Por Julli Rodrigues*
A cultura do vinil em Salvador mobiliza uma verdadeira comunidade formada por colecionadores, vendedores, DJs e amantes da música em geral. Por vezes, esse movimento se assemelha a uma confraria, e é possível exemplificar isso na prática: caso você, leitor, vá a uma feira de discos e depois compareça a outro evento do mesmo nicho, são altíssimas as chances de encontrar as mesmas pessoas nas duas ocasiões, e nem sempre o objetivo delas é apenas levar uma “bolacha” (ou mais) para casa. Muitas delas querem também encontrar os amigos e ouvir as discotecagens.
Uma das “figurinhas carimbadas” da cena é o servidor público Marcelo José Sousa, 53 anos, colecionador há mais de 20. Morador do Santo Antônio Além do Carmo, ele marca presença não apenas nos eventos do bairro, mas também em outras feiras, a exemplo da realizada no Shopping Center Lapa, onde falou à reportagem.
Leia primeira reportagem: Cultura do vinil ocupa espaços e atinge novos públicos em Salvador
“Hoje, para mim, as feiras de vinil são lugares de encontro e de troca de informações. Encontro amigos que também gostam de ouvir vinil. Eu convido pessoas que às vezes nem têm uma vitrola em casa, para elas participarem e terem mais conhecimento musical. O principal motivo é interagir não só com quem compra, mas com quem vende… e com os DJs, também, que eu venho apreciar”, pontuou.
O engenheiro Josenilson Edington, 42 anos, faz coro com Marcelo: “No passado, reunir amigos e ouvir músicas era algo bastante comum. As responsabilidades e atividades individuais fazem com que muitas pessoas acabem se encontrando apenas nesses eventos”. Outra figura frequente nos eventos da cena do vinil soteropolitana é Fran Fragas, colecionadora que comanda o perfil discosdafranno Instagram. Ela marca presença com sua “lojinha” e também organiza a Feira de Discos do Shopping Rio Vermelho. “Não é só o comprar, tem outra relação ali de conversa, de interação, e de descobrir outras músicas”, avalia.
Na análise de Gabriel Barth da Silva, doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná e pesquisador de práticas culturais no universo da música, a capacidade de reunir pessoas fora da internet é uma característica forte da cultura do vinil. “É um modo de você criar um mercado musical presencial. Em um mundo que cada vez menos tem lojas de CDs e a compra de álbuns digitais é algo muito individual, estabelecer um espaço possível para isso acaba criando um mundo da arte com lógicas muito próprias, em que pessoas circulam, trocam referências, contatos, indicações, formam uma comunidade prática que se atualiza e dá caminhos possíveis para dar continuidade na produção e no consumo”, pontua.
A lei natural dos encontros

Embora tenha se intensificado no pós-pandemia, esse movimento de juntar os amantes do vinil da capital baiana em feiras e eventos já vem de longa data. Em maio de 2014, o produtor cultural Rogério Bigbross se uniu ao empresário Antônio Portela para criar oClube do Vinil de Salvador. A ideia era realizar reuniões quinzenais no Portela Café, casa de shows comandada por Antônio no Rio Vermelho, que foi fechada em 2021. Além do Clube, o espaço também recebia feiras de discos.
Segundo Bigbross, a localização do Portela Café na Rua Itabuna, um tanto distante da orla do Rio Vermelho, dificultava o acesso do público ao evento. “Com esse nome de ‘feira do vinil’, foi Portela que começou. Só que o Portela Café era tão escondido que o público nem sempre via. Só quem ia lá era quem sabia do evento. Aí comecei a fazer umas edições no Dubliners Irish Pub, que era na orla, na Rua da Paciência, e coloquei um banner na porta. Então as pessoas começaram a passar e parar para entrar na feira”.
Entre 2018 e 2020, Bigbross realizou o Big Bazar no Mercadão.CC, na rua Guedes Cabral. Nesse evento, o “cardápio” não se limitava aos discos de vinil, oferecendo também livros, quadrinhos, equipamentos de áudio, brinquedos antigos e até feijoada. De acordo com o produtor cultural, o público das feiras daquele período ainda era formado principalmente por pessoas nascidas nos anos 70 e 80, e o movimento era menor do que é hoje. “A pandemia foi um fator importante para esse aumento de procura do vinil”, observa Bigbross. Em 2022, o Big Bazar se tornou uma loja no Shopping Colonial, nos Barris.
Esse é o lugar
As lojas de discos também são locais importantes de encontros e experiências compartilhadas na cultura do vinil de Salvador. O imóvel número 119 da Rua Direita do Santo Antônio, por exemplo, tornou-se um “point” que reúne produtores musicais, DJs, artistas e interessados em ouvir boa música, para além de comprar LPs e compactos. É lá que funciona a Caveira Discos, fundada em 2019 pelo músico e empresário Alessandro Dib, conhecido como Caveira. Para ele, essa movimentação de pessoas faz parte da essência de um estabelecimento do tipo.

“Acho que a loja de discos sempre foi um ponto de encontro. Eu quando era moleque ia para as lojas de discos não só para conhecer os sons novos, mas também para encontrar com a galera e ir para outro lugar. Ou ver se tinha alguém lá para conversar, para de repente ir para outro lugar ou não. Só ficar lá mesmo conversando, bebendo ou não. Mas sempre foi ponto de encontro. Inclusive a antiga loja que eu tive [Colemerma, no Orixás Center], também era muito assim. Era até demais, que eu tinha que dar um freio… Vinte pessoas no corredor do shopping e muita gente nem entrava na loja”, relembra.
Por ter um setup montado com mixer e dois toca-discos Technics, a Caveira Discos costuma ser palco de discotecagens em vinil de diversos gêneros musicais. Alguns nomes que já se apresentaram na loja são os DJs Jorge Dubman, Gabão e Rylle. No último dia 18 de abril, os DJs Maziss e Kajaman fizeram a trilha sonora do estabelecimento, com um repertório baseado em música brasileira. A disponibilidade do equipamento – e dos discos – incentivou Garlei Souza, funcionário da Caveira Discos, a se aproximar da mídia física e começar a discotecar. Artista plástico, designer e cenógrafo, ele nunca tinha imaginado trabalhar com vinil até ser contratado para a função.
“Caveira perguntou se eu estava a fim de trabalhar com ele. Eu disse que não tinha muita experiência com vinil, ele propôs que eu ficasse por um mês pra ver o que acontecia. Eu acabei me apaixonando, aí nesse primeiro mês tinha uns toca-discos e caixas à venda, eu comprei e comecei a colecionar também. Hoje eu tenho quase dois anos aqui com ele e virei colecionador. E quando você tem um acervo como esse, com 4 mil discos na loja, você escuta coisas que nunca escutou na vida. Aí com duas pick-ups a gente brinca”, conta.
Tem gente que chega pra ficar

Garlei também chama atenção para outro aspecto peculiar da cultura do vinil: as conexões entre vendedores e clientes, que por vezes rendem boas histórias para contar. Nem mesmo a barreira linguística é capaz de impedi-las, como ele relata no áudio abaixo. Ouça:
Situação semelhante é vivida pela jornalista Daniele Cezar, criadora da loja virtual @dezdiscos no Instagram, que hoje tem uma parceria com a Livraria do Glauber, no Cine Glauber Rocha. “Eu tenho clientes que me acompanham desde o início da loja, há cinco anos, e alguns deles viraram amigos. Eles vieram a partir da venda dos discos. Muitos clientes vêm de longe pra me conhecer pessoalmente, participam das feiras, me contam coisas da vida deles”, diz.
Daniele ainda acrescenta que até mesmo nos momentos de “garimpo”, nos quais negocia a compra de lotes e acervos inteiros de discos para disponibilizar para venda em sua loja, acontecem situações marcantes. Um desses casos ocorreu na casa de uma senhora que estava pondo à venda toda a coleção do falecido marido. Ouça:
Eldo Boss, músico e empreendedor, um dos sócios da loja Discodelia, conta que a memória afetiva pode fazer até o mais fanático dos amantes do metal se render aos discos do “Rei” Roberto Carlos. Ouça:
Na próxima matéria: um mergulho na cena da discotecagem em vinil na capital baiana. Você vai saber quem são os DJs que não abrem mão da mídia física, como se articulam e onde se apresentam.
* Julli Rodrigues é jornalista, produtora musical da Educadora FM e DJ seletora. Mais detalhes sobre a autora aqui.






