Edcity -

‘Acredite que a bruxa existe’: como Edcity misturou gêneros musicais e renovou o pagodão

Criador do Fantasmão, cantor Edcity surgiu explorou elementos do rap, rock e reggae e os utilizou como base para sucessos nas principais fases da carreira

por Ícaro Lima

Na mesa dos maiores contribuintes para o fortalecimento do pagodão, está sentado um artista que se destaca por um elemento fundamental quando pensamos na evolução de um gênero: a mistura. É isso que o permite, por exemplo, explodir nacionalmente com uma música que celebra um som nascido em outro país.

Edcity acumulou referências
Edcity acumulou referências para criar um estilo único I Foto: reprodução/redes sociais

Edcity, como é conhecido Edcarlos da Conceição Santos, acumula mais de duas décadas de uma carreira construída a partir de intensas experimentações. Baiano de Pojuca e criado em Catu, ele passou por mais de dez grupos até ganhar destaque em Salvador, ao fazer parte da banda Parangolé.

Com preferências musicais que vão de Sepultura a MV Bill, Edcity (à época conhecido como Eddye Sacanagem) encontrou ali um cenário livre para começar a explorar novas rotas, mas sempre tendo o pagodão como ponto de partida. “Tome Baculejo, “Ai, Delícia” e “Sacode a Laje”’ estão entre as faixas mais relembradas pelos fãs.

FANTASMÃO

Em 2006, após sair do Parangolé, Edcity partiu para a criação de um grupo que o faria desfrutar do maior momento da carreira: o Fantasmão.

Ele passou a se apresentar somente como Eddye e expõe no próprio corpo outras novidades: rosto pintado de branco tal qual um fantasma, pés descalços e mortalhas estilizadas.

Elementos visuais do Fantasmão fizeram sucesso entre os fãs I Foto: YouTube

É naquele momento em que ele consolidou o que ficou conhecido como groove arrastado, um movimento musical fundamentado no samba e que reúne elementos de outros gêneros, como rap, rock e reggae.

Essa mistura demonstrava-se presente não só a partir dos instrumentos, mas também nos processos de composição, considerando os assuntos mais tratados nas letras, incomuns ao cenário do pagodão na época.

Edcity com uma camisa do Iron Maiden
Edcity com uma camisa do Iron Maiden durante apresentação no
Pagodão Elétrico, em 2009 I Foto: YouTube

PLURALIDADE’

O ano de 2008 representa o ápice desse projeto. É quando é lançado o álbum “Pluralidade”, melhor objeto de estudo para compreender o resultado dessa aglutinação.

Já nos primeiros segundos, na faixa “Conceitos”, ouvimos uma percussão isolada que logo é complementada fortemente por uma guitarra. É o prelúdio para uma frase que confirma o caráter duradouro do que viria a seguir:músicas verdadeiras nunca são passageiras”.

Na sequência, versos carregados de autoafirmação, além de protestos contra a discriminação de pessoas pretas, temas que fizeram do Fantasmão um dos grupos mais reconhecidos em relação à abordagem de questões sociais.

Com um conceito renovado,
andará nossa nação
Sou filho de preto,

quero respeito,
quem mora no gueto
não é ladrão”

Em “Selva de Pedra”, um grande exemplo de como rap serviu de forte inspiração para esse trabalho. O refrão faz uma referência direta a “Da Ponte Pra Cá”, dos Racionais MC’s.

“Tem que ter, tem que ter
Tem que ter pra trocar
Tudo é diferente do asfalto pra cá”

“Selva de Pedra”, Fantasmão

“Não adianta querer,
tem que ser, tem que pá
O mundo é diferente da ponte pra cá”

“Da Ponte Pra Cá”, Racionais MC’s

Em ”Black Power”, mais exaltação identitária. O mesmo acontece em “Eu Sou Negão”, canção na qual a guitarra volta a ter mais força.

Pra você eu mando um samba
Que não tem classe não tem cor
Ele vai bater em seu peito e despertar o amor
Eu sou negão, eu sou do gueto
E você quem é?”

“Dali” é um papo direto sobre lealdade. Na abertura, uma nova presença dos Racionais MC’s: “o cheiro é de pólvora, mas eu prefiro rosas”, diz Edcity, citando “Vida Loka, Pt. 2”. Antes do refrão, rimas ásperas em cima de uma batida eletrônica.

‘CONFRARIA DOS FANTASMAS’

Outra importante fonte para observar as mesclas sonoras de Edcity é o DVD “Confraria dos Fantasmas”, também lançado em 2008. Nele, as influências de outros gêneros, principalmente do rap, ficam mais nítidas.

Na passagem da música “Conceitos” para “É Pra Descer”, ouvimos um curto scratch com linhas da música “A Volta Dos Que Não Foram”, do grupo SP Funk.

“O som do novo milênio
Os loco da nova geração”

Em outro momento do show, Edcity canta um trecho de “Mó Blef – Mó Goela”, do Pregador Luo:

“Pensa nisso, você não é bandido, pensa nisso
Pra mim você é irmão
Esquece essa história de pagar pau pra ladrão”

Antes de “Eu Sou Negão”, uma versão levemente alterada de um pedaço de “A Ideia é Forte”, dos Detentos do Rap.

Se vocês apoiam, não sei, eu deixo ao seu critério
Mas eu não curto os manos que pintam o cabelo de amarelo
Que vão na TV chorando, dizendo que foi na favela
É aí que vocês se enganam, eles nunca fizeram parte dela
Ladrão que é ladrão não chora
Homem que é homem não rebola
Lugar de criança é na escola
E o Fantasmão mudou a história”

A apresentação também abre espaço um espaço direto para o reggae. É quando Edcity convida ao palco Sérgio Cassiano, vocalista do Adão Negro, para dividirem duas canções.

EXPLOSÃO NACIONAL

O balaio de inspirações do Fantasmão vivia crescendo. Mais uma prova disso é que, também em 2008, o grupo conseguiu alavancar outro sucesso, dessa vez, com repercussões em várias partes do Brasil.

“Kuduro” celebra um estilo de música e dança de mesmo nascido nos anos 90, em Luanda, capital da Angola, e que se baseia na junção de gêneros como house, techno e rap.

Com uma letra curta e uma coreografia bem específica, a canção fez sucesso nas rádios e na internet, o que motivou reportagens em programas nacionais de televisão, como o Central da Periferia, da TV Globo, que destacou o poder mobilizatório dos fãs, que compartilhavam a música em comunidades do extinto Orkut.

FUTURO

Em 2009, mais uma grande mudança. O então Eddye deixa o Fantasmão e inicia carreira solo com o nome Edcity. Poucos meses depois, lança o primeiro álbum, “Rap Groovado”, que, puxado pelo sucesso “Traíra”, mantém as raízes que guiaram o cantor até aquele momento: letras conscientizadoras e viagens sonoras que reúnem elementos de diversos gêneros.

Além do estilo das rimas e do grafite presente na capa, Edcity reservou mais um espaço para conectar o álbum ao rap ao celebrar a principal expressão de dança da cultura hip-hop com a faixa “No Break”.

A afinidade com o gênero fica ainda mais evidente a partir de um feat. Em 2021, Edcity participou da música “Dendê”, presente no álbum “Brasil Futurista”, do rapper paulista Coruja BC1. RDD (ou Rafa Dias), fundador e produtor musical do Àttooxxá, também está presente na faixa.

Esse pilares conceituais continuam presentes até hoje, mas com atualizações. Edcity, que conheceu bem a força da internet quando ela ainda nem era tão acessível, segue se reinventando e considerando a importância do diálogo com as novas gerações.

A partir do álbum “Afrofuturista” (2023), ele inaugurou um visual: dreads coloridos, acessórios prateados e roupas neon. Esse princípio ganhou força no mais recente projeto, “Invadindo o Sistema”, lançado em janeiro deste ano e intensificado pela música “Quebrando e Amassando”, que conta com uma coreografia mais vertical, ideal para viralizar nas principais redes sociais da atualidade.

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