Sapa Brega

Sapa_Brega, gêneros musicais populares e outras reflexões sobre a cena “cafona” em Salvador

Por Mariana Kaoos

Eu estava na fila do banheiro quando me perguntaram se já tinha assistido ao documentário “Vou rifar meu coração”, de 2012, dirigido por Ana Rieper. O filme, cujo nome faz referência a uma canção de Lindomar Castilho, se propõe a tecer um diálogo entre o gênero do brega e seus expoentes – como Waldick Soriano, Odair José e Nelson Ned – e o universo dos fãs que não apenas consomem suas músicas, mas também se identificam com o que ali é narrado.

Assim como o filme em questão, tantos outros foram produzidos nessas duas últimas décadas – destaque aqui para a ficção deAmor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro e o também documentárioWaldick – Sempre no meu coração, com direção de Patrícia Pillar.  Isso porque, embora o brega tenha se consolidado como gênero musical popularesco lá na década de 1960, até os dias atuais, sua força ecoa na construção de múltiplas identidades brasileiras e deságua em subgêneros, dentre eles o arrocha, a sofrência e até mesmo, o mais recente, tecnobrega.

De forma reinventada, revirada e multiplicada, o fato é que, nesses últimos anos, o gênero musical adquiriu ainda mais força e notoriedade. Logo, a pergunta que me fizeram não foi à toa. Na verdade, ela foi proferida pela DJ Nate Mônaco que, na última sexta-feira, 08, se apresentou em duas festas na cidade. Uma, de nome Rabanaite, que aconteceu na Marujada, no bairro do Carmo, e a outra, em sua primeira edição, intitulada Sapa_Brega, que ocorreu na Casa da Mãe – Rio Vermelho. Ambas trouxeram como proposta explorar a música brega e seus subgêneros, embalando a pista, movimentando danças e compassos e estimulando o público a cantar seus principais hinos em uníssono.

A Sapa_Brega, que teve todos os seus ingressos esgotados, comportou uma programação de peso. Nate abriu a noite com um set cheio de referências e musicalidade. Irreverente e enérgica, foi ela a atrair o público para perto de si que, aos pouquinhos, e cheio de charme, se soltou no passinho do180-180-360 do arrocha.

Na sequência, quem subiu ao palco foi uma banda formada exclusivamente para o evento. Com Carine Nascimento na bateria, Roberta Dantas nos teclados e Bruna Barreto e Isabel Cristina nos vocais, o grupo foi um estrondo. Não teve gente parada, assim como não teve espaço vazio em frente ao palco. Bruna e Isabel são dois acontecimentos no cenário cultural soteropolitano. Quem ainda não viu o trabalho de ambas – que perpassa pelo brega, músicas autorais e releituras de outros gêneros sonoros – vá ver. Embora as cantoras sigam por caminhos distintos, a parceria e cumplicidade das duas em palco foi de uma força tamanha.

Sapa Brega
Noite de Sapa Brega na Casa da Mãe. Foto: Beatriz de Paula

“Morango do Nordeste”, “Alvejante”, “Tudo Azul” e “Evidências” foram algumas das canções que compuseram o repertório. Por quase duas horas, a banda deixou todo o espaço da Casa da Mãe em euforia. Muitos beijos na boca, dancinhas coladas e diversão. As presentes, mulheres, em sua maioria, pareciam estar muito à vontade com a dinâmica da festa. Para quem não sabe, agosto é tido como o mês da visibilidade lésbica. O nome Sapa_Brega, seu objetivo e público destinado, não se deu em vão. Embora o circuito cultural em Salvador seja diverso, atualmente há poucos eventos destinados a esse público, que, normalmente, se vê carente de espaços de representatividade. Ou seja, assim como o brega, mulheres que se identificam como lésbicas estão sempre à margem das representações e da priorização dos produtores e dos espaços de entretenimento na cidade.

De acordo com Isabel Cristina que, juntamente com Bruna Barreto e Nathália Ramos, compôs a produção do evento, pensar na primeira edição da Sapa_Brega em agosto teve a ver com a simbologia do mês da visibilidade lésbica. “Quando comemoramos o orgulho gay, ele acaba sendo muito voltado ao público masculino. Então, ter esse mês em que somos nós a ocupar o lugar de protagonistas é de fundamental importância para que nos sintamos representadas. Entendemos que Salvador precisa ter uma comunidade mais unida e representativa, justamente por isso, mesmo após findado o evento, o nosso propósito é o de continuar com a página da Sapa_Brega e fortalecer outros eventos, seja do gênero do brega, seja para o público LGBT+, que venham a surgir. A nossa ideia é criar um movimento de apoio contínuo”. Comenta.

Seguindo com a noite, por fim, mas não menos importante, quem fechou a programação foi a DJ Paulinha Chernobyl. Como todos sabem, Paulinha foi produtora do antigo projeto O Rebucetê e o Putetê, além de ser integrante do Coletivo Suíça Bahiana, em Vitória da Conquista, e movimentar todo o estado da Bahia com seus inúmeros projetos artístico-culturais. Sua pesquisa sonora gira muito em torno da hibridização da musicalidade brasileira, com ênfase também no tecnobrega. Na Sapa_Brega, ela montou um set todo voltado para a valorização da musicalidade do norte e nordeste, com muito brega recifense e canções românticas do cancioneiro popular. Desbunde total, como era de se esperar.

Pensando o brega: do popular ao popularesco…

Quem é amante do brega, já percebeu que Salvador tem protagonizado esse movimento e mostrado a importância de valorização do mesmo. Para além da Sapa_Brega e da Rabanaite, outros eventos têm acontecido, como o projeto da cantora Julinha, “Bregas que você quase esqueceu”, que vem rodando a cidade há mais de um ano, e de festas como a Brega e Night, que acontecem no bar A Marujada.

Julinha, “Bregas que você quase esqueceu”,
Julinha tem levado um bom público para seu show, “Bregas que você quase esqueceu”, – Foto: Raíssa Macedo

Se, outrora, o brega e seus subgêneros – em especial, o arrocha – eram entendidos como movimentos populares e sociais construídos em espaços periféricos, à margem do dito centro hegemônico de produção cultural, agora, ele tomou as casas de show, atingindo públicos mil, com ampla diversidade de raça, classe e gênero.

Fato curioso é que, apesar de muitos apontarem o brega, de forma geral, como movimento popular, o mesmo não se caracterizava enquanto tal dentro do universo da musicalidade brasileira. Desde meados da década de 1970, quando, por um lado, nomes como Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e Odair José estouraram nas rádios de todo o país, conquistando as classes C,D e E, e, por outro, artistas como Chico, Edu Lobo e Caetano despontaram e ganharam reconhecimento principalmente na classe média e elite brasileira, criou-se uma diferença abissal entre os termos popular e popularesco.

Aos primeiros, foi atribuído o rótulo de bregas, cafonas e popularescos. Aos segundos, o título de grandes nomes da música popular. Isso porque, no Brasil, os formadores de opinião definiram que música popular “legítima” é aquela que nasce das tradições culturais do povo, mantém laços com gêneros como samba, choro, baião ou bossa nova e se destaca pela qualidade artística, pela elaboração poética e pelo valor estético que garantem seu reconhecimento e permanência.

O popularesco, por outro lado, é designado como aquele que aproveita elementos da estética popular, mas simplifica e adapta para gerar impacto imediato, resultando em produções de curta duração, com letras e melodias simples, explorando clichês e estereótipos sem compromisso com a tradição. Assim, “popular” remete a excelência e legado e “popularesco” é visto como algo passageiro, que imita a cultura sem preservar sua essência.

Por muito tempo, o brega foi colocado em uma posição de menor valor cultural quando comparado a outros estilos considerados mais “refinados” e consumidos pela elite. Essa elite não se define apenas pelo poder econômico, mas também pelo peso de sua produção intelectual e cultural, e pelo espaço que ocupa como formadora de opinião. Curiosamente, outros gêneros, como a bossa nova e certos segmentos da música popular, também trazem em suas letras histórias de amor exageradamente românticas, assim como o brega. Apesar das semelhanças, a bossa nova conquistou um alto prestígio social, enquanto o brega foi marcado como música “menor”, associada ao mau gosto ou à falta de sofisticação.

O ponto aqui é que o brega, mais do que um simples estilo musical, é um movimento social que reflete o espaço onde nasce, o dia a dia das pessoas, suas formas de falar e a realidade de quem pertence a determinada localidade, classe social e contexto econômico. Sua avaliação cultural, no entanto, nunca se deu apenas pelo som ou pelas letras, mas também por todos esses elementos que o cercam — elementos que, dentro de uma lógica de “meritocracia cultural”, acabam influenciando a forma como o gênero é visto e classificado.

Podemos entender que, além de um objeto de entretenimento cultural, o brega pode também ser visto como um movimento de entre-lugar, deslocando, descentrando e desconstruindo conceitos de conduta, espaço e poder e permitindo a ascensão de um discurso outro, mais do povo, mais plural, mais real.

Talvez, por isso, sua atual presença nas noites e festas em Salvador esteja movimentando um público fiel, que encontra nesse gênero não apenas diversão, mas também um espelho de suas vivências, afetos e identidades. O brega, com sua estética própria, suas narrativas passionais e sua irreverência, afirma-se como um território de resistência cultural e afirmação popular, rompendo barreiras entre o “erudito” e o “popular” e mostrando que riqueza artística não se mede por rótulos, mas pela força de emocionar, reunir e transformar quem o vivencia.

Para quem gosta de música sem preconceitos.

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