Mora Lucay

Sons do Mundo | Entrevista: a identidade chilena por Mora Lucay

Aos poucos, o Brasil tem tentado de aproximar da música produzida por seus vizinhos da América do Sul, mas bem pouco do que é produzido chega por aqui. Algumas iniciativas pontuais contribuem para que o acesso, como foi o caso doFestival Internacional Salvador Cidade da Música, que aconteceu no final de outubro, em Salvador. Além de atrações locais, o evento recebeu artistas de Valparaíso (Chile), Kingston (Jamaica) e Recife (Brasil), cidades que integram a Rede de Cidades Criativas da UNESCO, e, assim como Salvador, são detentoras do selo de Cidade da Música. Foi uma oportunidade deconhecer, entre outros, a cantora e compositora chilena Mora Lucay.

Nome da nova geração, ela se apresentou pela primeira vez no Brasil, trazendo seu folk pop latino autoral com raízes andinas, mas que se propõe a dialogar com outras sonoridades. Tratado como um dos projetos mais inovadores da música indie chilena, Mora Lucay, na verdade o projeto musical de Natalia Vásquez, chamou atenção desde sua estreia, com o álbum 100 mg, em 2017. Depois dela, a artista lançou diversos singles e o álbum Bestia, em 2020. Seu mais recentes trabalhos são os singles “Contacto”, lançado em agosto, e a bossa eletrônica “Una Vez”, que conta com participação da artista brasileira ÀIYÉ. Inspirada por uma viagem solo pela América Latina que a levou ao Brasil, a músicamarca a estreia de Mora como produtora.

Apostando cada vez mais em bases eletrônicas e sintetizadores, Mora mantém sua música autêntica, com letras profundas e uma leveza na canções. Nessa entrevista, realizada logo após seu show em Salvador, ela fala, entre outras coisas, sobre sua musicalidade, a produção musical chilena, identidade, a importância de Valparaíso como Cidade da Música e próximo trabalho.

– Como é para Valparaíso ter essa chancela de Cidade da Música, que diferença isso faz para a cidade?

Em Valparaiso, acontecem muitas iniciativas musicais, mas eu sinto que ter um selo como este é uma oportunidade para ter mais responsabilidade com os músicos, de criar um ambiente que não somente peguem nossa criatividade, mas também que possa proporcionar mais ajuda, fundos, infraestrutura. Um ano atrás eu me perguntava, mas por que uma cidade musical? Porque Valparaiso também é uma cidade patrimonial. Então enquanto patrimonial, também eu sinto que o título cria mais uma imagem que obriga a ter que cumprir depois. Pra mim, mais que outra coisa, é um convite para se respeitar os músicos, para potencializar o que já existe.

– O que você sente de mais concreto nas iniciativas de Valparaíso como Cidade da Música?

O mais concreto é estar aqui. Isso é muito significativo para mim. Eu não conhecia essa parceria entre as cidades. Inclusive, eu acho que estar aqui é muito mais importante, porque muitas vezes se fala que o Brasil é um país que não se interessa em termos musicais por outros da América Latina. Ao contrário de como a gente percebe o Brasil. Para mim, por exemplo, é um país que me marcou desde criança. Eu vejo esse gesto como um marco, um momento muito especial. Eu percebo as instituições procurando fazer o seu melhor para articular tudo. Porque uma coisa são os músicos, outra coisa são, por exemplo, os bares. E que os bares tenham um trato que seja responsável com os músicos, com os técnicos, tudo isso. Em Vaparaíso, tem um festival que é bem popular, que se chama Rockódromo, e ali acontecem escolas para formar técnicos, também é para pequenas bandas e também grandes artistas. Existem diferentes festivais que acontecem na cidade. Temos também muito mais fundos para fazer grandes shows em teatros e para poder pagar os artistas. Mas, o que isso faz, como consequência, é que as pessoas, os habitantes, não estão tão acostumados a pagar entradas, porque sempre tudo é de graça.

– Salvador tem uma marca musical muito forte, tem a percussão, alguns gêneros muito marcantes. Queria saber como é o Val Paraíso, que também é Cidade da Música. Existe uma característica que marca a musicalidade na cidade?

Tem bastante. Por exemplo, falando das percussões, tem um festival que se chama Os Mil Tambores, que é um tipo de carnaval da rua, onde convivem múltiplos tipos de percussão. Tem toda a música do norte do Chile, que é bem percussiva, bem andina. Tem também Murgas, que veio do Uruguai (N.E. Ritmo e manifestação cultural de carnaval uruguaia). Tem também as Batucadas, do Brasil. Então, existe ali uma mistura de diferentes manifestações percussivas. Tem festivais, às vezes de cunho também religioso, com uma relação muito forte com certas datas de santos. Por exemplo, o padroeiro do mar é São Pedro e para essa data tem um carnaval percussivo. Não é só religioso, é sincretismo e bem, bem, bem popular. A institucionalidade não se envovle. Por outro lado, tem tudo que é bolero. Isso é da boêmia, do bar. Por exemplo, se você fica comendo, sempre vai chegar um ou dois músicos com o seu violão e cantam…(cantarola “mi amor”). Isso é uma tradição de Peru, da América Central. O bolero também é muito forte, que também eu tenho na minha música. Tem também muito de cumbia, mas é uma cumbia chilena, não é tão parecida com o que se faz na Colômbia. É uma cumbia misturada entre Colômbia e Argentina, que faz uma sonoridade muito mais com sintetizadores. Então, não há uma identidade apenas, mas várias. Porque, por exemplo, tem também a cueca, que tem em todos os finais de semana. A cueca é uma música muito tradicional, que se dança, tem uma estrutura, se dança com duas pessoas. E em Valparaíso tem a cueca chora, que é muito livre, que cada um faz como quer, não tem tanta estrutura e é algo muito popular.

– Sua música, me parece segue uma tradição no Chile, que são as cantautoras, desde Violeta Parra, passando por nomes mais recentemente como Mon Laferte, talvez o gande nome da atualidade, Dulce y Agraz, Rosaria Alfonso, Ninã Tormenta, Yorka. É uma coisa que você segue? E é também uma marca da música chilena?

É bem curioso o que você disse, porque todas são amigas minhas. Então, sim, possivelmente, tem uma corrente agora acontecendo, bem marcada. Por exemplo, na utilização do ukelelê, Nina Tormenta faz algo bem próximo de mim. Acho que tem mais que canta-autoria, é como um resgate do simples, do que é mais verdadeiro. Não quero que se aproximem do meu trabalho porque sou virtuosa, mas do que eu quero comunicar. Então, quando eu toco o ukelelê, eu faço assim, bruto, bem rústico. Tem outras coisas mais importantes pra mim, por exemplo, o que eu comunico na melodia.

– Queria que você falasse da construção de sua musicalidade. Porque ouvindo seus discos me remete mais a uma coisa meio folk, com a força da canção, mas no show (e em alguns singles), me parece que ele vai além, tem também um pouco de pop, um pouco da eletrônica. Eu queria que você falasse dessa construção da sua musicalidade.

Eu me deixo levar pela música, pela emotividade. Também acho que me adapto. Eu amo isso, poder trocar o jeito de me apresentar, dependendo de onde eu estou. Por exemplo, muitas vezes eu toquei só em duo acústico, com ukelele e violão. Mas eu amo também os sons eletrônicos. Tem uma história que quase nunca eu falo. Eu estive dando aulas para crianças há muito tempo, mais de 10 anos. Nas aulas, tinha sintetizadores para crianças. Eu sempre gostei muito desses sons, então eu sempre vi que outros músicos procuravam sons esquisitos, mas através do computador, dos efeitos, tudo isso. Mas em minha música, o que eu procuro sempre é procurar uma sonoridade que venha direitinho do sintetizador. E pode ser um sintetizador muito barato, muito simples. Mas eu amo isso, encontrar sonoridades que simplesmente eu goste, que me atraem. E também o ritmo para mim é muito importante. No Brasil foi muito importante para mim. Muitas vezes, no Chile, acham que eu tenho muita influência do Brasil.

– E as temáticas de suas músicas, o que te move para fazer suas letras?

Experiências pessoais. Eu tenho diferentes fases, mas eu comecei a fazer música porque era uma espécie de auto-ajuda. Era uma terapia para mim. Então sempre, quando eu escrevo, eu estou refletindo, tentando encontrar soluções, ou de me comunicar, tirar a raiva ou a tristeza e converter isso em uma coisa feliz.

– Seu último álbum Bestia é de 2020, deste então você tem apresentado novos singles, há planos para um novo álbum? O que tem planejado?

Sim, eu estou trabalhando no próximo álbum. E também estou explorando de ser mais produtora. Estou trabalhando nos programas junto com um produtor. É um jeito novo para mim de trabalhar assim, mas mantém as sonoridades do primeiro e do segundo disco. Só que estou muito mais envolvida no processo inteiro de produção. Estou auto-produzindo bastante. Eu calculo que no início do próximo ano vai ficar pronto.

– Eu sei que o Brasil conhece pouco da música latina. Então eu queria que você falasse um pouco da música do Chile. Como você apresentaria para quem não conhece? O que é que tem de interessante para se ouvir?

Eu sinto que a música chilena tem muita identidade. No Chile tem muitos amigos que produzem. Tem uma cena muito grande, rica. Que tem explorado o seu próprio estilo e faz com humildade. Os chilenos normalmente não são assim como eu diria, expansivos. Não, são muito mais tímidos. Muito mais tristes, às vezes. Reservados. Mas eu sinto que tem muita identidade e sabe que não precisam ser como os argentinos, não precisam ser como os brasileiros. Mas tem como um orgulho silencioso. Um orgulho silencioso. E tem tanto para escolher no Chile que verdadeiramente não posso resumir. Tenho tantos amigos da minha idade que estão fazendo uma música lindíssima. Então tem mesmo que mergulhar na música do Chile.

– Estive recentemente em Santiago, vi que ainda existem muitas lojas de discos, vendendo CDs, vinis, esta é uma realidade nacional? Como é no Chile essa relação do público e dos artistas com a mídia física, ainda mais frente ao streaming?

Em geral, eu acho que são os fãs que compram mais. Às vezes compram CDs, mesmo que não tenha onde reproduzir. É louco. Eu estou vendo que em Santiago, que tem muito mais dinheiro do que em Valparaíso, em todo o mundo que gira ao redor da música indie, indie pop, eles estão fazendo seus discos de vinil. Mas no Chile o que é de maior consumo é o Spotify. Essas plataformas que também tem muitas contradições. Mas cada vez que eu faço cópias dos meus discos, as pessoas compram. Tampouco eu posso falar que tenho grandes produções, mas tenho feito com autofinanciamento e às vezes tem também o ministério que financia para fazer, tanto CDs quanto vinil e vendo tudo muito bem.

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