Uma nova fase para a BAGUM (@bagum) se inicia esta semana com o lançamento do single “A Lua Que Foi Meu Lençol”, com participação de Fiteck e Liz Kaweria. A novidade marca o começo de um novo ciclo que será finalizado com o primeiro álbum da banda, previsto para agosto. A banda instrumental formada em Salvador faz uma sonoridade que trafega entre rock, jazz fusion contemporâneo, ritmos afro-brasileiros e música progressiva.
Por Pedro Antunes de Paula
No dia 6 de setembro de 2024, a banda BAGUM voltava aos palcos para o seu primeiro show do ano na sua cidade natal. Depois de vários projetos ao vivo em colaborações renomadas com o rapper Vandal e a cantora Lívia Nery, havia expectativa para o retorno da banda, principalmente com as histórias de que o primeiro álbum completo do grupo, depois de oito anos de carreira, estaria em produção.
Em movimento inusitado, a banda formada por Gabriel Burgos (bateria), Pedro Tourinho (baixo), Pedro Leonelli (guitarra) e Pedro Oliveira (sintetizadores), resolveu voltar aos palcos com o show “Construção”, com proposta de apresentar o novo trabalho ainda não finalizado, e versões das faixas conhecidas por seu público [Leia a resenha do show aqui]. Antes do show, nosso jornalista colaborador Pedro Antunes de Paula conversou com a banda para entender melhor o processo criativo do grupo e os resultados das colaborações artísticas dos últimos anos.
El Cabong (Pedro Antunes de Paula): Eu achei muito curioso vocês escolherem ir para os palcos com a produção do disco em andamento, escolher apresentar esse processo ao público. Por que decidiram fazer isso?
Gabriel Burgos:O momento. A gente está aqui em setembro e é nosso primeiro show do ano. Poderíamos fazer um show comemorativo de um EP, também trazer o último show que fizemos no ano passado, mas do último show solo que fizemos aqui, a maior parte do processo da gente foi tocando com outros artistas e produzindo essas músicas. E justamente por esse lance de estarmos fazendo música mais digitalmente, a ideia é sentir e trazer essas músicas para o ao vivo. Talvez hoje saiam umas coisas que a gente vai incluir no disco, por exemplo, porque fez mais sentido tocando.
Pedro Tourinho:É um processo ainda do próprio disco. Foi uma parada que a gente parou para pensar e que tinha a ver com a fase de estar construindo o álbum. Também se relaciona com os recursos que a banda tem, porque, de certa forma, o hiato de shows que tivemos está muito ligado com o longo processo de gravar. É como a gente consegue produzir, é como a gente consegue conceber esse disco. Não tivemos facilidade. O que temos, de fato, são pessoas que nos fortalecem, pessoas que gostam do som, que botam fé. O recurso é nosso e dessas pessoas que botam carinho para a gente trabalhar.
Gabriel Burgos:A nossa própria forma de fazer também. As músicas mais antigas que a gente vai tocar hoje, por exemplo, são músicas que, em grande parte, não tem nada a ver com a versão gravada. Temos essa característica. Essas novas serão apresentadas de modo muito fiel ao que já está gravado, com intervenções e mudanças, claro, mas do processo mesmo de adaptação para o ao vivo. A ideia é irmos sentindo isso, e talvez o próximo show já não seja igual a esse, sabe?
El Cabong (Pedro Antunes de Paula): Então, de certa forma, o palco faz parte do processo de composição.
Pedro Leonelli:Faz. Com certeza a gente vai mudar coisas nas faixas já de acordo com o que a gente sentiu ensaiando e apresentando elas. O ensaio desse show foi a primeira vez que nos juntamos para tocar essas músicas juntos, então com certeza vamos mudar coisas de acordo com o que a gente está entendendo delas, principalmente do seu funcionamento em conjunto.
Pedro Tourinho:Na real, eu acho que isso até já aconteceu. Gabi contou que está fiel, e está mesmo, mas as coisas não deixam de acontecer. Quando você vai fazer a parada, não deixa de ter esse momento de entender o que de fato você tem que fazer para tocar aquela música que você teve a ideia e gravou. Está fiel enquanto ideia de composição, mas na execução em si, sempre aparece algo mais. Para mim, pelo menos, apareceu várias vezes, o tempo todo.
Pedro Leonelli:Eu quis dizer que a gente vai levar essas mudanças para o disco. No sentido de: aconteceu isso de diferente quando a gente estava tocando. Será que a gente não testa isso também na faixa?
El Cabong (Pedro Antunes de Paula): A banda já tem muitos anos e agora que o primeiro disco de fato vai sair. Queria entender essa relação do tempo para vocês. Acham importante esse momento de maturar as ideias?
Pedro Oliveira:Existe o ponto material. Como é que a gente consegue materializar o que a gente tem? Isso influencia muito no tempo que se gasta para compor, gravar, mixar, sendo uma banda independente.
Pedro Tourinho:Nesse sentido do tempo para composição, não diria que é exatamente o caso, que seja de fato uma ideia. De pensarmos que queremos maturar porque não queremos lançar logo. Acho que acho que é mais consequência do recurso que a gente tem acesso. Da forma de produzir que a gente consegue ter acesso.

El Cabong (Pedro Antunes de Paula): Ainda sobre o disco. O que que vocês acham que esse primeiro álbum carrega lá da origem da BAGUM, e o que acham que tem nele que demonstra uma maturidade da banda?
Gabriel Burgos:Eu acho que o disco carrega ainda a quebra da expectativa de mercado. Estamos fazendo um som que a gente gosta, que acreditamos, e que não tem uma expectativa se “vai ou não acontecer” – não somos uma banda de gravadora que tem essa necessidade de números. Acho que por mais que seja um álbum, um outro momento, nós não temos essa pressão. Nosso processo de fazer música em 2016, de experimentar as coisas que a gente gostava, não era tão guiado como hoje é. Mas no fim das contas, a gente está fazendo o som que gostamos, muito característico de cada um, colaborando de forma muito respeitosa. E claro, tudo isso acompanha as mudanças individuais de cada um, que acaba sendo uma mudança coletiva.
Pedro Leonelli: Desde quando a gente começou a banda até aqui, todo mundo esteve sempre tocando, inclusive com outras pessoas também. Foram oito anos em que todos estavam sempre muito dedicados à música. Todo mundo foi amadurecendo – a forma como a gente produz, como pensamos música. Isso está muito presente. A forma como a gente toca e compõe é um jeito oito anos mais maduro, e oito anos de quem esteve sempre tocando, sempre ouvindo e estudando música de alguma maneira. Tudo isso soma. Hoje, eu nos vejo com uma abordagem bem diferente, apesar do amadurecimento não ter um termômetro objetivo. Quando a gente passou a tocar, também, com Livinha (Lívia Nery), Toro (Pedro Tourinho) com Tori, Gabi com a VDO (Vivendo do Ócio) e Ozi (Pedro Oliveira) com Aurata e Candioco, a gente está se colocando em outros espaços e aprendendo muito com essas pessoas. Isso faz muita diferença.

El Cabong (Pedro Antunes de Paula): Ia tocar neste assunto agora! Muita gente ficou sabendo de vocês por estarem colaborando com Vandal e Lívia Nery. Isso deu projeção para vocês. Como que essas experiências influenciaram na maneira de fazer música para vocês.
Pedro Leonelli: Eu acho que puxou a gente muito, porque admirávamos esses artistas. Encarávamos eles em um lugar e a gente de outro. Quando a gente começou a tocar com eles, tinha essa dinâmica de: “eles fazem um som foda. A gente está tocando com eles, então a gente tem que chegar nesse som que a gente acha foda”. São lugares em que você enxerga de formas diferentes. Uma coisa é o que você faz, outra é um trabalho que já está sendo feito e que você o admira há muito tempo. Eu me senti nessa dinâmica de “vou tocar música de Lívia, de um disco absurdo. Tenho que dar o melhor de mim, tenho que melhorar”. E com Vandal, o lance do palco muito forte, seu funcionamento.
Gabriel Burgos:Eles são artistas que tinham suas próprias músicas. Vandal, nesse caso, não tinha música com banda. Já Lívia Nery, já tinha uma unidade pronta, um “produto” [aspas de Gabriel] realizado por outros músicos. Apesar disso, os dois nos deram liberdade para nós apresentarmos coisas. E só de ser a gente tocando já tem a nossa estética, claro, mas eles sempre aceitavam algumas sugestões, eles abriram espaço para a gente sugerir.
Pedro Tourinho:E acho que nem só de sugerir, mas de abraçar o que a gente é. Ter esse lugar de juntar o que a gente já apresentaria naturalmente por nossa característica, e o que Livinha já tinha gravado. Ela tinha um material, mas ela abraçou automaticamente a estética que a gente queria e poderia propor. Assim como a gente também já abraça a parada dela. Como já tínhamos referência dela, não chegamos zerados.
Gabriel Burgos:E isso vem para o álbum. Eu acho que tem referência dessa interpretação, a forma da gente se posturar com eles e como isso refletiu na nossa forma de compor. O que sentíamos com a questão das melodias de voz, por exemplo, a gente entendendo o que é que poderíamos mudar no nosso som para se adaptar a isso. Claro, sem conversar objetivamente sobre isso – foi algo natural que inevitavelmente veio para dentro do nosso processo de compor.
Pedro Leonelli: Acho que a gente aprendeu a se entregar mais para a música. A BAGUM tinha, e ainda tem esse lado, de “vamos fazer o que a gente quer e o que a gente gosta somente”, ou seja, nossa composição vai ser guiada pelo que a gente tem vontade de tocar e o resultado vai vir disso. Mas esse espaço foi se equilibrando, diminuindo, para dar lugar à necessidade de fazer o que é preciso para chegar no som que a gente entende que é foda. É um processo de se entregar, de aprender o que é preciso fazer para chegar nesse som. Esse disco tem mais disso, equilibrado, claro, com o que a gente quer tocar.
Pedro Tourinho:Tínhamos uma banda que dava muita força a essa criação baseada na vontade. Chegam eles dois e a partir daí precisamos justamente entender o que é que a música precisa. Não é necessariamente tirar a música, aprendê-la. Pode ser até você mesmo sugerir algo, mas dentro desse pensamento do que é necessário.
Pedro Leonelli: É você enxergar a coisa meio fora de você. Chegar em uma sonoridade que está se mostrando para você, mais do que você estar somente botando ela para fora.
Ouça o novo single da Bagum
El Cabong (Pedro Antunes de Paula): Menos uma expressão e mais entender a obra de fora.
Pedro Leonelli: Até que seja uma expressão, porque às vezes é uma coisa sua. Você já projetou aquilo com referências de coisas que já existem, então você vai se entregar ao processo de chegar naquilo ali fora de você, primeiramente. A gente ter que aprender a chegar nesse groove de Livinha, ou nesse que queremos fazer. As duas coisas estão fora de você, a gente enxergou, são objetos.
Pedro Tourinho:De certa forma, Banha (Felipe Pomar) teve um papel fundamental nisso, apesar da gente talvez não ter tido maturidade para internalizar da mesma forma que hoje.
[Felipe Pomar foi produtor do EP Tecido, lançado em 2018. Recentemente, voltou a trabalhar com a BAGUM no single Coração Cometa, colaboração da banda com Lívia Nery, lançado em 2024].
Pedro Tourinho:Quando apareceu Livinha e Vandal, eu acho que esse lance da maturidade se mostrou, porque Banha ensinou isso para a gente, mas nós abraçamos da forma que dava para abraçar. Não é que a gente só não fez nada (risos), mas tem uma diferença gritante.
Pedro Leonelli:A energia que a gente tinha naquela época ainda era muito essa de “quero fazer o que eu quero tocar, quero que a música tenha a cara do meu play, do que eu misturo e experimento.
El Cabong (Pedro Antunes de Paula): Está chegando perto de 19 horas, então eu vou encerrar. Acho que vocês falaram bastante, mas se quiserem falar mais alguma coisa sobre o disco, sobre esse show, sintam-se à vontade, por favor.
Gabriel Burgos: Vamos quebrar e amassar (risos)
Pedro Tourinho:Vamos falar alguma coisa bonita para sair no El Cabong, gente. O disco tem previsão para sair no próximo ano. Esse processo aqui é importante, a gente mostrar isso para o nosso público, já que estávamos afastados, mostrar para Salvador com certeza vai engrandecer o processo do disco. É isso. Espero que bata certo.
El Cabong (Pedro Antunes de Paula): Com certeza. Vai bater.







