Entrevista: Ênio e a Maloca

Ênio e a Maloca
Dando continuidade a série de entrevistas com novos nomes da música brasileira, hoje conversamos com o paulista radicado na Bahia há mais de dez anos, Ênio. Ele foi um dos destaques em 2006 da música independente feita no estado com o grupo Ênio e a Maloca e seu primeiro disco, “Unidade Móvel”. O grupo faz uma série de shows nas próximas semanas, incluindo participação no palco alternativo do Festival de Verão.


– Você acha que existe uma nova música baiana sendo formada? Você se insere nela?

Sim, existe uma nova música e me sinto parte dela. Agora, é uma música que surge nos guetos. Só que aqui em Salvador isso é complicado, a gente tem uma coisa engraçada que é uma cultura de eventos, de festa. As pessoas vão para festas pela festa em si, não pelo show, pelo artista. O engraçado é que Salvador é uma cidade com uma cultura grandiosa, mas tem esse aspecto estranho.

– Como você apresentaria e definiria sua música para um desconhecido?

A resposta é meio clichê, mas faço música brasileira. Tem também uma coisa afro, black music, coisas de MPB, tipo Gilberto Gil, Caetano e Jorge Ben. Eu definiria como uma black music com rock n´ roll, hip hop e algumas fusões eletrônicas, mas é complicado falar, porque amanhã posso pirar e fazer um disco de MPB, só voz e violão. Porque não estamos presos a rótulos, estamos presos a fazer arte. Tem muita banda de moda, mas não me importo muito, sigo meu caminho.

– Você circula no universo independente. Como avalia o meio aqui em Salvador? Qual você considera a principal dificuldade do meio?

Em Salvador, o problema é que a gente tem as produtoras que fazem essas festas e elas já têm essas coisas meio certas. O exemplo é o Festival de Verão que você vê quase sempre as mesmas atrações, especialmente no palco principal. A música está assim, uma preocupação mais empresarial do que artística No meio independente também as pessoas buscam pouco a cultura e mais o entretenimento. Aos poucos a gente vai tentando entrar nisso, mas é uma droga você trabalhar para tentar ser empresa. Não estou me importando muito. Assim como o Los Hermanos que fez como quis. Assim como Caetano que faz o que acha bom. Eles fazem o que quer. Ninguém tem nada a ver com isso. A música independente teria que ser assim, mas ela está indo para outro lado, tentando ser comercial. Gravadora é bacana porque bota o disco na loja, mas é melhor estar independente, pelo menos você pode ter essa autonomia.

– Essa música baiana mais popular, Axé, Pagode, Arrocha, atrapalha de alguma forma a viabilidade de trabalhos como o seu?

Eu não vejo a música em si atrapalhando, eu respeito para caramba todo mundo. Se tem verdade, pode ser simples, pode vir da favela, mas respeito. O problema é que o cara que está por trás dele botando dinheiro e dizendo que isso é a coisa que presta, enganando. A gente sabe que existe algo melhor que só isso. Vivemos nessa coisa limitada, enquanto só se pode ouvir a banda do momento. Uma hora é Vixe Mainha, ano que vem é outra moda, no outro ano outra. Mas acho que essa música não atrapalha não, as barreiras já estão sendo quebradas. A gente vê hoje mais eventos alternativos na cidade durante o ano inteiro. O próprio Axé está buscando o alternativo para tentar se reinventar, por isso vem com esses rótulos como Pop Axé, isso é uma besteira. O Axé é rico na percussão, tem muita forma de se trabalhar isso ainda.

– Com essas mudanças no universo da música, com novas tecnologias, pirataria, há espaço para nomes novos como você? Como você encara essas mudanças?

Eu acho bacana parcialmente. É bom de um lado e ruim de outro. A internet tem essa coisa de ser positiva de poder divulgar todo mundo, de criar um espaço democrático. O problema é que muita gente não tem qualidade e está ocupando espaço. Música tem que ser pela música, não pela imagem. Hoje em dia, o empresário pega uma menina bonita e investe nela, pode nem cantar tanto, mas é bonita. Se já é complicado no meio comum, tendo isso na internet é pior, vai tirando espaço. Os mitos são importantes, mas não vai aparecer outro Caetano, outro Gil tão cedo, porque não tem espaço. Se aparecer um cara como Gil na sua frente ele nunca vai ter o espaço que ele teve na época dos festivais. Hoje não tem mais isso de apostar no potencial. Imagine aparecer um cara magrelo, não tão apresentável, como Caetano naquela época. Hoje em dia isso é complicado, ele não teria espaço. O problema da internet é que espalha tanto que é difícil encontrar algo novo. A gente perde muita coisa boa que está rolando, mas internet é bom. Se não tivesse seria pior ainda.

– Quais seus projetos para 2007?

A gente lançou agora o disco, tem algumas coisas em andamento. O projeto é tocar, é o momento de apresentar o trabalho, sem pretensão alguma. Se as pessoas gostarem ótimo.
Daqui para o meio do ano que vem estamos trabalhando para lançar um outro disco. Estamos fazendo também a pré-produção do segundo clipe, “Painel de Controle”, provavelmente com ilustração de Rex do Retrofoguetes. Vamos também fazer shows fora, São Paulo Rio e Minas. O negócio é buscar novos caminhos e não ficar preso em um único lugar. Música é para isso, para que as pessoas possam escutar e se sintam bem. Meu trabalho é meio autobiográfico. Fala de um cara que mora na frente da favela e que vê um monte de gente se lascando de trabalhar, mas que tem que ser feliz também. Falo isso de uma maneira não tão agressiva como o hip hop, mas com rock e pop. Quero passar que a gente pode ser feliz dando uma idéia que se a coisa não está bacana tem que seguir. Devagar e sempre.

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