Angela Velloso mostra os caminhos para uma MPB sofisticada e popular

Ângela Velloso

No último dia 28 de agosto, Angela Velloso, uma das boas novidades da música baiana atual, lançou seu terceiro álbum cheio, Quedé. O parceiro Ronei Jorge esteve lá e conta suas impressões.


Texto de Ronei Jorge / Fotos  Sergio Isensee
– de Salvador

Depois de um show acachapante da gigante Manuela Rodrigues no Cineteatro Dois de Julho, eis que no mesmo teatro, assisto a mais um belo show. Dessa vez da artista Angela Velloso no lançamento de seu mais novo disco, Quedé (ouça aqui o álbum).

Há tempos venho percebendo na cidade, entre intérpretes e compositores da nova geração, uma movimentação em resgatar uma MPB mais tradicional, mas não menos surpreendente: de harmonia complexa, melodia envolvente e rítmica variada. Falo em resgate porque, por mais que pipoquem nos comentários de alguns novos formadores de opinião de redes sociais que esse tipo de MPB nunca frequentou o gosto da maioria, essa expressão musical popular e brasileira-desculpem a redundância- já foi popular.

Angela faz parte dessa turma. Inclusive, ela é integrante do grupo Outras Vozes, um grupo de jovens artistas interessados e conhecedores do repertório da MPB: Djavan, João Bosco, Elis, etc…

O show, de imediato, nos transporta para a época de tvs, rádios e trilhas de novela em que Gil, Bosco, Gal, Chico, Milton, entre outros, frequentavam. Um período em que mesmo seus repertórios de poucas concessões artísticas faziam parte da rotina musical dos queridíssimos ouvintes.

Angela, jovem e talentosa que só, leva a gente pra esse momento. Seu canto virtuoso defende as belas canções de maneira natural e direta, muito familiarizada com o repertório majoritariamente de seu pai, Duarte Veloso, em parceria antiga com João Dude.

O virtuosismo de Angela tem a mesma pegada lúdica e brincalhona que ela impõe em seu universo artístico, seja em seu figurino, seja no cenário. É música com seriedade, mas é leve, comunica.

Duarte, também músico e arranjador do show, obviamente é também muito responsável por esse resgate e coloca tudo em seu devido lugar, revezando os arranjos entre momentos de improviso dos músicos, senso de dinâmica e domínio de gêneros musicais apurados. Os músicos destacam-se pela unidade, sobriedade e técnica, servindo de alicerce às canções. Aliás, o som do show, límpido e equilibrado, deixou tudo isso mais aparente.

Filha e pai, no decorrer do show, em suas devidas competências, vão mostrando ao público o quanto essa canção brasileira de inegável sofisticação nos soa familiar e nada elitista.

Algumas das canções do show ilustram bem essa aparente contradição. “Seresta de Flor”, um bolero na linha João Bosco com melodia bonita e sinuosa; “Desaforo”, um belíssimo samba-choro, também com melodia desafiadora; e a obra prima “Manakin”, que surge mineira, doce e misteriosa.

Todas elas têm esse impacto de nos aproximar e trazer um sabor nostálgico e cativante.

Angela encara as canções com seu canto jazzistico, por vezes dobrando as vozes dos solos dos instrumentos, mas nada sobra nem parece sem propósito. O virtuosismo de Angela tem a mesma pegada lúdica e brincalhona que ela impõe em seu universo artístico, seja em seu figurino, seja no cenário. É música com seriedade, mas é leve, comunica. Ela se diverte com a música, mas a brincadeira sempre é jogada junta, de mãos dadas, sem querer se sobrepor, o que conta muito a favor de seu trabalho. Seu canto de expressivo domínio técnico é evidente, mas em momento algum soa distante, ela está sempre dentro da canção, junto com a banda. Essa abordagem de Angela acaba colocando o repertório num lugar mais pop e vigoroso.

E a gente termina saindo do teatro, com uma sensação de uma MPB que ainda vibra, que dialoga com um público tão afeito a melodia, que encanta e que, por muito tempo, nos definiu como nação.

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