Entrevista Mombojó: “se você não passar protetor você se queima”

Mombojo

Por Ciro Garcez

A Mombojó é uma das bandas mais reconhecidas da cena independente brasileira, com seu nome reconhecível em qualquer lugar (que é um nome inventado, então mombojó é a própria banda), sua melodia de impacto com seu sintetizador e sotaque, e com suas questões existenciais. A banda pernambucana, conta com Felipe S. (voz e guitarra), Marcelo Machado (guitarra, percussão e backing vocals), Chiquinho (teclados, sintetizador e backing vocals), Vicente Machado (Bateria e percussão) e Missionário José (baixo, sintetizador, violão tenor e percussão). Os cinco comemoraram o vigésimo quinto aniversário da Mombojó, em abril de 2026, e lançam um disco exatamente no meio dessas comemorações, oSOLAR.O show de lançamento em Salvador será no dia 14 de agosto (veja mais detalhes).

O disco, lançado em 24 de abril, é o oitavo de estúdio da banda e vem depois deCarne de Cajú, que homenageia o repertório de Alceu Valença, com músicas lançadas em álbuns da década de 1980. É o primeiro com músicas inéditas desde deDeságua, de 2020, que é também um filme com composições da banda.SOLAR faz jus ao repertório da banda, com melodias que mostram a linguagem e repertório da Mombojó, desenvolvido durante esses vinte e cinco anos e que parece cada vez mais novo. Essa é uma das coisas boas deste aniversário com um disco, ver que a banda tem tido frescor, inovação e complexidade. Ainda é Mombojó, ainda é a sonoridade, mas ainda sim é diferente, como dá para verificar durante toda a discografia deles, que sempre inova em formato e proposta.

SOLAR é um disco dançante e que volta a Recife, cidade em que a banda foi fundada. As composições conversam com o tema que o título evoca, mas conversa diretamente com o caos coletivo do homem contemporâneo, cada vez mais envolto em trabalho e tendo que enfrentar o dia dissociando como seria aproveitar de fato o dia. Acho que nunca foi tão atual, com todas as discussões que tomaram o Brasil sobre o direito a vida e ao lazer que a  escala 6×1 e a uberização da vida, com CNPJ’s e MEI’s não tendo horário para além do trabalho.SOLAR não é só sobre isso, mas tem essa densidade enquanto segue os estágios do sol no céu.

A Mombojó convida vários músicos e letristas nesse álbum. Recheado de participações, que vão do Brasil à França, de antigos parceiros à novos, o disco mostra como essa linguagem do Mombojó consegue se manter com todas essas pessoas, e ao mesmo tempo ficar mais rica. Desde as letras verborrágicas que são comuns da banda, até o som mais experimental e demorado que eles trazem. Um disco que vale a pena ser ouvido e que por todas essas razões o el Cabong entrevista a banda, na figura de Felipe S. e Chiquinho, que vocês podem conferir agora.

el Cabong: SOLAR vem depois de seis anos sem um disco de inéditas. Como surgiu o disco? E foi proposital ele vir ao mundo no ano que vocês completam vinte e cinco anos da banda?

Felipe S: Não, foi coincidência total. E assim, não lançamos um disco de inéditas há seis anos, mas lançamos um disco há dois anos atrás. Em 2024 saiuCarne de Cajú, que é o disco de releituras de Alceu Valença. Nós fizemos shows pra caramba pelo Brasil, pelo nordeste principalmente, quebramos muitas bolhas assim, tocamos pelo interior, foi bem legal. Nós gravamosSolar eCarne de Cajú ao mesmo tempo, e por mais de dois anos, de 2023 até 2026, nós ficamos aí trabalhando.  No começo o trabalho era mais os momentos que nós nos encontrávamos para tocar junto e criar o arranjo. Nós tentamos fazer o máximo dos arranjos ensaiando, como era no começo da banda, mas depois que começamos a finalizar o disco, aí cada um ia gravando da sua casa.

Chiquinho: Esse disco não foi nada premeditado. Confessamos que já estávamos vindo de uma sequência de celebração. Nós estamos desde os vinte anos da banda celebrando, aí vem sei lá quantos anos doNadadenovo e tal. Aí quando foi chegando perto foi um “eita, vamos lançar o disco. E vai ser perto dos 25 anos da banda.” E bom, pelo menos nós vamos celebrar apontando para frente, para o que está vindo. O passado faz parte, mas vamos celebrar olhando para frente. Acabou que nunca pensamos isso de certa forma, mas agora tá soando bem pensar assim.

el Cabong: A Mombojó tem em SOLAR um disco que não foge da trilha que a banda fez nesses anos, com a linguagem melódica, e com a sonoridade para cima, como o nome do álbum sugere. Mas ao mesmo tempo vocês tem pelo menos três músicas que falam de desilusão e hipocrisia diante do sistema, com temas como trabalho e cotidiano sendo bem fortes, que é algo que foge bastante do que vocês faziam no início da banda, que era muitas letras de amor e sofrendo por ele. Qual a visão de vocês sobre essas novas músicas que vocês fazem?

Felipe S: Isso aí é inevitável. Nós começamos a banda muito jovens, eu tinha dezoito anos quando comecei a compor as primeiras músicas que estão noNadadenovo. Eu era um cara muito romântico, sofria de amor, escrevia muito sobre isso e gostava. Nós também pegamos um momento político do Brasil muito favorável, lançando o primeiro disco em 2004, no início do governo Lula, com Gilberto Gil no Ministério da Cultura, pontos de cultura, incentivo, vários festivais crescendo, nós fizemos nosso primeiro disco com leis de incentivo à cultura. Aí o país se transformou ao longo dos anos e o nosso envolvimento, e de todas as pessoas, inevitavelmente, começou a aumentar, pelo menos quando se trata de conversar sobre política. Então essa mudança dos tempos é refletida nas letras. Esse disco tem muitas parcerias nas composições, até mais que todos os outros. Acho que cada vez mais eu tô buscando ter mais parceiros, nós gostamos de ter participações especiais de instrumentistas, até para fazer jus a história musical da banda, que sempre teve muitos instrumentos, principalmente no primeiro e no segundo disco, onde éramos sete. Vários integrantes tocavam vários instrumentos, então tinha uma variedade de instrumentos além de trazer uma identidade bacana que nós gostamos de manter.

Esse disco teve muitas parcerias nas letras. “Abaixo à Realidade”, por exemplo, é uma letra de Anderson Foca, onde eu fiz poucos detalhes da letra, fiz mais a música. “Sexta-Feira” também, foi uma música que Chiquinho mandou para Lucas Afonso e ele escreveu a letra, aí eu só escrevi alguns trechinhos que eu canto. Eu acho que isso mostra mais visões, sai do meu universo e pega outras pessoas falando, além de ter essa coisa mesmo do espírito do tempo que nós vivemos, a nossa relação com a política, com a nossa idade. Acho que tem tudo isso nas letras.

Chiquinho: É uma coisa que eu lembro que na época doNadadenovo, não lembro se era um release ou uma matéria, mas dizia que o Mombojó falava de problemas existenciais do homem contemporâneo. De certa forma isso tem umupgrade, talvez do ser humano mais velho, mais maduro, de mais de quarenta anos que somos. Não sou letrista, mas imagino que Felipe tenha tido uma maturação nesses anos de Mombojó, dos vinte anos até aqui. Mas de certa forma ainda acaba falando sobre as questões existenciais, talvez até abrindo agora para uma coisa existencial mais coletiva, pensando no mundo e olhando as coisas ao redor, para outras possibilidades, e tendo outros parceiros para falar disso.

Mombojó e Lætitia Sadier no projto Modern Cosmology, que lançou o miniálbum What will you grow now? (2023).

el Cabong: E traz uma contradição a ideia do nome ser SOLAR e abordar esses problemas coletivos.

Felipe S. : Se não passar protetor você se queima, meu velho.

Chiquinho: Nós temos uma ideia do solar como uma ideia do verão, da praia nordestina e tal. Mas eu acho que no disco tem uma ideia de abrir o significado, de abranger para quem vive na cidade grande, em São Paulo, no interior, que tem uma vida solar também. Tem um outro jeito de você vivenciar a energia do sol, que é no sentido do protetor solar, que precisa de certos cuidados. Eu vejo isso de forma mais abrangente, do asfalto também, não só da praia. 

el Cabong: Esse é o disco de vocês que tem mais parcerias e participações, e isso no geral, contando com letras e músicos. Dá para se ver a diversidade de estilos, de gerações e de países nessas participações. Como se deram elas?

Felipe S.: É curioso, porque assim, nós sempre tivemos participações nos discos, mas os discos tinham mais músicas e menos participações. Esse teve um pouco menos músicas e muitas participações. Eu acho que tem a ver com o universo sonoro da banda, que quando nós escutamos nossas composições nós sempre imaginamos vários instrumentos. Como somos cinco, somos menos em relação ao início da banda, acho que sempre tem essa ideia vaga, e nós sempre pensamos nas pessoas que admiramos, inevitavelmente: Pessoas novas, pessoas que estão tocando há mais tempo que nós, pessoas que são referência, quem tá começando agora. Todo mundo, de modo geral, são pessoas que admiramos muito, e acho que fomos pensando montando um quebra-cabeça. Você tem uma ideia e faltam umas peças para completar.

Chiquinho: Eu acho que quando você vai gravar um disco, é sempre uma oportunidade de você poder agregar alguma coisa. Seja alguém que você sonhava, que é algo que a gente sempre viaja, mas nem sempre vai atrás, e algumas coisas é aproveitar a oportunidade para agregar mesmo. Tem casos como Lætitia Sadier, que nós já temos uma relação e que somos muito fãs de tudo o que ela faz, então desde que nos conhecemos, nós sempre pensamos nela quando gravamos, e mandamos algo para ela. Tem casos também como Sofia Freire, que é uma artista muito nova de Recife, que nós acompanhamos ela desde muito cedo, e que você vai vendo a construção da carreira dela, como ela vai fazendo as coisas e os últimos discos dela; então achamos que ia ser massa ela junto no disco, e aí vimos uma música que ela poderia agregar muito. Nesse disco teve também o caso do Anthony Malka, que é o Le Commandant Couche-Tôt, que nós não conhecíamos. Ele foi em um show nosso, lá em Berlim, e postou um vídeo, e aí Marcelo (Machado, guitarrista), que é bem garimpeiro de música, viu que o conhecia e falou como era o som dele, aí nisso mandamos uma mensagem, trocamos ideia com Anthony, e aí mandamos uma parte para ele gravar. Isso foi um tanto aleatório se for ver assim a sequência de fatos, lógico que pensamos uma parte que cabia o sintetizador e tal, mas assim, foi uma oportunidade. Sempre é uma possibilidade, e quando se é artista independente nós podemos jogar com essas coisa de agregar pessoas e fazer novos amigos. O Hervé Salters, conhecido como General Elektriks, foi um caso parecido. Nós somos fãs dele, nos conhecemos aqui em Recife, ele já tocou no nosso álbumDeságua, e já tocamos juntos. Aí surgiu a oportunidade e aí chamamos ele. Enfim, é sempre uma boa pedida fazer parcerias.

Felipe S.: OSOLAR teve esse rastro da gente ter feito uma turnê agora, a qual vieram três participações presentes nele. Veio essa vontade de se misturar com as pessoas, ao mesmo tempo que vai expandindo novos lugares e puxando gente.

el Cabong: Alguma coisa que vocês ouviram recentemente influenciou SOLAR?

Felipe S: Em “É o Poder da Dança” tem uma influência grande do Altın Gün, que é uma banda holandesa que o vocalista,  Erdinç Ecevit Yıldız, é turco, e tem nas composições as escalas turcas, mas tem um som bem pop. Marcelo e Chiquinho estavam ouvindo muito, e aí quando eu trouxe essa música, os caras já estavam pensando em fazer uma parada meio Altın Gün. Da minha parte é bem difícil pensar, que eu tô em uma rotina tão puxada por causa da minha filha. Eu sou a pessoa que fica o dia todo cuidando dela, levando para a escola, organizando as coisas que precisa e tal. Eu tenho quatro horas do dia para trabalhar, que são as horas que ela está na escola, e nessas quatro eu ainda aproveito uma horinha para me exercitar, então restam três para trabalhar. Eu tenho ouvido pouca música ultimamente. 

Chiquinho: Eu consigo enxergar outras influências além do Altın Gün, como Os Tincoãs; o Stereolab é sempre uma influência de nossas composições desde o começo; “Reflektor” do Arcade Fire influenciou “Abaixo a Realidade”. Para mim, General Elektriks influenciou, acho que o que eu faço em “Abaixo a Realidade” eu penso nele, mesmo que a pegada da música seja diferente.

el Cabong: A propósito, Felipe, sua filha participa da composição de “Em Cima da Areia”, não é?

Felipe S:Sim, foi minha filha que deu o mote para o refrão de “Em Cima da Areia”. Ela desenhou em uma folha A4, que tá até aqui em casa, embaixo a areia, em cima a água e no cantinho o sol; aí ela olhou para mim e falou “em cima da areia é o mar, né papai?”,  aí veio isso na minha cabeça e o Metronomy, com “The Look”, que influenciou “Amanhecer” também.

el Cabong: O disco é colocado como feito entre a pandemia e o fim dela. Foi mais trabalhoso fazer SOLAR por conta dessa situação?

Felipe S: As composições foram mais influenciadas por esse momento, esse período recluso, eu escrevi muito pensando nessas coisas. A época que nós começamos a ensaiar foi logo após a pandemia, então nós tínhamos um prazer de estar junto, o que reflete um pouco desse período de saída da pandemia. A pandemia não foi um fator dificultório, ela tem reflexos, consequências, mas acho que a nossa maior dificuldade é estar junto, porque hoje em dia nós moramos em três cidades diferentes, as passagens são super caras, e nós temos que nos adaptar, ter o momento de show e comprar a passagem com antecedência para estarmos juntos, e foi nessas brechas que nós fomos ensaiando para criar as músicas.

el Cabong: SOLARvem depois de carne de Carne de Cajú, e mesmo que vocês tenham feito os dois ao mesmo tempo, tem uma lógica temporal para quem vê. Parece que vocês encarnaram um pouco essa personalidade, com até a identidade visual do disco, com vocês em cima do barco com guarda-chuvas no rio Capibaribe. Evoca algo de que vocês estão em Recife, no meio da cidade.  Vocês vêem essa nova linguagem? Olhando para Alceu, para Recife, para esse sol?

Felipe S: Acho que tem uma conexão, não foi premeditada, mas tem pelo que Alceu representa, um cara que sempre valorizou muito a cultura local, da cidade de onde ele vem, que nunca se curvou para os modismos de fora. Acho que tem um pouco dessa valorização, e acho que assim, nós, fruto da geraçãomanguebeat, que era um momento que trouxe autoestima na cidade. Então acho que é uma reação em cadeia, Alceu já era um cara que pegava a nossa cultura e dava uma repaginada atual, Chico (Science) fez isso. Nós vivemos mais a geração domanguebeat que é uma coisa muito coletiva, e que foi uma galera que deu uma grande inserção pra gente, e acho que faz muito sentido nós fazermos as coisas em Recife. Nós nos sentimos à vontade pra caramba, nós temos um parceiro que retomamos agora, que fez parte do primeiro disco, Leo D, e foi uma parceria muito boa. Nós trabalhamos com vários produtores, de vários lugares do Brasil, e agora, nesse momento, achamos legal voltar e fazer com ele. Leo foi o primeiro cara com quem trabalhamos, nós não tínhamos referência, mas agora, depois de trabalhar com várias pessoas, chegamos a essa conclusão, de que seria legal voltar a trabalhar com Leo e que seria bom fazer em Recife, com a maioria da banda já estando lá. Eu acho que ativa uma raíz na gente, quando se chega lá na cidade nosso jeito de pensar muda, de reagir às coisas também.

A gente nem é tão indie e nem tão pop. Para os indies a gente é pop e para os pop nós somos muito undergrounds, muito indies para o universo pop. Estamos ali no meio do caminho.

Chiquinho: Acho que tem até uma coincidência, que eu parei para pensar agora assim. Os três primeiros discos nós morávamos em Recife, e aí depois meio que todo mundo foi morar em São Paulo,11º Aniversário,Alexandre eDeságua, nós estávamos morando em São Paulo, na pandemia muitos se mudaram e agora a grande maioria mora em Recife. De cinco, três moram em Recife, um na Bahia e um em São Paulo. E de fato é isso, acho que oCarne de Cajú foi o primeiro ano que eu voltei pra morar em Recife, logo depois da pandemia. Coincidentemente, agora que você falou, oCarne de Cajú marca uma época que a maioria volta a morar em Recife. Nós voltamos a trabalhar com Leo D, que tá em Recife também, nós voltamos a fazer mais shows em Recife, eu acho que sem notar, sem perceber, a gente voltou o olhar. Não tô querendo dizer que quem tá em São Paulo não tem o olhar de recifense, mas coincidentemente, sem premeditar muito, foi uma mudança que aconteceu quando a maioria voltou a morar em Recife, essa coisa maisSOLARmaisCarne de Cajú,acho que uma coisa acabou puxando a outra.

el Cabong: Tá um que mais pop, mais dançante também. Na verdade vocês são muito pops, é muito difícil ouvir parado o SOLAR.

Chiquinho: Total. A gente nem é tãoindie e nem tãopop. Para osindies a gente é pope para ospop nós somos muitoundergrounds, muitoindies para o universopop. Estamos ali no meio do caminho.

Felipe S: Mas esse disco tem esse recorte, puxa para isso. Como oAlexandre era um momento que queríamos fazer um disco em estúdio mesmo, mais rápido. Sentar, cada um joga sua ideia, junta e manda para alguém finalizar e pronto. Esse momento era chamando pra isso, dentro de uma discografia que já tem bastante, talvez isso já fosse algo que se destacava, principalmente nos shows, que nós gostamos que as pessoas dancem, então puxamos um pouco as músicas que são nessavibe.

el Cabong: Roberta Martinelli fez um vídeo sobre o show Letrux 20 anos Alternativa que cita você e atribui uma frase à Anelis Assumpção que foi: ‘mercado não, feira de orgânicos, e como toda feira, produtos da melhor qualidade’. Essa frase sintetiza a cena independente da época, entre 2000 e 2015, e como ela se organizava, com o que as pessoas achavam ser o fim das gravadoras e quando o streaming nem existia direito. Vocês são parte dessa história, com o primeiro disco sendo fruto das leis de incentivo à cultura, participar dos festivais independentes da época e etc. Como vocês vêem, em retrospecto, o que era ser independentes naquele momento, para divulgar e tocar, e como vocês vêem a cena hoje?

Felipe S: Eu vi Letrux falando, que antes dela ter banda, ela ia pro show do Mombojó. Nessa turnê dela, “Letrux 20 anos Alternativa”, ela toca uma música nossa, e foi por conta disso que deu o estalo de chamar ela para cantar. Mas assim, nós pegamos uma parte muito específica do mercado da música. Acho que foi o único momento, desde que a música virou produto vendável, que as grandes incorporadoras não estavam pelo controle das coisas. 2004 nós já estávamos surfando nessa onda, que já estava acontecendo uns tempos atrás. Isso permitiu com que nós fossemos uma das primeiras bandas a botar as músicas da gente gratuitas paradownload, que era o jeito que as pessoas consumiam música para burlar o fato de comprar o disco quando não tinha dinheiro. Era uma época que nem tinha rede social, é pré-orkut.

Nós pegamos muitas mudanças ao longo desse percurso, mas nós nos beneficiamos muito disso, de uma forma espontânea, porque nós não premeditamos. O cara que fez a nossa capa que sugeriu nós colocarmos o disco de graça, e isso virou uma grande notícia. Nós fomos convidados a fazer uma fala em Porto Alegre sobre isso e nós não éramos especialistas no assunto. A gente tava ali, surfando na onda, mas foi uma coisa muito benéfica. Outra coisa que nos beneficiou e que foi muito interessante, que quando lançamos o primeiro disco, CD ainda se comprava, era um produto muito forte. ONadadenovo estava encartado em uma revista em todas as capitais do país a dez reais. Já não era um preço bom na época, hoje em dia dez reais não compra nem um pastel aqui em São Paulo. E aí o disco deu uma distribuição incrível e acho que fortaleceu, não adianta ter um bom disco, tem que ter uma boa disposição no geral, com difusão e distribuição. Então foi um disco que chegou mesmo nas pessoas, que o repertório dele tá muito mais a frente no conhecimento das pessoas em relação a todos os outros que a gente tem, não só pelo tempo, dele ser o mais antigo, mas por essa distribuição e difusão que nós tivemos lá em 2004.

Os desafios de hoje em dia é que agora, com 25 anos, lançando um disco, nós sendo tratados já como veteranos, num ambiente desafiador para todo mundo. Ninguém tem a receita correta ou sabe o que tem que fazer.”

Chiquinho: Comparado a hoje é um desafio absurdo. Eu, por exemplo, me sinto muito perdido no tiroteio em relação a agora mesmo, como nós estamos trabalhando esse lançamento em redes sociais, como é que isso chega, com quem nós conversamos, como interpretar os números, como saber se as pessoas estão ouvindo ou não, como é que isso implica, se eventualmente você entender esse número, como convertê-lo para pessoas irem no show e tal. Então isso é uma questão e é muito complexo hoje em dia.  Eu acho que na época lá doNadadenovo era diferente, primeiro porque éramos muito jovens e talvez nós nem nos preocupássemos tanto com isso, nós só íamos fazer mesmo, e as pessoas também iam atrás para conhecer o novo, o novo sempre vem e na época nós éramos os novos, e isso fatalmente tem um tempero massa por si só. Os desafios de hoje em dia é que agora, com 25 anos, lançando um disco, nós sendo tratados já como veteranos, num ambiente desafiador para todo mundo. Ninguém tem a receita correta ou sabe o que tem que fazer. As pessoas dão até curso de como fazer, mas tudo é muito experimental. É um ambiente relativamente muito democrático, porque as pessoas podem disponibilizar suas obras na internet. Na época doNadadenovo era uma novidade colocar as músicas na internet, e nós éramos até criticados por isso, mas hoje em dia mudou, essa é a realidade e é o que todo mundo faz. É até complicado hoje em dia se programar, por exemplo, se lançamos em abril pensando que é depois do carnaval e não tem muito lançamento, quando vamos ver tem uma enxurrada de trabalhos, todo dia alguém está lançando alguma coisa. Eu acho ainda que tem uma confusão de tentarem encarar isso como uma competição, uma disputa de espaço, se for encarar dessa forma, aí que o desafio fica doido mesmo. Não sei se fôssemos uma banda que estivesse surgindo agora, como nós estaríamos lidando com isso, imagino que seria bem desafiador. A tecnologia e a forma de consumo deram uma remexida bem grande nisso.

Felipe S: Na minha opinião, de modo geral, tem coisas boas também. Tem tanto coisas ruins quanto boas. Nós temos o domínio de fazer tudo nós mesmos, mas fazer várias coisas além da música gera um cansaço, porém tem essa coisa boa de ter essa autonomia. Antes dependia de várias pessoas para lançar um disco, hoje em dia várias ferramentas facilitam o acesso ao mundo digital. O própriowhatsappmesmo ajuda, a introdução de “Abaixo a Realidade” mesmo, nós já tínhamos tocado a música, e aí me veio a ideia de fazer uma introdução bem inusitada, aí mandei uma ideia por áudio, era um áudio bem sujo, e aí o produtor do disco gostou, deixou no disco, e depois só regravou com as pessoas cantando o que eu fiz com a voz, tentando simular uma voz de metal, meio inspirado na introdução do Vídeo Show.

el Cabong: É muito interessante ouvir tudo isso que vocês passaram, porque quando eu vejo o que vocês faziam, lançar música para download gratuito, copyleft, vender disco na banca de jornal, para mim parece muito revolucionário. Lançar sem estar atrelado à plataformas de streaming.

Felipe S: Hoje em dia eu penso muito em saídas dostream, da não dependência. Até porque nós não recebemos bem por eles. Eles são um dos fatores que importam, mas também não é o determinante. É bom ir bem nas plataformas dentro do seu universo, sem se comparar com outros, mas nossa maior fonte de renda é show, e dentro do show tem a coisa domerch. Aí é uma coisa que a banda se dedicou bastante, Chiquinho tomou muita a frente dessas paradas, fazer muitos produtos. Cada vez que nós conseguimos fazer mais coisas fora, para que seja vendável. Nós estamos planejando fazer um livro do disco que englobe várias coisas, envolvendo uma ficha técnica ultra detalhada com a história do disco, com as coisas interessantes que fizeram ele existir, e até algo bem sintetizado, como um livro infantil. William Paiva, que fez a capa doSOLAR, está fazendo as ilustrações, que tem as letras das músicas, tem as cifras, todo mundo que tocou, até os desenhos dos equipamentos usados. Isso é meio um manual de instruções do álbum, mas que seja uma coisa legal para você olhar. Tem várias outras coisas que pensamos nesse sentido, como fazer guarda-chuvas que estão na capa do disco.

Chiquinho: Acho que tudo tem haver com você materializar a obra. Eu sou colecionador de vinil, de vez em quando eu penso sobre isso assim. Se as plataformas resolverem fechar, as pessoas não vão ter música guardada, só quem tem CD ou vinil que vai ser “proprietário”. Eu, enquanto fã de bandas, curto muito de ter coisas delas. Agora que fizemos show com o Stereolab, o que dava pra conseguir, eu vou guardar com muito carinho por muito tempo. Peguei lápis de cor deles com livro para colorir, que cada lápis tem o nome de uma música do disco, aí pra quem é fã isso é incrível. Dá muita vontade de fazer isso com o Mombojó.

Dá um trabalho danado fazer música, eu acho que é melhor passar mais tempo fazendo menos e o pessoal poder absorver aos poucos.

el Cabong: Não sei se tem alguma coisa a ver com o streaming, mas dá pra perceber que os álbuns de vocês tem tido menor duração. Carne de Cajú foi o mais curto, e SOLAR é o segundo mais curto. O que provocou essa mudança?

Felipe S: Eu, quando faço, penso muito no vinil. Eu penso que o vinil é a parada mais legal de se produzir da gente, no quesito de música. O CD a galera compra na gringa, mas vende pouco, fita cassete é uma coisa muito específica, então vinil é a parada mais legal, e se der muita música nós vamos ter que tirar alguma. E também tem outro fator, que já é uma visão particular minha, tem se lançado tantas músicas, tanta coisa, que elas vão sendo saturadas. Rola uma saturação de absorver isso. Eu acho que fazer menos faz você desperdiçar menos também. Dá um trabalho danado fazer música, eu acho que é melhor passar mais tempo fazendo menos e o pessoal poder absorver aos poucos. Não precisa tocar todas as do disco no show, porque a galera não vai querer. Aí também fazer um disco muito grande você vai desperdiçando neurônios, e aí tem várias músicas que vão pro limbo. Aí eu prefiro discos mais curtos.

Chiquinho: Eu acho que o que nós diminuímos nem foi o tempo, foi a quantidade de músicas. O normal para nós antes eram catorze, quinze músicas, que não eram discos grandes naquela época. OAfrociberdelia (Chico Sciecne & Nação Zumbi)mesmo, tem vinte e três músicas. Eu acho também que teve um fator que com o tempo nós ficamos muito independentes, então de certa forma isso atrelava a lógica de lançarsingles, porque era o que as pessoas consumiam, e olha que nós nem entramos nessa onda de só lançarsingle, e também começou a achar que talvez fosse um desperdício de energia. É também para entendermos que gravar quinze músicas e gravar oito são custos totalmente diferentes. Sendo bem sincero e jogando as cartas na mesa, o valor de custo de uma música é 1x, um disco com oito músicas é 8x, um com quinze é 15x. O orçamento de um disco é muito pautado com a quantidade de músicas contidas nele, então a diferença de oito para quinze é quase o dobro. Também tem outra coisa, nós vivemos uma fase de fazer músicas mais rápidas, fazer aquilo meio “caldo de cana”, que é fazer logo, fazer outra, mixa uma e aí já mixa outra; aí às vezes um disco com quinze músicas, nem todas elas tem tanta dedicação. Então nós começamos a perceber que achamos nosso meio termo, nem vamos trabalhar com osingle, e também nem temos tanta energia, tempo e dinheiro para trabalhar quinze ou vinte músicas. Melhor nós trabalharmos entre oito e dez músicas, que nós achamos que fazem sentido, que nós podemos nos dedicar melhor e que sigam esses fatores de logística, tempo, trabalho e dinheiro, até empacotar em algo que seja viável.

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