, eu insisto em errar, porque o negócio me levou para outro lugar. A sílaba muda e a nota continua, e eu quero mudar a nota, coisa desse tipo. É uma coisa muito presente, apesar de que eu esteja me divertindo e experimentando muito ultimamente escrever melodia sem palavra.

Ciro: Agora eu fiquei curioso sobre um assunto: o que estudou em antropologia? Foi sobre o que o seu tcc?
Tori: Então, isso era uma loucura. Ciências sociais na UFS é antropologia, ciência política e sociologia, tudo junto. Normalmente as pessoas fazem um TCC em uma área só. Eu participei de um grupo em iniciação científica que era de antropologia, que se chama INUMA (Grupo de Pesquisa Interfaces Humano não Humano). Eu comecei a pesquisar nesse grupo a figura de um bode, Bode Bito, que era um bode padroeiro de uma cidade do interior de Sergipe, Riachão do Dantas. Tinha a estátua do bode, o bode ia pra missa, enfim, então o grupo tinha essa pira com a relação humana não humana, e aí tudo começou com Bode Bito. Só que aí surgiram outros projetos dentro desse grupo, e o que eu fiquei mais tempo foi o de memória indígena, na divisa de São Cristóvão (SE) e Itaporanga d’Ajuda (SE), que estudava sobre território e resgatar os marcos dessa terra. Eu tava nisso até que quando eu fui pensar no meu TCC, que eu tava ainda dentro do INUMA, eu tentei montar meu projeto que era pensando o veganismo neoliberal. Era uma coisa tipo o mundo não vai mudar pela mudança de consumo, ele vai mudar pela mudança de produção, uma perspectiva marxista. E aí veio a pandemia. Eu já tava para atrasar o curso, e eu tava muito cansada já, era muito ruim ter aula online. Eu sempre amei o meu curso, gostava muito de ficar na universidade, discutindo e tudo mais, mas aí veio a pandemia e eu comecei a odiar, de não gostar do que eu gostava, e isso foi muito triste. Aí eu percebi que eu precisava acabar logo, porque antes eu queria fazer licenciatura também, mas eu desisti da licenciatura, porque eu queria me formar logo, senão eu ia desistir de tudo. E aí eu comecei nessa onda doDescese, falar com Bem Gil, pegar as músicas que eu queria gravar enquanto Tori, e não com a Ipásia. Mas enfim, aconteceu que eu me dei conta que eu precisava fazer um TCC que não se distanciasse da música, porque senão eu achava que eu ia ficar muito fragmentada, com a cabeça muito doida. A pandemia foi um momento que eu ouvi muitos discos, de canção brasileira principalmente. Então eu decidi fazer um TCC sobre a indústria fonográfica nos anos 1970 e a dinâmica entre censura e o mercado. No final das contas, no auge da loucura e da repressão, foi o momento em que a indústria estava mais forte, quando o Estado repreendia a produção e incentivava ao mesmo tempo. Aí foi isso, fiz uma pesquisa que, em tese, não tinha nada a ver com o que tinha pesquisado antes com o INUMA. Quando eu fui pro Rio gravar oDescese, eu aproveitei para fazer pesquisa no Museu da Imagem e do Som, aí foi muito legal que juntou as coisas. Só que depois de um tempo que eu fiz oDescese, eu me dei conta que tinha ele tinha muito a ver com o INUMA. Tem a ideia do rizoma, os fungos, muito de antropologia, enfim. Meu TCC meio que envolveu tudo das ciências sociais, antropologia, sociologia e ciência política, e faz todo o sentido, é meio que uma massaroca, e eu gostei que foi assim ao invés de seguir uma das três vertentes.
Ciro: Você grava o Akoya antes de entrar na faculdade, lá em 2016. Você teve dúvidas entre fazer música ou ciências sociais na faculdade?
Tori: Então, a música surgiu na minha vida de uma maneira muito, sei lá… Eu gostava de música, normal. Meus irmãos ouviam muita música, eu sou a mais nova, eu gostava muito de ouvir música. Comecei a ter aulas de violão quando tinha uns doze anos, só que eu tinha muita dificuldade com aula, eu gostava de tocar, mas não gostava de aula. Teoria musical era algo que ficava “não, socorro”, eu não conseguia unir as coisas assim, sabe? Para mim era muito apartado, tocar era uma coisa, teoria era outra. Aí eu comecei a fazer algumas músicas, comecei a compor por necessidade existencial, era uma adolescente, um pequeno ser em agonia, e eu precisava me expressar. Era nesse sentido assim, que pra mim era muito comum. Eu morava em Aracaju, e essa não era uma perspectiva exatamente. Era o que eu ia continuar fazendo, porque era uma coisa importante para mim, mas que eu não olhava como uma ambição de ser uma artista e ganhar dinheiro com isso. Eu tinha ambição de fazer música pra chorar. Fazer música e olhar como ela afetava as pessoas, era o auge do mundo mostrar uma música para minha mãe e ela chorar com ela. Na escola eu entendi que eu queria fazer ciências sociais, porque eu gostava muito de sociologia e filosofia, eu não enxergava como uma escolha entre música e ciências sociais. Eu queria estudar ciências sociais e eu queria fazer música. Mas quando eu me formei e oDescese se colocou como uma ponte entre Aracaju e o sudeste, que é esse lugar onde está o dinheiro, eu entendi que poderia existir uma ambição em algum lugar. Aí eu vim morar aqui, meio que tipo, vou dar o meu melhor para esse disco caminhar, para que ele circule. E aí foi isso que me fez enxergar a música nesse lugar de mercado. Antes ela estava em outro lugar e agora ela também está nesse lugar. É muito doido, porque eu sinto que essa falta de ambição tem muito a ver com o fato de eu estar em uma cidade que fica muito segregada. Eu acho que isso tem mudado cada vez mais, as pessoas tem conseguido construir pontes, tem vários artistas incríveis que conseguem morar em Aracaju e acontecer a nível nacional, como Anne Carol, Morgana. Mas naquele momento, para mim, eu não via como um panorama possível, e aí quando eu vi que estava fazendo um disco com o filho de Gilberto Gil, eu vim dar o meu melhor para isso render frutos.
Eu tinha ambição de fazer música pra chorar. Fazer música e olhar como ela afetava as pessoas, era o auge do mundo mostrar uma música para minha mãe e ela chorar com ela”
Ciro: Isso puxa para duas outras perguntas, que são sobre a cena de Sergipe. Eu a vejo agora, mas não tenho um histórico dos artistas de lá. Quando você vai pesquisar, aparecem muito mais nomes do forró. Aí eu queria saber como você vê a cena lá, como é isso. A segunda pergunta é saber como é morar em outra cidade para que você seja vista.
Tori: Eu acho Aracaju sensacional. Eu falo de Aracaju, não das outras cidades, e a cena de Aracaju é foda. As pessoas ficam fazendo acontecer na cidade, e as coisas são muito bem feitas, são incríveis, só que ficam só circulando lá. Eu tive essa dificuldade da coisa furar a bolha e ir para outra cidade. Eu lembro que a primeira vez que eu toquei fora de Aracaju foi quando eu toquei, em 2018, em São Cristóvão, no FASC (Festival de Artes de São Cristóvão), mas essa perspectiva de sair, para os artistas, fica fora de radar. É muito sobre ficar ali na cidade, e a sensação que eu tenho, quando volto para Aracaju, é que tem um mundo à parte acontecendo e é surreal que não se fale a nível nacional que esse mundo existe. As coisas acontecem de uma maneira muito grandiosa, só que para poucas pessoas. Aí é isso, tem artistas que têm furado essa bolha, como Anne Carol, Cidade Dormitório. É muito doido, a Cidade Dormitório, por exemplo, é uma banda que tem muito fã no Brasil todo, e às vezes quando os fãs de outras regiões descobrem que é uma banda sergipana, eles ficam chocados, é muito engraçado. A galera também não se dá conta, mas eles são gigantes, eles tocaram agora noLollapalooza. E aí tem a The Baggios também, que tocou noLollapalooza, já foi praGrammy. Mas eu sinto que existe também, em relação a Sergipe, uma coisa de ser um estado pequeno e de não ter tido no passado grandes nomes, como Alagoas tem Djavan, e aí eu sinto que quando você tem uma referência de um grande artista conhecido nacionalmente, eu acho que isso sempre é uma coisa que em um aspecto é um ímã quando você vai pensar em identidade. Aracaju tem grandes ícones, mas que não são conhecidos a nível nacional, aí a identidade acaba sendo múltipla. No final das contas eu vejo uma coisa muito positiva nisso, que é que as coisas são diversas, os artistas são diversos, e existem também várias coisas tradicionais de Sergipe, como o forró. Mas para mim um grande ponto da música sergipana é o rock. Minha banda preferida de rock é a Madame Javali, que não toca, maior tristeza da minha vida. Eles tem dois discos incríveis, eu sou muito fã. Mas é isso, eu sinto que, no fim das contas, é uma grande convergência de coisas, e eu acho que tem a ver também com a questão do dinheiro, da ambição, como você pega aquilo que é produzido e coloca aquilo como um produto que fala sobre a identidade sergipana. Na verdade as pessoas estão fazendo e acontecendo, só que elas não estão inseridas no circuito. Aí tem coisas muito boas esteticamente, porque elas tem mais o compromisso em criar do que esse compromisso com o jogo, de fazer essa música para chegar aqui (nesse mercado, no eixo Rio-São Paulo). Existem artistas incríveis, como Sandyalê, que eu amo muito também; aí tem uma banda chamada Cataluzes, que são psicodélicos, muito doidos que tem um disco,Viagem Cigana (1983), que foi gravado aqui no Rio. Depois eu fui pesquisar sobre e tem tipo, Jacques Morelenbaum nesse disco, que foi um disco de gravadora assim. Eu até falei pra Dora (Morelenbaum), que é minha amiga e filha de Jacques, como se fosse uma grande fofoca sobre esse disco sergipano clássico.
Muito cruamente falando, as pessoas vem para cá, desde antes, porque o dinheiro está aqui. Isso é muito marxista também, pensar dessa forma, mas é isso, eu vim pra cá nessa intenção de fazer o disco circular, já foi um grande movimento, um grande esforço para mim e minha família, para poder fazer esse disco acontecer, financeiramente falando. Então, eu lembro, quando eu vim pra cá, era muito isso, de já ter movimentado mundos e fundos, então é fazer acontecer de alguma forma. E aí acaba que eu amo o Rio. Eu encontrei uma galera de Aracaju que coincidentemente estava vindo morar, então eu moro com um povo de Aracaju e um povo de Salvador, e é muito bom isso. Aí enfim, a natureza é babado, eu moro perto da floresta. Mas é isso, no final das contas eu vim aqui por causa de trabalho.
A cena de Aracaju é foda. As pessoas ficam fazendo acontecer na cidade, e as coisas são muito bem feitas, são incríveis, só que ficam só circulando lá. Eu tive essa dificuldade da coisa furar a bolha e ir para outra cidade (…) é surreal que não se fale a nível nacional que esse mundo existe.”
Ciro: Tem também a questão do público, né? Tem mais gente, consequentemente mais ouvintes e maior público pagante. Tem muitos artistas que são mais ouvidos em São Paulo que na cidade natal.
Tori: Sim, e no final tudo tem a ver com o dinheiro. A cidade é mais organizada no sentido de ter mais lugares onde as pessoas tocam. Tipo, o setor de produção cultural é uma coisa que para São Paulo é interessante. Já para cidades como Aracaju, não tem quase casas de show. Então, o meu público em Aracaju é muito legal, eles são incríveis, só que faltam oportunidades interessantes também de fazer show lá. Tipo, eu vou fazer show quando vou pra lá, aí faço voz e violão, mas eu queria muito fazer um show com uma bandona, que tivesse mais espaço e possibilidades da prefeitura mesmo, sabe? Porque é isso também, como não tem casas de show como São Paulo tem, a coisa do Estado é muito necessária na minha opinião, pra dar um equilibrada na situação. Mas também, no meu caso, São Paulo é a cidade que mais me ouve e eu amo tocar lá, lá tem uma grande possibilidade de tocar em lugares de médio porte, não necessariamente como aqui no Rio. Aqui tem muitos lugares grandes e poucas possibilidades no meio do caminho, aí acaba que você fica tocando sempre no mesmo lugar, é muito mais difícil. Também tem a coisa da cidade, as pessoas aqui não tem a disposição de pagar ingresso como as pessoas de São Paulo tem. Mas é isso, eu sinto que a galera que gosta de música em Aracaju sente muita falta de ter oportunidade de assistir a coisas, viver eventos e tudo mais. Então eu sinto que tem uma falta de visão da galera, da prefeitura e tudo mais; porque a galera lá ama consumir cultura.
Ciro: Voltando para o Areia e Voz, dá pra sentir que ele é bem mais pra cima que o Descese. Tem algo nas harmonias, na melodia, que parece trazer essa mística do ar, da leveza. Como você chegou nessa carga harmônica e composicional? Pensando mesmo nesses instrumentos e de como você queria apresentar esse álbum.
Tori: Tem um disco que gosto muito, que é oNelson Angelo e Joyce (1972), ele é muito lindo. Ele tem um sentimento, uma atmosfera, que eu gostaria de alcançar sempre, e aí ele estava como uma grande referência de sentimento, que é realmente uma coisa bem suspensa. Mas eu sinto que as músicas, acho que também pelo momento que eu tava vivendo, elas tinham essa coisa mais feliz, mais leve, porque querendo ou não eu venho pra cá nesse sentido do trabalho, mas foi especialmente também um grande passo, tava colocando energia num projeto meu, de tá entendendo quem sou eu em outra cidade, de tá entendendo quem sou me relacionando com outras pessoas. E aí tem essa coisa meio que trilhando um caminho de liberdade. Quando eu percebi que tinha muito isso, as músicas também, várias foram compostas no meio do caminho, no ônibus, caminhando, indo de uma cidade para outra no ônibus ou no avião. E aí, quando eu percebi que esse movimento estava nas letras, e esse ar que estava nas letras também, naturalmente eu estava imaginando muitos timbres que tivessem a ver com o vento, como dá pra ver nos sintetizadores, nas flautas, por exemplo. Também teve muito a ver com as pessoas que eu conheci neste período. Tipo, antes de eu conhecer Chica (Francisca Barreto), eu nunca pensava em violoncelos, apesar de amar músicas de Caetano que Jacques Morelenbaum tá lá fazendo e acontecendo muito iconicamente. Aí quando a conheci, num show noCentro da Terra(centro cultural em São Paulo), foi um momento muito emocionante. Nessa época eu também já acompanhava o trabalho de Nina (Maia), e quando surge o “Areia e Voz”, que é uma parceria com Pedrinhu Junqueira, eu super pensei em Nina, porque a voz dela é cheia de ar, e tinha uma frases que Toro estava fazendo no baixo que eu comecei a imaginar no violoncelo, mas muito por ter conhecido Chica. Aí foi mais ou menos assim, tinham muitas músicas que minha referência eram pássaros voando, e acho que tem muito com esse sentimento de liberdade que está nas músicas. Tem uma coisa curiosa também, quando eu conheci Julia Guedes e começamos a fazer um show em duo. Julia é super estudada de música, professora, e aí que eu não sou, né? Eu toco as coisas sem saber o que eu tô tocando exatamente, tenho alguma noção, mas normalmente eu não sei, e aí ela me contou um pouco sobre as minhas harmonias. Quando eu tocava nas músicas dela, tinham muitos acordes sus, que são acordes suspensos, e Julia que me trouxe isso, que tem tudo a ver com o álbum e que está presente em “Repouso”, parceria com Bernardo Bauer. Aí é isso, tem muito a ver com esses encontros. Outra coisa, para além da suspensão que eu queria trazer para o disco, era o lance da areia e do ruído, que contrapõe a coisa fofa, de que eu queria fugir, mas às vezes os agudos remetem a essa fofura, aí a sujeira é a oposição a isso, com o granulado da areia. Eduardo Manso fez os synths nesse sentido, processou os cellos nesse sentido, Pedro Sá fez uma guitarra em “Harmonia é do Mundo” que era pra ser mais suja e arenosa. Então era um pouco a mistura dessas coisas, dessa areia e dessa coisa que está no ar, que pode ser a voz também. Julico, da The Baggios, toca “Trastejo”, que aí tem muito Alceu Valença como referência, mais especificamente a música “Quando eu olho para o mar”, que me veio um riff que só podia ser o timbre da guitarra de Julico, só ele consegue. Ele é uma grande referência, um ícone, e foi incrível colocar essa guitarra no disco. A guitarra é o elemento mais flutuante do disco. Os baixos, os violões, as baterias e as teclas são tocadas pelas mesmas pessoas; as guitarras não. As músicas que eu achava que tinham umavibe mais Minas Gerais, quem toca é Paulo Emmery; essa que tem mais umavibe Julico e Alceu, é Julico; aí a outra que eu queria umavibe Pedro Sá, é Pedro Sá. A guitarra ficou mais essa coisa de entender a onda de cada música e entender qual guitarra eu chamava. Eu não sentia que uma pessoa ia gravar tudo. Eu criei esse disco assim, tem a base: violão, baixo, bateria e piano; e tem essas coisas que flutuam: guitarra, flauta, trompete, sanfona. Elementos que passeiam.
Eu demorei para me entender como cantora, porque principalmente eu dava voz ao que eu compunha. Então me via muito mais como compositora do que cantora. E cantar para mim sempre esteve muito misturado com tocar, porque normalmente eu estava cantando e tocando, não estava só cantando. “
Ciro: O que você estava ouvindo quando fez o Areia e Voz?
Tori: Eu fiz umaplaylist na época, como o nome “O clima é esse”, para os músicos terem o sentimento geral do disco, não necessariamente o estilo. Eu estava ouvindo muito Marisa Monte, porque na época eu estava com esse projeto de cantar Marisa, aí eu estava ouvindo muito oInfinito Particular(2006).Nelson Angelo e Joyce (1972) como eu já falei;Bahia do mundo: Mito e Verdade (2001), de Carlinhos Brown, que tem a música “Senhora”, que é uma música super Carlinhos Brown, mas tem um piano nessa música, que pra mim, Fiona Apple podia estar tocando, que era uma das minha referências para essa massaroca de coisas, um encontrando o outro; Ricardo Dias Gomes, que tem umas músicas bem meditativas e eu queria essa atmosfera; Sonic Youth que eu tinha como referência para os ruídos; Fiona Apple, que eu estava mirando; “Trastejo” tinha como referência “Quando olho para o mar”, de Alceu Valença. Enfim, são referências bem doidas que não se conversam tanto.
Ciro: E como foi não ser só cantora do disco, mas também ser produtora com Domenico Lancellotti?
Tori: Então, primeiramente eu demorei para me entender como cantora, porque principalmente eu dava voz ao que eu compunha. Então me via muito mais como compositora do que cantora. E cantar para mim sempre esteve muito misturado com tocar, porque normalmente eu estava cantando e tocando, não estava só cantando. Quando surgiram as primeiras experiências de ser convidada só para cantar eu ficava meio “socorro Deus, não sou cantora”. Com o tempo eu fui entendendo que eu sou cantora, trabalhando isso de só ser cantora às vezes, de só interpretar. Inclusive, nos shows doAreia e Voz, eu largo o violão só pra cantar, e é muito legal que você se entende de outra forma. E aí, até então eu era compositora, e por mais que tivesse a banda, o processo de compor, na maior parte das vezes, era o de fazer as canções, levava para a banda, e a gente rearranjava. Tiveram algumas músicas instrumentais que nós fizemos desde o início, mas normalmente era isso, eu compunha sozinha, porém isso aí mudou. A primeira pessoa com quem eu compus em conjunto foi Domenico, na pandemia, quando gravei uma versão de uma música dele, coloquei noInstagram, ele adorou, veio falar comigo, e aí a gente passou a conversar nowhatsapp e começou a trocar melodias. Ele falou que se tivesse alguma coisa, era pra mandar pra ele, e eu tinha um pedaço de uma coisa que ia ser o instrumental da música “Descese”. Na hora eu queria muito enviar uma coisa pra ele, eu tinha esse instrumental e mandei, ele fez a letra, o que se tornou a música “Terceira Margem”. O nosso processo de compor junto era muito espontâneo, ele me mandava uma coisa e eu já devolvia a ele pouco tempo depois, era uma coisa muito fluida, e aí eu descobri que sabia compor junto. Domenico é um baterista incrível, um compositor incrível, eu sou muito fã dos discos e canções dele, e eu senti que ele seria uma pessoa ótima para estar comigo nessa produção, justamente por ele ser uma pessoa com quem eu me sinto capaz de compor, então vai fluir nós produzirmos juntos, eu gosto muito da visão dele das coisas. Até gravar as músicas, foi o maior tempo que eu fiquei com músicas sem gravar, porque antes, em Aracaju, eu compunha menos e já gravava. Até chegar no estúdio eu já tinha feito algumas demos, já tinha alguns arranjos de flauta, já tinha o baixo, muito arranjo do cello que veio do baixo; então, quando chegamos para tocar com Domenico, nós já tínhamos muitas coisas pré-concebidas. Domenico é uma pessoa muito intuitiva, o que é muito massa também e é, num certo sentido, um contraponto comigo, o que permitiu surpresas e criou um processo de liberdade na gravação, que permitia criar para além do arranjo. No final das contas, a bateria dá muita estrutura para a música. Aí a surpresa junto com as coisas que já estavam na minha cabeça formaram coisas como “Repouso”, que eu imaginava muito maisNelson Angelo e Joyce, muito mais etérea, mas a bateria ficou muito mais pra cima, que é uma coisa muito carioca, tanto que é a favorita dos cariocas.
Sergipe, por ser pequeno, fica meio apartado, em algum sentido, desses moldes do mercado. Tem uma coisa que eu acho incrível, que é a diversidade de coisas, há mais liberdade de criação, que eu acho foda, e uma dificuldade de dizer qual a nossa identidade. (…) Eu sinto isso, do conceito visão estratégica das periferias: de certa forma você está de olho em tudo, e aí eu acho que tem um processo digestivo interessante que é feito quando você não está no eixo.”
Ciro: Quais são seus clássicos? O que você sempre revisita ou que você vê que tem influência no seu trabalho? Pode ser álbum, artista, filme, livro, novela, etc.
Tori: Tá, muito difícil essa pergunta, com certeza vou esquecer de falar de coisas que eu gosto muito. OGil Luminoso(2006) é um disco que pra mim é um clássico, que é isso de voz e violão, é muito existencial nas canções, eu gosto muito de músicas que falam sobre coisas variadas, que pensam sobre a vida de maneira geral assim. Eu demorei muito pra cantar uma música explicitamente romântica, no disco tem “Ilha Úmida”, e é a única que a letra não é minha. Tem outras como “Repouso” e “Trastejo”, mas não são muito literais. Para mim, Gil tem muito isso, e acho isso incrível, que ele tá sempre ali, elaborando a vida, falando vários símbolos, várias coisas. Mas eu revisito muito também Fiona Apple, no discoExtraordinary Machine (2005), amo muito ele.Memórias, Crônicas e Declarações de Amor(2000), de Marisa Monte, é um clássico que eu sempre revisito. O que eu citei,Nelson Angelo e Joyce (1972), amo. Minas Gerais acaba tendo muitos deles, então o disco homônimo de Lô Borges, o disco do tênis, de 1972; A Via-Láctea (1979), dele também. Ele é a minha parada, eu gosto muito de Lô. Carlinhos Brown, que eu fui descobrir, me debruçar mais sobre os discos há pouco tempo. Primeiro foiAlfagamabetizado(1996), depois foi oOmelete Man(1998), e depois oBahia do mundo: Mito e Verdade (2001). Esses são discos que eu amo muito, e que em termos de produção musical eu acho muito geniais. OBahia do mundo: Mito e Verdade, eu fico muito chocada. E aí tem discos que mudaram coisas,Mãeana (2015), foi um deles, além de ser um disco que em termos de produção musical me chamou muito atenção, porque eu ouvi e gostava muito de como as coisas iam acontecendo, como os elementos iam surgindo, eu pensava que podia ter tal coisa na música e logo depois ela entrava. Tem justificativas diferentes para diferentes clássicos.
Já filmes, não sinto que eu tenha um clássico ou clássicos. Minha relação com o cinema é um pouco engraçada. Eu gosto muito, mas ao mesmo tempo não me importo quando o filme é meio merda, meio qualquer coisa. Se perguntarem se é um bom filme, eu respondo que é um bom filme pra você ir no cinema, comer pipoca, a experiência geral foi massa, mas o filme não resolveu os problemas do mundo. Eu sinto que às vezes tem essa expectativa que o filme resolva tudo, e o filme não resolve, mas é uma experiência ver. Eu gosto muito de novela, é uma constante na minha vida. A última que eu amei muito foiRenascer (2024).
Ciro: Como Aracaju e Sergipe povoam o seu imaginário nas suas músicas?
Tori: Tem essa coisa que disse, que Sergipe, por ser pequeno, ele fica meio apartado, em algum sentido, desses moldes do mercado. Tem uma coisa que eu acho incrível, que é a diversidade de coisas, há mais liberdade de criação, que eu acho foda, e uma dificuldade de dizer qual a nossa identidade. Mas toda hora a galera pensa, porque isso é importante para prefeitura, para o governo, para o turismo, e lógico que tem vários elementos. Mas ainda assim eu acho que não é tão simples de entender essa identidade, e aí eu acho que isso é uma grande coisa, isso é um ponto dessa influência na maneira que eu faço música, porque é isso, essa massaroca de coisas, são muitas influências, e em Sergipe se ouve muito o Brasil. Tem isso de lugares onde as coisas chegam mais, pensando em centros… a maneira de se ouvir tudo é um pouco diferente, a maneira como as coisas chegam. São Paulo, por exemplo, é muito diversa, porque existe muito esse movimento das pessoas saírem e irem até São Paulo, mas ao mesmo tempo, as coisas chegam até Aracaju (não que as pessoas cheguem até lá, muitas vezes a galera pula nas turnês, porque é difícil). Eu sinto isso, do conceito visão estratégica das periferias: de certa forma você está de olho em tudo, e aí eu acho que tem um processo digestivo interessante que é feito quando você não está no eixo. NoAreia e Voz especificamente, depois eu fui me dando conta da coisa da areia, de Aracaju, da maneira como se fala das longas faixas de areia, e assim, era algo que estava completamente fora do meu radar quando eu tava gastando onda no disco, mas depois eu voltei pra lá no fim do ano, e eu fiquei pensando como, de alguma maneira, fui influenciada por isso, o vento na praia… só que é tão normal que eu nunca tinha percebido que era assim. O vento e a areia é outra parada, as dunas também, então eu acho que a paisagem em si me influenciou nesse último disco, especificamente. Mas de modo geral é essa falta de preocupação em fazer alguma coisa específica, um gênero específico. Na MPB cabe muita coisa, e eu acredito que esteja lá na MPB, mas muitas vezes eu não sei o que tá acontecendo em termos de gênero, o que é que essa música é, e o que esse ritmo é, então tenho essa despreocupação assim.







