Ybytu-Emi

Discos: a potência criativa do Quilombo musical Ybytu-Emi

Ybytu-Emi
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Em meio a tantos artistas baianos, alguns acabam não ganhando a atenção merecida. O Ybytu-Emi é um desses casos. O coletivo formado por Caboclo de Cobre e ISSA, com vários colaboradores, lançou seu álbum de estreia no ano passado e merece um olhar mais cuidadosa. A colaboradora Julli Rodrigues destrinchou o trabalho e nos aponta um dos álbuns interessantes de 2021.

Por Julli Rodrigues *

Um dos mais instigantes e criativos álbuns baianos de 2021 passou despercebido pelo hype. Não foi concebido por um artista solo, nem por um grupo ou orquestra: é o fruto de um quilombo musical. Assim se denomina o Ybytu-Emi, concebido pelos músicos Caboclo de Cobre e ISSA, com a colaboração de outros sete criadores negros e indígenas da Bahia: Donna Liu, Mister DKO, Valente Silva, Mariana Damásio, Sérgio, May Pitanga e Marcelo Santanna, além da participação especial de Vandal de Verdade, Juracy Tavares, MC Tipo A e MC Irck. Em maio do ano passado, eles trouxeram ao mundo o álbum O Tempo e o Vento, com nove canções inéditas afinadas no tom da ancestralidade e do futurismo afroindígena.

A proposta do trabalho é definida pelos artistas desta maneira: “Ybytu-emi é o resultado do encontro entre as inspirações/expirações/transpirações dos povos pretos e vermelhos, e de uma construção mútua na busca pela reconstituição da liberdade, materializada no elemento ar. O Vento anuncia o que está por vir e o Tempo dá conta de uma articulação negro-indígena que está para acontecer”.

De fato, para além da afirmação das origens, o discurso predominante nas canções é o de conclamar os povos negros e indígenas para resistir e se reapropriar daquilo que é deles por direito. É o que se nota em faixas como “Nação”, que tem a participação do poeta, cantor e compositor Juracy Tavares e dos MCs Tipo A e Irck. Nesta música, o Ybytu-Emi reconstrói a história da formação do Brasil através da exploração do povo negro, questiona o racismo religioso presente na sociedade e critica a conjuntura que faz com que muitas pessoas pretas não sejam de fato conscientes da opressão que sofrem.

O que também chama atenção em O Tempo e o Vento é a fluidez desse discurso de resistência, a maneira natural como ele se incorpora à música sem soar repetitivo ou cansativo. Talvez essa característica esteja relacionada à diversidade de gêneros musicais presentes no álbum. Não há como se queixar de monotonia: o trabalho do quilombo musical abraça desde o pagode e o rap de “Cobra Coral”, com a participação de Vandal de Verdade, até o reggaeton afrolatino de “Marejê”, nas vozes de Donna Liu e Mister DKO.

Também vale destacar o reggae “Zambi Que Manda”, definido pelos artistas como um “dichote”, ou um desafio cantado, de acordo com a cultura de caboclo. Quase no fim do álbum, o Ybytu-Emi ainda tem tempo de acenar para a chamada axé music em “Nzinga”, uma exaltação à Rainha Nzinga Mbandi. Várias dessas canções poderiam estar tocando no rádio, como nos velhos tempos em que a música carnavalesca baiana carregava, por tabela, essa bandeira de honrar a ancestralidade negra.

Se O Tempo e o Vento não recebeu a atenção devida à época de seu lançamento, em meio à enxurrada de álbuns baianos que, assim como ele, foram viabilizados pela Lei Aldir Blanc, ainda é tempo – com o perdão do trocadilho – de mudar essa história. O trabalho do quilombo musical Ybytu-Emi merece ser ouvido para além das fronteiras do meio independente, tanto pelo discurso potente e necessário, quanto pela criatividade e diversidade. Que os bons ventos ajudem a levar a mensagem.
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* Julli Rodrigues é jornalista, pesquisadora musical e repórter de rádio na Rede Bahia. Produz conteúdo sobre música no Instagram @diletantejulli e no blog Ouvindo Coisas.

Ybytu-Emi - O Tempo e o Vento
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