
A cantora, compositora e sanfoneira Lívia Mattos fecha trilogia e expande linguagem do trio com sanfona, tuba e bateria em seu novo álbum, Verve.
Seguimos no el Cabong com a missão de tentar apresentar pelo menos parte dos inúmeros lançamentos da música baiana e brasileira. Neste ano, já trouxemos resenha de discos de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro, Rubel, Jadsa, Rachel Reis, entre tantos outros. Com texto da jornalista colaboradora Julli Rodrigues, conhecemos agora o mais novo trabalho da cantora, compositora e sanfoneira baiana Lívia Mattos, VERVE. Lançado pelo selo YB Music, o álbum é produzido por Alê Siqueira, que também assinou o primeiro álbum da artista, e traz participações da indiana Varijashree Venugopal e da senegalesa Senny Camara.
Por Julli Rodrigues*
O que incita seu processo criativo? Em geral, um dos motores desta atividade tão cara à existência humana – a criatividade – é a verve, definida pelo dicionário Michaelis On-line como “Entusiasmo criador que move o desempenho do artista”. A imaginação viva, a vivacidade, segundo outro dicionário, o Priberam. De modo que não há substantivo (feminino, diga-se de passagem) mais adequado para descrever o terceiro disco da cantora, compositora, instrumentista e circense baiana Livia Mattos, que ganhou esse nome. Lançado em agosto de 2025, o álbum consegue uma proeza singular: planta uma pulga atrás da orelha do ouvinte sem causar nele o impulso imediato de expulsá-la. Pode parecer estranho ler isso, mas já explico.
Com produção de Alê Siqueira, Verve é descrito em seu material de divulgação como o fechamento de uma trilogia que começou com o luminoso Vinha da Ida (2017) e teve seu segundo capítulo no denso Apneia (2022). Novamente marca presença a sonoridade do trio formado pelo acordeon de Lívia com a tuba de Jefferson Babu e a bateria de Rafael dos Santos, transitando entre o forró, o frevo, o experimentalismo e a delicadeza. A artista assina quase todas as faixas sozinha ou em parceria: a exceção é “Mundo Verde Esperança”, de Hermeto Pascoal, na qual o trio ganha as adições de Tomás Oliveira (taças de vidro) e Aline Gonçalves (flauta). A indiana Varijashree Venugopal empresta sua voz na faixa de abertura, “Caucaia”, enquanto a senegalesa Senny Camara canta e toca kora (instrumento de cordas tradicional africano) na música seguinte, “Ndoukahakro”, uma homenagem a uma aldeia homônima na Costa do Marfim onde Lívia se apresentou.
Deslocamento, afetos e impermanência estão entre os assuntos abordados por Verve, que equilibra os pratos da música instrumental e da canção sem deixar nenhum deles cair. Isso se reflete de forma clara na atmosfera de temas como a faixa-título e “Forrógutti”, homenagem ao acordeonista Toninho Ferragutti: de forma cinematográfica, eles conduzem o ouvinte a uma jornada com destino desconhecido, em um espaço liminar entre a tensão e a festa. Coisa cinematográfica, eu diria.
Boa parte das canções, inclusive, serve como “respiro” em meio a tanta impermanência. “Quanto Mais Doce” e “Com Você Eu Vou” trazem uma delicadeza agridoce. A reflexiva e levemente tensa “Como Se Fosse o Mar”, parceria com Ivan Lins e Thaís Nicodemo, evidencia a beleza da voz de Lívia passeando por caminhos sinuosos e me faz pensar que Ná Ozzetti, presente no trabalho anterior, teria sido a convidada perfeita para dividir os vocais. O espírito vanguardista se mostra mais claramente em “História de Uma Cabeça”, espécie de prima forrozeira de “Minha Cabeça” (Luiz Tatit), do grupo Rumo, e “Quem Será Que eu Sou?” (Kleber Albuquerque e Sérgio Molina), da banda Música de Montagem. Pode-se dizer que toda tensão ainda presente se resolve em “Folia de Fole”, o animado frevo que encerra o disco em uma catarse coletiva.
A tal pulga atrás da orelha, que citei lá no começo deste texto, é isso aí: Verve é um disco que mescla instrumental e canção, experimental e popular, em um amálgama capaz de instigar o ouvinte pouco acostumado a esse tipo de sonoridade, mas sem causar o estranhamento profundo que o faria trocar de música imediatamente para algo já conhecido. Movimento e tensão conduzem à delicadeza e à festa, e quando você se dá conta, já foi tragado por esse universo de vivacidade, entusiasmo e inspiração. O movimento de Lívia Mattos em Verve nos inspira a buscar nosso próprio movimento… e, quem sabe, também criar algo. O que incita seu processo criativo? Ouvir um bom álbum pode ser um ponto de partida.
* Julli Rodrigues é jornalista, produtora musical da Educadora FM e DJ seletora. Mais detalhes sobre a autora aqui.







