No dia 28 de junho, o cantor e compositor Raul Seixas completaria 80 anos. Morto em 1989, o artista baiano deixou uma boa quantidade de registros gravados, entre oficiais, piratas e ao vivo. Para celebrar seus 80 anos, assim como fizemos com Gilberto Gil e Caetano Veloso, reunimos sua discografia numa análise priorizando seus álbuns de estúdio, incluindo os que foram feitos em parceria antes da carreira solo, além de uma trilha sonora. Foram 18 álbuns no total, deixando de lado os álbuns ao vivo e diversos lançamentos e registros lançados postumamente por familiares e fã-clubes.
Raul deixou um legado de 324 composições e 409 gravações. A música “Cowboy fora-da-lei”, composta em parceria com Cláudio Roberto, lidera o ranking das mais executadas no último ano. Já o maior destaque entre as regravações é “Medo da chuva”, parceria com Paulo Coelho, que aparece com 72 fonogramas cadastrados. Para esse trabalho de análise da discografia, convidamos um time de jornalistas e artistas para falar da importância e das características de cada um desses discos.
RAULZITO E OS PANTERAS (1968)
Raulzito e Os Panteras é um disco que parece ter sido gravado em 1962 e em não em 1967, ano em que Raulzito, Eládio, Carleba e Mariano puseram suas canções na fita magnética pelo selo Odeon. Principalmente devido a uma certa ingenuidade das letras. Contudo, para além de ser um item meramente cronológico na carreira do ídolo, o LP, lançado em 1968, logo após o Carnaval, tem facetas a serem exploradas. “Triste Mundo” tem uma singular introdução de ska reggae e “Me Deixa em Paz” um balanço a la Johnny Rivers. Na trilha, segue “O Trem Cento e Três”, com acento country rock. “Lucy in the Sky with Diamonds” tem uma com bela orquestração de Orlando Silveira (orquestrou o disco todo, diga-se). Temos ainda o bolero, “Um Minuto a Mais”, e “Alice Maria”, uma pérola de lírica caymmesca. “Por que? Pra que?” é um rock balada filosófico, afinal, como já pregava em priscas eras o profeta Raulthustra, nem tudo no iê-iê-iê é amar e sofrer. As demais, só curiosidade, também vale conferir.
(Zezão Castro – Jornalista)
Gravadora: EMI-Odeon
Lançado em LP, K7 e CD
SOCIEDADE DA GRÃ-ORDEM KAVERNISTA APRESENTA SESSÃO DAS 10 (1971)

Este disco é uma verdadeira pérola da música produzida no Brasil. Raulzito era produtor musical na CBS, uma gravadora bem popular, porem tradicional, e foi lá mesmo, ao lado de Mauro Motta, que ele produziu um disco completamente anti comercial, debochado, com letras provocativas, elementos de opera rock, regionais e psicodelia. O disco é uma super produção, reunindo um elenco fantástico e Raul Seixas como artista ao lado de Sergio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada. Foi retirado das lojas pela própria gravadora com pouco tempo de lançamento e se tornou um marco na trajetória de Raul. Nas ultimas décadas o disco se tornou um clássico da contra cultura e suas musicas são hits.
(Nancy Viegas – Cantora, educadora e videomaker)
Gravadora: CBS
Lançado em LP, K7 e CD
OS 24 MAIORES SUCESSOS DA ERA DO ROCK (1973)
Assim como Raul, eu era um adolescente que ouvia rockabilly, blues, R&B, country, rock de garagem dos anos 60, dentre outros ritmos musicais. Ambos éramos jovens numa Salvador escaldante, andando com calças curtas mostrando as botas, camisa por dentro, cinto com fivelas grandes, gola pra cima, topete & costeleta (no meu caso), como um rocker alienígena deslocado numa Soterópolis provinciana (apesar de Raul ter vivido numa Salvador de cultura efervescente). O 1º disco de Raul solo é um disco em homenagem ao R’n’R raiz, tradicional, tanto gringo, quanto brazuca, mas Raul não fez uma imitação barata ou uma cópia repaginada, Raulzito fez uma releitura própria e com influências de rock contemporâneo daquela época, dialogando com o momento musical em que vivia. Naquele momento o rockabilly e o R’n’R original estava vivendo um revival e muitos artistas pioneiros e originais estavam sendo homenageados e fazendo shows. Nesse disco, Raul faz em algumas faixas arranjos modernos e diferentes das originais, noutras faixas usa arranjos de metais, guitarras mais pesadas (e até algumas pitadas “psicodélicas” e hard rock), e já cantando como Raul Seixas e não como um mero imitador de “música americana”. Já se escuta um Raul com personalidade e timbre vocal que veríamos nos seus discos posteriores. É um artista que já sabe quem é, tem segurança no que faz, homenageando seus ídolos e preparando o terreno para o sucesso posterior que estava por vir.
(Rodrigo Chagas – vocalista da banda The Honkers)
Gravadora: Philips Records
Vendas: 44 mil cópias
Lançado em LP, K7 e CD
KRIG-HA, BANDOLO! (1973)
Quando fez este seu primeiro disco (autoral) solo, Raul Seixas já tinha na bagagem o disco com os Panteras(1968), a carreira de produtor fonográfico numa gravadora (em que, segundo ele mesmo, aprendeu a comunicar), e o disco coletivo da Grâ Ordem Kavernista. Tudo parece ser uma preparação pra este seu trabalho mais maduro e orgânico, com um repertório variado, tocado por uma banda coesa, cristalizando-o como artista solo. A despeito da parceria Raul & Paulo Coelho, as melhores canções do disco são só de Raul : “Mosca na sopa” (rock macumba iê iê, metaforizando a barra pesada da ditadura), “Metamorfose ambulante”, (defesa da liberdade do indivíduo, o que talvez explique a heterogeneidade do público de Raul) e “Ouro de tolo”, paródia sutil – pelo uso da mesma sequência harmônica – de “Detalhes”, de Roberto & Erasmo, saindo do romantismo pro dilema existencial :“macaco, praia, carro, jornal, tobogã / eu acho tudo isso um saco”. Raul dialoga com Caetano e o legado tropicalista, fazendo, do seu jeito, o rock/baião, tornando os dois gêneros irmãos, e toma o lugar de Roberto Carlos(em 1973, eminentemente romântico) na condição de mito do rock brasileiro. Um disco atemporal, urgente, popular e original, início de uma trajetória ímpar.
(Paquito – cantor e compositor)
Gravadora: Philips Records
Vendas: 67 mil cópias
Lançado em LP, K7 e CD
O REBÚ (Trilha sonora original – Raul Seixas & Paulo Coelho) (1974)
“A serpente está na terra e o programa está no ar”, canta Raul Seixas em “Como a Vovó Já Dizia”. faixa de abertura do LP O Rebu, trilha da telenovela da Globo de 1974. Ele estava em ascensão quando topou compor canções originais para a atração, e o fato de nove dos 14 temas terem a presença dele como cantor ou compositor justifica a presença do álbum na discografia oficial. Seis músicas foram feitas com o parceiro Paulo Coelho, incluindo uma das mais conhecidas, “Se o Rádio Não Toca”, e “Por Quê?”, originalmente chamada “Gospel”, modificada pela ditadura militar. Cada parceiro assina sozinho outros dois temas, e assim ninguém menos que Alcione canta, de Raul, “Planos de Papel”, melancólica balada de desilusão amorosa que parece ter sido feita para ela.
(Renato Cordeiro – Jornalista)
Gravadora: Som Livre
Lançado em LP, K7 e CD
GITA (1974)
Na vasta obra de Raul Seixas, escolher um único álbum é um grande desafio. Mas vamos com o que começa com “Super-Herói”, expondo várias personalidades nacionais em plena ditadura, passando por “Medo da Chuva”, que questiona o casamento padrão, “Moleque Maravilhoso”, “SOS”, “Loteria da Babilônia”, “Prelúdio” que, na minha visão, é bem anarquista, a própria música-título e seus mistérios, a lado B “Um Som para Laio” e finaliza com “Não Pare na Pista”, dentre outras pedradas. O Gita é uma obra-prima e foi um dos que viraram a cabeça do então jovem cá. Algo mágico e, ao mesmo tempo, realista nessas letras mudou minha visão sobre a vida. O produtor Marco Mazzola, contando como foi gravado, com a limitação de canais e chegando ao som que, ainda hoje, é cobiçado por muitos artistas e produtores, só confirma que Gita é uma pérola da música brasileira!
(Irmão Carlos Psicofunk – Músico e produtor)
Gravadora: Philips Records
Vendas: 143 mil cópias – Disco de Ouro
Lançado em LP, K7 e CD
20 ANOS DE ROCK (1975)
Em 1975, com o fenômeno Raul Seixas já estourado em álbuns como Krig-Há, Bandolo! e Gita, a Phillips resolveu requentar o álbum Os 24 Maiores Sucessos da Era do Rock, com Raul cantando em anonimato numa tal de Rock Generation, em 1972. Acrescentaram palmas, pra simular o ao vivo, e tava pronto Raul Seixas – 20 Anos de Rock. Temos aí uma verdadeira cartilha do rockabilly e do rock cinquentista brasileiro, indo até a Jovem Guarda, já nos 60. Os arranjos, com naipe de metais e o vigor do rock dos 70, energizam a nostalgia. De “Rock Around the Clock” passando por “Tutti Frutti”, a “Only You”; de “Estúpido Cupido” a “É Proibido Fumar” e “Rua Augusta”… Afaste o sofá e fogo no salão.
(Zezão Castro – Jornalista)
Gravadora: Polyfar/ Phillips
Lançado em LP, K7 e CD
NOVO AEON (1975)
Disco especialmente marcado pela doutrina ocultista de Aleister Crowley, Novo Aeon traz um Raul Seixas sem medo de ser visto como herege. Que o diga o “Rock do Diabo”, mas não só. O álbum de 1975 mescla tratados filosóficos e canções populares feitas pra cantar junto, e por vezes uma mesma faixa consegue ser as duas coisas – embora nem todo mundo perceba, como ocorre em “Tente Outra Vez”. Alusões bem-humoradas à vida no capitalismo, como “É Fim de Mês” e “Peixuxa (O Amiguinho dos Peixes)”, convivem com momentos de delicadeza, a exemplo de “A Maçã” e da pouco lembrada “Sunseed”, cantada e composta por Raul ao lado da então esposa Gloria Vaquer. A banda de Novo Aeon é um espetáculo à parte, contando com nomes como o pianista Antonio Adolfo e os músicos José Roberto Bertrami (piano) e Ivan Conti (bateria), do trio de jazz fusion carioca Azymuth. Segundo o biógrafo Jotabê Medeiros, Novo Aeon vendeu pouco, mas virou cult. Não se pode esperar menos de um disco que ainda trouxe clássicos incompreendidos como “Eu Sou Egoísta” e a própria faixa-título.
(Julli Rodrigues – Jornalista)
Gravadora: Philips Records
Vendas: 60 mil cópias
Lançado em LP, K7 e CD
HÁ DEZ MIL ANOS ATRÁS (1976)
Abrir as orelhas para Há 10 mil anos atrás é reconhecer as referências básicas de Raul: Bob Dylan e seu folk-rock; a adaptação de Elvis Presley; a obra mestiça, barroca na mistura dos gêneros musicais; o parceiro de tantas composições, Paulo Coelho, e tantas outras que não cabem nesse parágrafo. Oscilando entre o cronista e o remetente de cartas, o eu-lírico das letras aponta para angústias e reverências da existência humana entre melodias plurais e familiares. Tem tango sobre a morte, tem repente sobre números, tem canção sobre o sagrado e o profano de figuras femininas, tem o velhinho sentado na calçada com o chapéu na mão, recolhendo suas moedas e contando a história da cultura, tem Jackson do Pandeiro. E para quem gosta de tocar violão, o álbum traz três dos clássicos presentes nas rodas: “Meu amigo Pedro”, “Quando você crescer” e “Eu também vou reclamar”. É Raul Seixas para se tomar posse.
(Leo Pessoa – Professor e cronista)
Gravadora: Philips Records
Vendas: 100 mil cópias
Lançado em LP, K7 e CD
RAUL ROCK SEIXAS (1977)
Apenas dois anos após lançar um trabalho cantando clássicos do rock, já uma versão de outro lançado em 1973, a então Phillips, em vias de perder Raul para outra gravadora, solta outro trabalho com o baiano interpretando grandes sucessos do rock. Um pouco de Chuck Berry, Paul Anka, Gene Vincent, Elvis Presley e Little Richard, sem nada de novidade, mas com a sempre inspirada interpretação de Raul. A produção do Jay Vaquer, no entanto, não garantiu a presença do artista na mixagem do disco. Seguindo a fórmula de álbuns anteriores de cover, Raul Rock Seixas, tinha um final diferente, com Raul mostrando sua outra paixão musical além do rock, a música nordestina, num medley de “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, com “Blue Moon of Kentucky”, de Bill Monroe, sucesso de Elvis. Um diálogo que se revelou também em outros momentos e gravações durante a carreira.
(Luciano Matos – jornalista e editor do el Cabong)
Gravadora: Fontana/ Philips Records
Lançado em LP, K7 e CD
O DIA EM QUE A TERRA PAROU (1977)
Raul, neste disco, nos deu a dimensão exata do desconforto. E assim foi construindo sua obra cheia de referências ao passado, mas com um olho no futuro que agora estamos. Recheado de clássicos, como “Maluco Beleza”, “Tapanacara”,” Que luz é essa”, entre outras, todas em parceria com Cláudio Roberto. A sua música juntou diversos estilos e semeou o que podemos chamar de rock brasileiro. com B maiúsculo. Ou com R de Raul. O dia em que a terra parou nos trouxe ao que sempre tememos, mas que se tornou uma grande e cruel possibilidade.
(Tony Lopes aka reverendo t – músico e escritor)
Gravadora: WEA
Lançado em LP, K7 e CD
MATA VIRGEM (1978)
Mata Virgem é o 7º álbum de carreira de Raul Seixas, lançado em 1978 e soa completamente diferente dos demais álbuns do “Maluco Beleza”. O álbum marca o rompimento das parceria com Dom Paulete, mesmo assim, metade do álbum tem a assinatura da dupla Raul Seixas e Paulo Coelho. Esse disco na época não teve uma aceitação boa, foi um fracasso de vendas, mesmo tendo mais da metade das músicas sendo tocadas nas rádios. Mas esse “pseudo fracasso”, pouco importava pra Raulzito, ele estava em um momento muito turbulento na vida, com graves problemas de saúde, e buscou um isolamento numa fazenda no interior da Bahia. Foi lá que ele compôs todo o Mata Virgem. Um disco de transição, pois o disco soa menos urbano, menos rock, as letras são mais introspectivas e a sonoridade bem mais “regional”, flertando muito com ritmos “nordestinos”. É um disco muito “cancioneiro”, simples e direto, bem resolvido e muito, muito rico musicalmente. As 10 faixas, somam algo em torno de 24 minutos, um disco curto e gostoso de ser ouvido. Nele, tem clássicos como “Judas”, “As Profecias”, “Conserve Seu Medo”, a música que nomeia o disco Mata Virgem e a grata e potente participação de Pepeu Gomes, tocando guitarra na poderosa “Pagando Brabo”.
(Wilson Santana – integrante das bandas Pastel de Miolos, Canto Torto e Pelfudo Joleitrei e sócio da Brechó Discos)
Gravadora: WEA
Lançado em LP, K7 e CD
POR QUEM OS SINOS DOBRAM (1979)
Em 1979, a vida de Raul seguia o roteiro turbulento que já parecia lhe acompanhar por destino. Mais um divórcio, o escândalo de um assassinato ocorrido em seu apartamento e a pressão da gravadora após o fracasso comercial de Mata Virgem compunham o pano de fundo daquele momento. Assim como o álbum antecessor, Por Quem os Sinos Dobram também passou despercebido no lançamento e só anos depois suas músicas viraram clássicos raulseixistas. Entre elas, o rock and roll “O Segredo do Universo”, o country “A Ilha da Fantasia” e a faixa título, marcada pela típica verve autoajuda de Raul, em versos como “Coragem, coragem, se o que você quer é aquilo que pensa e faz. Coragem, eu sei que você pode mais”. O álbum ainda traz “Dá-Lhe Que Dá”, faixa claramente “inspirada” em “You Really Got Me”, sucesso dos Kinks, e o inusitado reggae “Ide a Mim Dada” que abre o álbum. Porém, uma das coisas mais interessantes do disco está na ficha técnica com, entre outros, Dori Caymmi no violão e Danilo Caymmi na flauta; na guitarra Sérgio Dias (Mutantes); na bateria Mamão, baterista de Chico Buarque; e no saxofone Oberdan Magalhães, fundador da banda Black Rio.
(Ricardo Cury – Escritor e publicitário)
Gravadora: WEA
Lançado em LP, K7 e CD
ABRE-TE SÉSAMO (1980)
Raul Seixas vinha de dois excelentes álbuns pela WEA, mas com pouca vendagem no final dos anos 70, o que fez com que ele fosse dispensado pela gravadora. Aí veio o início de 80 e ele chamou Mauro Motta da CBS e Cláudio Roberto, seu parceiro de composições, e gravou pela velha parceira CBS, onde ele começara o álbum Abre-te Sésamo, com “Aluga-se” e “Rock das Aranhas” fazendo muito sucesso. Mas ambas foram censuradas pelo governo militar de João Figueiredo. A ditadura impedindo a liberdade criativa desse que foi o maior gênio popular do Rock brasileiro.
(Fabio Elias – Vocalista, guitarrista e compositor da Relespública)
Gravadora: CBS
Vendas: 42 mil cópias
Lançado em LP, K7 e CD
RAUL SEIXAS (1983)
Discordâncias com a CBS levou Raul a ser dispensado da gravadora e a passar por um período de dificuldade na carreira. Três anos após seu último álbum, ele ressurgiu pela pequena Eldorado. O disco foi um sucesso, embalado pelo hit “O Carimbador Maluco”, que originalmente nem estava no álbum. Com o álbum já gravado, Raul foi convidado para interpretar um personagem no especial infantil Plunct, Plact, Zuuum da TV Globo e compôs uma canção inspirado por sua filha. A Eldorado quis incluir a faixa no disco, mas como a primeira tiragem já estava pronta, fez um compacto às pressas para ser encartado como encarte do álbum. Nas tiragens seguintes, a canção já figuraria como a sétima no disco. Além dela, o trabalho traz outras preciosidades, como as belas “Coração Noturno” e “Segredo da Luz”; o misto de reggae, baião e xaxado “Quero Mais”, que conta com vocais de Wanderléa; “Não Fosse o Cabral”, versão para “Slippin’ and Slidin'”, de Little Richard; “Babilina”, uma versão de “Bop-A-Lena”, de Ronnie Self, com letra “pornô-kitsch”. Fechando o disco, há ainda uma faixa gravada ao vivo em homenagem a Arthur “Big Boy” Crudup. Mas os destaques são “Eu Sou Eu, Nicuri É o Diabo” e o outro grande hit do álbum, a moda sertaneja “Capim Guiné”, parceria com Wilson Aragão. Três das faixas haviam sido inicialmente vetadas pela censura (“Quero Mais”, “Babilina” e “Não Fosse o Cabral”, mas acabaram liberadas. O álbum vendeu mais de 100 mil cópias e rendeu o segundo Disco de Ouro para Raul, que com o sucesso viu um breve ressurgimento da carreira e um novo contrato com uma grande gravadora.
(Luciano Matos – jornalista e editor do el Cabong)
Gravadora: Eldorado
Vendas: 100 mil cópias
Lançado em LP, K7 e CD
METRÔ LINHA 743 (1984)

O álbum representou a volta do cantor a uma grande gravadora (Som Livre). Foi bem recebido pela crítica especializada, mas as vendagens, por diversas razões, ficaram aquém das expectativas, levando ao término do seu contrato com a gravadora. A demora de 4 meses para realizar o disco foi motivo de cobranças, bem como o custo total do álbum. O cantor justificou o valor e a demora dizendo que foi difícil conseguir a simplicidade que ele queria. Assim, paradoxalmente, o álbum ficou simples e caro. Outro problema foi a não liberação da canção “Mamãe Eu Não Queria”, vetada pela censura para execução pública. Raul assumiu não só a concepção musical, como também a visual. O cantor dizia que buscou fazer um álbum conceitual, não só nas faixas, mas também no projeto gráfico do disco – todo em preto e branco, remetendo a Alfred Hitchcock e aos anos 50. O álbum inicia com o “carro chefe” do disco, “Metrô Linha 743”, que, com uma letra grande e falada foi comparada à “Ouro de Tolo” e “Highway 61 Revisited” de Bob Dylan e é considerada por pesquisadores como uma das precursoras do RAP em terras nacionais. Era tida, também, como a canção natural a ser trabalhada como compacto, mas o álbum acabaria não sendo divulgado pela gravadora. Traz ainda “Um Messias Indeciso”, tida por Raul como “a sua cara”. “Meu Piano”, uma brincadeira com um piano fora de lugar, ficou conhecida na época por conter “o solo mais caro do Brasil”, no qual o músico Clive Stevens recebeu 3 mil dólares para fazer um solo de sax. “Mamãe Eu não Queria” é um “clássico da insubordinação” com uma “voz rasgada e dilacerada”. Foi inspirada em “I Don’t Wanna Be a Soldier Mama”, de John Lennon, do disco Imagine, de 1971. Segue-se “Mas I Love You”, canção em homenagem a sua mulher, Kika Seixas, e o único momento romântico do disco. Traz ainda duas regravações: “Eu Sou Egoísta” e “O Trem das Sete”, originalmente do álbum Gita. O disco encerra com “A Geração da Luz”, única faixa com grande número de instrumentos de sopro e que foi parte da trilha sonora do especial musical infantil da Rede Globo Plunct, Plact, Zum.
(Elmo Manero – Músico e administrador)
Gravadora: Som Livre
Lançado em LP, K7 e CD
UAH-BAP-LU-BAP-LAH-BÉIN-BUM (1987)
Este talvez seja o último suspiro criativo da carreira solo de Raul. Gravado após problemas com sua ex-gravadora, separação da esposa, uso excessivo de álcool e drogas e agravamento da saúde, o disco traz um frescor criativo e seu último grande hit, o country rock “Cowboy Fora da Lei”. As gravações se estenderem mais do que o esperado, já que Raul passava o tempo entre o estúdio e a internação numa clínica. Lançado pela Copacabana, o álbum foi praticamente gravado ao vivo em estúdio, com apenas a voz sendo adicionada posteriormente. O álbum marcou a volta ao mercado após quase 3 anos do trabalho anterior. Bem recebido pela crítica e com boas vendas, rendeu o terceiro disco de ouro do cantor e foi o o terceiro mais bem vendido da carreira. No repertório, além de “Cowboy Fora da Lei”, que fez parte da trilha sonora da novela Brega & Chique e contou com videoclipe no Fantástico, trazia ainda, entre outras, a divertida “Quando Acabar o Maluco Sou Eu”, a maliciosa valsa rock “Loba” e duas versões: “I Am (Gîtâ)” (regravação em inglês para seu maior sucesso) e “Cambalache”, um tango de Enrique Santos Discépolo (que havia sido gravado por Caetano Veloso e Ângela Ro Ro anos antes). Algumas curiosidades do disco: Lena Coutinho, a esposa de Raul no período, divide a autoria de duas composições e assina a capa do álbum. Três canções do disco foram vetadas pela censura federal (“Não Quero mais Andar na Contramão”, “Check-up” e “Como o Diabo Gosta”) e excluídas do trabalho, só lançadas no ano seguinte em um novo disco.
(Luciano Matos – jornalista e editor do el Cabong)
Gravadora: Copacabana
Vendas: entre 100 e 250 mil cópias
Lançado em LP, K7 e CD
A PEDRA DO GÊNESIS (1988)
Antes de fazer sua derradeira alquimia na “Panela do Diabo”, o nosso querido “Maluco Beleza” nos envolveu em seus feitiços sonoros presentes no álbum: A Pedra do Gênesis (1988). Este é o nome do último álbum solo do inesquecível Raul Seixas. Nele, o Mestre “Maluco Beleza” revisita o arquétipo do Mago, do bruxo, do místico que em seus derradeiros impulsos sonoros nos mostrar um pouco mais de sua filosofia de viver, onde os segredos da vida que tanto tentamos desvendar em nossas buscas internas, sempre farão parte de nossa existência. Essa inquietude com intento de auto-revolucão, metamorfose e transmutação, são a essência do legado da obra de Raul e este traço questionador/esotérico, podemos também constatar neste magnífico registro fonográfico.
(Igor Trovanova – Cantor)
Gravadora: Copacabana
Lançado em LP, K7 e CD
A PANELA DO DIABO (1989)
Raul Seixas sempre esteve presente nas minhas lembranças musicais de família, mas a experiência de ouvir um álbum completo e me tornar fã aconteceu aos 14 anos, com Panela do Diabo, lançado em 1989 em parceria com Marcelo Nova. O disco, que vendeu mais de 150 mil cópias e recebeu disco de ouro, traz Raul com a voz já bastante debilitada, este registro me passa muita verdade e sempre me emociona. Destaco faixas como “Carpinteiro do Universo”, “Banquete de Lixo” e “Pastor João e a Igreja Invisível”. A obra deu origem a uma turnê nacional que recolocou Raul nos palcos, programas e TV e acabou marcando sua despedida.
(Alex Sant’anna – cantor e compositor)
Gravadora: Warner Music
Vendas: 150 mil cópias
Lançado em LP, K7 e CD






