
Dois anos depois de As Palavras Vol. 1 & 2”, o cantor e compositor Rubel lança seu quarto disco, Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?.Voltando às origens, ele se reaproxima do violão, instrumento que o consagrou e o acompanha desde criança. No novo trabalho, aqui esmiuçado por nosso colaborador Pedro Antunes de Paula, o artista traz sete músicas autorais e duas regravações, incluindo uma do Radiohead.
por Pedro Antunes de Paula
Cogito escrever essa crítica desde o próprio lançamento de Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?.Hesitei. Não havia muito o que dizer, afinal, a única percepção era a de que Rubel havia lançado um bom disco depois do que considero um projeto sem rumo e inconsistente, o anterior As Palavras (2023). Entretanto, dias depois Zé Ibarra lança AFIM, e começo a refletir sobre essa que é chamada “Nova MPB”.
Nomeações de gêneros são sempre curiosas. Equivocadas, imprecisas na tentativa de agrupar semelhantes, mas eficientes em apontar certa alteridade. No caso da “Nova MPB”, diria respeito à um gênero ou movimento que atualizaria uma música popular específica. Há preservação, e dela, certa novidade. Mas me parece resignada.
Ibarra sobe em cima da obra de grandes compositores da sua geração como Sophia Chablau, Maria Beraldo e Ítallo França para rearranjá-las em interpretações que, dizem as más línguas, soam pastiches de antigos clássicos, despersonalizadas das forças que as compuseram. Muitíssimo bem produzido, entretanto e, sem dúvida nenhuma, prazeroso de se ouvir.
Rubel, em seu caso particular, não presta tanta reverência como seu conterrâneo aos clássicos arranjos dos Doces Bárbaros, mas ainda mantém seu grande respeito. Sobretudo, revisita sua própria obra, e a reinterpreta em um disco quase continuação de sua estreia Pearl, de 2015.
O tempo parece ser, portanto, questão destaque nessa história toda. Ao passo que, dessa classe artística, há uma dificuldade em questionar clichês da MPB, também há trabalhos interessantes que se utilizam de outras ferramentas, como o minimalismo de Cícero e o melodrama cotidiano de Tim Bernardes.
São estruturas de composição e performance muito bem consolidadas e reproduzíveis, naturalmente, mas percebo uma nostalgia mais latente nos últimos anos. Pode ser só impressão. No entanto, salta aos ouvidos quando surgem trabalhos que desenvolvem essas referências com mais tônus, como o dançante Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua (2023), de Ana Frango Elétrico, e o recente e diverso big buraco (2025), de Jadsa (leia crítica).

Foto por Henrique Barreto
Sintoma da própria história
Em entrevista para o site “Tenho Mais Discos que Amigos!”, Rubel comenta sobre essa questão de tempo. Diz ser um disco “desprovido de futuro”, “focado no presente, sem pretensão de ser nada além de um reflexo do agora”. Também cita as versões de Caetano ao falar sobre seu salto em “Reckoner”, canção da banda inglesa Radiohead que o carioca interpreta para encerrar este disco.
Apesar disso, não há como falar de Beleza…sem olhar para a carreira de Rubel. Pearl é início tímido, mas de personalidade, com bons momentos em que o romance e esse jogo “folk” abrasileirado traz intimidade confortante. Casas, que para mim é, sem dúvidas, seu melhor trabalho, dialoga muito bem como o Hip-Hop em uma combinação bastante inesperada, mas que é cuidadosamente equilibrada. Faz sentido, é leve, divertido e emocional, sem tantos deslizes.
As Palavras, por outro lado, é absolutamente perdido. Atira para todos os lados, sem refino. Um corpo de artistas da nova e antigas gerações jogados em composições que carecem de direção. A pretensão jogou totalmente contra o projeto, a meu ver: “se eu fizer um disco achando que ele é um marco geracional, eu tô maluco – apesar de que quando fiz As Palavras, pensei exatamente isso”, disse o artista na mesma entrevista. Acredito que confirme minhas suspeitas.
Beleza…, portanto, parece ser sintoma de sua trajetória, dos erros e acertos que cometeu. Neste sentido, é um alívio imenso ver Rubel dando alguns passos para trás. “Ouro” tem a leveza pop de Jorge Ben, “Feiticeiro Gozador” se utiliza bem da bossa-nova com esquemas de arranjo que me recordam os melhores momentos de Casas, com pedacinhos de beats, cuicas e um lustroso arranjo de cordas à lá João Gilberto em Amoroso(1977).
Coesão, neste sentido, é o fator principal, semelhante ao que fez com seu disco de estreia. As faixas se assemelham a partir da vértebra que seu violão de nylon estabelece. Há intervenções interessantes, também na medida de Casas, em que pequenos elementos eletrônicos como adlibs, pistas de sintetizadores e vozes com autotune preenchem espaços vazios das composições, trazendo relances de atenção, pequenos brilhos cuidadosos que engrandecem o trabalho. “A Janela, Carolina”, versão da canção do mexicano El David Aguilar, é bom exemplo disso.
O que se mantém constante é a oscilação das composições entre referência e reverência aos caminhos já trilhados da dita MPB. Percebo até antigos rastros que marcam a obra de alguns desses clássicos artistas, como um fetiche de Bahia – um que só condiz com a soteropolitana. “Carta de Maria” puxa um discurso que aponta para as crônicas de Chico, mas não chega perto. “Pergunta ao Tempo” é bem Caetano.
Talvez por isso me incomode os gritos de revolução, inovação e os tantos títulos de “marcos históricos” em comentários de discos como esse e de outros da Nova MPB. Podem só ser discos eficientes na maneira de estruturar suas canções. O melhor de Beleza…, neste sentido, está na despretensão. O pior, na reprodução um pouco cansada de alguns clichês.
Em seus melhores momentos, vejo um Rubel que traçou caminho muito sólido no Casas e me emocionou. Noutro, um que se perdeu rodeado por um corpo de artistas impecável n’As Palavras, e que tenta se reencontrar. Fato é que não se precisa inventar a roda – nem vai dar. Às vezes penso que a música brasileira merece mais. Às vezes a gente também só quer curtir.







