Entrevista Céu: 20 anos de Céu e mais de rua

CÉU

Por Ciro Garcez*

É sempre curioso quando artistas lançam um disco que tem o seu nome como título. Todo disco é uma parte do artista (não tem como não ser, né?), mas o que é lançado com seu próprio nome parece trazer essa carga de responsabilidade sobre o íntimo artístico e a identidade. Uma identidade passageira, com certeza, mas que define muitas coisas. Pelo menos é essa uma divagação que eu tenho, que talvez não se adeque a realidade quando tem o mesmo artista com vários álbuns com seu nome. Mas acho que Céu é um dessas artistas, que nomeou um álbum com seu nome e que imprimiu a identidade. O seu primeiro disco,Céu (2005), é o sarrafo lá em cima que dá o tom de uma carreira, e um ótimo jeito de começar a acompanhar o trabalho da cantora e compositora paulista. Se cada trabalho que ela solta é mais interessante, e tem uma coesão de obra, oCéu mostra como tudo isso foi possível, estampando seu nome e seu rosto bem grande pra nao ter dúvida.

Não são poucas as identidades postas que perduram: o trip hop, o dub, às releituras de clássicos, o íntimo feminino, os riscos. Se tornou tanto um clássico que tudo dele parece povoar o universo da música brasileira contemporânea, olhando para trás e apontando para frente. É engraçado que se você ouvir toda a discografia de Céu, deNovela (2024) atéCéu(2005), tudo faz sentido e conversa com toda uma cena, principalmente feita por mulheres desde o início dos anos 2000 até hoje, anos 2020. Confesso que acho um álbum super ousado ainda, quando olhamos a sonoridade e os riscos tomados em um contexto da MPB mais comercial. OCéu tem uma importância tão grande, para além do Grammy que foi indicado, que virou até livro. E quando você sabe um pouquinho da música brasileira, ele é um grande exemplar do que Letieres Leite falava: Toda música brasileira é Afrobrasileira.

Pensando nesse retrato de 2005, proposto peloCéu, Céu volta a ele, com shows o celebrando desde 2025, num contexto muito diferente de artista, de carreira, de voz. Entendimento como pessoa e do próprio ofício mesmo, agora revendo um disco que pro público e no repertório já tinha virado outra coisa. Agora é o disco por completo, não só o que as músicas viraram, como trilhas de novelas, as mais tocadas na rádio, ehits como “10 Contados”, “Malemolência”, “Lenda” e “Concrete Jungle”.

Céu vai dar uma passadinha em Salvador, para apresentar o show de 20 anos doCéu noFestival Sangue Novo e ela fala um pouquinho para o el Cabong dessa esquina que se conecta esses 20 (agora 21 anos), sua carreira e a Bahia. 

el Cabong: Qual a importância do risco e o estranho?

Céu: Eu gosto de pensar que o risco e o desconhecido podem nos colocar em frente a novos recursos, novas ferramentas, por consequência nos dar a chance de evoluir. Não que seja um caminho fácil, porém, evoluir não é sobre o caminho mais fácil. Gosto de pensar na vida como uma jornada, isso inclui a música!

el Cabong: Tem um Cultura Livre que você participa, que é do Tropix (2016), que você responde que cultura livre é a rua.  Qual a importância da rua na sua vida?

Céu: Eu fui uma jovem letrada pelas ruas. Foi na rua que escutei os sons que me moldaram, foi na rua que encontrei amigos e monteigigs, foi observando a rua que me entendi como artista, especialmente vindo de uma megalópole como São Paulo, tão plural de misturas e histórias. Trago um pouco do livro de João do Rio pra mim emA Alma Encantadora das Ruas.

Há algo que se observa e assimila do espírito da rua, que me fez muito bem. Não é fácil essa cidade, pelo contrário, é uma cidade sem folga, dura, agressiva, rígida. De alguma forma absorver o corre coletivo e entrar nele foi a forma que encontrei para aprender a fazer o que faço.

el Cabong: Quando você pega sua caneta pra fazer música, o que você quer provocar? E como isso evolui e chega na pesquisa para dar o conceito do seu trabalho, o tom dos seus discos?

Céu: Sou bastante orgânica na minha forma de compor, geralmente a primeira ideia vem como uma faísca mesmo. Pode ser uma simples ideia, pode ser um som, pode ser por uma poesia ou por uma melodia. Algo me pega, e a partir disso escolho desenvolver. 

el Cabong: Você tem uma característica forte que é uma relação com o tempo  de inúmeras formas no seu trabalho. Você dialoga com o passado, o presente (e o futuro eu também acho), muito latente. Isso vem desde ser intérprete e dar uma nova roupagem à músicas antigas, até quando olhamos agora para o Novela, que é analógico, e aponta pro Céu, seu primeiro disco, que consegue ser um álbum até hoje muito jovem e que tem essa relação passado e presente também. Como é essa relação tempo e música?

Céu: É que o tempo é muito subjetivo. O tanto que ele é prático, que corre nos ponteiros, e é o senhor implacável, ele é também uma espécie de “elástico” que estica e nos conecta facilmente a tempos remotos, longínquos, distantes, futuros. Ele flerta constantemente com o sensorial também. A música é veículo pra isso, pra essa relação com o tempo. Quantas vezes você já escutou uma canção que tinha o hábito de escutar em determinada época de sua vida e que já não fazia isso há tempos e de repente, ao escutar, é imediatamente transportado para aquele tempo? Comigo isso acontece muito. Outra coisa em relação a minha música e o tempo é que eu me interesso muito por contemporaneidade como retrato histórico de um tempo. Sempre penso em criar, mas trazendo pro tempo que estamos. Isso por si só já é desafiador. Mais ainda , é quando você quer fazer isso e ainda conseguir atravessar o tempo com atemporalidade. Ou seja, eu adoro desafios. E o tempo é um super agente desafiador e maravilhoso

el Cabong: Como é fazer 20 anos de Céu? 

Céu: Emocionante ver que esse trabalho conseguiu justamente esses dois fatores: trazer a cara daquele momento, e ser atemporal. Tem sido incrível mexer nesse baú!

el Cabong: Foi um susto estourar logo no primeiro disco? Ele meio que deu responsabilidade para cada trabalho lançado depois?

Céu: De uma certa maneira eu sentia que meu disco traria uma movimentação grande. Acho que ele estava muito conectado a sua geração e representava algo que queria ser dito por muitas pessoas, eu só não sabia da dimensão enorme que tomaria, rs. O sarrafo subiu bastante.

Eu gosto de pensar que o risco e o desconhecido podem nos colocar em frente a novos recursos, novas ferramentas, por consequência nos dar a chance de evoluir. Não que seja um caminho fácil, porém, evoluir não é sobre o caminho mais fácil. Gosto de pensar na vida como uma jornada, isso inclui a música!“

el Cabong: Você, como autora do Céu, vê que as suas intenções e significados do disco mudaram? Ele se tornou independente de você?

Céu: Creio que de uma certa forma sim. A música se torna meio que independente da gente a partir de seu lançamento, alça vôos fora do meu controle, há algo maior sobre o controle humano. Mas é bem coerente sobre o que esse trabalho propõe, e hoje vejo que ele (o disco) abriu caminhos para uma geração que já tá contando novas histórias. Isso é lindo demais.

el Cabong: Como é ser compositora e, principalmente, ser compositora de música brasileira?

Céu: Ah, isso é o que mais amo e o que mais me cobro. Meus ídolos são brilhantes, Gil, Donato, Caetano, Ivone Lara, Melodia, Marina Lima, Rita, Marcos Valle entre tantos….isso é que é sarrafo alto . Me cobro muito. E vejo uma geração linda chegando…Ana Frango, Luedji Luna, Tim, Marina Sena, Bruno Berle…. 

el Cabong:  O que mudou pra você como trabalhadora da música na condição e qualidade de trabalho?

Céu: A experiência me trouxe mais segurança em todos os aspectos. Desde estruturalmente, hoje tenho meu home estúdio em casa, isso facilitou minha vida. Ou até nos palcos mesmo. Encarei até mesmo gravar com Herbie Hancock, hoje aprendi a ser menos “bicho do mato” e meto as caras… a timidez fica sentada, não toma conta de mim mais. Amo o que faço e me jogo sem receio por conta da experiencia, isso acaba refletindo em tudo. 

el Cabong: O que você gosta que você sempre revisita? Ou que não revisita, mas que sempre tá na sua mente?

Céu: Eu gosto e revisito com frequência  o passado- futuro. Esse eixo parece ser uma ponte que construí pra criar. Como se de fato existisse essa ponte. Filmes me inspiram muito também, sempre há algo que trago do cinema. Ultimamente reviThelma & Louise (1991) e lembrei do impacto enorme que aquilo foi pra mim. Escrevi uma música que perpassa essa narrativa, de uma forma meio maluca….adoro

el Cabong:  Qual a sua relação com Salvador e a Bahia? E sua relação com o público baiano?

Céu:  Eu quero ter um canto meu na Bahia, esse é um grande sonho. Amo ir pra SSA, amo a Bahia toda, da parte que pude estar. Há uma sensação de que lá tá tudo, a origem, os porquês e pra onde iremos. E o público, tem o molho….já entendeu, é uma delícia tocar lá. Um deleite mesmo

el Cabong: Seu trabalho se cruza muito com Salvador e a Bahia em si. Desde o Reggae, o Dub, o samba, MPB, o brega/arrocha. Você também sente essa esquina com a gente?

Céu: 100% !! Há  uma música no meu próximo disco que eu tenho certeza que só a Bahia vai me entender! kkk

el Cabong: Como tem sido fazer esse show com a banda e a expectativa dele em solo baiano?

Céu:  Sensação de UFA, antes tarde do que nunca…que pena ter demorado e ser tudo tão complexo….mas Bahia, tô chegando!!! Te amo!!!

* Ciro Garcez é formado em Jornalismo e BI em Humanidades pela UFBA. Curioso por cultura e indústria cultural.

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