Os sucessos do Carnaval baiano que são versões e você nem sabia (pt. 3)

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No mundo da música é normal termos regravações ou versões que fizeram mais sucesso que a original. Algumas dessas versões seguem a risca a ideia de quem compôs, outras só aproveitam trechos ou partes inteiras, outras gravam e nem informam que se trata de uma versão. Dentro do Carnaval baiano, vários sucessos estão dentro desse universo, são versões de músicas caribenhas, clássicos da América Latina, de forró, de sucesso paraenses e até de rock dos anos 1950. 

Em 2015, fizemos uma matéria, que rendeu bastante, apontando sucessos do Carnaval baiano que são versões e você nem sabia, tinha, por exemplo, o maior hit da banda Filhos de Jorge, uma deliciosa faixa do segundo disco da Timbalada, um dos maiores sucessos do Carnaval baiano gravado pela Banda Eva, um clássico de Gerônimo, entre outras.  Em 2020, fizemos outra matéria com mais versões surpreendentes, incluindo um sucesso de Ivete Sangalo, outro de Carlinhos Brown, um clássico de Luiz Caldas, outro do Asa de Águia, além do hit “A Bomba”.

Mas não acabava ali, continuamos cavando e descobrimos outras músicas bem conhecidas do Carnaval que também não são originais. As versões famosas na festa tem origens diversas e mergulhamos nessa brincadeira de desvendar de onde vieram esses sucessos.

CONHEÇA AS VERSÕES:

Música de abertura do segundo álbum de Margareth Menezes, Um Canto Pra Subir, lançado no início de 1990, “Marmelada”  era a aposta da gravadora Polygram para a cantora alcançar um público maior, tanto que foi incluída na trilha sonora complementar, Lambateria Sucata, da novela Rainha da Sucata. A letra trazia versos tipicamente baianos “Marmelada, tô comendo nada” e um teor crítico abordando questões sociais brasileiras de forma livre e criativa. Assim como outra faixa do álbum, “Abra a Boca e Feche os Olhos” (Dito e Gerônimo), trazia uma sonoridade caribenha em sua base, com arranjos com marimbas e sopros.  “Marmelada” era, no entanto, uma versão de um sucesso da banda Kassav’. Vinha até com um subtítulo (“Bas Moin Laia”) que indicava sua origem em francês.  Sim, francês, já que a Kassav’ era uma banda de zouk oriunda de Martinica e de Guadalupe, departamentos ultramarinos insulares da França no Caribe. Talvez hoje não seja tão óbvio e nem todo mundo saiba, mas a música latina, especificamente a caribenha, teve muita influência no que foi produzido na Bahia entre os anos 1980 e 1990, na origem da Axé Music. Entre as diversos bandas originárias do caribe que serviram como referência, a Kassav’ era considerada por muitos como a melhor de Zouk da história e uma das pioneiras do gênero. O grupo foi formada em 1979, entre a Martinica e Guadalupe, por Pierre-Édouard Décimus e Freddy Marshall, que queriam transformar a música de carnaval de seus países em um estilo mais moderno. A canção original que foi transformada em “Marmelada” se chama “Mwen Malad Aw” (“Estou doente de você” em tradução livre) e trazia um ritmo mais lento e uma letra mais romântica. A composição de George Decimmus e Jacob Desvarieux estava presente no álbum An Ba Chen’n La, lançado em 1985. A versão foi feita por Vilator Valakiá e claramente aproveita a sonoridade da original, assim, “mwen malad aw” vira “marmelada” e o resto é história. O álbum de Margareth foi o primeiro da cantora lançado nos Estados Unidos, pela Island Records, e rendeu uma turnê pelos Estados Unidos, ao lado de David Byrne.

A versão: ‘Marmelada’ – Margareth Menezes

A original: ‘Mwen Malad Aw’ – Kassav’

Depois de se tornar uma estrela da Axé Music no comando da banda Cheiro de Amor, Márcia Freire decidiu investir numa carreira solo. Logo em 1996, ela lançou seu primeiro disco sem a banda pela Polygram, auto intitulado e que obteve bons resultados. Entre músicas de compositores já marcados por sucessos no carnaval baiano, como Dito, Jorge Zarath, Pierre Onassis e Gilson Babilônia, a cantora incluiu “Vermelho”, composição de Chico da Silva, um autor desconhecido na Bahia, mas um importante artista amazonense. A música foi a aposta do álbum, que acabou conquistando um disco de ouro, puxada pelo sucesso de “Vermelho”. A música se tornou um sucesso nacional, tanto com Márcia quanto por Fafá de Belém, que também gravou e lançou a música na mesma época. Acabou como uma das músicas mais executadas nas rádios do Brasil no ano de 1996. “Vermelho” não tinha um teor comunista ou petista, como talvez possa imaginar um radical de extrema direita da atualidade. Apesar dos versos “O velho comunista se aliançou/ Ao rubro do rubor do meu amor”, a canção não trazia uma temática política. Escrita em 1990, pelo cantor e compositor amazonense Chico da Silva, nascido em Parintins, a música foi criada originalmente como uma toada romântica, como o próprio autor já relatou. No entanto, ganhou vida própria, sendo adotada pelos torcedores do Boi Garantido, de Parintins, cidade natal de Chico. Sede do tradicional e importante Festival Folclórico de Parintins, a cidade se divide entre duas agremiações rivais, o Boi Garantido, que adota a cor vermelha, e o Caprichoso, que veste azul. A letra e melodia de “Vermelho”, inicialmente despretensiosas, caíram no gosto popular e ganharam espaço nos eventos ligados ao Garantido. Em pouco tempo se consolidou como símbolo da paixão pelo Boi vermelho. Depois do sucesso, a música música ainda foi gravada por nomes como Daniela Mercury, Elymar Santos, Arlindo Junior e Arraial do Pavulagem, além do próprio Chico, claro.

A versão: ‘Vermelho’ – Marcia Freire

A original: ‘Vermelho’ – Chico da Silva

Quem viveu no Brasil no final dos anos 1990 não passou incólume à voz potente de Tatau cantando os versos “Mal acostumado, você me deixou mal acostumado”. Gostando ou não, mesmo que intimamente, todo mundo cantou junto o sucesso da banda Ara Ketu. “Mal Acostumado” foi uma explosão nacional e ficou na 14ª posição entre as músicas mais tocadas nas rádios em 1998. Mais do que isso, foi o principal hit do álbum Ara Ketu ao Vivo, o que elevou a banda ao patamar de grandes nomes da Axé Music naquele período. Primeiro álbum ao vivo do grupo baiano, trazia outros sucessos, como “Pipoca”, “Tá na Cara” e “Pra Levantar Poeira”, mas “Mal Acostumado”, foi o carro chefe do disco. O hit foi uma das músicas mais executadas entre 1998 e 2000, foi decisiva para que o álbum vendesse um milhão de cópias e ganhasse o certificado de Disco de Diamante. A origem de “Mal Acostumado”, no entanto, não tinha nada a ver com trio elétrico e aquele ambiente do carnaval baiano. A música original foi gravada no ritmo de forró pela banda também baiana Cabelo de Fogo. Originalmente, era também cantada no eu lírico feminino, até porque era cantada por uma mulher, Meg Evans, que a compôs ao lado do marido, Ray Araújo, dupla que integrava a Cabelo de Fogo. A versão original já trazia toda a construção da música que explodiu, melodia, letras, introdução, solos e harmonia, só alterando mesmo o ritmo, de forró para um axé balada. A faixa fez tanto sucesso com o Ara Ketu, que anos depois, em 2000, o cantor romântico espanhol Julio Iglesias fez sua versão e, mais recentemente, em 2020, foi relembrada pelo cantor Péricles, numa regravação em ritmo de pagode.

A versão: ‘Mal Acostumado’ – Ara Ketu

A original: ‘Mal Acostumada’ – Cabelo de Fogo

Essa traz mais uma vez (veja as matérias anteriores) o músico, percussionista, compositor e cantor Carlinhos Brown, agora numa parceria com Mateus Aleluia. A música “Maimbê Dandá”, gravada e conhecida na voz de Daniela Mercury foi lançada em 2004 no álbum Carnaval Eletrônico. A faixa se tornou um sucesso e é das mais tocadas pela cantora até os dias atuais. Sua origem vem da salsa “Sun Sun Babae”, do pianista cubano José Curbelo. Ela foi gravada por José Curbelo and His Orchestra e lançada no disco Wine, Women and Cha Cha Cha, em 1955. José Curbelo foi um pianista e empresário cubano-americano, mais do que isso, uma figura-chave do jazz latino na Nova York da década de 1940, por popularizar o Mambo e a dança cha cha nos anos 1950. Ele escreveu diversas canções  marcantes nessa época. Entre elas está “Sun Sun Babae”, que ganhou diversas outras gravações de nomes como Celia Cruz, Tito Rodriguez, entre outros. Uma música dos anos 50 pode ter tranquilamente ficado na mente de Brown ou seu Mateus na infância e anos depois eles compuseram e saiu espontaneamente algo bem parecido. Podemnão ter lembrado, achando que estavam criando algo totalmente novo. Ou podem também ter copiado e achado que ninguém ia perceber.

A versão:‘Maimbê Dandá’ – Daniela Mercury

A original: ‘Sun Sun Babae’ – Jose Curbelo

Este é um dos casos de versões mais óbvias que são cópia e difícil acreditar que não houve em má intenção. Não só a música em si remete à original, como a palavra principal da letra e título faz alusão direta à canção “inspiração”. O pagode “Perna Bamba” foi lançada em 2023 por Léo Santana e Parangolé e alcançou enorme sucesso. Curioso é que foram necessários oito autores (Batidão Stronda, Breno Major, Gabriel BK, Gabriel Cantini, Lucas Medeiros, Newton Fonseca, Shylton Fernandes e Tinho WT) para reproduzir uma versão de um dos maiores sucessos do rock. É quase impossível não conhecer “La Bamba”, hit dos anos 1950 com o cantor e compositor americano de ascendência mexicana Ritchie Valens. A música é na verdade uma canção folclórica mexicana, com registros que remetem a 1938. Valens fez uma versão roqueira e alcançou muito sucesso, em 1958. Nos anos 60, a música voltou a estourar com o cantor norte-americano Trini Lopez.  Décadas depois, mais precisamente em 1987, a música voltou a fazer sucesso numa versão com a banda Los Lobos, graças ao filme ‘La Bamba’, que contava a trágica trajetória de Ritchie Valens, que morreu em um acidente aéreo. Nos anos 90, a canção ressurgiu nas paradas na voz da cantora tejana Selena. O assustador é que mesmo com tantas versões e a enorme semelhança, não há qualquer tipo de crédito ou menção em “Perna Bamba”, mesmo sendo uma clara versão (ou ao menos grande inspiração) de uma outra música bastante conhecida.

A versão: ‘Perna Bamba’ – Parangolé e Léo Santana

A original: ‘La Bamba’ – Ritchie Valens

Apesar de ser um gênero muito criativo, o pagode baiano, pagodão, ou como queiram chamar, vem demostrando poucas alternativas criativas nas letras e melodias. Depois de Léo Santana emplacar uma versão não declarada de “La Bamba”, em 2023, três anos depois uma das maiores apostas do pagode em 2026 é “Panamera”, interpretada por Tony Salles. A música também é assinada por um time de compositores: Matheus ALK, Riquinho da Rima, PG do Carmo e Lourival no Beat. A letra fala de uma garota que gosta de “bagaceira” e de “sentadeira” no banco da “Panamera”, um modelo de carro da Porsche.  A Assim como “Perna Bamba”, não há qualquer referência à música original nos créditos, mas é impossível não perceber de onde vem a canção. O ritmo e melodia vem de “Guantanamera”, uma das músicas latinas mais famosas da história. Além, é claro, da infame rima na troca da letra, substituindo “Guantanamera” por “Panamera”, e dando um tom radicalmente diferente à música. O clipe também entra no clima caribenho, mas é só. A original é uma das mais célebres da música cubana, fazendo parte de um gênero musical muito popular nos campos de Cuba: a guajira ou punto cubano. Um gênero que traz forte influência branca e espanhola misturada com os ritmos dos filhos de espanhóis nascidos na América, os criolos. Não se sabe exatamente a origem de “La Guantanamera, apenas que é uma manifestação folclórica do povo campesino na cidade de Guantánamo. O nome se refere a mulher nascida em Guantánamo, província do sudeste de Cuba e, sim, aquela mesma cidade da prisão militar norte-americana. Segundo estudiosos, o primeiro a cantar e gravar a música foi Joseíto Fernández, conhecido trovador havaneiro. Cantador de guajiras, ele disseminou “La Guantanamera” em Cuba num programa de rádio da década de 40, chamado La Guantanamera. Ele teria sido o primeiro a cantar e gravar a Poesía I dos Versos Sencillos, publicados em 1891 por José Martí, com a melodia de La Guantanamera. No entanto, Joseíto Fernández não foi responsável pela melodia nem com o texto da La Guantanamera como conhecemos atualmente. Outros dizem que a incorporação de alguns versos dos Versos Sencillos deve-se a uma versão do compositor espanhol Julián Orbón (1925-91). Mas o que se convencionou, inclusive nos sistemas de buscas de direito autoral, é que a autoria é de domínio público e de Joseito Fernandez. Umas das gravações mais conhecidas é 1963 com o grupo Sandpipers e pelo cantor cubano Compay Segundo. No Brasil, foi regravada por vários grupos, como Tarancón e Raíces de América.

A versão: ‘Panamera’ – Tony Salles

A original: ‘Guantanamera’ – Joseito Fernandez

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