Lívia Mattos
Lívia Mattos

Com single prévio de novo álbum, Lívia Mattos segue sua trajetória de conquista de territórios pelo mundo

Com turnê por Canadá e três países europeus, a cantautora baiana Lívia Mattos lança “Caucaia”, single instrumental que antecipa seu terceiro álbum.

Acordeonista e cantautora baiana, Lívia Mattos (@liviamattos.art) é uma daquelas artistas super ativas e irrequietas, que não se contenta com os limites do mercado e cria suas próprias oportunidades. Atua com circo, performances e como socióloga, mas é na música que une esses elos. Com dois álbuns lançados, ela está preparando o terceiro, batizado como Verve! e acaba de soltar “Caucaia”, o primeiro single que serve como prévia do novo disco. Ao mesmo tempo que lança a música, Lívia realiza mais uma turnê internacional neste mês de julho, passando por quatro países.

Em seu novo single, a artista baiana apresenta uma espécie de forró instrumental “empenado”, como ela mesmo definiu. Sua sanfona dialoga com a dupla que a acompanha, Jefferson Babu, na tuba, e Rafael dos Santos, na bateria, zabumba e triângulo, além de contar com uma peculiar colaboração da cantora indiana Varijashree Venugopl. A convida especial contribui com o sargam, técnica milenar de solfejo da música clássica da Índia.

Lívia conta que a composição foi feita de forma curiosa, quando a artista estava na cidade de Caucaia, no Ceará, desenvolvendo seu projeto de pesquisa sobre a música no circo com circenses itinerantes. “Estava sem a sanfona e fiz a música cantando, solfejando as notas, pra só depois tomar corpo no instrumento”. Para o single, propôs manter esse solfejo da composição, mas com uma outra forma utilizando o sagram indiano, que canta os fonemas com os nomes das notas e com outras sílabas que as significam.

Uma combinação que mostra como Lívia sabe aproveitar a experiência em dialogar com outras culturas e sonoridades, aprofundada em suas diversas viagens para festivais, feiras e turnês pelo mundo. “Essa mistura proporciona ao ouvinte o encontro com uma sonoridade inusitada, de tradições longínquas entre o nordeste brasileiro e a Índia, que por mais distantes, sinergicamente se comunicam pela música dentro dos seus universos”, explica.

Carreira Internacional

Recém vencedora do Prêmio Profissionais da Música, na categoria Jazz do Norte-Nordeste, a artista baiana tem explorado o mercado internacional como alternativa e possibilidade para sua música. Este ano, Lívia já fez uma série de shows nos Estados Unidos e no Canadá, em abril e maio. Agora, em julho, vai circular novamente pelo Canadá, com 4 shows, em três festivais, Sunfest, Axé World Fest e Mixto Festival. Na sequência, parte para Europa, onde se apresenta sete vezes por festivais na Suíça, Bélgica e França. Tudo isso em 22 dias, entre 5 e 27 de julho.

Para Lívia este movimento no exterior é fundamental em vários sentidos. “Acho que a gente está num momento crucial de reconstrução de imagem de Brasil, não só pra fora do país, mas pra gente mesmo também”, afima Lívia. “Nesse processo, é importante diversos movimentos vinculados à memória, à dinâmica das tradições, às inquietações, às nossas subjetividades – tão aniquiladas nos últimos tempos – com muita criatividade para existir e ousar”, continua.

Com o seu trabalho, Lívia já circulou por diversos países, ela contabiliza pelo menos 20 no currículo, de Bangladesh e China a Canadá e EUA, passando por Costa do Marfim, Egito, Colômbia e quase toda Europa, incluindo Estônia, Grécia e Rússia, além dos mais comuns. Dentro dessa circulação, passou por festivais como Akkordeon Festival Wien, na Áustria; International Macau Parede, na China; Cantos na Maré, na Galícia; Accordions Around The World, em Nova Iorque; dentre muitos outros. Em 2017, foi selecionada para o programa Onebeat, da Found Sound Nation (EUA), onde realizou residência e turnê pelos Estados Unidos com outros 24 músicos escolhidos ao redor do mundo.

“As minhas expectativas em circular por outros países é de poder levar uma proposta de Brasil outra, fora das arestas estereotipadas que ainda nos margeiam além mar. É de tentar deslocar um pouquinho o pensamento, e, de alguma forma, bagunça-lo também”, explica. “Tudo isso também pelo corpo, que é fundamental para movimentos de transformação e reconstrução”, diz.

Lívia encara as apresentações que faz no exterior sem criar expectativas quanto a recepção de seu trabalho. Deseja apenas ser bem recebida. “Espero que isso ajude a construir um caminho em que não se tenha que colocar sempre tanta força para as coisas acontecerem, mas não tem um deslumbramento de que isso vai acontecer da noite pro dia e que tudo vai mudar por conta de um show, uma seleção, de uma turnê. o trabalho é continuo”, ressalta. “Uma coisa que a gente aprende como artista é que um dia a gente é rei e no outro é cachorro, então deslumbramento não é de muita serventia”.

Segundo ela, vivemos também um momento de transição de paradigmas que vem reverberando concretamente no plano real e isso ecoa pelo mundo. “Como com relação ao lugar da mulher na sociedade, na política, nas ciências, na música, no mundo – resultante de muitas camadas de luta ao longo dos tempos, claro”, explica. “Dentro de todo esse contexto – que eu não poderia deixar de situar porque me atravessam diariamente – me sinto imbuída de força para levar esse trabalho artístico para circular, pela consistência que ele tem, pela proposição de uma leitura muito própria, pela inquietação de pensar a sanfona como dispositivo criativo por outros caminhos, pelo que eu acredito que ele representa”, diz.

Uma coisa que a gente aprende como artista é que um dia a gente é rei e no outro é cachorro, então deslumbramento não é de muita serventia”

Toda essa postura, vem de muita persistência, mesmo com as dificuldades. “Sou soteropolitana, instrumentista, cantautora, e estarei circulando com a minha autoralidade, através de uma sonoridade e composições próprias, fruto de anos de trabalho, sedimentados tijolo por tijolo. sem atalho. porque não tem atalho e não acredito em caminhos fáceis, apesar de estar também um pouco cansada -como quase toda classe artística – de fazer tanta força”, diz a artista.

Apesar de citar o cansaço, Lívia segue circulando com os mais de 15 quilos de seu instrumento, tocando o quanto pode em todo lugar e ao mesmo tempo tentando desbravar e mostrar nossa música, com brio e muita personalidade.

“Outra coisa que eu sinto, é que o velho continente precisa da gente, mais do que a gente precisa deles e sempre foi assim”, diz a artista. Ela reforça que é preciso ter muito cuidado de não reproduzir relações extrativistas e coloniais, no sentido pragmático e também no mais subjetivo. “E esses dois âmbitos não são contraditórios”, diz. “Pego a sanfona como escudo, a voz como flecha e a desconfiança de quem já foi roubado, mas com a leveza de quem vem de um país que conseguiu transformar em muita beleza e vida, tanta tragédia. contudo, não há nada mais emocionante que ser brasileira, que ser nordestina, que ser baiana, que ser de Salvador”.

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