Entrevista: O canto aos orixás de Iara Rennó

Fechando um ciclo de quatorze anos, a cantora e compositora paulista Iara Rennó lançou em 2023 o álbum Orí Okàn. Trabalho irmão de Oríkì (2022), o disco dá continuidade à temática do candomblé em sua obra, dessa vez de modo mais íntimo e pessoal, fruto das vivências e da iniciação da artista no Ilê Asé Opô Baragbô, em Camaçari.

Convidamos Iara para um bate-papo sobre o período de criação da obra, diferenças e complementaridades entre os dois álbuns e as parcerias e encontros que levaram à sua produção. Confira a seguir:

Gostaria de começar falando um pouco mais do projeto como um todo, já que o Orí Okàn (2023) é um álbum-irmão do Oríkì (2022). Como surgiu a ideia desse trabalho?

Iara Rennó – O Oríkì começou a ser gestado, composto e produzido em 2009. A gente tem gravações que são dessa época, a maioria, e eu fiz umas outras gravações em 2022, no início do ano.

Eu já tinha uma relação e muita admiração pela cultura de orixá, com a cultura do candomblé, mas ainda não era iniciada. Quando me deparei com as traduções dos Oríkì, que são esses poemas de saudação (aos orixás), aquilo foi muito inspirador. Foi mais uma característica muito marcante dessa cultura, que me fisgou.

Embora no original, pelo fato do Iorubá ser uma língua tonal, pareça até que a pessoa está cantando, os Oríkì não são como os Orín, que são as cantigas para orixá. Os Oríkì são poemas mesmo, declamados. Eu musiquei alguns deles e também escrevi outros baseada nessa forma específica, com a coisa de saudação, que é você descrever o orixá, colocar ali as características, em terceira pessoa. Nesse mesmo ano de 2009, eu também tive minhas vivências como abian dentro do terreiro, que é a pessoa ainda não iniciada, mas que já está se preparando.

Eu já tinha uma relação e muita admiração pela cultura de orixá, com a cultura do candomblé, mas ainda não era iniciada. Quando me deparei com as traduções dos Oríkì, que são esses poemas de saudação (aos orixás), aquilo foi muito inspirador.”



Isso foi em 2009. Quando foi no início de 2020 eu fiz a minha iniciação, e o que acontece? Eu não tinha esse disco, o Oríkì. Ele teve até uma primeira versão, que fez parte de uma exposição no Museu Afro Brasil, no final de 2009. Ela era parte de uma instalação visual, física, e também sonora, em que as pessoas podiam escutar músicas relativas a cada orixá a quem a instalação estava se referindo, homenageando.

Só que esse trabalho não saiu como disco. Ele fez parte daquele projeto e ficou com algumas coisas interminadas, algumas coisas para serem revistas, e por uma série de fatores não foi lançado como álbum. Eu acho que, inclusive, fatores que estão para além do do campo de logística operacional, racional, de produção. Acho que tem um objeto de uma ingerência mágica também, afinal estamos trabalhando nesta órbita.

Depois, com a minha iniciação, quando eu entrei pro descanso no terreiro, que é antes da feitura, eu estava com o meu violão e várias das músicas do Orí Okàn começaram a chegar pra mim, já de pré-recolhimento e nesse lugar, dentro do espaço sagrado. Então eu fui entendendo esse desenho, do trabalho que eu tinha iniciado em 2009 sobre esse mesmo tema, e como isso se conectava com essas novas canções, o que isso representava, justamente essa linha na história, na minha própria história musical e pessoal. A partir disso, eu escrevi o projeto pra um edital do PROAC que propunha finalizar e lançar o Oríkì e produzir e lançar o Orí Okàn, essa nova etapa.

Já quando o Oríkì saiu, foi anunciado que esse segundo álbum, que veio a ser o Orí Okàn, era diferente em muitos aspectos. Com o lançamento, a gente consegue ver bem essas diferenças, tanto nas letras quanto na sonoridade, mas também é perceptível uma complementaridade de certa forma. Para você, quais são os principais aspectos que diferenciam um disco do outro? Como eles se relacionam e como você vê as diferenças e complementaridades entre os dois?

Eu respeito muito os processos, como a inspiração chega, e os contextos, a poesia e a literatura. Porque o modo como o texto das letras é escrito, pode trazer toda uma contextualidade. Como eu estava te falando, no caso do Oríkì, são poesias escritas em terceira pessoa, eu estou saudando um objeto. Então, é uma narrativa objetiva. No caso do Orí Okàn é o contrário, é sobre a minha vivência, a maioria das músicas é em primeira pessoa. Tem essa diferença textual muito clara.

E a partir desse ponto de vista a gente também consegue ver a relação direta com a sonoridade. O texto de saudação é aquilo, grandiloquente, né? Estou saudando o rei da cidade de Oyó, Xangô. Então a gente tem essa composição sonora que é mais pra fora, enquanto que no Orí Okàn eu estou falando de uma maneira mais direta, em primeira pessoa, eu estou falando da minha intimidade. Essas foram músicas que foram compostas comigo ali, sozinha com meu violão, e eu não tinha nenhum disco que tivesse essa sonoridade ainda.

Teve um disco que eu fiz em 2021, na época da pandemia, que foi quando eu meio que voltei a tocar violão. Eu comecei tocando violão, mas como eu estava na banda Dona Zica, que era uma banda de dez pessoas no palco, vi que era difícil fazer o som do violão chegar. E aí comecei a tocar guitarra, porque a guitarra o som é pronto, você pluga ali e não tem muito erro nesse sentido. Também nos outros discos que gravei, na maioria toquei guitarra. Em 2021 eu gravei o Pra te Abraçar, que não é um disco de estúdio. É um disco de violão mas é um disco gravado ao vivo. Não tem uma condição de produção profissional mesmo, um padrão, uma qualidade de estúdio que eu considero de produção musical. Já o Orí Okàn vai pra esse lugar, mas porque isso era a organicidade dele, assim que eu senti, eu queria trazer isso.

Eu percebi que apesar de eu ter essa memória do violão tão marcante de Baden Powell, por exemplo, não era aquele som que eu buscava, não era aquele som que eu queria. Era um som pequeno, de médio-agudo, eu não sentia a parte do grave, e aí eu fui em busca disso”

No caso do Oríkì teve músicas que eu não compus no violão, eu compus só a melodia em cima daquele texto. Depois a gente foi tirar as harmonias e fazer arranjo com banda, botei a banda pra dar uma ensaiada antes da gente gravar, a gente fez também as gravações de base todo mundo junto no estúdio, pra ter aquele molho de percussão-bateria-baixo e a guitarra ou o piano, dependendo da faixa. Mas no caso do Orí Okàn, a primeira coisa que eu gravei foram os violões.

Eu fiz também uma ampla pesquisa do som de violão na música brasileira e internacional, buscando que som era esse que eu queria. É até engraçado, porque quando a gente vai lá pra primeira referência dos Afro-Sambas, vai pra Baden Powell, a gente vê que é um violão incrível, a interpretação, a coisa rítmica, os caminhos melódicos, mas é um violão que geralmente é muito pro médio-agudo. Eu percebi que apesar de eu ter essa memória do violão tão marcante de Baden Powell, por exemplo, não era aquele som que eu buscava, não era aquele som que eu queria. Era um som pequeno, de médio-agudo, eu não sentia a parte do grave, e aí eu fui em busca disso, fui conversar com um cara que é meu grande amigo e produtor, músico que fez parte da Dona Zica, nossa primeira banda, que é o Gustavo Ruiz, irmão da Tulipa.

Eu comecei a ver no violão dele, nos discos da Tulipa, principalmente no Tu, que aquele violão tinha uma coisa especial, uma coisa que se aproximava mais dessa sonoridade que eu estava procurando. Então ele me orientou, deu uma consultoria de microfonação e tal, de corda, eu gravei com o violão dele inclusive, e a partir disso iniciei essa produção.

Outro ponto que achei interessante foi a ideia da noite do pré-lançamento com um show do Orí Okàn seguido da apresentação do Oríkì. Você pretende manter esse formato, ou foi algo específico do lançamento?

Esse show de pré-lançamento fazia parte das entregas do projeto. Inclusive, como por uma série de questões a gente já está na prorrogação do tempo contratual, a gente fez esse show que já estava desenhado desde o início.

Eu já tinha feito uma experiência como essa em 2016, quando lancei os álbuns Arco e Flecha, que são dois álbuns. Não é um disco duplo, são dois discos-unos, mas que também tinham essa relação de complementaridade, de oposição e complementaridade, e também eram duas bandas diferentes, dois conceitos sonoros e narrativos diferentes. Eu cheguei a fazer um show que era Arco e Flecha. Um não, dois, fiz no auditório do Ibirapuera e fiz também na comedoria Pompéia, com a participação da Elza Soares.

Eu gosto muito disso, eu não consigo me conter às vezes num conceito só, e tenho essa coisa dessa dualidade, dessa expansividade, né? Então, essa experiência foi muito legal. Eu fazia primeiro o show do Arco, que era com um trio, e depois o show desembocava no show do Flecha.

Fiz a mesma coisa agora, essa era a mesma proposta, mas a gente segue com o show em separado. Pode ter o show do Oríki e pode ter o show do Orí Okàn, dependendo da proposta, do espaço, do convite. É importante também a gente não enterrar o show do Oríki, que é muito recente, é um disco que está fazendo um ano agora e a gente só fez quatro shows com ele. Mas num momento especial eu vou fazer propriamente esse show. Dependendo do espaço, né? A gente precisa de um espaço cênico também pra fazer esse show duplo, das condições. Ainda pretendo realizar num futuro próximo.

Gostaria de comentar sobre as participações. No Orí Okàn, tem músicas com o coro do Ilê Baragbô, Moreno Veloso, Gabi Guedes, Karina Buhr… Como foram acontecendo esses encontros? Há uma relação muito forte dos convidados com a temática, com o universo do Candomblé.

Sim, com certeza. No Oríkì ainda tem alguns convidados, como a Tulipa (Ruiz) e o Curumin, que não têm uma relação direta com o candomblé, mas tinha uma relação nossa muito forte de troca artística.

Já no Orí Okàn, todas essas relações são bem diretas, são mais estreitas, mais íntimas, até pelo próprio conceito geral do disco. A Karina (Buhr) é ekedi no Ilê Baragbô, e inclusive ela chegou a tocar percussão em alguns shows de lançamento do Macunaíma (Ópera Tupi, primeiro disco solo de Iara), em 2008. A gente já tinha também essa relação artística e amizade de longa data, e passamos a ter também uma relação de santo, dentro do terreiro, quando ela se tornou minha mãe pequena.

Embora ela não estivesse presente na minha feitura, tem essa relação. Porque, é uma coisa até curiosa, de certa forma foi ela que me quem me levou para lá, embora quem tenha conhecido primeiro nosso pai de santo, o pai Edgar, tenha sido eu, quando fui abian no Aganju em 2009. Tem uma relação aí que é meio o que eu conto do ciclo na música em que Karina participa, “Chamado de Oxumarê”. “A cobra morde o rabo”, fazendo ali o ciclo do Oroboros, que é o ciclo que se fecha, o ciclo que começou nessa época de 2009 e tem aí os seus mistérios.

Moreno (Veloso) também é um um amigo de longa data. Ele fez a produção do disco Iara, de 2013, que eu gravei no Rio. Também participa com a produção da música “Nina Macunaíma”, no disco Macunaíma Ópera Tupi, que também já veio com essa proposta de muitos convidados porque é um disco em que cada faixa é uma produção, tem diversos produtores, diversos músicos, diversas formações, diversas participações até pra abarcar essa narrativa da polifonia sonora brasileira. A gente já tinha essa história também, e estivemos juntos em eventos e festas de candomblé, tem essa afinidade.

Iara Rennó participações no álbum Orí Okàn
Karina Buhr, Gabi Guedes, Moreno Veloso e Gustavo Ruiz foram alguns dos nomes que participaram do álbum Orí Okàn.

Essa questão do ciclo que você mencionou parece muito presente ao longo do Orí Okàn. “Orí Axé” traz um sentido de começo, como se fosse a primeira música de sua iniciação, abrindo o disco na sequência de “Iemanjá'” de Serena Assumpção. Mais pro meio, vem a faixa “Chamado de Oxumarê”, com essa mensagem de circularidade, e, fechando, a participação de egbomi Cici em “Orí Okàn Cici”.

Queria terminar a entrevista perguntando como foi esse encontro com Cici, porque essa escolha de fechar o disco com ela, e o que a noção de Orí Okàn, que está presente na fala dela e dá nome ao disco, representa para você? Foi um momento bonito ver quando você pediu a permissão para encerrar o disco com a gravação de Cici durante a sessão de audição do disco em Salvador.

Então, isso é mais um processo em que a intuição, o mistério e a magia, operaram de maneira muito forte. Eu conheci egbomi Cici em 2009, quando eu estava como abian no Aganju, que é a casa de onde ela é, do pai Balbino. Eu também sabia que ela desempenhava um papel na Fundação Pierre Verger Fui consultá-la na época, como parte da pesquisa pra escrever os meus Oríkì, e depois eu perdi o contato com ela. Eu retomei esse contato recentemente, só que quando isso aconteceu o disco já se chamava Orí Okàn, eu já tinha escrito o projeto lá em 2020.

Eu tinha muito forte essa coisa da expressão. Do Orí, que é a cabeça, e do Okàn, que é o coração, e como que esse caminho, esse alinhamento é muito importante na filosofia de Ifá, do culto aos orixás. Eu sabia disso, mas eu não conhecia essa cantiga que ela cita, que fala do Foríkàn, que é uma contração. Não sei se eu já tinha ouvido e isso ficou num nível muito profundo da memória sem eu saber. Cici participou de uma filmagem que a gente fez pro clipe de “Deixa Lá (Um Defeito de Cor)”, que é a música pra Oxalá, pra família funfun, a família do branco. Quando eu falei que o disco se chamava Orí Okàn, ela fez aquela fala, citou aquela cantiga, então nada disso foi premeditado.

Quando eu já estava nos quarenta e cinco minutos, fechando a mixagem do disco, eu falei “espera aí, deixa eu ver aquele registro”, que é uma gravação de celular. Eu selecionei esse trecho e pensei, “nossa, isso aqui tem que tem que estar no disco”. Então a gente fez um tratamento do áudio, colocou ali uma ambiência e fizemos uma surpresa na audição. Eu tinha feito isso no dia anterior, não tinha nem dado tempo de falar com ela, então eu pedi autorização logo ali em público, e foi muito perfeito, né?

Você consegue enxergar, como você estava falando, na narrativa do disco, como é que isso vem. Eu acho que “Orí Axé” foi provavelmente a primeira música que eu compus sim, porque é a música da chegada no terreiro, “Eu vim saudar meu orixá nesse lugar”. É uma música com a qual as pessoas estão se identificando muito. Quem é de axé se identifica muito com esse sentimento de quando a gente chega em uma casa e sente que é ali que está o nosso axé, então é muito bonito ver essa resposta.

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