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Discos: ‘Big Buraco’ apresenta a canção popular segundo Jadsa

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Dos nomes mais instigantes da atual safra da música baiana e brasileira, a cantora e compositora Jadsa vem construindo uma carreira sólida e consistente, com seu projeto Taxidermia e o trabalho solo, que ganha agora o lançamento do segundo álbum, Big Buraco. Julli Rodrigues destrincha este que já é um dos melhores álbuns do ano.

Por Julli Rodrigues *

Em 4 de agosto de 2017, vi um espetáculo que passou a ocupar um espaço perene na parede da minha memória. Não como lembrança que dói, muito pelo contrário: uma amostra da capacidade que uma grande artista tem de ressignificar o brilho de uma das maiores estrelas brasileiras. Foi nesse dia que a cantora e compositora baiana Jadsa, ainda usando o sobrenome Castro, apresentou o show ‘Bijou’, que trazia releituras ousadas do repertório do disco Falso Brilhante, de Elis Regina. O espaço desse espetáculo nos meus guardados mentais é inversamente proporcional à quantidade de registros em foto e vídeo que tenho: só sobrou um fragmento, que publiquei no YouTube.

Pode parecer estranho resgatar um fato tão antigo a essa hora, quase oito anos depois, mas explico. Elis Regina – mais especificamente a do disco de 1971 – é uma das referências citadas por Jadsa na formatação da identidade de Big Buraco, seu segundo álbum, lançado em maio de 2025. E de repente, tudo faz sentido. Dois pontos distintos no espaço e no tempo se conectam para ajudar a explicar a identidade de uma artista de múltiplas camadas, que se equilibra entre o experimentalismo e a canção brasileira desde sempre.

Se em Olho de Vidro (2021), seu primeiro trabalho (leia crítica aqui), a balança pendia mais para o lado vanguardista – com forte influência de Itamar Assumpção e outros nomes da cena paulistana -, agora Jadsa é mais MPB, balada de rádio, samba, doçura, sinestesia e sol. O “buraco” aqui, soa como um lugar de aconchego, onde se entra pra descansar e ver o céu azul. Mas não se engane: ele também pode ser mistério e desafio.

Que buraco é esse?

Big Buraco é produzido pela própria Jadsa ao lado de Antônio Neves e conta com a co-produção de João Milet Meirelles, parceiro da artista no duo Taxidermia. Uma fala da cantora, presente no material de divulgação do álbum, explica o que há por trás do título e chama especial atenção.

“O disco me levou a estar num lugar confortável e desconfortável ao mesmo tempo. Muito pelo mercado. Isso do precisar fazer agora. Os artistas estão fazendo sem condições de fazer, mas com o desejo engarguelando. Sem dinheiro, sem tempo, sem condição material. E essa coisa sintomática do mercado de querer matar um disco que tem dois, três anos de vida – o que é nada, inclusive. Então pensei: se me tiram o olho de vidro, o que é que resta? Me resta um grande buraco”.

Pode-se dizer que Big Buraco caminha com leveza sobre uma corda-bamba como se não houvesse um abismo logo abaixo. Canções com orquestrações e timbres setentistas abraçam o ouvinte, a exemplo da faixa de abertura, “Big Bang”, uma carta de intenções de uma artista que quer agir de acordo com a própria verdade, embalada em uma sonoridade meio Jorge Ben, meio Tim Maia.

O afeto, em suas diversas formas, perpassa as 12 músicas do disco. Desde a lembrança da Bahia e da pessoa amada, na radiofônica “Sol Na Pele” – que, não à toa, já está em diversas playlists editoriais dos streamings -, até a presença carinhosa de Juçara, mãe de Jadsa, musa inspiradora de duas músicas: “Big Mama” e “Samba Pra Juçara”. Nesta última, inclusive, ela surge como coautora. E tem mais samba: encerrando o disco, a faixa-título vem com uma sonoridade de pagode romântico dos anos 90… e uma letra levemente ácida que deixa a pergunta subentendida: caímos no buraco ou sempre estivemos nele?

Transmutação e taxidermia

O movimento de “retorno à canção” presente em Big Buraco vai tão fundo que chega a reler trabalhos anteriores da artista em diversos projetos. É o caso de composições já gravadas por Jadsa ao lado de João Milet Meirelles no duo Taxidermia, mais precisamente no álbum Vera Cruz Island (2024) (leia entrevista). Despidas da roupagem eletrônica, ganham novas camadas, tons, cores, letras e até mesmo melodias.

“Tremedêra” virou um jazz-blues-psicodélico; “No Pain” foi retrabalhada em uma tonalidade mais alta e andamento mais lento, também em pegada de blues; e “1000 Sensations” seguiu sendo uma obra musical que funciona tanto na sua forma original quanto nessa releitura que ecoa o som de Amy Winehouse. Vale pontuar que a própria ideia das “big coisas”, tão forte nesse novo trabalho, já marcava presença discreta em “Bigbig”, do EP Outro Volume (2021).

Essa “transmutação” também atinge “Um Choro”, já lançada anteriormente pela paulistana Juçara Marçal no EP EPDEB, em 2022. Nesse caso, em especial, é extremamente difícil escolher qual a melhor versão. A nova abordagem evoca a sonoridade folk de arranjos como os de “Caldeira” (1976) e “San Vicente” (1972), de Milton Nascimento, ou ainda “Os Bichos” (1978), de Walter Franco. Ao mesmo tempo, ainda que Big Buraco seja um disco mais orgânico e voltado para o que se conhece como MPB, sempre tem algum elemento para mostrar que a Jadsa experimental continua ali: uns scratches aqui, um jogo de palavras acolá…

Big universo

Big Buraco tem como proposta apresentar ao mundo uma face “nova” ou não tão explorada da música de Jadsa. Mas quem acompanha o trabalho da artista sabe que a “cantora popular” sempre esteve ali, assim como a criadora de linguagens vanguardistas. Desde o show ‘Bijou’, desde muito antes, ela já mostrava – ainda que em estágio embrionário – tudo que era capaz de ser.

Está respondida, então, a pergunta: se lhe tiram o olho de vidro, sobra um buraco que é tudo, menos vazio. Um buraco que é um universo inteiro, onde ecoa o canto de uma das vozes mais singulares da nossa música.

* Julli Rodrigues é jornalista, pesquisadora musical e DJ seletora. Trabalha como produtora musical na Educadora FM da Bahia. Mais detalhes sobre a autora aqui.

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Jadsa - Big Buraco
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