Entrevista: BNegão fala do novo álbum e da diversidade de influências

Os ecos dos batuques dos terreiros de candomblé estão presentes em Agò – palavra iorubá que significa licença e primeira faixa do álbum ‘Transmutação’, de BNegão & Seletores de Frequência, lançado em agosto pelo site Natura Musical e que será apresentado em Salvador no dia 2 de outubro, às 21 horas, na Praça Tereza Batista, no Pelourinho.

O novo disco da banda, formada por BNegão (voz), Pedro Selector (trompete, arranjo metais), Fabiano Moreno (guitarra), Fabio Kalunga (baixo) e Robson Riva (bateria), mistura forte discurso de espritualidade com diversidade de gêneros musicais. Nas palavras de BNegão, uma “alquimia sonora”, que vai do funk ao rap, passando pelo samba, até o dub e o afrobeat.

“Eu sou da geração da mistura. A geração de 1990 é a da mistura. A galera que tirou as prateleiras do lugar. E fez essa alquimia. A gente faltou a aula que exige de uma pessoa que goste de uma coisa só”, afirma o BNegão, que concedeu entrevista para o El Cabong e falou sobre o disco, a música brasileira e o forte misticismo que caracteriza o trabalho.

(por @Daniel Oliveira)

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A primeira música do Transmutação, “Agô”, e a terceira, “No Momento”, tem percussão que faz referência aos ritmos tocados no candomblé. A própria palavra agô tem significado de pedido de licença aos orixás e, ao mesmo tempo, de proteção. Como é a sua relação com o candomblé?

BNegão – Eu tenho uma ligação desde moloque, que corre comigo. Ao mesmo tempo, não frequento. Mas é uma coisa que sempre me falou no coração, sempre me arrepiou. E fiz questão de colocar algumas coisas. Essa abertura não seria originalmente a abertura. A gente chamou Alexandre Ganizé, da Abayomy Afrobeat, que está dentro 100% na parada. Pedimos que ele colocasse as coisas dele, africanas e afro-brasileiras no disco. Quando a gente estava gravando, antes de começar a tocar, ele fez essa saudação. E quando tocamos foi arrepiante. Por isso, decidimos fazer dela uma coisa independente, uma vinheta. Agô, para mim, serve como uma descarga de tensão. Aqui não!

Você fala na segunda música do disco que estamos vivendo “dias da serpente”. Essa serpente, que é uma metáfora, representa o quê?

BNegão – É a serpente engolindo a própria cauda. É o próprio mundo se auto-destruindo, é uma parada autofágica.

 

“Costumo falar o que a mudança principal é a de dentro para fora e não a de fora para dentro. Eu acredito na mudança pessoal, você se auto-revolucionar, uma auto-gestão. Quanto mais pessoas conseguirem fazer esse lance, que tem a ver com tudo, o espiritual, o mental, o físico, juntos. Quem estiver perto de você vai sentir essa melhora. E vai virar um círculo virtuoso.”

E ao mesmo tempo, Em “No momento”, você também fala de uma passagem, desses tempos difíceis para um tempo “luminoso”. Transmutação é uma mudança de paradigma, de núcleo, de modelo. Ou seja, seria uma passagem para esse tempo luminoso. De que forma você percebe isso no seu discurso no disco?

BNegão – Costumo falar o que a mudança principal é a de dentro para fora e não a de fora para dentro. Eu acredito na mudança pessoal, você se auto-revolucionar, uma auto-gestão. Quanto mais pessoas conseguirem fazer esse lance, que tem a ver com tudo, o espiritual, o mental, o físico, juntos. Quem estiver perto de você vai sentir essa melhora. E vai virar um círculo virtuoso. Eu tenho convicção, para mim, que o que eu faço é para isso. Os maiores mestres falam sobre isso. É uma coisa que está em todas as filosofias das religiões libertadores. É importante.

BNegão

E o que é exatamente essa mudança pessoal?

BNegão – É o necessário para sobreviver hoje em dia. De você saber lidar com as energias, com os irmãos que vem por aí, sacou? Para mim, é fazer do som uma vitamina que me leva para frente, no meio dessa confusão toda. É fácil você ser esmagado por isso. É mais do que fundamental, a Transmutação é vital. Comecei a pensar muito sobre isso, quando gravei uma música chamada “Sorriso Aberto”, da Jovelina (Pérola Negra), e daí gravei uma versão, que misturava maculelê e afrobeat. Uma dessas fusões alquimistas (risos). Sempre tive para mim que essa é uma música de transmutação, porque ela pega a situação difícil, uma energia sinistra, e transformou em uma música linda. Pensar essa história energeticamente. Pegar os limões e fazer a limonada. Não está fácil, tem que aprender a lidar com essa energia, para não ser esmagado.

Você cita o baiano Mateus Aleluia, cantor, compositor e ex-integrante do Os Tincoãs, como um dos seus mestres da música. Como é essa sua relação com o grupo e com o próprio artista? De que forma te influencia?

BNegão – Falar de Mateus Aleluia sempre me arrepia. No Bota Som, costumo abrir com Os Tincoãs tocando. A galera fica emocionada. É um negócio foda. Eles têm uma parte percussiva que nesse disco nos influência, sem dúvida. E a energia, eles carregam várias matrizes. Tem uns backing vocals que eu faço em “No Amanhecer”, um samba-jazz, meio gafieira, que a inspiração é Os Tincoãs.

 

“Eu sou da geração da mistura. A gente faltou a aula que exige de uma pessoa que goste de uma coisa só. E depois a gente acabou dando aula. Eu sou ecumênico, não sou separatista.”

A mistura da forma de cantar do rap com outras influências nos arranjos, como o funk, o groove, o soul, o afrobeat e outros gêneros da chamada música negra universal, é uma característica do seu trabalho. Como foi o processo desde o início da sua carreira até hoje?

BNegão – Eu sou da geração da mistura. Os anos 1980 era compartimentado. A geração de 1990 é a da mistura. Sou filhote de Mano Negra. A galera que bagunçou isso um pouquinho, tirou as prateleiras do lugar. E fez essa alquimia. A gente faltou a aula que exige de uma pessoa que goste de uma coisa só. E depois a gente acabou dando aula. Tinha Raimundos, misturando forró com punk e hardcore. O Chico (Science) com a Nação, milhões de coisas rolando. Agora, Baiana System é a grande síntese dessa alquimia sonora. Ou seja, a gente faz parte dessa geração, a que cruzou as fronteiras. Eu sou ecumênico, não sou separatista. Faço som com Wilson das Neves e Matanza.

O trabalho de vocês tem pouco de canção, no sentido do que foi construído ao logo da história da música brasileira. Ao mesmo tempo, vocês gravaram “Fita Amarela”, samba de Noel Rosa. Como você percebe isso?

BNegão – Eu amo essa música há muitos anos. Eu faço uma parada chamada Bota Som e lá coloco muita coisa da Orquestra Tabajara, e a galera dança ass paradas dos anos 1960 de gafieira. E sempre pensei em gravar “Fita Amarela”. Aí dei uma pesquisada e vi que ninguém fez uma versão gafieira dessa música. Fora a primeira, que é jocosa, do Mário Reis, todas as outras são chorosas. E a música não é isso, é tipo New Orleans (risos). É isso o que sempre me deu a entender. É ele bradando, feliz e falando o que acredita.

Teve a resistência de algum integrante da banda?

BNegão – Sim. Rolaram alguns protestos no Seletores, mas a galera aderiu. Pensamos em mudanças e deixamos convenções do arranjo original. Aí o Pedro inventou os arranjos dos metais. O Calunga fez um baixo que não é de samba, é totalmente urbano. Ficou uma coisa única. Uma felicidade poder fazer. Já tocamos em alguns shows e foi legal para caralho.

 

“Eu entendo que tem a galera da escola do Gil e do Caetano, mas Tom Zé é a minha escola. O Tom Zé é, para mim, uma coisa de outro planeta.”

A música “Giratória” tem um arranjo quebrado que é bem diferente dos outros do disco. Queria que você me falasse um pouco sobre essa música.

BNegão – A introdução dela eu fiz entortando o máximo que rolava, pensando muito nas paradas do Tom Zé. Essa que eu acho que é a graça da parada. Um estilo que não é o daquele cara. A “Giratória” é isso, não tem nada a ver com o Tom Zé em termos da música, mas as soluções são totalmente influenciadas nas quebradas dele. E, voltando para a canção, entendo as provocações do Tom Zé sobre o fim da canção. Ele é um mestre para mim. Eu entendo que tem a galera da escola do Gil e do Caetano, mas Tom Zé é a minha escola. O Tom Zé é, para mim, uma coisa de outro planeta (risos).

BNegão

O Seletores demorou quase dez anos para gravar o ‘Sintoniza Lá’ (2012), após o ‘Enxugando Gelo’ (2003). Agora, após três anos, bem menos tempo, vocês lançam o ‘Transmutação’. Qual é o momento da banda hoje?

BNegão – Eu só faço o que gosto e acredito. Eu vou seguido o meu caminho conscientemente. As decisões fazem bem e eu durmo bem com isso. A onda do Seletores que é muito impressionante é reunir uma galera que consegue desempenhar todos esses estilos que nos influenciam e por isso funciona. É porque, na verdade, a gente escuta muita música. E também nessa época, mais ou menos em 2005, o Seletores estava parado, quase acabando e praticamente não fazia show. Eu peguei a parada e virei empresário, produtor. E a parada vingou a partir disso. Hoje a gente já fez um escritório. Mas naquela época pegava os telefones e marcava. Essa disposição com certeza eu herdei do punk rock, que é todo dia.

No disco, o rock, em geral, não está presente. Já na sua história, o punk e o hardcore compõem algumas características da sua música. De alguma forma você percebe isso em Transmutação?

BNegão – Nesse disco só não teve nada de punk ou hardcore porque não saiu nada. A gente vai pela inspiração que aparece. A gente vai formando o que a música traz para gente, o que vai saindo do espírito. Para mim, o punk rock é fundamento, até no próprio modo de pensar, apesar de ser um cara ligado a espiritualidade e o punk é praticamente agnóstico, mas o “faça você mesmo” é o meu mantra eterno, que aprendi com o punk rock. De você fazer as coisas. E eu ouço bastante.

Sobre o show em Salvador, além do ‘Transmutação’, vocês também vão apresentar músicas dos outros discos? E vai ter alguma participação?

BNegão – Ainda não sabemos. Mas, pô, o show vai ser foda, no Pelourinho, maior alegria do mundo. E a gente tem feito um lançamento kamikaze, tocamos todas as músicas na ordem e depois outras do ‘Sintoniza Lá’ e do ‘Enxugando o Gelo’.

Ouça o álbum ‘Transmutação’ na íntegra:

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