Sons do Mundo: resgatando um diário de viagem com ‘un poco de musica en Buenos Aires’

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Quem acompanha o el Cabong  sabe que damos preferência à música produzida na Bahia. Não por bairrismo, mas para contribuir na vazão do que os artistas baianos produzem, já que a mídia local não dá conta. No entanto, sempre tentamos dar conta também ao que é produzido pelo Brasil e mundo afora. Resolvemos lançar um projeto que vem sendo pensado há tempos e finalmente vai começar a ganhar corpo, o Sons do Mundo, destacando a música fora do Brasil, mas com o foco longe dos centros mais badalados. É África, América Latina, Ásia e até Oceania. Já fizemos outros conteúdos com esse recorte, mas agora será algo mais contínuo e com esse selo. A ideia é falar da música de países diversos pelo mundo, através de reportagens, entrevistas, resenhas de discos, coberturas de festivais e eventos, perfis ou mesmo de relato de viagens, mas também criar outras possibilidades, que em breve esperamos disponibilizar.

Por Luciano Matos

Para começar esse passeio pelo mundo, resolvemos resgatar um texto que estava nos rascunhos e há anos sem conseguir terminar. Em 2016, estive em Buenos Aires para conferir o Festival Bue, com nomes do primeiro time do rock e pop mundial, como Iggy Pop, Pet Shop Boys, Wilco, Flaming Lips, Libertines, entre outros. Além de importantes artistas da América Latina, como os colombianos do Bomba Estéreo, os jamaicanos Toot & The Maytals, a brasileira Ava Rocha, e os heróis locais  El mató a un policía motorizado, Juana Molina e Miss Bolivia. A maioria dos shows foi memorável. Veja abaixo alguns momentos do festival em vídeos.

Flaming Lips e sua versão de “Space Oddity”, de David Bowie, com direito ao clássico passeio de Wayne Coyne pelo público dentro de uma bolha.
No palco menor, a banda Wilco mostrou seus hits.
Nunca teve nada que segurasse as performances sensacionais de Iggy Pop, não seria diferente numa cidade tão rocker como Buenos Aires.

Algumas semanas depois do Bue, aconteceria outro festival de primeira linha, o Personal Fest, que recebeu nomes em evidência naquele período e nos anos 1990, como The Kooks, Cypress Hill, The Magic Numbers e Richard Ashcroft, entre outros. Esse eu não consegui conferir.

Defendemos, que viajar é ter experiências e aproveitar também para conhecer a música e os artistas dos lugares. É um dos maiores prazeres. Passeando pelas ruas de Buenos Aires você não percebe a música como algo sempre presente, como se vê em cidades como Salvador, Cartagena ou Rio de Janeiro. A capital argentina é mais tranquila, sem muito som alto vindo de bares e carros. Pouco se ouve de música extrapolando os espaços privados. Assim mesmo, passeando por bairros mais populares, dá para notar o que se escuta nas ruas e nas casas. Em geral, o que se percebe é que os ritmos locais e de estados vizinhos, sempre em espanhol, dão o tom dentro das residências ou nos pequenos rádios que alguns pedestres utilizam nas ruas.

O que se vê muito relacionado à música nas ruas são os cartazes anunciando shows e festivais. São muitos e diversos e também sinalizam as preferências por região. Nas áreas mais nobres festivais de rock e música pop e muitos shows de grandes estrelas do rock. Eles dão um bom panorama de como a capital argentina está na rota de shows internacionais e promovendo festivais interessantes.

Tomando o rumo de bairros mais populares, se destacam shows de cumbia e de ritmos locais variados, além de artistas peruanos, chilenos com apelo popular. Outra coisa que chama atenção são os cartazes de muitos artistas brasileiros, de vários tipos, como Planet Hemp e Maria Creusa, por exemplo. Ela parece, inclusive, ser um nome grande por lá, com uma divulgação que dificilmente se vê no Brasil.

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Sem dúvida o rock é uma das preferências dos portenhos. Buenos Aires, tem uma cena forte, com muitas bandas, mas a cumbia não só era o mais ritmo popular, mas onde podia se encontrar as novidade  e o sabor do tempo mais frescos. Consegui assistir a um show de uma banda local, a Luz Buena, especializada em cumbia, que produz um som dançante e irresistível.

Uma das cenas mais interessantes em Buenos Aires parece ser também a de afrobeat. Já havia ouvido falar, mas não conhecia nada. Sabia que rolavam algumas bandas e um festival. Pesquisando o que fazer num domingo, me deparei com uma jam session focado no estilo, a Jam Afrobeat, que rola todo domingo no La Gran Jaime (rua Aráoz, 832). O espaço é uma casa adaptada e transformada em Centro Cultural. Rolam exposições (havia uma com fotos bem interessantes do cotidiano da cidade), oficinas e shows. Numa das salas rolam as apresentações, praticamente sem palco, com pouca iluminação, mas com um som decente.

flayer-felabration2O melhor é que a jam do dia que fui, fazia parte do Felabration, uma celebração oficial em memória de Fela Kuti. Então seria só Fela do início ao fim. A programação teria ainda uma semana de atividades (shows, debates, performances e dança) durante todos os dias em vários espaços da capital argentina. Melhor ainda foi ver na jam uns 30 músicos se alternando entre bateria, percussão, baixo, guitarra, sopros, teclados e voz e fazendo uma massa sonora de alto nível. Não era incomum ter 16 músicos tocando ao mesmo tempo num entrosamento e intimidade surpreendentes com o repertório de Fela e uma satisfação em conseguir o resultado desejado. Muito bom ver também mulheres musicistas integrando a jam. Em alguns momentos, eram 5 percussionistas e um naipe de sopro com mais cinco músicos, além de todo resto. Tudo ao mesmo tempo e soando de forma bastante satisfatória. O público, claro, ia junto.

Procurei entender melhor a jam e aquela cena de afrobeat na cidade. Perguntei a um dos músicos a respeito. Mauro Ferriello, baterista de Tam Tam Afrobeat e um organizadores da parada toda, explicou que a jam existe há dois anos e é uma das ações do Festival de Afrobeat Independiente – FAI, um coletivo de músicos de oito bandas locais que promove de forma totalmente colaborativa diversas ações para difundir o ritmo africano pela Argentina. Além do próprio festival, que já teve 5 edições, o coletivo promove shows, festas, eventos, e possui até um programa numa rádio local. Este ano realizaram pela primeira vez o Felabration no país, com autorização oficial dos responsáveis pela obra de Fela Kuti.

Um passeio turístico/ musical deve ter também uma visita às lojas de discos da cidade. Não procurei nenhuma específica, apesar de saber que Buenos Aires possui algumas bem interessantes. Acabei conhecendo lojas ao acaso, que me deixaram bastante satisfeito (e rendeu algumas comprinhas). O bacana é que não são tão incomuns lojas de disco pela cidade, em qualquer passeio você pode de repente se esbarrar com uma delas. Uma curiosidade é como eles fazem as separações dos discos nas lojas, o que acaba demonstrando, de certa forma, como eles veem a música, ou como o mercado é definido por lá.

Sempre em destaque aparecem duas seções, uma de rock internacional e outra de rock nacional, ambas sempre grandes e com muitas opções. Na nacional, nomes como Soda Stereo, Charly García, Los Fabulosos Cadillacs, Luis Alberto Spinetta, Attaque 77, Babasonicos, Divididos, Fito Páez, Catupecu Machu, Los Pericos e Los Auténticos Decadentes são relativamente fáceis de ser encontrados, uns com mais frequência que outros.

Há ainda uma seção grande reservada para artistas de outros países, mas com destaques para alguns específicos, quase sempre Brasil, Espanha, Cuba, Colômbia, Uruguai e, às vezes, outro mais incomuns, como Cabo Verde e Índia. O Brasil parece ser mesmo das preferências locais, quase sempre as opções de discos de artistas brasileiros era muito boa. Em uma das lojas, a El Perseguidor (Corrientes 1718) haviam opções bastante diversas de música brasileira e a música ambiente era João Gilberto. Muito boa loja, por sinal, acabei levando alguns discos em CD de rock argentino (Babasonicos e Spinetta), além de um clássico de Santana e outro do Beastie Boys. Todos por ótimos preços.

Outra seção obrigatória nas lojas portenhas é a etiquetada como folclore, revelada a produção argentina mais tradicional, com tango, cumbia e outras sonoridades. Por vezes, há divisões também para música folclóricas de outros países. Ah! Claro, sempre tem uma parte destacada voltada exclusivamente para o tango.

Há sempre vinis, mas os CDs ainda são muito presentes. Uma curiosidade, não encontrei vendedores ambulantes com CD piratas pelas ruas.

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Nessas andanças pela capital argentina, me indicaram um bar onde aconteciam apresentações de música tradicional local, o Cusca Risun. Nada pra turista ou muito produzido, era onde músicos iam se divertir e fazer suas reverências aos ritmos locais. Fui pra lá sozinho. Meia noite. Ruas desertas. Frio suportável. Em meio a prédios mais modernos e conservados, um bar com aparência antiga. Sem placa, sem indicações. Apenas uma porta de vidro centralizada e algo como duas vitrines de cada lado com alguns cartazes de shows de tango colados.

Olhando pelo vidro poucas pessoas dentro e na vitrine da esquerda um pequeno palco. A porta era ao lado do palco, e todos olhavam para quem entrasse. A sensação era de algo como uma confraria fechada e um estranho havia entrado. Parecia que não havia aberto a porta e entrado num bar, e sim havia atravessado um portal. Dei alguns passos e sentei na mesa de madeira antiga, cor do tempo. Sentei sossegadamente e passados alguns minutos ninguém havia falado comigo, nem algum garçom. Se é que existia algum. Escolhi uma comida com o nome mais diferente, perguntei o que era e pedi.

Era realmente um portal. Um portal de resistência. Não contra nada, mas a música, o clima… nos remetia a outro tempo. Nas mesas , apenas dois casais e algumas pessoas. A maioria idosos. Logo quando cheguei,  havia um senhor de uns 90 anos cantando. Eu já estava maravilhado. Não tinha banda, apenas artistas se expressando através de sua música, só voz e violão executando canções icônicas, tradicionais ou composições próprias especialmente de chamamé e tango.

Um outro senhor falava entre as apresentações, era como uma jam, com os músicos se alternando. Numa dessas falas, ele falou que era peronista, kichersista, mas o que importava eram os homens. Algo assim. Não entendi tudo certinho. Ele depois ficou em pé de meu lado e perguntei. Era mais ou menos isso. E disse que independente de que lado político se está, todos são prejudicados, todos sofrem, e quem ganham são sempre os mesmos. Ele depois sentou em outra mesa com dois caras, e me chamou para ficar junto.

Fiquei conversando sobre política, sobre o Brasil. Incrível. Uma injeção de política. Falavam do Brasil com um conhecimento que poucos dos próprio brasileiros teriam condições de falar com tanta propriedade. Fiquei horas falando com eles. Disseram que a comida que eu pedi era andina. No final um deles até me ofereceu ingresso pro jogo do Boca porque ele é sócio mas não iriai poder ir porque seria no dia das mães. Depois me convidou pra comer um assado na casa dele. Eu entrei nesse portal, um portal da resistência. Resistência da cultura, da música, da culinária, mas também resistência à lógica tida que cerca a gente. Eu sai do portal, mas é como se eu não fosse mais o mesmo.

Para quem gosta de música sem preconceitos.

O el Cabong tem foco na produção musical da Bahia e do Brasil e um olhar para o mundo, com matérias, entrevistas, notícias, videoclipes, cobertura de shows e festivais.

Veja as festas, shows, festivais e eventos de música que acontecem em Salvador, com artistas locais e de fora dos estilos mais diversos.