Faixa a Faixa – Rei Lacoste apresenta sua nova mixtape ‘Festas Clandestinas’

Unindo diversas referências e estéticas sonoras, Rei Lacoste lançou no dia 12 de maio a sua mais recente mixtape, ‘Festas Clandestinas’. Dando continuidade ao experimentalismo de trabalhos anteriores, o artista demonstra sua inventividade ao longo de nove faixas que refletem sobre amor, amizade, política e cotidiano, valendo-se de colagens e citações para criar versos certeiros e inesperados. Em faixa a faixa para o el Cabong, o rapper apresenta o processo de criação e as inspirações por trás desse novo trabalho.

O conceito por trás de Festas Clandestinas

“Festas Clandestinas é uma mixtape com músicas que eu fiz na segunda metade da pandemia, quando esse termo foi cunhado. Eu acho que esse fenômeno das pessoas terem ido pra festas clandestinas fala um pouco de um espírito hedonista brasileiro, que leva as pessoas a arriscarem muitas vezes até a própria vida por prazer.

Não necessariamente isso é algo ruim. Dentro do contexto pandêmico sim, mas acho que isso de se optar por prazer, por coisas que te deixam feliz e alegre, também passa por questões ligadas a uma formação estrutural do povo. Principalmente por culturas não-europeias, ameríndias e africanas serem mais presentes aqui, isso faz com que as pessoas tenham uma certa sabedoria de vida, uma maneira diferente de se relacionar e encarar o mundo.

Eu vi Eduardo Marinho falando sobre como várias pessoas ricas, geralmente europeias, quando perdem tudo se matam, matam a família, dão um tiro na cabeça… Enquanto sinto que aqui muitas vezes a pessoa pega o trocado, o pouco dinheiro que tem e vai pro carnaval, compra uma cachaça barata e faz a sua festa. Isso faz parte de uma energia do povo daqui.

Inclusive, isso aparece na camisinha da capa. Acho que ela é um símbolo hedonista, que remete ao prazer feito com responsabilidade, e faz referência também a uma energia sexual vital, de prazer. A escolha pela cor rosa, para além dela compor uma paleta que me acompanha, traz também questões políticas ligadas ao trabalho.”

“As músicas dessa mixtape apontam pra outras sonoridades pelas quais tenho interesse. Você encontra afrobeat, drill, house, future bass, samples latinos, japoneses, trap… São experiências que eu quero ter ligadas a outros universos, e acho que os feats e produtores que participaram ajudam a construir isso.

Zepeto e Bruno Fechine, que assumem a produção comigo, não vêm do rap, mas são mais ligados ao indie. Essa diversidade também aparece nos feats: Vicente faz muito afrobeat, Giovani tá ligado a outras questões de atualização do pop, da MPB, com música feita no computador. Eu fiz uma parceria com a poeta Clarisse Lyra na letra de “As Horas Vulgares”. Fiteck, mesmo ligado ao plug, traz outro lado mais pop, de fora do universo rap em si. Dunna também, com uma coisa mais ligada ao R&B moderno, e Tangolo Mangos, uma banda mais indie brasileira. Acho que tudo isso aponta pra outros lugares diferentes do que tem sido mais comum no trap. Talvez Mateus Moreira, M.M, seja quem está mais próximo de uma tradição de rap, de onde estão vindo meus trabalhos.

As escolhas dos feats e dos produtores são pra oxigenar um pouco o cenário do trap em que estou inserido e apontar para outras sonoridades. Nesse sentido, acho que o disco é uma boa contribuição pra cena e pra linguagem, que ainda é bem nova pra gente aqui no Brasil.”

Escolha da capa

“Retomando esse lance político da capa que eu falei, acho que em certo sentido uma camisinha rosa traz respostas sociais ao governo que a gente vive. Em 2019 a ex-ministra Damares Alves disse que a gente vai viver uma nova era, em que menino veste azul e menina veste rosa. De alguma maneira o trabalho tenta comentar esse tipo de coisa, de uma maneira muito subjetiva. Não é uma coisa didática, explícita, no sentido de eu me sentir professor e querer catequizar ninguém, mas acho que as obras artísticas também podem se colocar nesse lugar de espaços de resposta e comentários.

A gente tinha realizado alguns ensaios fotográficos muito bons pra mixtape. Depois uma amiga mandou uma referência, uma coisa próxima da capa que saiu, eu a desenvolvi e fiquei muito em dúvida do que escolher. Até que Giovani Cidreira fez uma pergunta crucial pra mim: “É o seguinte, qual trabalho você acha que Kanye West, Drake ou Tyler, The Creator escolheriam?” Aí eu escolhi a camisinha (risos).”

Confira o faixa a faixa de Festas Clandestinas:

Overlok

“Overlok é a faixa que abre a mixtape e, fora os remixes, é a mais antiga que eu fiz. De alguma maneira, mesmo estando muito interessado em questões ligadas a uma tecnologia ancestral do nosso povo e principalmente a essa coisa da mistura cultural que a gente herda, eu me sinto ao mesmo tempo muito cosmopolita, muito interessado em produtos artísticos de diversas culturas.

O cinema foi – ainda é, mas já foi mais – um lugar muito especial pra mim. Eu acabei estudando, me formando em cinema. Hoje em dia eu não tô conseguindo ver muitos filmes, talvez por ter visto demais, e, ao que parece, os animes, desenhos da cultura japonesa, têm suprido esse lugar de imagem em movimento na minha vida. O sample de Overlok foi retirado de um filme de anime dos anos 1990. Logo depois que eu fiz o beat – a mix e master são de Zepeto mas assumo sozinho a produção – fui escrevendo a letra e essa foi uma música que ficou pronta muito cedo, mas só dei um tratamento e fui finalizar ela agora, porque ainda tava entendendo os caminhos do trabalho.

Ela tem algumas citações – meus trabalhos todos são muito recheados de citações, é algo que faz parte da minha linguagem, junto com remixes e arquivo. De alguma maneira traz questões ligadas a esse conceito de festas clandestinas, com versos como “eu tô brindando a sua separação”, “meu coração overlok”, “a mais violenta das artes”, entre outras que acho que são como frases de efeito. Essa é uma música muito especial pra mim, uma das que gosto muito dessa mixtape. Ela tem características de muitas das coisas que gosto de fazer dentro do trap, com BPM, instrumentos de trap, um sample que parece um pouco mais latino mas vem de um desenho japonês, ela tá dentro dos meus interesses de misturas culturais, de antropofagia, e acaba sintetizando o universo da mixtape como um todo.”

Unfollow

“Unfollow é uma música que tem produção de Zepeto, mas em que eu também trabalhei bastante por muito tempo. Tinha uma primeira versão dela que era um feat com Davzera e saiu na mixtape Tutorial de Como Ser Amado, como “Os Deuses”. Alguns trechos dela eram pra essa música, mas eu acabei refazendo o texto e vim trabalhando nessa ideia, primeiro em um trap com sample de Paulinho da Viola. Depois quis ter experiências no drill, que é um gênero que ficou mais popular por aqui recentemente, nos últimos anos.

A gente tem a sorte de ter Vandal como um dos primeiros expoentes desse gênero no Brasil, dele ser de Salvador e estar nesse lugar de tá na frente, experimentando e tentando desenvolver uma linguagem que esteja de acordo com as questões da gente. Experimentar um drill nessa mixtape era algo que eu tinha muita vontade de fazer.

O encontro com Peu (Zepeto / Pedro Leonelli, produtor musical e guitarrista da banda Bagum), um dos produtores que mais trabalhou nessa mixtape, de alguma maneira dá conta e traz contribuições no sentido de ter características muito próprias e até diferentes das tendências do gênero no resto do Brasil, por uma série de questões. Eu acho que essa música talvez seja uma das mais fortes, as pessoas têm gostado muito dela. É uma das músicas explícitas do trabalho, se comparada com outras que são mais tranquilas e trazem outras questões, no sentido de ter palavrão, falar de uma maneira mais dura, botando o dedo na ferida e apontando. Acho que o próprio beat, o próprio drill também pede isso. É a música mais curta, com 1 minuto e 54 segundos, e pra mim é isso: dedo na ferida, dedo na cara.”

Lokachora

“Eu acho que Lokachora é uma das faixas mais especiais na mixtape, porque ela sintetiza muito bem essa segunda metade da pandemia pra mim, essa coisa de você encontrar uma rede de apoio, de acolhimento. A gente teve que fazer isso durante esses tempos, ter aquele grupo de amigos que te ajudaram a atravessar e deixar as coisas minimamente mais leves. Esse também foi o período em que eu aprendi a produzir, a fazer beats, principalmente com Davzera, que era meu vizinho e com quem passei a pandemia junto – um dos artistas que mais admiro no Brasil hoje.

Também foi sem dúvida muito importante, muito significativo, estar ao lado de Giovani Cidreira, Vicente, Mateus Moreira, e essa música sintetiza esse encontro. Assim como as outras músicas, ela foi produzida no meu home studio na Boca do Rio, bairro onde nasci e moro até hoje. Ela surgiu dentro dos nossos encontros, nossas festas particulares de quatro pessoas – de alguma maneira nossas festas clandestinas também – em um universo de freestyle, de rimar em beats free, de internet.

A gente ligou um celular – provavelmente fazendo um churrasco, bebendo – colocou uns beats de Afrobeat, que é algo que Vicente traz muito no seu trabalho, e foi rimando em cima. No outro dia tínhamos umas duas gravações de 6, 7 minutos cada. A gente viu que tinha ficado muito bom e aquilo já era Lokachora. Agora, depois de mais de um ano, eu enviei a ideia pra Zepeto produzir o beat e a faixa. Existia a possibilidade de lançar antes, desenvolver como single com alguns selos de Portugal que Giovani tinha o contato, mas depois de um tempo e depois do beat de Zepeto, que é fantástico, acho que talvez uma das coisas mais bonitas feitas na Bahia desse ano, a gente decidiu lançar na própria mixtape mesmo.

Enfim, acho que é uma música bonita, que fala um pouco desse lugar de onde a gente vem, de romance e amor dentro da periferia, de como a população negra e periférica de alguma maneira consegue colocar pra fora seus sentimentos de uma maneira mais pura, genuína e bonita. Acho que Lokafora traz um pouco disso. Eu mesmo, que venho muito das citações, abri meu coração nessa track. Tem coisas muito pessoais, tipo “lembrando que a gente junto era foda”, “no endereço do meu peito você ainda mora”. Mas eu acho que o grande destaque é Vicente, ele fez um trabalho fantástico, genial mesmo, de freestyle. Pra mim, essa é uma das melhores faixas do disco.”

Carmen Sandiego

“Carmen Sandiego é um remix de uma faixa que eu tinha lançado dois anos atrás, primeiro como single. Agora eu convidei novamente Zepeto para criar um outro instrumental pra track.

Nessa primeira versão ela tinha saído com um beat free, de internet, mas que na verdade já era usado por outro artista, e eu senti a necessidade de fazer um remix dela, com uma cara mais minha. Acho que o que Zepeto fez foi muito genial no trabalho do instrumental. Eu tinha conseguido uma música cubana com vários samples dentro e ele fez a versão a partir desses samples.

Ela traz uma energia antropofágica muito forte, é uma música que tá dentro do trap, do pagotrap, da música latina, e é toda feita de citações. “A noite é veloz nos trópicos” vem de um poema de Ferreira Gullar, “curtindo a vida adoidado” é um filme, “estranho no ninho” é um filme, “Bruce Lee tranquilo, infalível” é Caetano Veloso, “fura o dedo, faz um pacto comigo” é Adriana Calcanhotto, “Tenchi muyo” é um anime… se você pegar, todas as frases são citações. Esse é um tipo de linguagem que me interessa. Fazer músicas de colagem, a partir de coisas que já existem, que já estão dadas no campo da cultura, é algo que dentro da minha pesquisa é muito forte.

Essa é uma faixa que eu adoro e senti muita necessidade dela tá presente melhor trabalhada, melhor mixada do que no trabalho anterior. E é isso, Carmen Sandiego, com produção de Zepeto, tá de volta.”

As Horas Vulgares

Poema “Aonde quer que eu vá”, de Clarisse Lyra. Publicado em Tanto tempo para aprender a escrever um poema com hortênsias (Edições Jabuticaba, 2022)

‘”As Horas Vulgares” é a quinta música da mixtape e traz duas colaborações que acho muito importantes, de pessoas por quem estou completamente apaixonado nesse momento. Uma delas é a poeta de Feira de Santana Clarisse Lyra, residente em Salvador, que acabou de lançar seu primeiro livro, “Tanto Tempo pra Aprender a Escrever um Poema com Hortênsias”. Nesse livro tem um poema chamado “Aonde Quer que Eu Vá”, que deu o start, foi de onde eu parti pra escrever essa música, e ela virou uma parceria da gente.

Clarisse sempre teve muito interesse pela relação entre poesia e música, MPB, processos de criação dentro do campo da composição e da música em geral. Eu havia feito uma primeira versão do beat, do instrumental da música, quando numa visita à casa de Clarisse ela começou a me mostrar alguns rascunhos de trabalho, a gente começou a falar cobre métodos de composição, de criação, e surgiu o desejo de fazermos alguma coisa juntos. Quando eu voltei pra casa ela me mandou alguns poemas e dentro desse arquivo tinha “Aonde Quer que Eu Vá”. O refrão e outras partes de “As Horas Vulgares” são extraídos dele.

Eu mandei a primeira versão do beat pra outra pessoa que já faz parte da minha vida, Bruno Fechine, músico da Tangolo Mangos, um artista multitalentoso, fantástico. Eu me surpreendo muito com a capacidade musical e entendimento que ele tem das coisas da música em geral. Bruno modificou completamente essa primeira versão, fez um outro trabalho, deu uma outra cara, e a música virou esse future bass da versão que saiu. Esse é um trabalho bem especial também pra mim, a parceria com Clarisse e Bruno.

A música em si é mais abstrata talvez, ao mesmo tempo em que fala de coisas muito claras e tem citações muito diretas, como “lutam melhor os que têm belo sonho” e “derrota após derrota até a vitória”, que são de Che Guevara. Ao mesmo tempo tem coisas muito abstratas, como o refrão, que parte do poema de Clarisse: “às vezes caminha na minha frente, pescoço comprido, a cabeça um alfinete. Abre o caminho, me guia, se diverte, às vezes caminha na minha frente”. Acho essa música é bem interessante, e especial.”

Rage Against the Machine

“Rage Against the Machine, sexta faixa da mixtape, é uma parceria com Mateus Moreira, M.M, que é meu vizinho e com quem também passei a pandemia junto. A gente já é parceiro há algum tempo, temos alguns trabalhos juntos, eu geralmente dirijo ou edito boa parte dos clipes dele e temos alguns feats, dois na mixtape passada, “Brick in The Wall” e “Drinks Tropicais”, além dele ser um parceiro de vida, um amigo. A gente tá junto de verdade há algum tempo, ele já é um grande irmão.

Essa faixa partiu de alguns samples de trilhas sonoras de filmes, principalmente de ‘O Poderoso Chefão’, e de um artista instrumental brasileiro. Eu fiz a primeira versão da música, ela ficou rodando aqui pelo estúdio por algum tempo e Mateus que apontou a possibilidade da gente fazer um trabalho nela. Então eu fiz a primeira parte da música e essa espécie de refrão “a minha família eu levanto, a taça, o pódio eu levanto. Levanta o pé, tô passando pano, a minha família eu levanto”, que ele repete no final também.

Acho que essa música traz questões pessoais e ao mesmo tempo uma coisa de valorização dessas famílias que não são tradicionais, que não são de laços sanguíneos, mas que a gente protege à toda custa. Relações em que os interesses são outros, não vêm do ego, mas são um gostar que faz parte da alma humana, de outra natureza. Ao mesmo tempo ela traz questões de vivências dentro da periferia e a relação com a arte e o cotidiano. Acho que é uma música que aponta pra vários lugares, vários caminhos.

Depois do instrumental pronto, da captação do áudio e do texto, eu mandei pra Zepeto, que trouxe as contribuições dele. Ele fez o baixo da música, a mixagem, masterização, toda a mágica, e assina a produção comigo.”

23

“23 é um feat com Fiteck e produção minha, com mix e master de Joca. Acho que muita gente já estava esperando um feat com ele. A gente fez uma música juntos em 2020 chamada “De um Coração Puro”, que ficou bem conhecida no underground de Salvador, mas Fiteck acabou não entrando como feat na mixtape passada, só como produtor do instrumental de uma faixa, “Mexicanboy”.

Acho que essa é uma música de amor, muito pessoal, mas que também aponta pra dois universos. A parte de Fiteck fala muito claramente de questões íntimas, enquanto a minha parte aponta pra coisas mais abstratas. Eu também fiz o refrão “Naquela tarde eu voltei pra você, naquela noite tentei te esquecer”, que traz questões íntimas minhas também, mas o texto dos versos é abstrato.

Eu lembro que parti da música “Trem das Cores”, de Caetano Veloso. Eu era muito apaixonado por essa letra, que se comporta de uma maneira bem inesperada, criando imagens bonitas de uma maneira muito abstrata, e eu queria fazer isso. Inclusive, peguei várias palavras dessa música pra desenvolvê-las e tentar dizer a mesma coisa que Fiteck tava falando concretamente, com uma abstração maior. Acho que o resultado é esse: um concreto-abstrato dentro do universo do amor, do cotidiano da gente.”

Bicho de Sete Cabeças

‘”Bicho de Sete Cabeças” conta com a participação de Dunna e produção minha e de Zepeto, além de ter a guitarra feita por Felipe Vaqueiro, da Tangolo Mangos. Essa canção é muito especial também, ela foi lançada três meses atrás como single, com um clipe dirigido por Coyote (Camila Gregório).

Acho que essa música sintetiza muito o meu encontro com Dunna, que eu acho que é uma das maiores cantoras do Brasil. Ela tá começando a produzir seus trabalhos e em breve vai criar um escândalo. Eu fui apresentado a ela por Camila, que é uma artista e diretora de cinema que eu já conheço há algum tempo. A gente se acompanha nas nossas transições e interesses artísticos, e ela é uma pessoa muito querida.

Camila, que é produtora de Dunna, é muito atenta às coisas interessantes que estão acontecendo, e achou que seria importante esse encontro. Então trouxe Dunna pra minha casa alguns finais de semanas durante a pandemia pra gente se conhecer e começar a produzir. E foi assim, acho que no segundo encontro, que a gente começou a esboçar Bicho de Sete Cabeças.

Dunna é muito interessada em R&B moderno, MPB, e o processo de composição partiu muito daí. Eu pedi pra Felipe Vaqueiro uma guitarra de R&B, fiz as baterias, uma primeira versão do beat, e nós começamos a desenvolver a letra da música. Eu apresentei pra ela uma versão de Dia Branco (de Geraldo Azevedo) por Amelinha, uma das versões mais bonitas dessa música, e lembro que Dunna pirou na hora, foi muito impactante pra gente ficar ouvindo essa música nesse dia, e esse foi o start pra Bicho de Sete Cabeças. 

A faixa também tem muitas citações. “Se você vier pro que der e vier” e “eu lhe prometo o sol”, de Dia Branco, “sei que aí dentro ainda mora um pedaço de mim” é Espumas ao Vento, de Fagner, “disfarça e chora, na voz do lamento a aurora”, de Cartola. Dunna é professora de idiomas também e tem um trecho em inglês que traz outras questões e cria outras imagens. Acho que foi um casamento muito bonito, um encontro fantástico, e Dunna já é uma grande irmã pra mim, uma pessoa que com certeza vou levar pro resto da vida.”

Como

‘”Como” é a última faixa da mixtape, também um remix de uma música que eu lancei três anos atrás. A primeira versão tinha um sample e vocais de Paulo Diniz, da música “Como?”, e eu sentia a necessidade de apresentar uma outra proposta dessa música, que foi produzida genialmente por Bruno Fechine, com participação da Tangolo Mangos e vocal de Felipe Vaqueiro, que levou essa espécie de remix pra um outro lugar, tão grandioso quanto o de Paulo Diniz. Felipe ainda tocou violão 12 cordas e synth, Pedro Viana tocou guitarra slide e Bruno Fechine sintetizador. Inclusive amo a Tangolo Mangos, todos os integrantes.

O novo refrão foi feito no dia da gravação das vozes de Felipe. A gente desenvolveu, modificou e escreveu a letra a partir de uma melodia de Hyldon, da música “Sábado e Domingo”, porque a gente queria fugir da melodia de Paulo Diniz. Eu lembro que durante um brainstorming da gente eu fui no banheiro e na volta já tava com essa primeira parte do refrão na cabeça “Como eu fico sem você, se eu te amo sempre muito mais? Como eu fico sem você, se eu te amo para além do cais?”. Neca (Bruno Fechine) foi modificando a melodia, Vaqueiro queria fazer citações a Clube da Esquina, Milton Nascimento, e veio com essas propostas de “para além do cais”, citando Ronaldo Bastos, e “como poderá saber a sua vez de se lançar”.

Acho que essa música agora é uma outra experiência, Neca é muito ligado à eletrônica, ao house, e a gente partiu também disso pra desenvolver o remix, mas a letra é quase a mesma que eu tinha feito no outro trabalho. Acho que ela fala de questões pessoais, de vivência do amor, trazendo questões políticas, e é a faixa que a gente escolheu pra encerrar.

Eu ia falar pra tirar essa parte das questões políticas, mas acho que falar de amor dentro da periferia também é política. Sinto que essa música em si, inclusive a localização dela no final, fechando a mixtape, encerra o trabalho de uma maneira alegre, esperançosa, e não é à toa. Ela aparece também enquanto resposta social aos tempos sombrios que estamos vivendo, resposta a esse governo, ao nosso desejo de mudança. Acho que o brasileiro é um povo esperançoso e gente deseja que as coisas melhorem a curto prazo. Esse ano tem eleição e eu espero realmente que esse governo saia do poder, que as coisas mudem, comecem a se transformar e a gente possa voltar a sorrir. 

A gente sempre fez festas clandestinas. Os paredões são festas clandestinas, os encontros dentro da periferia em lugares que as pessoas que estão lá não conseguiriam acessar. Acho que essa mixtape, além de vir de uma tradição antropofágica brasileira, também está em um lugar de enfrentamento. A arte sempre foi um lugar de resistência, e esse disco faz parte disso.”

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