BaianaSystem Concha Acústica
Fotos p&b de Felipe Cartaxo (Baiana System) e colorida de Adenor Gondim (TCA)

BaianaSystem e Orkestra Rumpilezz roubam a cena na Concha Acústica e apresentam a nova música baiana para quem não conhecia.

Alguns shows servem para nos mostrar muito mais do que parecem.  Neste domingo (15), na despedida da Concha Acústica, que vai fechar para reforma, aconteceu um desses. Não foi simplesmente uma celebração pela reforma da casa ou do tombamento do TCA. Nem apenas mais um grande encontro de artistas famosos num mesmo palco. Nem tão pouco simplesmente mais um daqueles shows sensacionais que costumam acontecer. Muito mais do que isso, foi um marco. Daqueles momentos que registram uma parte da história, que servem para mostrar a consolidação de um novo momento da música da Bahia.

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Qual era a grande atração da noite? Na lista de atrações estavam nomes como Lenine, Margareth Menezes, Luiz Caldas e Saulo Fernandes. Um grande nome da tradicional MPB e alguns dos nomes mais fortes da música baiana de Carnaval, de antes e de agora. Além deles, havia um veterano do samba, Nelson Rufino, e uma cantora da nova geração, Marcela Bellas. Completando a programação, figuravam dois grupos surgidos nos últimos anos em Salvador, Orkestra Rumpilezz e Baiana System.

Quem esteve na Concha Acústica, e não foi pouca gente – os ingressos haviam se esgotado poucas horas depois de abertas as bilheterias dias antes -, assistiu os grandes nomes da então soberana axé music fazendo o papel de coadjuvantes da nova música baiana. O próprio Lenine foi engolido. É bem verdade que ninguém fez feio. Saulo Fernandes foi recebido com gritos histéricos e fez uma apresentação correta. Margareth foi recebida com o mesmo carinho e deu bem seu recado. Luiz Caldas entrou, cantou um de seus hits e foi fazer o papel de grande músico que é. Lenine, única atração de fora do estado, cantou alguns de seus maiores sucessos e botou a Concha pra cantar junto.

A nova música da Bahia

As mais de 5 mil pessoas presentes assistiram, no entanto, a nova música baiana roubar totalmente a cena. Letieres Leitte conduziu a Orkestra Rumpilezz com maestria e, com seus toques afros-baianos carregados de jazz, deram o tom e um toque de renovação para a música dos convidados. Percussão e sopros mais uma vez a serviço do que se pode fazer com a carga rítmica que a Bahia possui e mostrando que a sonoridade da música já não é mais a mesma coisa que se ouve há 20 anos. Há novidades. Tomaram conta enquanto estiveram em cena.

Concha Música BaianaSystemO Baiana System se juntou em seguida a Orkestra. Com uma formação que sintetiza a música baiana atual, baixo, percussão, programações e guitarra baiana, mostrou mais ainda. Não era apenas a sonoridade rica, eram hits, músicas próprias, para dançar e se divertir, para qualquer um, para os diversos públicos que estava ali e presenciava mais uma virada na música baiana. O que se viu foi a parte da Concha que conhecia o Baiana vibrando e cantando junto. A outra parte conhecia a banda ali, tinha o primeiro contato e, como podia, cantava junto também, dançava e assistia algo surpreendente para eles.

Surpresa

O que era aquela banda que não tocava na rádio, não passava na TV fazendo uma música tão pop, tão universal, mas ao mesmo tempo tão baiana? Que dialogava com tantas referências, inclusive algumas daquele mesmo palco. Tinha axé, afro, samba, mas também arrocha, pagode, eletrônica e outros sons, e aquilo tudo soava tão próximo.

A sequência de músicas comprovava, pareciam sucessos retumbantes, músicas saídas das listas de mais pedidas em rádios. Todo mundo se rendeu. Era quase como se ‘Terapia’ fosse um hit estouradaço, que todo mundo conhecesse, foi irresistível até para quem nem entendia direito o que era aquela mistura. O que se ouvia é que era a “SOTEROTerapia”. Russo Passapusso parecia um veterano, comandando a massa como se tocasse na Concha há muitos anos. A banda, que já havia feito um show de envergadura parecida, mas com um som capenga no Festival da Primavera, no Rio Vermelho, agora colhia o que vem plantando nos shows que vem fazendo pela cidade e anunciava sem dizer nada que um novo momento da história está sendo escrito.

O que virá depois?

A importância disso mais pra frente? Não se sabe. Só a história mesmo vai dizer. Ninguém tinha ideia do que viria depois que Gerônimo cantou ‘Eu Sou Negão’ para um grupo de empresários e botaram para tocar nas rádios. Ou quando a ‘Fricote (Nega do Cabelo Duro)’ de Luiz Caldas foi gravada. Ou mesmo quando Daniela Mercury e o Olodum começaram a cantar juntos ‘Swing da Cor’. E todos surgiram de forma parecida, espontaneamente, sem grandes alardes até virarem fenômenos artísticos.

Quem imaginaria há dois anos que duas bandas com apenas um disco lançado e sem reforço midiático provocaria tudo isso? A história é diferente, o momento é diferente, as gravadoras não têm mais a mesma força, as rádios já não mandam tão sozinhas na formação dos gostos das pessoas. Salvador já superou a monocultura do axé. A tecnologia abre cada vez mais possibilidades. O certo é que a música baiana já deu um passo à frente. Se muitos pediam renovação, a renovação já existe, esta aí. Não se trata de esquecer o passado, mas se perceber que finalmente há uma evolução na música autenticamente baiana. E se você está presenciando shows como este na Concha, pode apostar, está presenciando uma nova história na música feita na Bahia.

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Concha Música Baiana

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