Conheça o ajuntamento musical Cabokaji e confira faixa a faixa de seu álbum de estreia

Formado pelos cantores, compositores e pesquisadores de arte Caboclo de Cobre, ISSA, Mayale Pitanga e Ejigbo Oni, o ajuntamento musical baiano Cabokaji apresentou no final de outubro o projeto Original Caboks. A iniciativa inclui diversas ações, incluindo o álbum de estreia e uma turnê virtual por quatro estados nordestinos. Com uma proposta de valorizar a herança dos povos originários com um olhar de reparação social, patrimonial, histórica e ambiental, o grupo apresenta uma mescla de referências, numa exaltação das belezas afro-indígenas e inspirações no universo afro-brasileiro.

O resultado reúne candomblé caboclo, dance hall, pisadinha, groove arrastado, guitarradas, funk, brega funk, côco, rock, manifestações nordestinas como baião, maracatu, toré, rojão, além da cultura cosmopolita soteropolitana. Tudo isso com uma produção musical contemporânea calcada na eletrônica.

Outra base da proposta do grupo é o discurso pautado no “sorriso como ferramenta política e a dança como processo de cura”. O projeto é resultado de dois anos de atividade do grupo e das vivências e contatos com ajuntamentos indígenas.

A turnê por espaços culturais teve início na Casa Preta em Salvador (BA), no dia 30 de outubro. Em seguida, passou  pelo Omiró Casa De Mar, em Aracaju (SE), no dia 6 de novembro. Agora, segue para o Quintal Cultural, em Maceió (AL), no dia 13 de novembro; depois o Bongá Xambá, em Olinda (PE), no dia 20; se encerrando no dia 27, novamente na Casa Preta, em Salvador.

Os shows serão transmitidos pelos canais de cada espaço no Youtube. O grupo também vem realizando, desde julho até 10 de agosto, as vivências Cabokaji em Tos’nese com as aldeias Xucurus-Kariris e Fulni-ô, em Salvador (BA) e Águas Belas (PE). 

Outro produto que integra o projeto é um curta experimental, documento do processo de construção dos shows, videoclipes e um minidoc, como recursomemória do resgate à ancestralidade afro-ameríndia. O impulso pra essas produção são “as insatisfações com o sistema capitalista estéril e racista que distancia o povo brasileiro de sua verdadeira história”. Finalmente, o projeto também a revitalização da Rádio Educativa Cultural Fulni-ô FM, que abriga o maior acervo do “Ia-Tê”, língua original da Aldeia Fulni ô.

O Cabokaji foi selecionado pelo edital Natura Musical, por meio da lei estadual de incentivo à cultura da Bahia (FazCultura), do Governo do Estado da Bahia.

Ouça o álbum do Cabokaji e confira o faixa a faixa

Chegança
“Chegada e partida, início e fim, o contorno do ciclo e o encontro. ‘Chegança’, canção que abre o disco, é uma saudação à ancestralidade indígena e afro-pindorâmica, revelando a beleza dos Caboclos e Caboclas, evocando o encanto e as forças da natureza, provocando no corpo a sensação de leveza através da dança e do sorriso. Salve o Couro, salve a Concha, salve a Pena.”

Jurubeba
“Já “Jurubeba’, que vem em seguida, propõe um mergulho dançante na cultura nordestina, no jeito humilde/humano de um povo que sofre tanto com a falta de água, sabedoria de uma gente que parece conversar com a natureza, extraindo das plantas conhecimentos e fundamentos, ampliando os horizontes e expandindo os entendimentos.”

Gameleira
“Em seguida vem ‘Gameleira’, faixa que saiu como single no último dia 10 de setembro. Durante a pesquisa para o álbum, poucas e raras referências do sagrado feminino apareciam no caminho, e por vezes informações empoeiradas. Assim brota esta composição, com vontade de falar, sentir e fazer reverberar o Feminino. O feminino sagrado que nos gesta e dá vida, e o feminino humano que desperta paixões e encantamentos humanos.”

Acredite
“‘Acredite’ é a quarta faixa do álbum. Em um tempo de polarização e extremismo, esta canção propõe encarar a cura através do afeto, o sorriso como ato político, o abraço bênção para abertura dos caminhos. Extrair os pesos, respirar, olhar pra fora e escutar as vozes ancestrais que vem de dentro.”

Flecha
“O álbum segue com ‘Flecha’. Fazer é estar sempre em movimento e um Caboclo vem para fazer algo, o trabalho é a condição central de sua existência e o objetivo de seu trabalho é a cura, seguir como flecha, seja na mata ou na cidade, a vida existe e não para. Respira, espera, atravessa o verde e vai com fé.”

Paupereiro (Natural Caboks)
“Já ‘Paupereiro (Natural Caboks)’, sexta faixa do álbum, feat com a MC Katumiri, é uma suingueira protesto, buscando questionar o congelamento do estereótipo indígena pautado em registros étnicos do século 16, rompendo com esta estrutura e estabelecendo uma troca mais justa, na qual a comunidade indígena após grande contribuição histórica e cultural questiona o porquê não podem ter acesso às tecnologias ocidentais.”

Onça
“Logo depois vem ‘Onça’, registro ancestre que passeia pela crença de como a natureza e seus encantamentos podem criar processos muitas vezes incompreensíveis. Que para certas culturas servem como meios pedagógicos, a natureza diretamente ligada à formação dos indivíduos, baseada em vivências extraordinárias e mágicas.”

Opanijé-Awê
“Se encaminhado para o final do disco vem ‘Opanijé-Awê’. Com referência no Orixá Omolú (Obaluaê), vibrações rítmicas conduzem uma reconexão, música ritual de integração entre humanos e a Mãe Maior, a Terra. Através do senhor da Terra, o Cabokaji toca e canta para falar de saúde, de doença e de cura. Não existe cura sem a Terra e sem se conectar a ela não existe futuro para a humanidade.”

Côco Fulni-ô
“‘Côco Fulni-ô’ é a penúltima faixa do álbum. Como fruto da pesquisa em vivência profunda com a comunidade Fulni-ô, o ajuntamento musical se deparou com uma manifestação cultural pertencente a esta etnia. Em momentos de festejo e alegrias é o Côco Fulni-ô que reverbera no terreiro. Ritmo pouco pesquisado ou falado no âmbito musical, com célula rítmica similar ao samba.”

O Cocal
“Para culturas de movimentos tradicionais, a cabeça é onde reside nossa memória ancestre, sendo ela um depositário de heranças, riquezas e belezas, um portal de comunicação. “Aprendemos com Cacique Idyarrury que o cocar é o instrumento que permite a abertura deste portal, o cocar é a casa que abraça e abriga os nossos encantos, elevando nossos pensamentos e nos possibilitando contato com o universo, com o todo, com os nossos, e consigo mesmo”, conta Caboclo de Cobre.”

O álbum ainda conta com faixas bônus ancestrais, distribuídas em transições dramatúrgicas e sinestésicas. Essas faixas contam com composições milenares, que integram rituais praticados pelos povos XUCURU-CARIRI e FULNI-Ô. Os “parentes” Cacique Idyarrury e Idyarony, da Aldeia Xucuru-Cariri, fazem participações especiais em Cocal, Onça, Côco Fulni-ô, Chegança e Acredite.

 

 

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