Por Julli Rodrigues*
Foto: Josenilson Edington
Manhã ensolarada do primeiro sábado de março em Salvador. A praça de eventos de um shopping na região central da cidade é o palco de uma singular movimentação de pessoas, equipamentos e caixotes pesados com discos de vinil e CDs. Dezenas de mesas são dispostas ao redor do espaço, deixando uma área livre para quem quiser circular… e dançar, por que não? Isso porque dali a poucos minutos, o par de toca-discos será conectado ao mixer e este à caixa de som, e o primeiro DJ chegará com seus discos e agulhas. Está prestes a começar mais uma edição da Feira de Vinil, realizada há dois anos no Shopping Center Lapa em parceria com a Discodelia, loja de discos situada nos Barris. O evento, que acontece a cada quatro meses no centro comercial, é apenas uma entre tantas iniciativas que têm impulsionado a cultura do vinil em Salvador no pós-pandemia.
Um dos sócios da Discodelia, o músico e administrador Eldo Boss considera que a colaboração com o shopping é uma forma eficaz de chegar a novos públicos. A realização de feiras de discos é um hábito desde a fundação da loja, em 2021, mas inicialmente os eventos aconteciam no pátio do Shopping Colonial, local onde funciona o estabelecimento. “É uma parceria na qual o shopping entende a relação com o colecionismo e com o que é novo, e se conecta muito com o público no geral”.
A cada edição, a feira mobiliza treze expositores. Alguns são colecionadores que decidem “enxugar” os próprios acervos, enquanto outros têm lojas próprias, sejam físicas ou virtuais. O técnico em informática e DJ Anderson Santos, conhecido como Uruba, faz parte do primeiro grupo. Em sua banca, estavam disponíveis álbuns novos e antigos, de gêneros tão diversos quanto MPB e nu metal. “Eu não sou um vendedor como a maioria da galera que está aqui. O que eu tenho aqui são coisas que eram minhas, do acervo pessoal, e/ou quando eu adquiro alguma coisa que, caso eu não venda, acabo ficando”, conta.
Outra expositora, Marcelle Fontes, começou seguindo um caminho parecido. Ela passou a vender discos pela internetem 2017, ao mesmo tempo em que montava a própria coleção. Sete anos depois, abriu um estabelecimento físico no bairro do Rio Vermelho, que se tornou uma das mais de 10 lojas de discos hoje operantes na capital baiana (veja mapa abaixo). Hoje, Marcelle vive apenas do comércio de LPs.
“Quando eu ia comprar para mim, eu sabia que um disco do Pink Floyd tinha saída e era valorizado, então eu comprava dois e começava a trocar para pegar o que me interessava. Sempre tive a veia de comerciante e de querer economizar. Então de repente a minha coleção cresceu muito, comecei a comprar muitos lotes. A pandemia foi um diferencial, porque eu fiquei reclusa e comecei a comprar lotes grandes, então comecei a vender o que eu não gostava”, relembra.

O novo sempre vem
Quando se fala de consumo de discos de vinil, é quase automática a associação com uma ideia de “nostalgia”, como se essa mídia fosse “coisa do passado”. É verdade que o vinil deixou de ser o principal formato de consumo de música desde meados da década de 90, com a ascensão do CD. Nos últimos dez anos, o streaming passou a dominar as receitas. No entanto, dados do mercado fonográfico norte-americano indicam que as “bolachas” estão pouco a pouco conquistando seu espaço nesse contexto.
Segundo o relatório anual da Recording Industry Association of America (RIAA), divulgado no último mês de março, em 2025 as vendas de vinil nos Estados Unidos superaram a marca de US$ 1 bilhão pela primeira vez desde 1983. O formato ainda representa menos de 10% da receita total da indústria americana: no mesmo período, o streaming gerou US$ 9,5 bilhões, o que corresponde a 82% de todo o faturamento do setor. Grande parte desse recente crescimento do vinil se deve aos lançamentos de artistas que têm forte apelo para o público jovem, a exemplo das cantoras pop Taylor Swift e Sabrina Carpenter.
Para o pesquisador Gabriel Barth da Silva, doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná, o interesse dos jovens pelos discos de vinil pode ser explicado por diversos fatores, que vão desde a busca por pertencimento até a construção de uma identidade. “A busca por algo material, que tenha história, em um mundo cada vez mais digital, é um fator fundamental. Além disso, também acredito que é fundamental entender as dinâmicas de distinção, como elas são trabalhadas a partir das redes sociais, de mostrar a coleção, de entender a identidade que se quer construir para ser percebida por outras pessoas. Também tem o aspecto de recuperação histórica como um fenômeno fundamental em um mundo que apresenta um esvaziamento de futuro”, analisa.
A cena de Salvador parece refletir esse movimento de “rejuvenescimento” da cultura do vinil, como destaca Marcelle: “O pessoal mais jovem tem procurado muito, principalmente por influência da família. O pessoal que colecionava antigamente não está tão forte e a juventude está chegando mais junto, buscando não só os artistas da década de 60, 70, mas também os contemporâneos”. Eldo Boss reforça que a Geração Z, formada por pessoas nascidas entre 1997 e 2012, é o principal público das feiras organizadas por ele.
“É uma geração que já enxerga o formato físico como uma possibilidade de consumir música. Não é de massa, isso é um fato, de massa realmente é o streaming. Mas eles consideram como uma forma de se aproximar do artista, de consumir de mais perto aquele artista também. A geração com menos de 30 anos também percebeu que não ‘tem’ nada. No streaming você não possui aquilo, você paga para ter a licença de usar”, observa.

E o que atrai esse público jovem no contexto soteropolitano? Para a estudante de Jornalismo Duda Araújo, 20 anos, o “ritual” associado à mídia física é parte fundamental do processo. Ela começou a colecionar discos em 2025, por influência dos amigos e do namorado, realizando um desejo antigo. “Sempre foi um sonho meu ter uma coleção de vinis. Eu sempre falei isso e meus pais até achavam engraçado eu ser uma pessoa tão jovem e ter interesse por isso, sendo que hoje a gente tem as plataformas digitais que dão acesso à música. Gosto de parar para escutar o vinil, pegar, olhar o disco, tirar da capa, colocar na vitrola… acho que isso cria uma relação muito mais íntima com aquela música”, conta.
Já Davi Sousa, 20 anos, foi atraído primeiramente pelo aspecto estético do vinil. Influenciado pelo pai, o técnico de Tecnologia da Informação Jorge Junior, o jovem viu na mídia física uma possibilidade de ir além daquilo que já conhecia. “Eu sempre ouvi só o digital mesmo, então o vinil foi o ponto forte para eu começar a conhecer mais sobre meu próprio gosto. Comecei a comprar discos de heavy metal e de cantoras japonesas que meu pai não gosta tanto”, relata.
Calor da rua
Davi e Jorge falaram à reportagem na tarde do penúltimo domingo de março, quando acontecia mais uma feira de discos em Salvador. Desta vez, no Santo Antônio Além do Carmo. Era a quarta edição da Feira de Vinil e Afins Além do Caos, que passou a ser realizada mensalmente no Beco do Zé, uma transversal da Rua Direita de Santo Antônio, endereço citado em nove entre dez roteiros turísticos na capital baiana. O evento é uma iniciativa do coletivo Vinil Além do Caos em parceria com a loja Caveira Discos e reúne, além dos vendedores de vinil, pequenos negócios de artes e gastronomia do bairro do Centro Histórico. Muitos dos expositores também estavam presentes na feira do Shopping Center Lapa, ocorrida duas semanas antes.
“Quando eu comecei a vender os discos, nós criamos um coletivo de colecionadores. A princípio não era só venda, a gente fazia uma mostra de vinis junto com equipamentos analógicos aqui na rua, e a partir daí fomos desenvolvendo o lance de vender os discos. Hoje, o que eu sinto é que tem muito mais aceitação, o mercado está dando uma aquecida legal”, comenta o músico e empreendedor Ronaldo Lopes, conhecido como Gnomo, um dos idealizadores. Para ele, um dos diferenciais da Feira de Vinil e Afins Além do Caos é o fato de ela ser realizada ao ar livre, na rua, como acontece com a Ocupação 377, evento que movimenta a região aos domingos.
“Nós visualizamos o Beco como sendo uma coisa para a gente ocupar também, já que a gente vem de um coletivo onde nós ocupamos o Largo [do Santo Antônio Além do Carmo], ocupamos as ruas com arte, música e cultura. Então, o Beco do Zé é o lugar perfeito para se ter uma noção de como está indo o mercado de vinil aqui na cidade. As demais feiras são dentro de espaços fechados, então a feira de vinil, sendo aqui na rua, nos dá uma perspectiva melhor de quantas pessoas estão sentindo esse anseio de colecionar vinil. E a rua a gente sabe como é, é uma coisa muito orgânica, muito viva”, diz.
A realização de duas feiras de discos no mesmo mês em Salvador reflete a força de uma cena que está em movimento e busca ocupar espaços o máximo possível. Para o mês de maio, por exemplo, está prevista a primeira edição de 2026 da Feira de Discos do Shopping Rio Vermelho, organizada pela colecionadora e vendedora Fran Fragas, dona do perfil @discosdafran no Instagram. Até o fim do ano, a previsão é que aconteçam ao menos outras seis feiras de discos na capital baiana. Além das datas confirmadas no Shopping Rio Vermelho (em agosto e novembro), há a expectativa de outros eventos no Cine Glauber Rocha, em junho e dezembro; e no Shopping Center Lapa, em julho e outubro. A Feira de Vinil e Afins Além do Caos também deve ser retomada a partir de maio.

Mapa de lojas e feiras de vinil em Salvador:
Na próxima reportagem: os afetos mobilizados pela cultura do vinil em Salvador. O el Cabong mergulha nesse universo e traz histórias marcantes de colecionadores, vendedores e DJs que vivem a cena como um lugar de encontros e amor pela música.
* Julli Rodrigues é jornalista, produtora musical da Educadora FM e DJ seletora. Mais detalhes sobre a autora aqui.






