Lirinha

Entrevista: A “alma inquieta” de Lirinha

O cantor e compositor pernambucano Lira (o Lirinha, ex-vocalista do Cordel do Fogo Encantado) lançou segundo disco solo no final de abril, intitulado “O Labirinto e o Desmantelo”. O artista caminha por espaços poéticos e musicais diferentes nesse trabalho, tanto nos arranjos quanto nas letras das faixas que, segundo ele, são reveladoras dos seus “sonhos e anseios”. O álbum foi disponibilizado no Deezer, plataforma de música por streaming, mas você pode ouvir abaixo. Na tarde do dia 29 de abril, Daniel Oliveira* conversou com Lira sobre o disco, o processo de criação, as referências e a sua relação com a canção.

*Texto e entrevista por Daniel Oliveira

O disco tem a presença de instrumentos heterodoxos na música brasileira, como stand up drums, cravo e orgão, esses dois últimos mais comuns na música clássica, que dão características peculiares aos arranjos e timbres das faixas. Ao mesmo tempo, a canção ganha lugar de destaque nas composições de Lira. “Estou em um momento de muita paixão e entrega pela canção e suas possibilidades harmônicas. Isso se reflete no disco”, revela o cantor.

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Lira começou a trajetória artística aos doze anos como declamador de poesia, em Arcoverde, município no interior de Pernambuco. Aos vinte e um anos, saiu da cidade natal para morar em São Paulo com o conjunto cênico musical Cordel do Fogo Encantado. O grupo existiu de 1997 a 2010 e ficou conhecido em diferentes lugares do Brasil ao unir elementos rítmicos nordestinos com discursos sobre o futuro e forte interpretação teatral.

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Capa de “O Labirinto e o Desmantelo”

O disco foi produzido por Pupilo, baterista da Nação Zumbi, e conta com a participação de Céu na composição e na voz de “Filtre-me” e no backing vocal da maior parte das faixas. As músicas “Desamar”, “Ser”, “Para fora da terra” e “Odin” se destacam entre as dez faixas que compõem a obra. O álbum tem ainda as participações de músicos do Cidadão Instigado, o Astronauta Pinguim e o carioca Silva.

“O Labirinto e o Desmantelo” é carregado de subjetividades reveladas ou ocultadas por metáforas, entremeadas por inusitadas referências a acontecimentos aparentemente sem relação de causalidade. O artista conta que “o disco tem referência da literatura fantástica, na figura do labirinto, que é uma metáfora da existência. E o desmantelo é o devaneio, o sonho, o impossível, o desconcerto dessas paredes que compõem o labirinto. É o místico que se infiltra no racionalismo do labirinto”. Uma abordagem quase psicanalítica sobre a própria obra.

Essa convergência de abordagens existenciais com uma racionalidade difusa ou inconstante resulta em uma arte psicodélica, na definição do próprio autor, ao propor uma experiência de fruição capaz de inquietar, deslocar ou melhor, desmantelar. Mas a psicodelia da sua obra se constroi também por meio de referências da sua formação pessoal e musical e experiências vividas em Arcoverde, na expressão de Lira, uma “psicodelia da hinterlândia”.

No primeiro contato com o disco, o nome “O Labirinto e o Desmantelo” chama a atenção. Ao escutar a letra da faixa-título, essa curiosidade aumenta. O que é essa “casa labiríntica de múltiplos centros e caminhos e o fantástico sonho do desmantelo”?

Lirinha – Essa casa é uma metáfora da minha existência e da minha cabeça. E com essa imagem do labirinto, eu trouxe um histórico da minha trajetória. Todos os caminhos que já passei. O início com a poesia, na minha adolescência, a relação com o espetáculo cênico-musical, o Cordel do Fogo Encantado, e as outras coisas que continuo desenvolvendo. E, principalmente, agora com a canção. Estou em um momento de muita paixão e entrega pela canção e suas possibilidades harmônicas. Isso se reflete no disco. O disco tem referência da literatura fantástica, na figura do labirinto, e o desmantelo é o devaneio, o sonho, o impossível, o desconcerto dessas paredes que compõem o labirinto. É o místico que se infiltra no racionalismo do labirinto. Também tem haver com minhas últimas leituras. Pensei na estética do sonho, de Glauber Rocha, que é um artista que me interesso há muitos anos. E o desmantelo é a referência do sonho, do impossível, desse cenário que eu tentei desenvolver nas músicas do disco.

Como foi o processo de criação das faixas? Você fez a letra, depois a canção e em seguida o arranjo conjuntamente com os outros músicos?

Lirinha – É um disco diferente do meu primeiro. Eu não montei uma banda específica para o disco. Primeiro, eu levava as músicas para Pupillo, amigo com quem eu fiz uma parceria intensa, e ele acabava interferindo, conversando comigo, dando ideias melódicas, harmônicas e até de letra. Aí começamos a pensar com quem fazer esse som. A gente queria trazer instrumentos de música clássica, um cravo de 1800 e um orgão de igreja. E Vitor era quem poderia desenvolver isso por conta da relação dele com o erudito. No disco também tem três músicos da Osesp, em O Mergulho. Nós fizemos a faixa a partir de um arranjo do maestro pernambucano João do Cello. Ele mandou as partituras e gravamos só com sopro e Pupilo na bateria. Todas as participações foram assim. Não tive nem condições de colocar os estúdios que gravei no encarte, porque foram mais de dez.

Como foi gravar com Céu?

Lirinha – A presença de Céu, uma das minhas maiores aliadas no disco, foi incrível. Ela, além de cantar, faz vocal altamente de luxo em várias músicas. Ela se envolveu muito com o disco, em várias etapas. Para mim, é uma das grandes artistas em atividade hoje e tive o prazer de ter a participação.

“Estou em um momento de muita paixão e entrega pela canção e suas possibilidades harmônicas.”

Em algumas letras do disco, como “Desamar”, “Ser” e “Vasto”, você fala diretamente com alguém. Quem é esse interlocutor?

Lirinha – Eu me surpreendi com isso quando o disco ficou pronto. Teve um momento que eu percebi que ele tava indo para um caminho de muita revelação dos meus sonhos e das minhas visões. E a minha relação com esse labirinto que eu te expliquei. E aí eu percebi que todas as músicas eram direcionadas a alguém. Eram músicas que eu dedicava a outra pessoa, como se fosse um personagem no labirinto e o desmantelo leva ao grande amor dele. Não é exatamente uma mulher. É esse destino do amor por outra pessoa, que está muito presente nas músicas. É um disco mais pessoal que o “Lira” (primeiro disco solo) e mais revelador dos meus anseios

Em suas músicas, você fala bastante sobre algo que ainda vai acontecer. E, em outros momentos, você já afirmou que gosta de falar sobre o futuro. Nesse disco, o futuro acaba tendo essa ligação mais íntima. Como é essa relação no disco?

Lirinha – Eu percebi que os elementos da minha poesia também apresentaram uma certa novidade, nesse sentido. Minha poesia sempre teve essa relação com o futuro porque eu percebi, em um certo momento, que a profecia é uma poesia sobre o futuro. E, por isso, eu falei algumas vezes que temos que libertar a profecia da necessidade de acertar. A poesia não tem esse objetivo e eu trago esse elemento de escrever sobre o que virá. Esse disco aponta outros caminhos que eu curti muito, porque eu gosto de me desafiar no meu trabalho. Sempre estou nessa alma inquieta. E para mim foi muito bom compor essas canções dessa forma.

Quais influências na música para a construção da sua obra artistica você citaria?

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“A principal influência da minha vida em relação a melodia é o disco “Cantoria” (Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Xangai)” – Lirinha.

Lirinha – Esse é um tema difícil porque essas influências estão em constante mudança. Como sou uma pessoa muito aberta, passo momentos vivenciando muitas coisas. Por exemplo, esse disco tem muita influência da música alemã da década de 1970. O Shifty Adventure, de John Cale (ex-Velvet Undergound), também foi muito presente durante as gravações. Agora, a principal influência da minha vida em relação a melodia é o disco “Cantoria” (Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Xangai). Os artistas do sertão, cantadores e poetas, são influências importantes. Eu tentava imitar Miguel Marcondes e Luís Homero, que tem um grupo chamado Vates e Violas. Fui muito influenciado por Zeto, uma música forte na minha escola. Em Arcoverde, a música de Naná Vasconcelos. Ele é determinante na busca pela universalidade que tenho hoje. Fiz turnê com Naná e me tornei muito próximo dele. Entendi o não lugar, o lugar ou todos os lugares que ele destinou a música dele e me identifico com isso.

Você tem parcerias com muitos artistas, participa de discos e parece ser bem antenado com o que tem surgido. Da geração mais nova da música brasileira, quais artistas você tem se relacionado e acompanhado o trabalho?

Lirinha – Hoje temos uma safra muito boa, é um momento de lançamentos incríveis. Tenho uma relação com o rap de SP, participo de eventos na periferia, por conta da minha relação com a poesia. Eu me identifico muito, parece que estou em Arcoverde. Ou seja, tenho essa relação com os círculos do movimento negro. Gosto muito de Emicida, de Tulipa, Céu. E outros que continuo tendo admiração, como Nação Zumbi, por todos os momentos que eles passam. Uma turma mais nova, O Terno, que eu gosto bastante. Silva, que gravou no meu disco através da ponte que Pupilo fez. Não conhecia ele e foi uma surpresa para mim. É um músico que eu gosto bastante. No disco, algumas dessas pessoas que eu me relaciono e admiro estão presentes.

Os músicos que te acompanham na turnê do disco são de diferentes vertentes, da música clássica ao hard core. Como tem sido tocar com esses instrumentistas que possuem trabalhos tão diferentes do seu?

Lirinha – Está sendo incrível. Neilton, é um músico que eu sou fã desde a adolescência. Eu o via nos jornais e nunca imaginei que tocaria com ele. Ela era de uma banda mítica de Recife, a Devotos do Ódio, uma banda de hard core. Neilton não tem nada haver com esse universo de canção e ele vindo a guitarra ficou muito interessante e diferente. Uma experiência ótima que vivo com ele. Já Angelo Medrado, daí de Salvador, está comigo na segunda turnê. Ele desenvolve o set de Pupilo, que é um stund drums peculiar e lembra os timpanos de orquestra, um set em pé. O baixista Marcos Leite, que tem uma banda instrumental chamada Tigre Dente de Sabre, possui muito conhecimento da parte eletrônica e o meu disco tem bastante sintetizadores, então a presença dele é incrível. E João Leão, um grande tecladista, pois era necessário um músico formado, por conta da presença de Vitor Araújo na gravação, já que é difícil desenvolver aquelas músicas.

A classificação dos artistas e dos discos por gêneros é comum. Isso é sempre apresentado como informação para o público. Você fala que esse disco é difícil de classificar. Como é fazer um álbum dessa forma?

Lirinha – Eu tenho essa dificuldade de classificar. E eu até me considero uma pessoa atenta a teoria musical, não sou tão desligado. Por exemplo, fazendo a parte burocrática do disco, para a documentação e para a Deezer, eu tenho que escolher três definições da música, a partir de uma lista formal de estilos musicais. Até me surpreendi com um gênero chamado mangue, que deve ser de alguns anos para cá. Não conhecia esse estilo. Aí eu liguei para Pupilo e perguntei: “qual é o gênero? É eletrônica, não é. É MPB, eu até posso colocar MPB”. Então, pensei: “experimentalismo? Não sei, com essas canções tão fechadas”. Então tivemos essa dificuldade. Pense que poderia ser rock, mas abrange muita coisa e o simbolo do rock é muito forte. A relação com os Estados Unidos e a própria presença da guitarra, o power trio. Fica incompleto definir como rock. Escolhi o psicodelismo, por exemplo, porque identifico elementos que mexem com as sensações, tiram você de um lugar e leva para outro. E a psicodelia de uma fase alemã, que percussivamente tem muito haver com esse disco. Comecei até a usar uma expressão, que seria uma psicodelia da hinterlândia, por conta da minha relação com o interior. A minha relação com interior não é apenas de nascimento. A minha formação musical é em Arcoverde. Eu não morei em Recife, como vários amigos. Eu sai de Arcoverde com o Cordel, aos 21 anos de idade. Então, toda a minha formação foi ali. Tem elementos desse interior, mas o difícil é quando vira regionalismo. Aí é uma confusão maior ainda, porque quando vai ver a música não é. Por esse motivo, eu disse que era de difícil classificação. Eu vou passar essa para os críticos.

“Não existe mais esse lugar arcaico. O nordeste inventado é esse. O arcaico, o tradicionalista”

O Cordel do Fogo Encantado tinha elementos da cultura nordestina, mesmo não fazendo objetivamente essa referência. Na carreira solo, você retirou ainda mais essas citações. Como você percebe a caracterização do seu trabalho como nordestino?

Lirinha – No Cordel do Fogo Encantado eu já tinha esse incômodo com esse entendimento de que a minha poesia era uma bandeira de um determinado lugar. Tanto que no segundo disco, “O Palhaço do Circo Sem Futuro”, eu retiro radicalmente qualquer referência regional na letra. Sertão, Arcoverde, tudo isso. Eu vou para uma ideia da história sendo contada. Na época da divulgação, isso foi apontado como uma influência de São Paulo em minha vida. E eu disse que não. Desde o meu trabalho em Arcoverde, eu fui me identificando com músicos universais, como Naná, que é um cara de Olinda, tem influência enorme do maracatu, mas que faz uma música que vai além das fronteiras. Isso já me encantava desde lá. Nunca me distanciei desse objetivo. Acredito que o meu lugar, Arcoverde, que eu amo tanto, ganha muito com a minha música. Tenho essa percepção da importância do Lira na música do sertão. E se criam muitos mitos. Por exemplo, antes do Cordel, em Arcoverde, o movimento mais forte da juventude era o de hard core e punk. Aí diziam que era influência de Recife. Não existe mais esse lugar arcaico. O nordeste inventado é esse. O arcaico, o tradicionalista. Acho que a Bahia vive muito essas interpretações, um dos estados mais entendidos dessa forma, congelados com elementos que caracterizaram o lugar. Você sabe que a coisa é muito mais profunda.

Na carreira solo, a declamação deixou de ser uma característica central na sua obra. Você falou de um encantamento pela canção como algo importante para você nesse momento. Como é a sua relação com a declamação hoje?

Lirinha – Em relação a poesia, ela é a minha escola primeira. Comecei como declamador e continuo muito envolvido com saraus, recitais. Eu fui diminuindo a presença da poesia nos meus shows, porque tem um momento que a homenagem começa a ser algo em que você circula com o trabalho de outras pessoas. Eu passei a ter um cuidado de não construir uma obra em cima da poesia de outras pessoas. Foi aí que comecei vagarosamente a retirar os textos longos de outros autores. Eu mantenho isso em outros trabalhos. Faço isso em uma apresentação chamada poesia eletrônica, que é com sampler. E aí eu trago Chico Pedrosa, Patativa do Assaré, um poeta que eu fiz coisas junto. Eu não consigo enxergar um rompimento, continuo sendo eu, o Cordel e os elementos da minha poesia primeira. Talvez a diferença maior seja na estrutura musical por conta da escolha de uma instrumentação mais harmônica do que percussiva.

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Como você acredita que o público do Cordel do Fogo Encantado percebeu essa mudança da instrumentação percussiva para algo mais harmônico?

Lirinha – Isso foi seriamente interpretado pelo público do Cordel, porque foi uma mudança grande. Depois de dez anos de trabalho com percussão, eu lancei um disco que não tinha a percussão como protagonista. Isso foi proposital, porque eu não achava correto sair de uma banda como o Cordel, mágica, inesquecível, que tinha shows originais, impressionantes e um forte envolvimento do público, e fizesse um som parecido. Não faria sentido a saída. Eu continuaria no Cordel se fosse para fazer um som parecido. E eu tinha muita vontade de me envolver no universo do harmônico. Isso todo cantor e compositor tem. Ampliar as possibilidades instrumentais.

Tem previsão de show em Salvador?

Lirinha – Ainda não tem uma data definida, mas em breve a gente vai para Salvador. Eu sou louco pela cidade. Eu me sinto muito em casa, desde o Cordel do Fogo Encantado, sempre fui muito acolhido aí. E até na fase solo, nunca deixei de levar nenhuma apresentação a Salvador. Desde o Cordel, no primeiro disco, fomos a Salvador. É um lugar muito importante na minha história.

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