Discos: O mundo bem perto de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro em ‘Handycam’

Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro -foto helena ramos @helenaramos21
Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro - Handycam
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A dupla Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro se reúne após o compacto “NOVA ERA/OHAYO SARAVÁ” para um primeiro disco colaborativo, lançado via Selo RISCO, repleto de amores e angústias de um Brasil e mundo contemporâneo.

por Pedro Antunes de Paula

Numa remota quinta-feira, dia 19 de dezembro de 2024 como anotado aqui na agenda, o compositor e vocalista da banda Tangolo Mangos, Felipe Vaqueiro, havia me convidado para uma especial ocasião: pela primeira vez em Salvador, ele iria apresentar seu novo show solo, nomeado “Dando Nome aos Bois”. Na ocasião, o convite intencionava minha escrita sobre a apresentação, desejo esse que não foi realizado por este jornalista que vos fala por incompetência de tempo. Besteira. Sabia que as meias palavras escritas não descansariam no buraco digital que um computador pode ser.

Sabia, porque a própria Tangolo começava a rodar o Brasil e Vaqueiro já começara a ganhar novos ares. Em algum momento, retomaria aqueles pensamentos porque o crescimento dos meninos e de Vaqueiro era inevitável. Mesmo que inconscientemente, relacionaria tudo o que apreendi naquele dia aos novos caminhos.

Uma grande surpresa foi a de que retomaria a partir de um disco colaborativo, lançado nesta quarta (01/10) e nomeado Handycam,trabalho de Felipe com a cantora e compositora paulista Sophia Chablau, conhecida ao lado de sua banda Uma Enorme Perda de Tempo. Apresentando canções dos dois compositores, o trabalho conecta, distingue e completa a obra de ambos. Parto, inicialmente, da obra de Felipe porque muitas dessas canções foram apresentadas naquela quinta remota de 2024.

Dando nome aos bois

O show daquele dia estava repleto de amigos e pessoas importantes que acompanharam a trajetória de Felipe ao longo de toda a vida, mas havia uma áurea diferente, talvez de estrela para alguns fãs presentes. Pode ser por certo vira-latismo, ver Vaqueiro nas terras paulistas, com gente importante da cena alternativa brasileira – como a própria Sophia -, deu, para alguns, verdadeira importância de artista – mesmo Vaqueiro sendo desde neném. Ao voltar para Salvador tudo parece mais concreto. Num pior dos sentidos, é uma pena Felipe precisar sair para o reconhecimento em sua própria cidade. Noutro, muito melhor, cada nota e palavra que Vaqueiro proferiu foi ouvida atentamente.

É engraçado o alvoroço porque sempre foi muito nítida a capacidade de Felipe em construir peculiares histórias a partir de sua vivência. Uma intimidade parece ter tema em sua composição na medida em que traz muito de sua própria vida para as canções que apresentou na ocasião, e a quantidade de pessoas de seu carinho e de sua história tornou o momento ainda mais emocionante. Se não me falha a memória, “Campo minado”, “Buracos” e a especialíssima “Já não me sinto tão só” já apareceram nessa performance que rolou até lágrima caída – inclusive pelo autor desse texto aqui.

Aos poucos, essas e outras canções que Vaqueiro apresentava ali delineavam muito bem sua articulação própria que aponta para obras como a de Arnaldo Antunes, pela poesia lúdica, cotidiana e popular; as melodias curvas e singelas à lá Moraes Moreira; além da miudez de João Gilberto, o desprendimento de Tom Zé e a grande liberdade d’Os Saltimbancos. É por todo esse caminho estético que, apesar de inesperada, muito sentido se constrói na sua colaboração com Sophia.

A compositora, pela crueza das montagens de palavras, pela honesta, imanente e imediata história, consegue entregar canções muito vívidas e potentes, contraste muito interessante aos caminhos de Felipe. A intimidade de que falei também aparece na escrita de Sophia, seja pelo tema recorrente do amor e desejo, seja pela indignação em relação à algumas histórias correntes do mundo à nossa volta.

Imagem crua e um cinema nosso

Existe uma grandissíssima questão sobre a autenticidade da imagem. Dela imana uma espécie de realidade. Sabemos que é apenas mais uma das mediações que atravessa nossos sentidos, mas, ao contrário do próprio olhar, possui um valor de registro: permanece no tempo como objeto de linguagem a ser acessado ad infinitum (teoricamente), mais organizada que a memória em nossas cabeças.

Esse papo sobre imagem está no próprio título do disco, Handycam (câmera de mão, em tradução livre) que aponta, segundo os artistas, a um “tipo de gravação de baixo custo que muitos jovens conseguem registrar seus amores e amigos, mas também guerras, ataques, resistência, momentos íntimos e coletivos – ou até mesmo produzir videoclipes e filmes independentes”. Existe aqui uma associação entre a apropriação da imagem como espelho de vida, maneira objetiva de compreender representações e sua potencialidade de ação no interior delas mesmas.

Poeticamente, essa perspectiva possui muito força, sobretudo, por uma potência que as canções de Sophia e Felipe têm de ressoar com as angústias que temos contato nesse mundo capenga e tardio. Essa ideia se faz valorosa ainda na medida em que a produção de imagens (ou canções) por parte da dupla tem endereço: as mãos que seguram essa câmera vêm de um Brasil da América do Sul. A diferença, com isso, é que partem de um lugar cultural para desenhar figuras e montar discursos com remetente. É honesto, neste caso, e acredito ser muito mais reação do que outros trabalhos da chamada “Nova MPB”, higienizada e fantasiosa por demais.

O cinema que a dupla monta tem boa surpresa em se associar, direta ou indiretamente, à obras e estéticas de uma tradicional música brasileira, mas a atualiza de forma muito refrescante. Há, neste caso, historicidade. O próprio rock de Sophia, pela personalidade que é, já energiza e transborda alguns dos clichês do gênero, trazendo a sujeira da cena alternativa, e cresce ainda mais em dinâmica com suas canções mais singelas, como “Cinema total” e “Tempestade de Verão”.

Nesse sentido, o disco trafega por entre as brechas que a própria música brasileira deixa para com expressões enérgicas, mas a dupla não furta em cair de cabeça em samba-rocks na abertura “Lungs full of air”, nas proximidades de bossa-nova/samba que remetem à João Gilberto e Moraes Moreira em “Buracos”, e aquele violão de nylon com melodia sofisticada em “Campo Minado”.

A escrita é um ponto muito alto do trabalho já que, apesar da sinergia, os estilos dos dois compositores são distintos. Sophia tem algo de muito cru, e parece dizer aquilo que, às vezes, não se tem coragem. Por isso, costumo dizer que Sophia confessa. “Cinema brasileiro” é o maior exemplo de sua forma. Ao associar o “cinema brasileiro”, um objeto de admiração, com o desejo por uma mulher, embaralha os referentes assim como nossa mente: “O cinema brasileiro está pegando fogo / e eu estou pegando fogo pelo cinema brasileiro […] E o cinema brasileiro é foda pra caralho / e eu estou fodendo o cinema brasileiro”. A força de sua escrita, entretanto, vem daquelas coisas que dizemos só para nós mesmos, e que Sophia o diz sem vergonha: E eu estou apaixonado por uma menina / ela também é do cinema brasileiro / E eu beijaria o set inteiro, só pra disfarçar”.

Outra desse mesmo caráter é “Viciado em carinho”, que traz um drama de afeto – “Eu não quero muito / Só quero o tempo todo / Ser o seu assunto” -, além de “Tempestade de Verão” – “Se você me deixar nunca mais eu canto um dó / Nunca mais eu tenho dó de ninguém / Nunca mais eu tomo sol por aí”. Sophia, é claro, não se furta de sua habitual e agressiva contestação como na nona faixa: “Bomba de gás, mísseis e mais / Quantos serão no final?”. Mesmo em canções mais lentas, Sophia mantém uma energia contida, e que transborda emocionalmente.

Vaqueiro, por outro lado, localiza sua intimidade em outro lugar. “Já não me sinto tão só” é grande destaque pela doçura e construção de momentos – “A festa, a aula, um som na sua casa”, e que contrasta muito bem, por exemplo, às indagações de “Campo minado” – “Não fazem questão / De lembrar que essas bombas não nascem do céu e nem brotam do chão” – tensão semelhante às propostas de Sophia. Sua obra, por hora, repousa em um conforto caseiro e de memória, que por ludicidade e leveza, rememora um caminho muito específico e precioso da música brasileira. Ao mesmo tempo que é recheado de memória, singelo e ingênuo (no melhor dos sentidos), recorta e cola referências de uma forma muito contemporânea.

Outra camada interessante é o uso do inglês como língua-prótese do nosso português, o que localiza ainda mais o registro e religa histórias a partir de uma perspectiva de reapropriação de linguagem, quase como traduzimos gêneros musicais em nossa própria expressão. Assim, mesmo quando não se mistura palavras inglesas e brasileiras – “Don’t feel so só” – nos versos, é quase como se ainda estivessem falando nossa própria língua, só que de um jeito diferente. É justamente na derradeira “You never know” em que muito se choca. Melodias agudas de guitarras como Novos Baianos, com arranjo que também me remete à alguma expressão paulista entre Arnaldo Antunes e O Terno. Tudo em inglês-brasileiro. Ponte sólida.

No fim das contas, é tudo invenção, tudo pintura, tudo imagem. A própria câmera, pincelada em preto na capa, inventa um mundo novo, daqui deste tempo. Ele pode ressoar e dizer bem-feito do nosso, como cinema. É a própria ação, nele mesmo.

Finalizam o disco dizendo “You’re knowing more but it is / Less than before” (Você está sabendo mais / Mas é menos do que antes) e penso: não se pode esconder que nunca vamos entender realmente as coisas, representá-las, controlá-las, mudá-las. Podemos, entretanto, tentar. Produzimos som, imagem, palavra. Elas navegam por entre espaços vazios ao acaso da interpretação. Elas já são ação, mas intentam mesmo o gesto de afetar. Sophia e Felipe desenham figuras de seu mundo na esperança de que elas se encaixem nos nossos. No meu encaixa bem.

Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro - Handycam
Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro - Handycam
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