Timbalada 30 anos

Timbalada: 30 anos do barro ao sucesso

A poeira avermelhada que subia do chão podia ser vista de longe. Jovens pretos eufóricos dançavam ao som de uma percussão diferente e cheia de suingue. Encrustadas entre prédios de classe média, as ruas enladeiradas e sem asfalto do bairro do Candeal abrigavam todo domingo o impacto vindo das mãos de 400 percussionistas. Era verão de 1991, e a Timbalada imprimia suas primeiras batidas naquele bairro no miolo de Salvador.

Há 30 anos, os moradores e visitantes daquelas ruas de barro assistiam o início de uma banda que revolucionou o lugar e a própria música baiana. Capitaneado por Carlinhos Brown, o grupo seguia à linguagem afro-percussiva dava as rédeas do cenário musical de Salvador. Com vários sucessos, dezenas de discos e centenas de integrantes em sua história, três décadas depois, o grupo se mantém na ativa, com Brown à frente e cheia de planos.

Para seu criador e mentor, a Timbalada não é e nunca foi apenas uma banda, é um “movimento permanente”. “O que a faz durar é esse contínuo olhar para frente, que é uma forma de reverenciar seu passado, pois seguir em frente faz parte de nossa força ancestral. O futuro é essa ancestralidade em continuidade”, diz.

Para ele o batuque é como uma chave que abre portais de realidades ancestrais históricas, filosóficas, linguísticas, de oralidades e culturas que nos formam. “A Timbalada será sempre um laboratório musical com potencial de convergência linguística e rítmica, reunindo de centenas a milhares de percussionistas em torno da estética percussiva e da formação musical para a vida, envolvendo, principalmente, jovens adolescentes interessados na música como ferramenta transformadora da realidade”.

Afrofuturista muito antes de se falar disso. Percussão tribal, misturada com eletrônica, elementos novos e pós-modernos. Temáticas que iam da história negra ao cotidiano do indivíduo diaspórico em sua diversidade. Letras românticas se alternavam com temas sobre racismo e violência policial. Homenagem a lugares e personalidades aliadas a referências a elementos de religiões de matriz africana e à própria banda.

O visual com pinturas brancas nos corpos negros surgiu como opção estética e econômica e virou marca. A sonoridade com elementos percussivos à frente, com os instrumentos harmônicos servindo como ornamentos: tudo remetia à crueza dos blocos afro, mas num diálogo mais amplo e com outras referências.

Integrante da fase inicial da Timbalada (entre 1995 e 2001), o músico Roberto Barreto, guitarrista e criador do BaianaSystem, destaca o caráter inventivo do grupo. Para ele, a Timbalada chamou atenção desde o início justamente por ser uma banda essencialmente percussiva, quase como uma orquestra, mas pensada de uma maneira pop. “Era pop em todos os sentidos: na informação visual com as pinturas, na forma como se posicionava no palco, no repertório, no flerte com a MPB e até com o rock nacional”, lembra.

Carlinhos Brown - Ensaio da Timbalada - Candeal
Os primeiros momentos de Carlinhos Brown e Timbalada. Foto: Acervo Timbalada

Havia uma relação visceral e muito forte com a música brasileira e com as novidades da época. Não à toa, nomes como Marisa Monte, Nando Reis e Jorge Bem Jor colaboraram desde o início. “A Timbalada mantinha um diálogo com o pop e com o que vinha acontecendo naquele momento. Trazia elementos de rap, com pessoas cantando em cima das bases de percussão. Dialogava com o que aconteceu com o Mangue beat, com Chico Science & Nação Zumbi, com a presença dos tambores e mais as guitarras, os sopros, e até a forma de se comunicar pro mundo”, continua Barreto.

O músico, lembra que, ao mesmo tempo, o grupo reunia elementos que vinham dos blocos afros, mas de uma forma totalmente diferente. Segundo ele, a diversidade de gêneros musicais e referências que a banda reunia fazia com ela criasse uma originalidade própria. “Tinha composições que levavam pro rap, pro rock ou, pro samba, mas com uma formatação muito diferente e trazia uma coisa tribal muito forte. Fazia que as pessoas não identificassem só como uma coisa de Carnaval ou como um bloco afro, ela tinha realmente uma coisa universal. Isso já era uma diferença”, diz.

Sucesso além do Candeal

Ainda no início dos anos 1990, as músicas da Timbalada aos poucos saíram do Candeal e ganharam as ruas da capital baiana – e o mundo todo. O primeiro álbum, homônimo, com a antológica capa com os seios da cantora Patrícia pintados, foi lançado em 1993. Reunia alguns dos hits históricos, como “Beija-Flor”, “Canto pro Mar” e “Toque de Timbaleiro”, além de músicas de Jorge Ben Jor (“Emílio”), e Nando Reis (“Itaim para o Candeal”). Foi indicado pela revista norte-americana Billboard, aquele ano, como “o melhor CD produzido na América Latina”.

Foi no álbum seguinte, Cada Cabeça é um Mundo, que a banda alcançou um sucesso maior. Lançado em 1994, reunia hits como “Namoro a Dois”, “Sambaê”, “Se Você se For”, “Camisinha”, e, especialmente, “Toneladas de Desejo”. A música ficou entre as cem mais tocadas nas rádios do país em 1995 e chegou a ganhar uma versão com Marisa Monte nos vocais.

Os álbuns seguintes, Andei Road (1995) e Mineral (1996) também apresentaram outros dos sucessos mais marcantes do grupo, como “Margarida perfumada”, “Mimar você” e “Água mineral”. Esta última ficou com a 52ª posição entre as músicas mais tocadas nas rádios do país, em 1996.

Se não foi um fenômeno midiático como outros nomes da música baiana, a banda conseguiu emplacar diversos sucessos Brasil afora. Anos depois, vários deles ainda permanece presentes tanto no Carnaval quanto em festas e rádios brasileiras. Segundo o Ecad, as mais tocadas nos últimos cinco anos são faixas dos quatro primeiros álbuns: “Água Mineral”, “Margarida perfumada”, “Se você se for”, “Beija-flor” e “Toneladas de desejo”.

O sucesso da Timbalada levou a passos maiores em sua história. Ainda em 1996, foi inaugurada a casa de shows Candyall Guetho Square, que acompanhava melhorias estruturais que o bairro de origem da banda recebia. O espaço passou a ser a sede dos ensaios do grupo, com sua decoração ousada e cenografia criativa. Com o tempo, o lugar ficou pequeno e, com reclamações da vizinhança, a banda se mudou para Museu du Ritmo, no bairro do Comércio.

A trajetória bem sucedida levou o grupo também para turnês internacionais por Europa e Japão e participações em festivais como o Montreux, Holland Festival e Montreal International Jazz Festival. Em 2005, no Carnaval de Madri, a Timbalada arrastou uma multidão de 1,5 milhão de pessoas.

Timbalada 30 anos percussão
Sob o comando de Brownm Timbalada em seus tradicionais ensaios no Candeal. Foto: Acervo Timbalada

No Carnaval, a banda, que inicialmente saiu de forma independente apenas com um carro de som e centenas de percussionistas tocando no chão, se tornou, durante um período, um dos blocos mais requisitados da festa. Como bloco, a estreia foi em 1995, com a banda passando a tocar em cima do trio elétrico e apresentando cenografias e ideias inovadoras em seu desfile. As pinturas da origem e a força percussiva continuavam presentes.

Foi a Timbalada que inaugurou uma das grandes novidades na festa dos últimos anos, o arrastão da quarta-feira de cinzas. Foi uma forma de manter a proposta original com os centenas de percussionistas tocando no chão. Um sucesso que acabou se tornando tradição, adiando o fechamento do carnaval de Salvador.

Percussão inovadora

Nestes 30 anos de atividade, foram 11 discos de estúdio, além de outros ao vivo e de remixes. Em todas eles, boa parte das músicas eram de autoria do mentor Carlinhos Brown, autor de vários dos clássicos da banda, sozinho ou em parceira. Criador, mentor, compositor, Brown também foi responsável por unir os elementos percussivos que deram o tom à sonoridade do grupo.

A forma de tocar e os próprios instrumentos de percussão usados pela Timbalada eram incomuns quando a banda surgiu. O grupo incorporava as tradicionais percussões afro-baianas e latinas, misturando tudo com um tempero especial. Assimilava várias reverências e um sabor mais pop e moderno. Absorvia também elementos da música latina e africana, inclusive instrumentos. Brown criava e adaptava alguns deles, desde os comuns nas festas e bandas de Salvador, como outros que conhecia nas turnês que fazia acompanhando João Gilberto, Djavan e João Bosco pelo mundo.

O exemplo maior dessa adaptação e inventividade foi o timbal. Marca principal, e de onde vem o nome da banda, o instrumento costumava ser tocado na horizontal com apenas uma mão. Por criação de Brown, passou à vertical e incorporou o toque com as duas mãos. Além de rítmico, é um instrumento melódico e passou a ser utilizado por artistas de vários gêneros musicais.

Outro caso foi a bacurinha, uma espécie de repinique utilizado nas escolas de samba, mas tocadas com baquetas de nylon e que criava uma sonoridade mais aguda à massa percussiva da banda. “Foi Brown que criou a bacurinha. Quando eu vi esse instrumento pela primeira vez eu fiquei louco. Acabei trazendo para o pagode”, conta Márcio Victor, criador e mentor do Psirico, que teve seu início na Timbalada.

O músico lembra também de outros elementos estabelecidos pela Timbalada e acabaram sendo levados por ele para o universo do pagode. Ele cita o torpedo, instrumento inspirado no güira, originário do merengue dominicano; e o surdo dobrado. “A grande influência de todas as bandas de pagode, originalmente vem da Timbalada, criadas por Brown e adaptada por mim”, completa o líder do Psirico.

Escola de artistas

Para Márcio Vitor, a Timbalada não só abriu as portas, como mostrou as possibilidades que a música pode proporcionar. “Na Timbalada eu aprendi que o timbal transforma vida de pessoas, assim como transformou a minha”. Ele ressalta que foi através do instrumento que aprendeu a lidar com o mundo. “O timbal me formou como pessoa, aprendi a lidar com o mundo. Geralmente buscamos esses aprendizados nas escolas, mas o timbal por incrível que pareça também nos ensina. Eu falo que aprendi geografia e história viajando o mundo pelas mãos de um instrumento”.

Márcio foi um dos percussionistas que ainda criança teve início no grupo do Candeal. Ele integrou a banda mirim, com timbales menores. Além dele, muitos outros percussionistas se iniciaram ou passaram pela banda em seus 30 anos. Nomes que deslancharam em carreira solo ou com outros projetos, como Gustavo d’Dalva, Mamma Soares, Japa System (que lançou seu primeiro trabalho solo recentemente), Marquinho da Luz (que foi parar no Cirque du Soleil), os gêmeos Dú e Jó (que tocaram com Gilberto Gil e Caetano Veloso), Léo Bit-Bit, Boghan Costa, Cara de Cobra, entre vários outros.

Mas a história da Timbalada não é formada só por percussionistas, vários vocalistas passaram pela banda e deram cara para as várias fases do grupo. Normalmente, eram mais de um ao mesmo tempo, com origens e de tipos diversos, e que acabavam trazendo suas próprias referências e influências à musicalidade da banda.

A primeira formação contava com Ninha, Patrícia Gomes, Xexéu mais à frente, além de Augusto Conceição, Denny, Alexandre Guedes e Fialuna. Em seguida, a fase mais marcante, com o trio original Ninha, Patrícia e Xexéu. Na sequência, foram várias mudanças e formações. Se alternaram à frente do grupo nomes como Amanda Santiago, Juju Gomes, Akira Takakura, Millane Hora e uma fase recente com Denny sozinho como vocalista. Desde 2017, a banda ganhou uma nova formação, voltando a ter três vocalistas, agora os jovens Buja Ferreira, Paula Sanffer e Rafa Chagas.

Novos Horizontes

Parada devido à pandemia, a Timbalada não promoveu comemorações para marcar os 30 anos. A banda, porém, continua na ativa e planeja seguir como uma das forças criativas da música baiana e promete novidades. “Queremos lançar novas músicas, fazer shows, correr o mundo e dar a volta no Guetho. Seguimos criando e estudando”, afirma Carlinhos Brown.

Segundo ele, a Timbalada não deixa de existir porque, acima de tudo, é um movimento que cresceu percussivo e se fortaleceu como modelo de desenvolvimento artístico. “As organizações não param, os projetos estão aí sendo escritos e correndo atrás de acontecerem, mas também temos toda espiritualidade do tocar dos tambores a ser respeitada em seus tempos. Temos licenças a pedir. Temos de aceitar os momentos em que é preciso silenciar também. Apurar as escutas, tentar mostrar as potências e levar essas potências pro nosso público de novas maneiras”.

Matéria na TV francesa sobre a Timbalada e o Candyall Guetho Square em 1997.
Arrastão da Timbalada no Carnaval de 1998.
Timbalada toca “Margarida Perfumada” na TV Manchete em 1996.

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