Tiganá poema de Marighella

Poema de Marighella vira música em encontro de Tiganá e BaianaSystem

No dia em que se completam 110 anos de nascimento do escritor e político baiano Carlos Marighella, um poema dele ganha o mundo musicado por Tiganá Santana e BaianaSystem. “Canto para Atabaque” sai em todas as plataformas digitais, em duas versões: original e aDUBada. A produção é de SekoBass e Sebastian Notini, que também assina os arranjos ao lado de Ícaro Sá. Como não poderia deixar de ser, a percussão conduz toda a faixa, que traz ainda vocais de Tiganá e Russo Passapusso, além da guitarra baiana de Roberto Barreto.

A história da música começou em 2019, quando a atriz e atual vereadora Maria Marighella (neta de Carlos Marighella) convidou Tiganá para musicar um poema de seu avô. A obra escolhida foi “Canto para Atabaque”, um poema sobre o lugar do tambor e das africanias na constituição do Brasil. Depois de traduzir em harmonia e melodia as palavras de Marighella, o artista convidou o BaianaSystem e o músico Sebastian Notini para construírem os arranjos e interpretarem as palavras que viraram canção.

Com a chegada da pandemia, somente agora, em 2021, a faixa foi lançada em todas as plataformas digitais. O material de divulgação, assinado por Beto Barreto, apresenta o conceito por trás da música. “Canto para Atabaque vem então nesse momento para celebrar, conectar, transcender e aproximar através da arte nossas dimensões humanas. Um encontro de pessoas e gerações que lançam mão do toque dos tambores e da força do verbo para falar de Brasil, de África, de tempo e de espaço. O tambor traz em si uma poética ancestral que conecta muitas dimensões da formação de nosso povo e da identidade que construímos através dele. Unir poesia, música, imagem e pensamento em torno de algo tão simbólico nos leva para um lugar especial e necessário nesse momento de nossa história.”

A música sai em duas versões: a original e outra aDUBada pelo pernambucano Buguinha DUB. Uma das marcas da faixa é a presença percussiva, base dos arranjos de Ícaro Sá e Sebastian. Eles utilizam os três atabaques, Rum, Rumpi e Lé, junto com agogô, xequerê e caxixis, num toque de barravento, da tradição do candomblé de Angola. A partir desses ritmos, Russo Passapusso e SekoBass criaram o arranjo de base, com grande referência de reggae. Ao lado de Tiganá, Russo desenhou os vocais, apontando também para as influências arábico-sertanejas e a uma Bahia ainda mais profunda. Para completar, os arranjos trazem a guitarra baiana de Roberto Barreto, remetendo a sons do deserto do Norte da África.

Como não deixaria de faltar num trabalho do BaianaSystem, há ainda o aspecto visual. Para ilustrar a música, Cartaxo, responsável pela identidade visual da banda, convidou o artista baiano Pedro Marighella (neto de Carlos).

“Entoar e homenagear, hoje, o tambor que protagoniza o texto de Marighella é tratar das presenças afrorreferentes no Brasil a partir de um lugar matricial, tomando o tambor não como objeto-instrumento, mas como entidade que nos informa sobre modos de existir no mundo; é combater o racismo religioso; é ir ao encontro de um conjunto negro de saberes que não dissocia estética de política, ética de conhecimento. O atabaque que intitula a canção e se faz presente na gravação é essa força presente nos candomblés e nas dimensões de encantamento”, afirma Beto Barreto.

POEMA DE CARLOS MARIGUELLA “CANTO PRA ATABAQUE”

Ei bum!
Qui bum-rum!
Qui bum-rum!
Bum! Bumba!
Ei lu!
Qui lu-lu!
Qui lu-lu!
Lumumba!
Ei Brasil!
Ei bumba meu-boi!
“Mansu, manseba,
traz a navalheta
pra fazer a barba
deste maganeta.”
Lá vem beberrão,
lá vem Bastião,
tocando bexiga
em tudo que é gente.
O engenheiro medindo,
empata-samba empatando,
cavalo-marinho
dançando, dançando.
O boi requebrando,
o boi ‘stá morrendo,
o boi levantando,,,
Ei Brasil-africano!
Minha avó era nega haussá,
ela veio foi da África,
num navio negreiro.
Meu pai veio foi da Itália,
operário imigrante.
O Brasil é mestiço,
mistura de índio, de negro, de branco.
Bum! Qui bum-rum! Qui bum-rum! Bum-bum!
Quem fez o Brasil
foi trabalho de negro,
de escravo, de escrava,
com banzo, sem banzo,
mas lá na senzala,
o filão do Brasil
veio de lá foi da África.
Ei bum!
Qui bum-rum!
Qui bum-rum!
Bum! Bumba!
Ei lu!
Qui lu-lu!
Qui lu-lu!
Lumumba!

Para quem gosta de música sem preconceitos.

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