Gêneros, ritmos, tipos e estilos variados. A diversidade da cultura negra deu a tônica mais uma vez no festival AFROPUNK, nos dias 8 e 9 de novembro, no Parque de Exposições, em Salvador. O festival levou uma sequência de shows que fizeram um bom panorama da vasta produção musical brasileira, além de atrações internacionais.
Se a chave de qualquer show e festival é a conexão que os artistas conseguem estabelecer com o público. A música servindo como elo. No AFROPUNK isso tem um valor especial. É mais do que a música. A conexão se dá pela representatividade, as histórias em comum, a ancestralidade, os textos que falam diretamente com cada um dos presentes, as lembranças. Pode parecer chavão, mas ali é como se as milhares de pessoas, em sua maioria pretas, se conectassem através da música, com suas próprias realidades.
Na primeira noite, mesmo sem shows apoteóticos, mesmo sem clímax tão óbvios, os artistas que sequenciaram no palco, levaram a multidão ao delírio de diferentes formas. Era comum imagens exibidas no telão de pessoas chorando, emocionadas, cantando incisivamente ou com cumplicidade.
Péricles foi um dos que melhor soube aproveitar isso. Ele sabe montar um repertório que toca intimamente gerações, mesmo não sendo o melhor cantor de samba ou o compositor mais brilhante. A conexão é sentimental, tocando o lado mais romântico do jovem que ainda está criando desilusões amorosas ou dos veteranos amantes do samba lamentando amores perdidos.

Todo mundo cantou junto um repertório que passou por sucessos de sua ex-banda Exaltasamba, composições próprias, e clássicos de Martinho da Vila, Fundo de Quintal e Arlindo Cruz, entre outros. Não tinha como não se emocionar e foi dos shows mais celebrados da noite.
Por outro lado, a conexão pode se dar por versos que tocam em momentos, histórias e conquistas, não apenas amorosas, de sua própria vida. Acompanhado apenas por um DJ e de três MCs, BK’ levou seu rap cru e direto, com foco em seu último projeto, ‘Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer’, mas também com música de ‘Icarus’. Não à toa o público cantava todas as músicas com lágrimas ou raiva.
Convidados
A abertura coube a DJ pernambucana Boneka, que levou seu Baile conectando Salvador já no início do festival com bregafunk, rap, R&B e pagode.
A cantora e compositora Núbia estabeleceu uma relação entre a Bahia e o Maranhão, mais precisamente com a força do reggae, tão presentes e poderosos nos dois estados. Acompanhada de uma banda segura e muito competente, apresentou sua música que traz o ritmo jamaicano dialogando com Tambor de Crioula e outros ritmos caribenhos.

Ainda recebeu a rainha do reggae, a conterrânea Célia Sampaio, empunhando juntas a bandeira do Maranhão, além do bloco afro baiano Muzenza e o cantor e compositor Dja Luz, levando o Parque de Exposições a se conectar com a forte percussão e clássicos da música local como “Swing da Cor” e “Brilho e Beleza”.
Núbia é daquelas artistas que não são grandes, não tocam em rádio, não são destaques no cenário nacional por puro capricho de um mercado limitado e viciado.
A sequência promoveu outros tipos de conexão. Brasil, Haiti e Estados Unidos. O rap da capixaba Budah com a musicalidade de Wyclef Jean, rapper, compositor e produtor musical, conhecido pelo seu trabalho com o grupo Fugees. Sua participação foi um dos momentos principais da noite.
Juntos, como velhos parceiros, cantaram um mashup com alguns sucessos da carreira dele, “Hips Don’t Lie”, sucesso com Shakira, “Fu-Gee-La” e “Ready or Not”. Ganharam o público. Sozinho cantou outro hit, “911”. Budah voltou e cantaram a parceria recém lançada dos dois, “Montanha Russa (Would You Be Mine?)”, para finalizarem numa bonita versão de “Woman No Cry / Não Chores Mais”.

Jean rasgou elogios a Budah, colocando ela como um nome ao lado de algumas das estrelas da música norte-americana, como Lauryn Hill, Beyoncé, Mary J.Blige e Whitney Houston. O show teve ainda participação de Mc Luanna, e Budah mostrando porque seu rap vem ganhando força.
Mesmo num show morno, Coco Jones soube muito bem estabelecer suas conexões com o público brasileiro. Em sua primeira vez no Brasil, subiu ao palco acompanhada de dez dançarinas, oito delas brasileiras, para preencher o gigante palco. Mas mesmo sozinha, já que cantava sobre bases pré-gravadas, conseguiu com sorrisos e simpatia que o público seguisse com ela o repertório de R&B, pop e soul. A cartada de colocar as dançarinas fazendo coreografia do sucesso do pagode local, “O Baiano Tem o Molho”, hit de O Kannalha, nem era necessária.
Pagode e paredão
Comemorando 10 anos de seu baile, a banda ÀttooxxÁ subiu ao palco com uma formação diferente: mais percussão (eram três percussionistas), além de dançarinas e um DJ. RDD assumiu definitivamente os vocais ao lado de Oz e Chibatinha continua ali mostrando sua criatividade na guitarra. O resultado foi um som mais vigoroso e potente.
A conexão agora era com a dança, com o lado mais festivo e mundano. O irresistível pagodão baiano atual, percussivo e com bases eletrônicas, era a melhor chave para abrir esse portal, e o baile do AttoxxÁ, o caminho certo. A banda enfileirou seus hits, novos e velhos, além de sequências que passeavam por reggaeton (tome “Gasolina”, “Bomba”) e afrobeats.

A noite terminou com um grande paredão, conectando o AFROPUNK com as festas populares de qualquer bairro periférico de grandes cidades brasileiras.
Segunda noite
Do rap explícito de MC Luanna ao axé afro de Tatau e seus convidados, a segunda noite foi de celebração das possibilidades da cultura afro-diaspórica. Com um grande público presente, foram 50 mil pessoas nos dois dias, segundo a produção, o festival promoveu mais uma noite de celebração da música preta, com momentos marcantes.
A emoção de Liniker em levar seu trabalho ‘Caju’ para o AFROPUNK foi um dos ápices da noite. Com uma banda gigante, que incluía oito backing vocals e um naipe de sopro com seis instrumentistas, arranjos grandiosos e performance esfuziante, a cantora fez um show irretocável e emocionante, botando o público na mão com seus hits, numa comoção geral. Ainda fez referências a Djavan e ao reggaeman Edson Gomes.
O catártico BaianaSystem
A sensação após uma apresentação do BaianaSystem, ainda mais em Salvador, sempre é de devastação. Corpos suados, pernas bambas, poeira no ar. As rodas abertas pelo público viraram um expurgo. Impossível ficar imune.

Altas dosagens de graves, amplificados com guitarra baiana, percussões, beats e discursos certeiros promoveram mais uma vez a experiência catártica para quem presencia um show da banda. A música baiana contemporânea resumida em quase uma hora.
Mesmo com toda certeza da força de seus shows, a banda não costuma se acomodar e busca apresentar novidades a cada apresentação. O retorno ao AFROPUNK foi condicionado a uma proposta diferente, um show com a estrela jamaicana Sister Nancy, numa conexão Bahia-Jamaica.
O dub e reggae, já presentes no som dos baianos, ganharam corpo para uma passagem rápida, mas potente da cantora. Aos 63 anos, fez uma performance marcante em três músicas que levaram o público a mais comoção.
A baiana Larissa Luz também se fez presente, com mais reggae e homenagem aos blocos afro. Ainda teve tempo para mais hits da banda e o esperado fechamento devastador.
Afrobeats, soul e R&B
A maior surpresa da noite foi a cantora e compositora nigeriana Tems. Ela vinha com todas as credenciais: revelação de seu país, música no top 10 da Billboard, parcerias com rapper famoso, premiação no Grammy e várias indicações internacionais. Mas era a primeira vez no Brasil, e nem sempre as expectativas são atendidas. Mas ela gabaritou com louvor.

Num show redondo, Tems apresentou uma musicalidade que traz ritmos de seu país, como afrobeats e alté, dosados com soul e R&B. Acompanhada de uma excelente banda, com um baterista quebrando tudo, a nigeriana mostrou uma grande voz, exalou carisma e demonstrou como controlar um show mesmo em territórios desconhecidos.
Verdade que o público fez o dever de casa, ouviu antes, aprendeu as músicas e cantou junto. Entre declarações ao público do Brasil, Tems desceu do palco e interagiu diretamente com a plateia. Brincou de jogos de sedução com alguns rapazes, pedindo para cantar com ela olhando no olho. Terminou o show ovacionada.
Antes dela, direto de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, o trio Os Garotin, fez um show que também comprovou o estágio que rapidamente alcançaram. Bons arranjos, banda redonda, carisma e o público respondendo de imediato à sonoridade nostálgica, que mescla R&B e soul music.

40 anos de Axé Music
Para fechar a noite, um passeio por um ritmo que anda ausente das preferências do brasileiro e pouco esteve nas edições anteriores do AFROPUNK. No ano que completou 40 anos, a Axé Music foi lembrada num show comandado por Tatau com participações de Márcia Short e Lazzo Matumbi.
O espetáculo 40 anos da AFRO Axé Music prometia um mergulho nas origens do gênero, nascido nas ruas e blocos afro de Salvador. Tatau até que conseguiu acertar em vários momentos. “Protesto Olodum”, “Canto ao Pescador”, “O Canto da Cidade” e “Guerrilheiros da Jamaica” foram bons exemplos. Mas o excesso de versões de músicas de Tim Maia, funk carioca e sucessos de sua ex-banda Araketu não combinaram tanto.

Os convidados ajudaram a elevar a apresentação com Márcia Short cantando hits de seus tempos de banda Mel, “Crença e Fé” e “Faraó Divindade do Egito”, além de um de seus últimos singles, uma homenagem ao samba-reggae.
Lazzo também apostou em dois de seus maiores sucessos e ícones da axé music, “Alegria da Cidade” e “Me Abraça e Me Beija”, além da poderosa “14 de Maio”, que, mesmo não sendo festiva, tinha tudo a ver com o contexto do AFROPUNK, cultura negra e memória da história do povo negro no Brasil.
No final, o AFROPUNK segue se consolidando como o principal festival da cultura afro-brasileira. Atraiu um público diverso de todo Brasil e mostrou que é possível apostar em caminhos além do que dita o mercado musical em evidência.
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