A promessa Mini Box Lunar e sua música anárquica

Mini Box Lunar web

Direto do Amapá, com apenas dois anos de estrada, a Mini Box Lunar surge como nova aposta da música brasileira contemporânea. Enquanto segue em elogiados shows e turnês pelo Brasil, a banda encara o estúdio e prepara o primeiro CD, um teste decisivo para a banda com produção de Miranda.

Daqui a 20 anos poderemos saber precisamente. É certo que alguns nomes da atual música brasileira vão cair no ostracismo, enquanto outros vão se consagrar como talentos indiscutíveis. Enquanto não chegamos lá, uma infinidade de novos artistas – ainda distantes do grande público – mostram como anda fértil a produção musical pelo país, independente do futuro. Vinda do Amapá, a banda Mini Box Lunar é uma dessas promessas. Formado há menos de dois anos, o grupo toca essa semana em três cidades baianas, Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista, ao lado de outra ótima aposta, os paranaenses da Nevilton, dentro da 2ª Tour Nordeste Fora do Eixo.

Se nos próximos anos a Mini Box Lunar vai desaparecer ou ser considerada um dos grandes nomes da música brasileira nos anos 00, não se sabe ainda. A banda, porém, sem ao menos ter um disco lançado, vem colhendo elogios e chamado atenção por onde toca. Com um show desconcertante, a banda mostra uma sonoridade diversa e tão cheia de referência que uma classificação só reduziria o que eles produzem.

No palco, duas garotas, Heluana Quintas e Jenifer “JJ” Nunes, assumem a frente do grupo com duetos e brincadeiras vocais, sustentadas por vozes interessantes e uma presença de palco hipnotizante. As performances instigantes são embaladas e sustentadas por uma banda precisa e criativa: Otto Ramos (órgão, synth, theremin) Alexandre Avelar (guitarras), Peu Ramos (bateria) e Sady Pimenta (violão folk e contrabaixo).

Quando tocam as referências inundam o ambiente. A banda evoca brega, rock, carimbó, tropicália, psicodelia, música infantil, marchinhas, brega, tudo encorpado e com personalidade própria. Pronto e embalado, com uma dose pop certeira. Um caos sonoro, inclassificável e anárquico, empurrado com provocação, clima descontraído e uma bagunça deliciosa no palco. Sem parecer tanto musicalmente, a banda remete diretamente aos Mutantes, porque talvez fossem esse o som que os irmãos Batista e Rita Lee fariam se tivessem surgido hoje.tv_mini_box

Referências – Na banda, como não poderia deixar de ser, as referências de cada integrante são muito diferentes. “Exercitamos uma convivência lúdica ao não levar tão a sério as influências, ao mesmo tempo, que não as abandonamos. Isso agrega muito mais possibilidades. A Jj curte muito os sons oitentistas e do finzinho dos anos 70, ao passo que se diverte com os bregas que o Sady nos apresenta. O Alexandre curte a polidez de uns grupos de 90 e pira com o noize dos órgãos vintages típicos da década de 60 e que o Otto adora. A Helu houve umas músicas muito antigas e o Peu adora entender a disposição dos sons nas gravações de Carmem Miranda, mesmo tendo um projeto paralelo muito contemporâneo”, responde a banda coletivamente por e-mail.

Essa anarquia sonora, a banda faz questão de levar aos shows, onde tem se destacado até agora. “É muito divertido estar no palco. A gente sempre pensa no nó na cabeça das pessoas. Nunca sabemos qual vai ser a reação e achamos muito engraçado o que está acontecendo fora do palco. É um espetáculo que a gente assiste num local privilegiado. Independentemente da receptividade, é sempre engraçado. Somos um espelho contorcido”, dizem eles.

Primeiro disco – Toda aposta que vem sendo feita na Mini Box Lunar pode ser, claro, precipitada, já que a banda nem tem ainda um disco lançado. Talvez pela carência encontrada no grande mercado por artistas com o potencial sonoro que a banda tem. Talvez pela velocidade que as coisas têm acontecido nos dias atuais. O fato é que a banda vem arrancando elogios de críticos tarimbados e o primeiro álbum é aguardado com grande expectativa.

Se no palco eles já demonstraram uma grande capacidade, em disco ainda vão ter que provar. Passar o caos musical que fazem para um álbum não é tarefa simples. Para conseguir o feito e confirmar a qualidade da banda foi convocado um produtor quase incontestável: Carlos Eduardo Miranda. Responsável por lançar Raimundos e Mundo Livre S/A e produzir bem sucedidos discos do Skank, O Rappa, Cordel do Fogo Encantado, Cansei de Ser Sexy, Móveis Coloniais de Acaju, entre outros, é ele quem está trabalhando atualmente com a banda no estúdio.

“O Miranda é muito sagaz e usa cada poro como um sensor. É louco isso, porque ele compreende muito bem essa densidade fluida da Mini Box Lunar. Com ele na parada, tudo que era estranho vai ficar mais estranho, o que era pop vai ficar mais pop e o que era psicodélico vai ser muito mais lisérgico”, contam euforicamente.

MINIBOXPressão – A pressão em cima da banda parece não assustar seus integrantes. “A banda é muito recente e vivemos distantes dos grandes centros, acabava que não tínhamos dimensão do alcance do nosso som ou mesmo do quanto interessante ele poderia ser num cenário nacional. É uma honra ser uma aposta e é também uma responsabilidade muito grande. Acreditamos muito que as coisas fluem melhor se mantiverem a naturalidade timbrada no seu surgimento”, dizem.

Uma das características que faz com que a Mini Box Lunar fique tranqüila é a forma de trabalhar coletivamente. O modelo está em quase tudo, nas respostas feitas para uma entrevista com todo mundo junto; no trabalho com o coletivo a qual pertencem no Amapá, o Palafita; ou na realização de turnês como essa que estão fazendo, através do Circuito Fora do Eixo, aglomerado de coletivos de produtores e bandas espalhados pelo país.

“Nascemos dentro de um coletivo que faz parte de um coletivo nacional e é coletivamente que pretendemos compreender e inventar um futuro pra banda. É como inventar uma música. Entre nós ela se inventa na interseção de quereres e provável que assim será a carreira”. Segundo eles é através desses trabalhos em grupo, que eles têm conseguido ferramentas que possibilitam uma reciclagem, especialmente através do contato com outras bandas, coletivos e agentes da cadeia produtiva da música.

tourBanda cai na estrada em turnê pelo Nordeste e Minas Gerais

Os shows que a Mini Box Lunar realiza na Bahia fazem parte da 2ª Tour Nordeste Fora do Eixo, que passa por 10 cidades do Nordeste e de Minas Gerais e que conta também com a banda paranaense Nevilton. Em Salvador, o show, promovido pelo coletivo Quina Cultural, acontece hoje, às 23 horas, na Boomerangue (Rio Vermelho), com a banda Você me Excita.

Amanhã, as duas bandas seguem para Feira de Santana, onde se apresentam no Fervura Noise no Botekin Tematic Bar, ao lado das bandas Clube de Patifes e Calafrio, às 17 horas.

Na quinta-feira (23), é a vez de Vitória da Conquista, que recebe as bandas no Teatro Carlos Jeová, às 20 horas, com participação da banda Os Barcos.

Mini Box Lunar e Nevilton estão na estrada desde a última quinta-feira, quando iniciaram a turnê em Campina Grande (PB).

Após os shows baianos, elas seguem para Minas Gerais, onde tocam em Montes Claros e em Belo Horizonte, na programação do evento Conexão Vivo.

As turnês Fora do Eixo têm movimentado o circuito independente em diversos pontos do País. Com o apoio dos coletivos de cada cidade estão sendo viablizados shows de bandas que dificilmente teriam outra oportunidade. Na primeira Tour Fora do Eixo as bandas Porcas Borboletas, Macaco Bong e Burro Morto se apresentaram em oito cidades nordestinas.

Serviço:

Mini Box Lunar e Nevilton – 2ª Tour Nordeste Fora do Eixo

Salvador
Mini Box Lunar, Nevilton, Você me Excita e DJ Janocide
Data: 20 de abril (terça), às 23 horas
Local: Boomerangue, Rio Vermelho
Ingressos: R$ 5,00

Feira de Santana
Fervura Feira Noise – Mini Box Lunar, Nevilton, Clube de Patifes e Calafrio
Data: 21 de abril (quarta), às 17 horas
Local: Botekin Tematic Bar – Av. João Durval Carneiro s/n – Próximo ao Antigo Bingo Feira.
Ingressos: Antecipados R$ 8,00 à venda no Shopping Boulevard

Vitória da Conquista
Mini Box Lunar, Nevilton e Os Barcos
Data: Sexta-feira (23/04), às 20 horas
Local: Teatro Carlos Jeová, Praça da Bandeira, Centro -(77) 3424-8258
Ingressos: R$ 10,00

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minibox-eEntrevista Mini Box Lunar– Sentados numa mesa de bar enquanto viajavam de São Paulo para Recife, entre as apresentações que estão fazendo pelo Brasil, os integrantes da Mini Box Lunar, dentro do espírito coletivo que rege abanda, resolveram responder a nossa entrevista em conjunto. Leia abaixo, o que o grupo fala sobre shows, o prometido primeiro disco e a produção de Miranda, além do trabalho em coletivos e a a influência do Amapá:

– Como foi a formação da banda e a chegada até a sonoridade que vocês fazem atualmente?
A banda surgiu em maio de 2008. No início, eram duas duplas de compositores: Jj e Sady, e Otto e Helu. Nos conhecemos nos trabalhos de produção do Coletivo Palafita. Depois das reuniões do Palafita, a gente fazia umas rodinhas de violão e achamos uma identificação muito interessantes entre as duas duplas. Estava inscrito nessa troca um descompromisso com estilos ou gêneros. Era incomum, improvável e nos satisfazia muito poder brincar com essas sensações sonoras tão díspares. Atualmente, compomos exatamente como antes. A música pede, manda e a gente faz. Numa visualização final, geral, dessa esquizofrenia toda, a identidade da mini box lunar é fluida, uma Festa do Termômetro Quebrado.

– Essa mistura de elementos soa bastante natural, como é o convívio de vocês com a música, o que ouvem?
Na banda, cada integrante tem referências muito diferentes. Com isso, exercitamos uma convivência lúdica ao não levar tão a sério as influências ao mesmo tempo que não as abandonamos. Isso agrega muito mais possibilidades. A Jj curte muito os sons oitentistas e do finzinho dos anos 70, ao passo que se diverte com os bregas que o Sady nos apresenta. O Alexandre curte a polidez de uns grupos de 90 e pira com o noize dos órgãos vintages típicos da década de 60 e que o Otto adora. A Helu houve umas músicas muito antigas e o Ppeu adora entender as disposição dos sons nas gravações de Carmem Miranda, mesmo tendo um projeto paralelo – o Tem Deck? – que é muito contemporâneo.

– Rômulo Froes, em uma recente entrevista, disse que falta ambição a essa geração atual. Segundo ele, é uma geração que produz música muito boa, mas não se projeta para ir além do pequeno público desse circuito independente. Como vocês pensam isso, desejam ser grandes ou não acreditam mais nisso e querem ficar mesmo nesse mercado menor e mais garantido.
A banda é muito recente e vivemos distantes dos grandes centros, acabava que não tínhamos dimensão do alcance do nosso som ou mesmo do quanto interessante ele poderia ser num cenário nacional. Nascemos dentro do Circuito Fora do Eixo, e agora, após uma circulação bacana pelo país, vemos que existe no público uma abertura para conhecer coisas novas e o que rola por todo o Brasil. Vale ressaltar que somos de uma geração que compreende sucesso de uma forma descentralizada, atingir o sucesso é uma coisa, mantê-lo é outra e no Circuito Fora do Eixo temos ferramentas que possibilitam um reciclagem da banda, através do contato com outras bandas, coletivos e agentes da cadeia produtiva da música, isso ajuda na construção dessa manutenção de carreira programada coletivamente, então não há falta de ambição nesse modelo de banda, há uma compreensão diferenciada e em acordo com o as novas perspectivas de mercado da música, do qual participamos também como coletivo, percebendo a mutação de tudo. Se tivermos quinhentas pessoas de público em cada cidade uma média excelente, afinal somos um país com mais 5000 municípios. É uma dimensão continental, se nos pulverizarmos de quinhentos, mantendo essa média com certeza estaremos satisfeitos, vendendo além dos shows, cds, camisetas e se reciclando nesse processo mutante.

– Vocês passaram a ser aposta de muita gente, inclusive minha. Como pensam a carreira daqui pra frente, o que planejam para o futuro?
É uma honra ser uma aposta e é também uma responsabilidade muito grande. Acreditamos muito que as coisas fluem melhor se mantiverem a naturalidade timbrada no seu surgimento. No caso da Mini Box Lunar, nascemos dentro de um coletivo que faz parte de um coletivo nacional e é coletivamente que pretendemos compreender e inventar um futuro pra banda. É como inventar uma música. Entre nós ela se inventa na interseção de quereres e provável que assim será a carreira.

– Como tem sido o processo do disco com a produçao de Miranda? Soube que ele acabou mudando muita coisa que já havia sido feita. Como está o processo de gravação atualmente e o que vem nesse disco?
O Miranda é uma ação da Agência Fora do Eixo, que apresentou à ele o nosso trabalho que de cara gostou muito do som da banda. Numa Noite Fora do Eixo recebemos um telefonema da Agência FDE apresentando o cara como produtor do disco, ficamos extremamente satisfeito com a indicação, e acabamos comemorando junto do Coletivo Palafita inteiro a notícia. O Miranda é muito sagaz e usa cada poro como um sensor. É louco isso, porque ele compreende muito bem essa densidade fluida da Mini Box Lunar. Nesse momento, temos continuado o exercício lúdico de descobrir e nos emocionar com outros sons que ele tem nos mostrado como sempre fazemos, agora com a presença dele. São discos e mais discos de que nunca ouvimos falar e que impressionam pela aproximação com a Mini Box Lunar. A gente vai se vendo fragmentado em muitas outras bandas, além daquelas que já ouvíamos. Ta sendo uma delícia.

– O show de vocês é surpreendente e bastante divertido, com performances, vocês acham o palco o ambiente preferido de vocês? Como pensam os shows? O que o público pode esperar nesses shows da turnê?
É muito divertido estar no palco. A gente sempre pensa no nó na cabeça das pessoas. Nunca sabemos qual vai ser a reação e achamos muito engraçado o que está acontecendo fora do palco. É um espetáculo que a gente assiste num local privilegiado. Independentemente da receptividade, é sempre engraçado. Somos um espelho contorcido. Pensamos o show em duas partes: a primeira tende a ser mais lírica, tem docilidade e a segunda é acelerada, com canções oscilantes que despencam entre um e outro ritmo. Mas isso muda se a gente sentir que deve mudar a ordem das músicas, a gente muda.

O que o público pode esperar nesses shows da turnê?
Um show colorido, cheio de alegria, meio “teletubbies” e com novas canções no setlist. Estamos no momento de gravação do CD com o Miranda, e vivendo os dias de Agência Fora do Eixo em plena atividade…tudo isso reflete no show.

– Como está sendo levar isso para o estúdio e o disco. Como não perder esses espírito?
Cara, antes eram seis malucos, agora são 7! Com o Miranda na parada, tudo que era estranho vai ficar mais estranho, o que era pop vai ficar mais pop e o que era psicodélico vai ser muito mais lisérgico. A banda vive na euforia e ao mesmo tempo séria no trabalho como banda e como coletivo, no final é “todos juntos numa pessoa só”

– Vocês vêm de uma cidade totalmente desconhecida da maioria das pessoas. Como é a realidade da cena local? Como o Amapá aparece na música de vocês? Influencia de alguma forma?
Influencia demais! O Amapá é cheio de verde, ar puro (é o estado da federação mais preservado) com um povo muito hospitaleiro e inspirador. Há muitas bandas boas no nosso coletivo, poucas fora dele porém, boas também, e o que mais influência mesmo é a diversidade musical que a cidade respira e característico do nosso coletivo, com música caribenha muito presente por causa das guianas que fazem fronteira conosco, e do lugar onde o Amapá está localizado – na foz do Rio Amazonas, no extremo norte do Brasil em plena floresta amazônica e no meio do mundo.

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