
Por Julli Rodrigues*
Nos segundos iniciais de Entra, Vai!, faixa que dá nome ao primeiro álbum da cantora e compositora baiana Ivana Gaya, ouve-se um convite ousado: “Entra no meu corpo, vai! / Pela minha boca e por onde mais você quiser”. Para além de ser a expressão direta e reta de uma mulher senhora de si mesma, esse chamado pode ser interpretado de forma mais profunda: pelos 35 minutos seguintes, o ouvinte entra em um rico universo no qual as sonoridades do pop negro baiano são reprocessadas entre sintetizadores e dissonâncias, e os temas do cotidiano são traduzidos por uma lírica incomum. O resultado é um trabalho que vai além do óbvio e nos brinda com eletroarrocha, samba-reggae psicodélico, pagotrap e as mais diversas experimentações sobre gêneros já conhecidos da música da Bahia.
Lançado no último mês de outubro, Entra, Vai! marca o retorno de Ivana à música após um hiato de cinco anos. Ou não. Embora o último EP, Magia Negra, tenha sido lançado em 2020, a artista soltou dois singles em 2022: “Siga, Irmã” e “Quem Manda Nessa”. Ambos foram incorporados ao álbum, passando a fazer mais sentido quando inseridos nessa narrativa pop-experimental. Junto a eles, está “A Cor da Nobreza”, faixa que conta com a participação do músico Jordi Amorim e foi lançada como primeiro “aperitivo” oficial da nova era, em maio deste ano.
É importante dizer que Ivana assina as composições, os arranjos, a direção musical e a produção de Entra, Vai!, embora esteja rodeada de antigos e novos parceiros como músicos convidados (Jotaerre, Felipe Guedes e Cuper, só para citar alguns, além dos violões de Neila Kadhí em “Eu Lembro”). Isso significa, na prática, que o espírito de “música estranha” do disco – na melhor das acepções – é ideia e mérito dela mesma. É ela que transmuta as já conhecidas levadas do arrocha, do samba-reggae, do pagode e do reggae em uma matéria musical um tanto disruptiva, carregada de sintetizadores, com timbres de percussão pouco usuais.
Desse processo, sai um som que até se parece com o que estamos acostumados a ouvir e esperar desses gêneros populares, mas com alguma coisinha ali que é diferente, que cutuca o ouvido, que provoca o pensamento. Talvez as duas canções mais “tradicionais” do álbum, ou seja, mais alinhadas à cartilha pop, sejam “Almaci” e “Sexta Vinyl”. As demais guardam esse grão do experimentalismo pronto para germinar – ou já florescendo.
Outra característica que enriquece Entra, Vai! é o jeito singular de Ivana para tratar de temas como desejo, empoderamento, superação de amores frustrados e questões sociais. Qualquer um pode cantar “estou sofrendo porque meu amor me deixou”, mas Ivana transforma a sofrência em um baile na Estação da Lapa com motorista, cobradora, passageiros e baleiro, como diz a letra de “Pedaço de Pista na Lapa”. Cantar “legalize já” é relativamente comum, mas “Procure Saber” vem com outra pegada: “Essa é a resposta do cultivo verde que liberta a gente / Temos tempo de discurso, mas a atitude é aqui e agora”. Da mesma forma, há um abismo entre dizer “estou a fim, bora?” e escrever “Eu vou me atirar de badogue pra você / eu vou te afogar na maré do meu prazer”. Uma caneta tão afiada e tão fora da curva quanto a de Rachel Reis, dando vida a um eu-lírico que “não come reggae”.
Entra, Vai! é essencialmente um disco de pop baiano de vanguarda. Ele é suficientemente pop para entrar no ouvido – com o perdão do trocadilho – e fazer dançar, mas ao mesmo tempo abre caminho para uma nova forma de fazer música afro-baiana: com ousadia nos arranjos, inspiração progressiva/psicodélica e refrãos que grudam sem apelar ao óbvio. Ao entrar no universo de Ivana Gaya, somos convidados a sair do lugar-comum.
Julli Rodrigues é jornalista, produtora musical da Educadora FM e DJ seletora. Mais detalhes sobre a autora aqui.








