Pagodão retrô: volta de Edcity ao Fantasmão reforça fase nostálgica do gênero

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Turnê comemorativa do Fantasmão se junta a retomada do Pagod’art, além de projetos e shows de Léo Santana e Márcio Vittor como iniciativas de rememoração do pagodão baiano.

Por Ícaro Lima

A grande quantidade de pessoas que comemoraram o retorno do cantor Edcity à banda Fantasmão para uma turnê comemorativa é prova da existência de um sentimento que tem ganhado espaço no pagodão: a saudade.

Somente a primeira publicação desse projeto, feita no último dia 16 de setembro, já conta com mais de 1 milhão de visualizações no Instagram. Nos comentários, milhares de perfis festejam, de maneira nostálgica, a reedição de um dos principais grupos da música baiana.

Essa celebração chama atenção dada à fase atual do pagodão, caracterizada por uma maior influência do trap e do funk, com foco em coreografias verticalizadas e letras mais distantes de temas reflexivos. 

Paralelamente ao sucesso dessa vertente do gênero, destaca-se a presença de fãs que defendem o retorno do que chamam de pagodão “raíz”, tendência que tem sido captada pelos artistas. 

Outro exemplo recente de resposta a esse público veio de Léo Santana, que na apresentação feita no Afropunk Salvador 2024 escolheu um repertório baseado em antigas músicas do Parangolé, grupo que o fez explodir nacionalmente. O resultado foi vários pedidos dos fãs para que seguisse relembrando essa época. E ele atendeu.

Em janeiro deste ano, no show do tradicional Baile da Santinha, foi além: enfileirou sucessos antigos vestido com um figurino inspirado no utilizado no famoso DVD Dinastia Parangoleira, lançado em 2008.

A mistura entre o antigo e o moderno também pode ser observada diretamente em uma música. No último dia 12 de setembro, a banda Pagod’art, que desde 2021 conta com o retorno do cantor Flavinho, lançou, em parceria com Beto Jamaica, do É o Tchan, a canção ‘Nostalgia pagodeira’.

“Tem gente que gosta do naipe, tem gente que é só quebradeira, com churras e cerveja eu faço meu samba de mesa”, diz o início da letra.

Na versão disponibilizada no canal da banda no YouTube, é possível ainda ouvir a dupla cantar duas músicas marcantes da primeira passagem de Flavinho pelo grupo: “Abaixou, levantou’ e ‘Caldeira”.

Quem também entrou nessa onda foi Márcio Victor, vocalista do Psirico, que anunciou no último dia 6 de outubro o lançamento de uma coletânea de pagodão construída ao lado de artistas de várias gerações do gênero, como Xanddy Harmonia, Igor Kannário e O Poeta.

No vídeo do anúncio, prints de comentários dos fãs confirmam o desejo por um projeto desse tipo: “Que o pagodão volte a reinar”, “Márcio resgatando o pagodão das antigas” e “A Bahia sente saudade dessa essência” são alguns deles. 

O PASSADO RETORNA
Essa rememoração é um fenômeno mundial. É o que destaca a pesquisadora musical Francini Ramos: “A gente tem voltado, tanto em moda, quanto estética, quanto sonoridade. No R&B, no hip-hop, no pop. Isso também ocorreria com a indústria do pagode porque ela acompanha isso”. 

Francini defende também que o retorno do Fantasmão representa novas oportunidades de reflexões a respeito de temas sociais. 

“Aquele fortalecimento que ele traz sobre a galera da favela, sobre jovens, é o que a gente pensa muito. A violência está grande na Bahia. Uma volta do Fantasmão toca nesse lugar dos jovens, em uma conscientização. Em 2007, a Bahia estava uma loucura também, e quando o Fantasmão veio foi aquela energia. Todo mundo queria seguir. Todo mundo começou a conscientizar”, afirma. 

Para a pesquisadora, um dos principais efeitos dessa leva de projetos que relembram outras fases é oferecer mais diversidade para a cena, com a garantia da coexistência de várias vertentes, sejam elas focadas em curtição ou geradoras de debates:

“A diversão também é política. Acho que, sim, o jovem tem que ‘quebrar’. Como dizia Robyssão: ‘ralar a tcheca no chão’. Eu não preciso estar sempre tendo que ser sério, de forma que eu tenha que criar uma teoria em cima daquela música, sabe?! Às vezes, a gente só quer curtir. E se divertir nesse sistema tendo os recortes de raça, de gênero, de classe já é muito. Só de eu me movimentar para estar em um paredão e dançar já é uma manifestação”, diz.

GERAÇÕES
Esse movimento desperta entusiasmos ao passo em que também proporciona descobertas. Para o entregador por aplicativo Levi Reis, de 34 anos e que ouve pagodão desde os 10, esse momento era esperado. 

“Essa retomada era inevitável porque esse pagode que vem dominando tem um teto. O que está acontecendo com o naipe e todo esse movimento mais novo é isso: uma limitação de algo que é grandioso que poderia ser muito maior porque a história já mostrou que é um ritmo muito forte, muito poderoso. Muita gente vinha sentindo essa necessidade da volta”, diz.

Levi considera que é possível que esses projetos influenciem os artistas atuais, já que muitos elementos explorados nas décadas passadas podem ganhar novos espaços. 

“Se a gente ouve, por exemplo, o CD do Prakatá ao vivo na Marina da Penha, de 2005, dá para perceber que ele é muito atual. Assim como o CD Psirico – O furacão da Bahia, de 2003, e álbuns do Selakuatro, Saiddy Bamba, Pagod’art, Oz Bambaz…”, relembra.

Álbuns lançados entre 2000 e 2010 estão entre os mais relembrados pelos fãs antigos – Crédito: redes sociais

Já para o universitário José Norberto Faleta Neto, de 19 anos, esse cenário se apresenta como um ambiente a ser descoberto. Ele é fãs de artistas que compõem uma safra mais recente do pagodão, como Igor Kannário, Oh Polêmico, O Kannalha e Malafaia.

“Não cheguei a acompanhar a época de Edcity no Fantasmão, mas acredito que essa volta tem tudo para ser marcante para as novas gerações. Hoje, o pagodão vive uma fase muito forte nos bloquinhos e festas de rua, e isso é justamente o que mais chama a atenção da juventude. Querendo ou não, o público também gosta quando a música conversa com a realidade que vive. Encaro essa fase como uma renovação do público e, ao mesmo tempo, um fortalecimento do nosso gênero musical”, diz Neto. 

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