Feats Gaby Amarantos

Feats: Tendência que veio para ficar

Mercado vive chuva de parcerias que se multiplicam e abarcam literalmente todos os gêneros; das 100 mais tocadas do Spotify, 40 são colaborações entre artistas

Por Luciano Matos – publicado originalmente no site da UBC

Os feats parece que vieram mesmo para ficar. Pelo menos é o que indica a enxurrada de novos singles no formato que foram lançados recentemente. Prova disso também é que em 2020, entre as 100 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras, 20% trouxeram encontros entre artistas. No Spotify, esse número é ainda maior, cerca de 40% das 100 mais tocadas no Brasil possuem algum tipo de feat.

A ideia de dividir faixas com convidados, seja dentro de álbuns ou em singles, tem ficado cada vez mais comum nos diversos ambientes da música. Do pop ao experimental. Quem, por exemplo, pelo menos não ouviu falar de ‘Me Gusta’, faixa que juntou Anitta, a rapper Cardi B e o porto-riquenho Myke Towers?

Reunindo artistas que trafegam ou não pelo mesmo gênero musical, os feats possibilitam também diálogos inesperados e, muitas vezes, surpreendentes. Dá pra lembrar, por exemplo, de Gal Costa, que se aproximou do sertanejo em 2018 numa gravação com Marília Mendonça. Seja para conquistar o público dos parceiros de gravação ou para abrir possibilidades artísticas, os feats têm mostrado que continuam mesmo com tudo no mercado.

A cantora Gaby Amarantos é uma das que melhor sabem utilizar a ideia dos feats. Em seu álbum de estreia, ‘Treme’, de 2012, ela recebeu Dona Onete, Gang do Eletro e Fernanda Takai, essa última uma estranha no ninho do technobrega. Recentemente, a paraense soltou novos feats, agora com Duda Beat e Jaloo. O mais novo é uma aposta ainda mais curiosa. Antecipando seu novo álbum, Gaby lançou “Vênus em Escorpião”, que conta com o veterano Ney Matogrosso e a jovem cantora mineira Urias.

Gaby sinaliza que neste seu novo trabalho vai receber muitos outros convidados. Alguns deles em lugares diferentes daqueles a que estamos acostumados. “Gosto disso de trazer uma pessoa inesperada e provocar uma reação na galera. Tirar o artista do nicho, do estereótipo em que se coloca. Acham que ela só pode cantar isso? Deixa chamá-la pra fazer outra coisa então”, pondera.

Para a paraense, os feats acabam sendo algo positivo para todo mundo. “É muito bacana a gente ter essa união de forças. Eu faço, por exemplo, feat com artistas que têm um outro público, aí esse outro público tem a oportunidade de conhecer o meu trabalho, e eu também abro o meu público a esse artista.”

A pernambucana Duda Beat é outra que tem caprichado no feats e defende o formato: “Eu acredito muito na potência do coletivo, de criar em conjunto.” Sua lista é vasta. Já cantou com Tiago Iorc, Rashid, Jaloo e Lucas Santtana. Em 2020, lançou o single “Não Passa Vontade”, com a dupla Anavitória, e recentemente soltou um EP em dueto com Nando Reis.

Para ela, existem várias razões para produzir essas parcerias. “Acho que é uma maneira de nós, como artistas, conhecermos mais outros ritmos, outras sonoridades. É uma forma de aumentar nosso repertório e experimentar coisas novas também”, diz. “Para mim, cantar com outros artistas é ter essa troca, seja em músicas minhas ou em músicas a que sou convidada.”

Duda concorda também que os encontros são uma maneira de aumentar o público e de explorar novas sonoridades. “Cada vez mais os artistas não se definem por apenas uma coisa, e os feats mostram que somos artistas plurais, que não precisamos necessariamente cantar um ritmo só.”

A lista de feats pelo Brasil dão uma mostra dessas possibilidades. Dentre alguns mais recentes, estão o que reuniu a banda Francisco el Hombre e o cantor Sidney Magal. Outro juntou a banda de reggae Natiruts com a cantora Lucy Alves. A cantora lançou outro recentemente a lado da banda Selvagens à Procura de Lei. O rapper Edi Rock recebeu o vocalista da Nação Zumbi, Jorge Du Peixe, na música “Vai”. Já Nando Reis dividiu vocais com Ana Vilela em “Laços”, homenagem aos profissionais de saúde durante a pandemia.

Rael também tem promovido parcerias singulares. Seu último trabalho, o EP “Capim-Cidreira”, traz faixas com participação de Iza e Melim. Ele aparece ainda em músicas com artistas que vão de Vitão e Turma do Pagode a Emicida e Don L.

Não são apenas os artistas novos, porém, que seguem essa tendência. A veteraníssima cantora Elza Sores tem soltado alguns feats, seja em seus discos ou singles. Só em 2020, ela apareceu cantando com MC Rebecca, Titãs e Flávio Renegado. Sem falar em outras parceiras anteriores com BaianaSystem, BNegão e Edgar.

Há ainda os feats em outros formatos. Como os impulsionados pela produtora Kondzilla, que aposta em diversos feats em seu canal de vídeos. Caso de MC Kekel e MC Don Juan, Matheuzinho e Menor Nico. “Eterna Sacanagem”, uma parceria entre MC Jottapê, MC Kekel e Kevinho, é um sucesso, figurando entre as 100 mais tocadas no Spotify no ano passado.

Na mesma linha, a produtora GR6 divulga seus 250 artistas através de vídeos em seu canal. Um dos maiores sucessos é “Ilusão Cracolândia”, um feat com MC Hariel, MC Davi, MC Ryan SP, Salvador da Rima, Alok e Djay W. Em dois meses, o vídeo já ultrapassou a marca de 128 milhões de visualizações.

Se as parcerias e encontros entre artistas não são uma novidade na música, parecem estar longe também de ser uma moda passageira. Seguem fazendo sucesso e arrebanhando o público. Como diz Gaby Amarantos, “é uma fórmula muito potente. Tenho certeza de que vai ficar pra sempre.”

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