Recife: a terra indie

Festival No Ar Coquetel Molotov coloca Recife no mapa do indie rock com série de shows que misturaram noise de guitarras e experimentações

Mais uma vez a cidade do Recife acerta na mosca com um festival bem feito, interessante e que entra definitivamente no calendário nacional independente. A segunda edição do “No Ar Coquetel Molotov”? tem um foco mais indie – nada de mistura de regional com rock – mais espaço para noise de guitarras, experimentalismos, bandas gringas e um público mais segmentado. Interessante também que o festival foi realizado num enorme teatro, o Teatro da UFPE. Uma mostra de vídeoclipes e curtas-metragens e uma pequena feira de cds, zines, revistas e roupas serviram de aperitivo para as 14 bandas que tocaram nos dois dias de festival do último fim de semana.

Entre os grupos, o grande destaque foi o duo francês Berg Sans Nipple. Era como se a dupla tivesse ido no futuro e voltado para mostrar como será a música que iremos ouvir lá na frente. Shane “Sans Nipple”?, originário de Nebraska, EUA, é o sensacional baterista que toca de forma magistral seu instrumento ao mesmo tempo que tira sons de escaletas, beats eletrônicos e instrumentos percussivos. Enquanto isso, o francês Lori Sean “Berg”? brincava com loops, beats, sinos, texturas, bases pré-gravadas e tirava uma sonoridade alienígena de teclados, samples e de um aparato tecnológico que nem parecia suficiente para produzir tanto.

Impossível não se render as variações criadas pela dupla, uma música acapachante que rendeu um dos melhores momentos que a música vai assistir no país este ano. Impossível também definir em rótulos a música produzida por eles. É como se pegassem o estoque de influências da música pop ocidental, um pouco da oriental, batessem no liquidificador e soltasse pelos poros se utilizando dos recursos que possuíam e do domínio da tecnologia. O resultado é uma música estranha, própria e absurdamente envolvente. O Berg Sans Nipple já valeria por si só a realização do festival, difícil colocar o restante dos grupos ao lado, tudo acabou soando repetitivo e ultrapassado.

Mas é exagero, houveram outros bons shows sim. Os paulistas do Hurtmold funcionaram perfeitamente no esquema todo mundo sentado, mesmo que em alguns momentos servindo de trilha-sonora para embalar os mais sonolentos. O grupo se envereda por um mundo anti-pop de sutilezas, detalhes e excelentes músicos se revezando entre guitarras, baixo, percussão, bateria, xilofone, teclado, clarinete, entre outros. O resultado é uma sonoridade de ricas texturas, num experimentalismo instrumental, que trafega pelo jazz, pelo post-rock, mas também de difícil definição.

Sem novidades
O público em sua maior parte parece que gostou da dupla inglesa The Kills, mas a sensação era mesmo que o hype é maior que a encomenda. Com uma bateria eletrônica como base, Jamie Lince (Hotel) é o responsável pelas guitarras e parte dos vocais. Alison Mosshart (VV) utiliza seu charme feminino para uma performance quase sexy, cantando sobre relacionamentos num estilo que lembrava P.J. Harvey. O som é rock básico e cru. A sensação é que o grupo tem sua qualidade, cria bons momentos, especialmente quando VV assume outra guitarra, mas o falatório é maior do que merecem.

Outro grupo bastante aguardado eram os suecos do Dungen. Visual retrô a la Led Zeppellin e um som que também remetia ao passado, com ecos dos anos 70. Gustav Ejstes é o líder do grupo, além de cantar toca flauta e teclado, acompanhado de uma banda de responsa. Bom show, correto e competente, mas que não consegue adentrar o cmapo dos shows inesquecíveis.

A Mombojó decidiu que em casa pode arriscar e mostrar as músicas do novo disco. Foi o que fizeram, dedicando quase 90% do show as composições mais novas, quase sempre numa levada mais lenta, mostrando os rumos do álbum que deve sair no começo de 2006. Show morno, que poderia ter sido melhor se equilibrassem mais com os sucessos do primeiro trabalho.

De Pernambuco, um dos destaque foi o show e a clara evolução do Mellotrons. Criada há oito anos, a banda ainda traz forte influência de guitar bands como My Blood Valentine e Sonic Youth, com os tradicionais paredes de guitarra. Mas é quando cantam em português e mostram outras influências que mostram maior personalidade.

O festival foi também ninho de música altamente pop. Do caramelado sem guitarras da Rádio de Outono, que desfilou seu repertório meio anos 50, com direito a cover de Ronnie Von e palhaço no palco. Mais low-profile, com duas guitarras, um teclado, xilofone e uma doçura impressionante, a recifense Lulina mostrou parte de sua enomre produção. Com sete discos caseiros e mais de cem músicas compostas, a garota de 26 anos parece uma menina no palco cantando despretensiosamente e ás vezes desafinada doces e simples melodias. Um som low-fi folk pop com clima cor-de-rosa, bolinha de sabão e prisilha no cabelo. Muito bom.

Shows-case
Num caminho parecido com o Hurtmold, mas se utilizando de ferramentas tecnológicas, um dos integrantes dos próprio grupo paulista, o multi-instrumentista M. Takara, mostrou em um dos shows-case que abria o festival no palco menor um trabalho de ambientações sonoras, minimalismo e criatividade. Trumpete, percussão, uma brincadeira com texturas, timbres e beats e em certo momento parecia que os alemães do Krafwerk se encontraram em um candomblé.

Nos shows pré-palco principal destaque também para o grupo pernambucano Profiterolis, que provoca reações de ame ou deixe no público rocker. A razão é simples, nada de obviedade indie. Criam uma musicalidade que caminha de mãos dadas com a MPB, com o rock servindo de suporte. Entre violões, teclados, percussão e, claro, guitarra-rock-bateria, um encontro de Mutantes, Sérgio Sampaio, da banda local Eddie, letras bem sacadas e um toque de ousadia.

Mas na sala que recebia os shows-case, houve espaço também para cabecismos e masturbações musicais, como no caso do 3 Ets Records, uma enganação, em cima de bases pré-gravadas e uma “performance”? de três marionetes alienígenas. Outro exemplo foi o grupo Os Embuás, um amontoado de músicos produzindo sons abstratos, que só não dá para afirmar que qualquer um faria porque não dá para avaliar até onde vai a coragem de passar ridículo das pessoas. Um show sem propósito, que conseguiu provocar reações apelando para gritos de dor de um pequeno porco, o mais sensato da história. Aquele tipo de som que os integrantes do grupo vão adorar ver uma crítica negativa só para dizer que não foram compreendidos.

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